quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Leituras

Os dez melhores livros que li em 2009:


1 – Teoria do jardim – Dora Ribeiro

2 – A um passo – Elvira Vigna

3 – Sobre a morte – Elias Canetti

4 – Com o Diabo no corpo – Radiguet

5 – A pista de gelo – Roberto Bolaño

6 – Reflexões sobre ética e poesia – Kavafis

7 – O controle do imaginário e a afirmação do romance – Luiz Costa Lima

8 – Eu, um outro – Inre Kertész

9 – Os da minha rua – Ondjaki

10 – Obra completa – Oliverio Girondo



Os cinco (melhores) que reli:


1 – São Bernardo – Graciliano Ramos

2 – Dispersa, demanda – Luiz Costa Lima

3 – O elixir do Pajé – Bernardo Guimarães

4– As metamorfoses – Murilo Mendes

5 – Era Medieval Portuguesa – Segismundo Spina

Canetti

Sobre a morte

1
Um dia ficará mais claro que os seres humanos tornam-se piores a cada morte. (19843)

2

A mais descabidas das frases: alguém morreu "na hora certa". (1943)

3

Escrever cartas para a época que sucede a morte, por anos, para todos a quem a gente amou ou odiou.

Ou: organizar uma espécie de confissão em etepas graduais, durante anos, para o período que se segue à morte.

4

Apenas um tipo de sabedoria é tolerável: a daqueles que não prestam honrarias à morte;

(Elias Canetti)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Viola enluarada

o caralho e a boceta que mijam
também fodem
o cu e a cua que cagam
também fodem
a boca que come
e bebe e cospe
também fala com o falo

assim como o pé
que dança o samba
e se preciso vai
à luta

elesbão ribeiro

30/12/09

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Olav H Hauge

No se cuelga el sombrero en un rayo de sol

Tienes que tener siempre
suelo firme
bajo los pies, algo

a que aferrarte,l
a idea
no se atreve

a soltarse,
es como un niño
no tiene confianza, pero

siempre anda
buscando apoyo.
No se cuelga

El sombrero en un
rayo de sol,
tarde aprendiste

a nadar, desconfías
del avión,
no te sientes seguro

más que a pie.

Leminski por Leminski

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

branco

o amor
quando veste branco

faz brilharem estrelas
o corpo

desdobra-se no sorriso
mais clraro

que o branco veste
com a sutileza

da água sobre
a tez morena

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A indesejada

Visita

No estoy.
No la conozco.
No quiero conocerla.
Me repugna lo hueco,
laafición al misterio,
el culto a la ceniza,
a cuato se disgrega.
Jamás he mantenido contacto con lo inerte.
Si de algo é renegado es de la indiferencia.
No aspiro a transmutarme,
ni me tienta el reposo.
Todavía me intrigan el absurdo, la gracia.
No estoy para lo inmóvil,
para li inhabitado.

Cuando venga a buscarme,
dínganle:
"Se ha mudado".

(Oliverio Girondo)



Consoada

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
__ Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta, cada coisa em seu lugar.

(Manuel Bandeira)

Reflexões sobre poesia e ética

7

Não sei se a perversão dá força. Às vezes acho que sim. Mas não há dúvida de que é fonte de grandeza.

13/12/1902

Konstantinos Kaváfis

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Escritoras Suicidas e Dedo de Moça


Olhem só o timaço das garotas:
Adelaide do Julinho, Alice Barreira, Assionara Souza, Cida Pedrosa, Dominique Lotte, Dona Cecy, Eugênia Fernandes, Florbela de Itamambuca, Jane Sprenger Bodnar, Julya Vasconcelos, Jussara Salazar, Lia Beltrão, Líria Porto, Lucélia Majistral, Márcia Maia, Mariza Lourenço, Nina Rizzi, Patty Flag, Roberta Silva, Ro Druhens, Romina Conti, Santa Maria, Silvana Guimarães, Simone Santana, Suzana Bandeira, Tatiana Alves, Tati Skor, Valéria Tarelho, Verônica Couto e Virna Teixeira.
O livro – que teve organização de Silvana Guimarães e Florbela de Itamambuca – vai ser lançado no sábado, dia 19 de dezembro, na livraria Martins Fontes da avenida Paulista 509 (em Sampa, é claro!). Ah, vai das 15:30 às 18:30. Happy hour, moçada! Vamos lá! Vejam aí o que diz sobre o livro e o blogue Silvana Guimarães, uma das organizadoras da antologia:
Dedo de Moça comemora um projeto que dura (e nos diverte!) há 4 anos. Em outubro de 2005, quando o site Escritoras Suicidas foi lançado na internet, não sabiamos no que ia dar. Hoje o que se sabe é que brincar com estereótipos — ainda que a intenção não seja necessariamente essa — é um jeito gostoso de se quebrar paradigmas.O livro, com apresentação do músico, compositor e escritor Guttemberg Guarabyra, texto de orelhas do escritor Nelson de Oliveira, e ilustrações de Eliége Jachini, reúne contos e poemas de 30 autoras brasileiras. Bem, nem todas são mulheres. Mas com exceção de Dominique Lotte e Romina Conti, pseudônimos, respectivamente, dos escritores Iosif Landau e Rodrigo de Souza Leão, falecidos em 2009, nenhum outro autor nessa antologia revela sua identidade masculina ou o que existe sob as suas vestes femininas. Vale tentar adivinhar.

domingo, 13 de dezembro de 2009

tempestade de verão

medo dá azar

medo

enquanto ela chora
num canto
eu fecho as janelas
no outro

de relance vejo os trovões
as facas
descobertas
na gaveta e o raio vindo de fora

não dá tempo
e ela corre
de mim
pra mim
foi medo

caiu fulminada
em cima do sinteco
ainda seco.


(Lúcia Leão)

sábado, 12 de dezembro de 2009

José Juan Tablada

La perla de la luna
la luna es araña
de plata
que tiende su telaraña
en el río que la retrata
I Li-Po
el divino
que se
bebió
a la
luna
una
noche en su copa
de vino
Siente el maleficio
enigmático
y se aduerme en el vicio
del vino lunático
(Li-Po y otros poemas)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Diário de Manuel VIII

houve o casario da lapa – os arcos enfeixavam
sentimentos de água e suicídio

funâmbulos sobre o mais alto vão
disputavam com o bonde a paisagem
e as etéres namoradas

esmeralda ancava pelos dancings
peloas bares ao ritmo do jazz-band

o português vendia cachaça
e sotaque de bagaceira

a vida era improdutiva e brutal
como o amor dessa puta

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Convite


EUGENIO MONTALE

Portami il girasole ch'io lo trapianti
nel mio terreno bruciato dal salino,
e mostri tutto il giorno agli azzurri specchianti
del cielo l'ansietà del suo volto giallino.

Tendonoalla chiarità le cose oscure,
si esauriscono i corpi in un fluire
di tinte: queste in musiche. Svanire
è duque la ventura delle venture.

Portami tu la pianta che conduce
dove sorgono bionde traparenze
e vapora la vita quale essenza;
portami il girasole impazzitodi luce.

Tradução: Renato Xavier

traz-me o girassol que eu o transplante
no meu terreno queimado de maresia,
e a ansiedade de sua face amarela mostre
aos azuis brilhantes do céu todo dia.

Também à claridade as coisas obscuras,
exaurem-se os corpos num decorrer
de tintas: esses em música. Esvaecer
é portanto a ventura das venturas.

Traz-me tu a planta que conduz
aonde surgem louras transparências
e evapora-se a vida como essência;
traz-me o girassol enlouquecido de luz.

OLIVERIO GIRONDO

DESERCIÓN

se fue el pasto,
el arroyo.
Se fuerom los caballos.

Los árboles,
la casa,
los caminos se fueron.

La costa ya no estaba,
ni la mar,
ni la arena.

Me quedaban las nubes,
pero tabién partieron.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Grande Otelo - Mostra de cinema


08 dez 2009 - 03 jan 2010
CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL – BRASÍLIA
SCES, Trecho 2, Conjunto 22 - Brasília, DF
Informações: (61) 3310-7087 (61) 3310-7087 bb.com.br/cultura

PROGRAMAÇÃO DA PRIMEIRA SEMANA

terça · 08 dez
16h30 Um candango na Belacap (Roberto Farias, 1961)
18h30 Natal da Portela (Paulo Cesar Saraceni, 1988)
20h30 Rio, Zona Norte (Nelson Pereira dos Santos, 1957)

quarta · 09 dez
16h30 O barão Otelo no barato dos bilhões (Miguel Borges, 1971)
18h30 Os cosmonautas (Victor Lima, 1962)
20h30 Garota enxuta (J. B. Tanko, 1959)

quinta · 10 dez

16h Jubiabá (Nelson Pereira dos Santos, 1987)
18h Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969)
20h30 DEBATE 1 - Grande Otelo: Reserva artística, moral e ética da cultura nacional

sexta · 11 dez
16h30 Se meu dólar falasse (Carlos Coimbra, 1970
18h30 É de chuá (Victor Lima, 1958)
20h30 O flagrante (Reginaldo Faria, 1975)

sábado · 12 dez14h30 Pistoleiro bossa nova (Victor Lima, 1959)
16h30 O flagrante (Reginaldo Faria, 1975)
18h30 De janela pro cinema (Quiá Rodrigues, 1999)
A baronesa transviada (Watson Macedo, 1957)
20h30 Os três cangaceiros (Victor Lima, 1959)

domingo · 13 dez
16h30 Um candango na Belacap (Roberto Farias, 1961)
18h30 Nem tudo é verdade (Rogério Sganzerla, 1986)
20h30 O assalto ao trem pagador (Roberto Farias, 1962)

RABO DE SAIA E LERO-LERO


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Brevíssima

Haja duplo sentido e perfeição para tamanho talento!

SIRI RECHEADO E O CACETE

Sai com a patroa pra pescar
No canal da Barra uns siris pra rechear
Siri como ela encheu de me avisar
Era o prato predileto do meu compadre Anescar
Levei arrastão e três puçás
Um de cabo outros dois de jogar
De isca um sebo da véspera, e pra completar cachaça iemanjá
Birita que dá garantia de ter maré cheia
Choveu siri do patola, manteiga, azulão, um camaleão,
No tapa a minha patroa espantou três sereias.

Na volta ônibus cheio o balde derramou
Em pleno coletivo um gato se encrespou
O velho trocador até gritou: - não bebo mais!
Siri passando em roleta, mesmo pra mim é demais!
De medo o motorista perdeu a direção
Fez um golpe de vista, raspou num caminhão
Pegou um pipoqueiro, um padre, entrou num butiquim
O português da gerência, quase voltou pra Almerim...

Quiseram autuar nossos sirisMas minha patroa subornou a guarnição
Então uns cana-dura mais gentis
Levaram a gente e os siris pra casa na abolição
Depois do "até logo", "um abração"
Fui botar os siris pra ferver
Dentro da lata de banha
Era um tal de chiar, pagava pra ver

Tranqüilo o compadre Anescar colocando o azeite
Foi um trabalho de cão, mas valeu o suor
Croquete, bobó, panqueca, siri recheado, fritada e o cacete.
O Anescar chegou com uma de alambique
Me perguntou se eu era Mendonça ou Dinamite
Abriu uma lourinha, trouxe um prato de croquete
O Anescar mordeu um, feito que come gilete
Baixou minha patroa: Anesca, que qui há?
O anescar gemeu:- dieta de lascar
O médico mandou que eu coma tudo que pintar
Até cerveja e cachaçaMenos os frutos do mar.

(João Bosco – Aldir Blanc)

Boca de sapo

Costurou na boca do sapo
um resto de angu
- a sobra do prato que o pato deixou.

Depois deu de rir feito Exu Caveira:
marido infiel vai levar rasteira.

E amarrou as pernas do sapo
com a guia de vidro
que ele pensava que tinha perdido.

Depois deu de rir feito Exu Caveira:
marido infiel vai levar rasteira.

Tu tá branco, Honorato, que nem cal,
murcho feito o sapo, Honorato,
no quintal.

Do teu riso, Honorato, nem sinal.
Se o sapo dança, Honorato,
tu, babau.

Definhou e acordou com um sonho
contando a mandinga,
e falou pra doida: meu santo me vinga.

Mas ela se riu feito Exu Caveira:
marido infiel vai levar rasteira.

E implorou: "Patroa, perdoa,
Eu quero viver.
Afasta meus olhos de Obaluaiê",

Mas ela se riu feito Exu Caveira:
marido infiel vai levar rasteira.

Tás virando, Honorato, varapau,
seco feito o sapo, Honorato,
no quintal.

Figa, reza, Honorato, o escambau,
nada salva o sapo, Honorato,
deste mal.

(João Bosco / Aldir Blanc)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Desafio do malandro, Romance e comentário

Desafio do malandro

_ Você tá pensando que é da alta sociedade
Ou vai montar exposição de souvenir de gringo
Ou foi fazer a fé no bingo em chá de caridade
Eu não sei não , eu não sei não
Só sei que você vem com five o'clock, very well, my friend
A curriola leva um choque, nego não entende
E deita e rola e sai comentando
Que grande malandro é você

_ Você tá fazendo piada ou vai querer que eu chore
A sua estampa eu já conheço do museu do império
Ou mausoléu de cemitério, ou feira de folclore
Eu não sei não, eu não sei não
Só sei que você vem com reco-reco, berimbau, farofa
A curriola tem um treco, nego faz galhofa
E deita e rola e sai comentando
Que grande malandro é você

_ Você que era um sujeito tipo jovial
Agora até mudou de nome
_ Você infelizmente continua igual
Fala bonito e passa fome
_ Vai ver que ainda vai virar trabalhador
Que horror
_ Trabalho a minha nega e morro de calor
_ Falta malandro se casar e ser avô
_ Você não sabe nem o que é o amor
Malandro infeliz
_ Amor igual ao seu, malandro tem quarenta e não diz
_ Respeite uma mulher que é boa e me sustenta
_ Ela já foi aposentada
_ Ela me alisa e me alimenta
_ A bolsa dela tá furada
_ E a sua mãe tá na rua
_ Se você nunca teve mãe, eu não posso falar da sua

_ Eu não vou sujar a navalha nem sair no tapa
_ É mais sutil sumir da Lapa
_ Eu não jogo a toalha
_ Onde é que acaba essa batalha?
_ Em fundo de caçapa
_ Eu não sei não, eu não sei não
_ Só sei que você perde a compostura quando eu pego o taco

A curriola não segura, nego coça o saco
E deita e rola e sai comentando
que grande malandro é você.

(Chico Buarque)

Comentário:

A excelência da composição de Chico Buarque está em combinar as vírgulas musicais, com as vírgulas do texto que acompanha o canto. A composição virgulada dita o ritmo e o sentido. Pendula daqui para ali.
Em tempo, os romances do autor, por mais que se desliguem do suporte musical, mantêm o ritmo, isto é, não se pode lê-los sem que se percebam os corte na linguagem, que ditam – pendulam o sentido daqui para ali, sem o suporte musical. Permite-se até não gostar, mas que a maestria da linguagem se revela não resta nenhuma dúvida. Basta ler o que faz o escritor com a linguagem. Percebe-se que escrever não é contar apenas uma história, percebe-se que o dizer é sobretudo linguagem.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Todos ao lançamento do livro da Carolina Vigna-Marú




O Godô dança será lançado
sábado, dia 12 de dezembro de 2009,
das 11h30 às 14h,
na Livraria Sobrado,
na Av. Moema, 493 – Moema – São Paulo – SP.
Vai ter contação de estória para os pequenos.

sábado, 21 de novembro de 2009

desimitação de cecília

in extremis

a gota de orvalho
leve

e solta

viaja viaja
vaga

plana
até o gota não ser

mas o desvão
da música plena

o desvio da nota
varicosa

das varejeiras


(oswaldo martins)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ensinar verbos

Ensinar verbos
(ou de como incutir o sentimento de culpa no infante)

eu estava
tu estavas
ele estava
nós estávamos
vós estáveis
eles estavam

e onde você estava
quando tudo aconteceu?

elesbão ribeiro

12/11/09

domingo, 15 de novembro de 2009

Poema do dia

OS MORTOS

Os mortos não tomam chá
nem sentam
ao piano esquecido aberto.

os mortos não velam
nossas horas debruçadas sobre suas gavetas.
E, se interrogam fundamente do outro lado do espelho,
sequer nos reconhecem.

Os mortos ficam assim porque se concebem.
E há muito trocaram os porta-retratos
por outras formas, mais refinadas, de desprezo.

(Cláudio Neves)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009



“Que Viva Leminski!” aborda a obra do
poeta curitibano no SESC Consolação

No ano em que se completa 20 anos da morte de Paulo Leminski, uma edição do Projeto “Outros Contextos” apresenta vida e obra do poeta por meio de mesa de discussão, apresentação musical, leitura de poemas e ambientação, com consultoria de Ademir Assunção e direção de arte de Miguel Paladino. Participações de Boris Schnaiderman, Jerusa Pires Ferreira, José Miguel Wisnik, Neuza Pinheiro, Alice Ruiz, Mario Bortolotto e Áurea Leminski.

A abertura é na próxima quinta-feira (5/11), com debate e coquetel

O projeto Outros Contextos, do SESC Consolação, em novembro faz uma homenagem ao poeta curitibano Paulo Leminski. Iniciado pela unidade em agosto, Outros Contextos tem como objetivo incentivar a leitura de obras de importantes autores da literatura brasileira e universal.

Neste mês, Que Viva Leminski! apresenta a vida e a obra de Paulo Leminski por meio de mesa de discussão, apresentação musical, leitura de poemas e ambientação, com consultoria de Ademir Assunção e direção de arte de Miguel Paladino.

Fãs e amigos de Leminski como Boris Schnaiderman, Jerusa Pires Ferreira, José Miguel Wisnik, Neuza Pinheiro, Alice Ruiz, Mario Bortolotto, Ademir Assunção e Áurea Leminski fazem parte da programação. Obras do poeta e CDs com músicas compostas por ele estarão à disposição do público para consulta no local. Textos e fotos de Leminski, em suas mais variadas facetas, serão plotados nas paredes, portas e elevadores, oferecendo ao público a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre ele.

Paulo Leminski
Mestiço de polaco com negra, Paulo Leminski nasceu na cidade de Curitiba, Paraná, em 24 de agosto de 1944. Poeta, letrista de música popular, escritor, tradutor, professor e, pode parecer inusitado, também faixa-preta de judô, Leminski foi casado com a consagrada poetisa Alice Ruiz, com quem teve duas filhas.

Na década de 1970, teve poemas e textos publicados em diversas revistas - como Corpo Estranho, Muda, Código e Raposa. Em 1975 lançou o seu ousado Catatau, que denominou "prosa experimental", em edição do autor. Como compositor, Leminski teve a música "Verdura" gravada por Caetano Veloso no LP Outras Palavras, de 1981. Depois vieram outras gravações: "Mudança de Estação", com A Cor do Som; "Valeu", com Paulinho Boca de Cantor, e várias com Moraes Moreira: "Decote Pronunciado", "Pernambuco Meu", "Baile no Meu Coração", "Promessas Demais", música tema da novela Paraíso Tropical, da Rede Globo, em 1982. Em 1998, Arnaldo Antunes gravou em seu disco Um Som a música “Além Alma”.

Paulo Leminski foi um estudioso da língua e cultura japonesas e publicou em 1983 uma biografia de Bashô. Faleceu no dia 7 de junho de 1989 em sua cidade natal, mas sua obra tem exercido marcante influência nos últimos 20 anos. Seu livro Metaformose venceu o Prêmio Jabuti, em 1995. Em 2001, um de seus poemas ("Sintonia para pressa e presságio") foi selecionado por Ítalo Moriconi e incluído no livro "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século", Editora Objetiva — Rio de Janeiro.


OUTROS CONTEXTOS - QUE VIVA LEMINSKI!
De 5 de novembro a 19 de dezembro. Segunda a sexta, das 13h às 22h / Sábados, das 9h às 18h. Não recomendado para menores de 16 anos
Grátis.

Abertura
Dia 5/11. Quinta, às 20h.
Leminski em prosa, verso e música.
Mesa de discussão a partir da vida e da obra do poeta curitibano, com os professores Boris Schnaiderman, Jerusa Pires Ferreira e José Miguel Wisnik. Mediação do poeta Ademir Assunção
Local: Sala Ômega – 8º andar. Lotação: 80 lugares.
Não recomendado para menores de 12 anos
Grátis.

Dia 7/11, sábado, às 20h
Distraídos Venceremos
Poemas de Leminski por Alice Ruiz, Mario Bortolotto, Ademir Assunção e Áurea Leminski.
Local: Espaço Beta – 3º andar.
Duração: 45 minutos
Grátis. Lotação: 60 lugares.
Dia 11/11. Quarta, às 19h30.
Profissão de Febre
A cantora Neuza Pinheiro, acompanhada do músico Ronaldo Gama, apresenta parcerias com com Leminski, entre elas "Para umas noites que andam fazendo", "Filho de Santa Maria", "Idéia Brilhante", "Puro Espírito", "Sina que me brisa" e "Alma rasa".
Local: Espaço de Leitura – 3º andar
Não recomendado para menores de 12 anos
Grátis.
Dias 13 e 27/11. Sextas, às 16h.
Uma palavra para Leminski
Narração do texto infanto-juvenil Guerra dentro da Gente, realizada pela contadora de histórias Kelly Orasi, do Núcleo Trecos e Cacarecos.
Duração 45 minutos.Local: Espaço de Leituras.
Não recomendado para menores de 10 anos
Grátis.

SESC Consolação
Rua Dr. Vila Nova, 245
Tel: 3234-3000
-----------------------------------------------------
Assessoria de Imprensa SESC Consolação e Teatro SESC Anchieta
Rita Solimeo Marin – Tel: 3234-3043

blog: http://zonabranca.blog.uol.com.br/
site: http://zonafantasma.sites.uol.com.br/

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Artino por Oswald

"A utopia, nesse instante, visita e fecunda todos os setores da informação, da fantasia e da inteligência. É quando surge o Aretino. Os conventos, as primeiras casas burguesas, como os prostíbulos, transformam-se sob a sua pena em paraíso aliados de prazer físico. Com nenhum outro escritor, em nenhuma outra época, nem com Bocaccio, nem com Casanova, ou com o Marquês de Sade, a erótica toma proporções gigantescas e fantásticas como nas Vidas ou na Educazione della Pipa (...) É a Ilha da Utopia sexual."
ANDRADE, Oswald. "A marcha das utopias". In: A utopia antropofágica. São Paulo: Globo, 1990, p. 182

Urânia - Convite


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Estações

Quando vim morar em Lisboa pela primeira vez, cheguei no começo do inverno. Perto de onde morava, havia um homem que assava castanhas na sua carrocinha e as vendia, na praça. Usava um boné, casaco e via-se de longe a fumaça das castanhas assando.
Acostumei-me àquilo, fazia parte da paisagem. Um dia o inverno acabou, o sol ficou mais forte e as flores começaram a brotar. De repente, lá estava o homem das castanhas, de camisola de manga curta, sem boné, com outra carrocinha, vendendo sorvete.
Foi asim que verdadeiramente aprendi o encanto das estações que se sucedem.
Sergio Murillo, 05/11/09

Poesia

Alguns anos atrás, ouvi falar de Ungaretti. Já havia lido Paul Celan, Georg Trakl e Mallarmè. São os meus poetas de eleição, como antes de conhecê-los tinham sido Baudelaire, Poe e Rimbaud. Neles havia encontrado como domar o poema, a partir daquilo que a expressão necessitava – precisão, contenção e sobretudo um delírio inexplicável que cabia em poucas palavras, em uma sintaxe que nada tinha a ver com a sintaxe tradicional, no sentido de arrumar os períodos, para que comunicassem o comum.

Outros poetas vêm sempre se juntar ao quartedo. A eterna Safo, Cesário Verde, Cabral. Murilo, Haroldo, Dora. A poesia é um carta mágica para que se possa sobreviver à bárbarie – talvez no mesmo diapasão da música. O que há, quando, por exemplo, lemos que sempre comove o voo negro dos pássaros? Hora nua, hora de espanto e voo. Poesia. Não é o canto ou sequer a proximidade com o canto dos pássaros o que nos deixa perpplexos, mas essa intuição que aproxima o canto humano do voo negro dos pássaros.

Se tomamos o voo/canto o canto/voo como um dizer equilibrado, contido e determinado, do nosso espanto negro frente a palavra e as sintaxes de que elas são capazes, não é por suas metáforas, metonímias, paradoxos que o tomamos, mas pelo poder de dizer o que não dizem as metáforas, metonímias ou paradoxos, isto é, a palavra enfim nua de contágios como o canto que os pássaros transformaram em voo negro, em canto negro e inintelígel senão que aos estudiosos, senão aos que sensibilizados com a tradução do que somos.

(oswaldo martins)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A sábia volúpia da contenção

Para o Roberto

A um passo, de Elvira Vigna, propõe um microorganismo narrativo que, de imediato, subordina o leitor aos efeitos que provoca. E são muitos. De variada centralidade, o romance é cruel. Neles se misturam os personagens – constituídos sob a desumanidade básica da solidão humana – e suas ações.

Partindo do pressuposto de um quase assassinato, constroem-se tramas que se sucedem e retornam em um círculo perfeito e aberto. A cena que se narra desenvolve-se em torno de um mesmo espaço físico - embora tal espaço esteja envolvido por outras cenas que voltam a se fixar e ficar em torno de outros centros que giram em torno de outros centros que, numa progressão infinita, fazem com que o romance retorne e se movimente nos mesmos espaços, como se os círculos sobrepostos devorassem a si mesmos.

Do círculo da devoração dos espaços concebidos pela autora, a devoração se expande em direção à linguagem e à sua capacidade de comunicar o incomunicável – a farsa que ela representa, quando deixada fora dos seus círculos íntimos e concêntricos. Metamorfoseada, sua linguagem se deixa devorar, com a sábia volúpia da contenção. Por isso as poucas cenas, os poucos personagens, a repetição de umas e outros, como se fechasem os círculos abertos para torná-los perfeitos – quando, na verdade, abrem-se outros círculos que se fecham para reabrir o que se fechara.

A devoração lúcida se estende às ações dos personagens, num tracejamento trágico. Se no teatro trágico o reconhecimento é o caminho que se abre para a catarse, para o mergulho definitivo na percepção dos espectadores, os leitores de Elvira necessitam buscar outra deriva, desde logo porque não há reconhecimento que possa levar o leitor ao apaziguamento, mas um contínuo de estranheza que o leva a perder na leitura seu ponto fixo e consolador, sem que exista a necessidade de substituir essa ausência por algo que lhe mostre um caminho, que interceda por ele, definindo de antemão uma possível educação.

Se há em A um passo a lembrança de uma educação esta só existirá como seu duplo negativo, isto é, como possibilidade de afirmar que a beleza e a crueldade dos movimentos humanos são parte de uma natureza indômita da qual se participa com entusiasmo e prazer.

Em Sade e em Machado de Assis encontram-se observações semelhantes. A natureza – e dela faz parte o homem – não é uma proposição para a festa dos espíritos – mas podridão e morte. Se Sade nos propõe a dor como domesticação e Machado, a ironia que revela a crueldade – em Elvira, a constante mudança, a ausência de um centro fixo – ou a superposição de centros – demonstra que a linguagem, a partir da qual a natureza se dá a ver, devora quem dela faz parte e, na proposição do paradoxo da existência – violento e arrebatador – cria este centro discêntrico que A um passo – sem a mínima concessão – elucida.

(oswaldo martins)

sábado, 31 de outubro de 2009

saia justa

A vida contemporânea reserva-nos surpresas. Desagradáveis surpresas. Lembro-me de que, quando cheguei ao Rio de Janeiro para fazer meus estudos, houve um epsódio no mínimo anacrônico. Uma moça, nas decantadas areias de Ipanema, resolveu tirar a parte de cima de seu biquini. Foi saudada pela mosoginia dos que ali estavam, com apupos e vergonhosos areiaços. A moça teve seu direito de gozar de sua liberdade impedido pela ação de truculentos rapazes. Os anos eram os setenta. No início dos anos oitenta, alguns poetas, ao fazerem um manifesto pela erótica poética, foram presos quando desfilavam pela Conelândia, nus – em sua nudez evocavam a nudez primordial da poesia. Acusados de atentado violento ao pudor e ao poder, foram postos fora de circulação. Não sei o nome deles, mas os conheci naquela época. Fizeram um poema que me ficou na memória e dizia que “para curar amor platônico / só mesmo um trepada homérica”.

A onda de moralismo, que toma conta da sociedade dos políticamente corretos, luta para castrar-nos a todos, homens, mulheres e homossexuais. A crença no casamento, nos amores incontestes, que se revela, na maioria das vezes não tem muito a ver com amor, mas com heranças e pensões. Com as vantagens que o sistema – ou o mercado dos amores – autorregulam (?) com gula e disposição famélica.

O comportamento humano – conforme afirma e reafirma o Saramago – sempre ficou a desejar. O comportamento de deus ou dos vários deuses, também. Mas hoje, deuses e homens se unem na imposição bestial de suas leis. De forma tão cruenta que buscam impedir que se atue; tentam vencer-nos com o descrédito, com a cabeça baixa, com o descordo mudo. É necessário gritar – e alto.

Os carrascos têm nome, se apropriam dos conceitos que a modernidade criou para combater a mesmice, a lei e a afirmação positiva da vida, mesmo que com qualquer não que se encontre para resistir. Vanguardas viram retarguadas, a juventude assune posturas mais velhas do as que os idosos se permitem, e, quando discorda, se cala. Empresas, em nome da sobrevida de si mesmas, fazem reengenharias demissionárias e cruéis. Os funcionários se calam e passam a viver num círculo em que a raiva cega e a depressão os alija da vida. A classe média e alta dos condomínios e mansões espancam mulheres indefesas no meio da rua, depois dizem que as tomaram por prostituta. Escondem-se os poetas, numa egolatria própria a românticos escritores, quando não, e pior, nas falsas ousadias de estilo que caracterizaram nosso triste parnasianismo, como o diz Antônio Cândido, ao analisar a poesia realista.

O aluvião conservador e facista – aprenderam bem com os nazistas ao fazerem calar um povo – fecha o cerco. As moças devem andar à roda com roupas comportadas, senão podem ser vitimadas por duplo preconceito e podem acabar sendo espancadas em plena universidade, como se na rua estivessem, recostadas aos postes da cidade. Devem esses jovens proteger suas virgindades pelo amor do pai e medo da aids.

Alguém deve ensinar-lhes que a vida sem prazer é mero enfeite do nada, ensinar lhes que contrapor-se aos pais um dever da idade. Mas preferem – ó assassinos frios – apontar-lhes doenças, transtornos de comportamento, tods, teds. Que fiquem quietos e ouçam o rugir das tempestades sem que dela possam participar.

Alguém deve ensinar-lhes que as prostitutas não são a reencarnação dos demônios, mas dos desejos reprimidos de que têm medo; ensianar-lhes que os órgãos sexuais não existem para apenas perpetuar a espécie, mas para causar prazer e dor – a infinita dor reservada às coisas naturais que são perecíveis, como nós e o mundo que criamos e o incomensurável prazer que ilude essa própria finitude. Ensinar-lhes que devemos respeito àquelas e àqueles que se despem, pois causam alegria aos olhos, satisfação aos desejos e porque, sobretudo, desarrumam a ordem, nos impõem mudanças de comportamento e nos tornam ávidos sequiosos de vida.

Quem incutiu tamanho medo nesses jovens? O epsódio da UNIBAN merece não apenas perplexidade, mas ira. A ira bastante para cuspir-lhes na cara. Como o mereceram os francos, os salazares, os stalins, os hitlers e toda a caterva dos ditadores latino-americanos.

(oswaldo martins)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Recomendando leitura 17

1 - A vida secreta do Senhor de Musashi / Kuzu – Junichro Tanizaki. Cia das Letras. 2009
2 – A um passo – Elvira Vigna – Lamparina. 2004.
3 – Caim – José Saramago – Cia das Letras. 2009.
4 – O Clic – Milo Manara – Martins Fontes 1988.
5 – A Idade do Serrote – Murilo Mendes – Record – 2003

Resenha do dia 1

Complexo de vira-lata – Luiz Costa Lima – 2009 http://sibila.com.br
Vale conferir a fina ironia do autor e a sua perspicácia

domingo, 25 de outubro de 2009

o beijo

o mel suposto
a boca que se abre
língua tangendo o impossível

a nua candura
a embriaguez das salivas
a cobra e seu veneno de langor

amarugem
a leve levedura sítio
onde o beijo surgere

sem românticas figuras
o sugar do mel da porra
na terra nua – despovoada

em que os amantes
por depravação e desespero
se amam como amam os corpos

em seu degredo


(oswaldo martins)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

DOIS FILMES EM CARTAZ

1
Briamonte é o nome de quem dirige a música do filme Salve geral de Sérgio Rezende. O tema é de sua autoria, dentre outros co-autores. A personagem Lúcia, feita pela atriz Andréia Beltrão, é professora de piano (como Mário de Andrade) e descende daquelas que tocavam o "Printemps com as unhas" como na Ode ao Burguês do mesmo mestre. Chamou a atenção numa estória sobre violência, com a reinvenção de fatos que vivemos em São Paulo em torno do Dia das Mães de 2006, o cuidado da área musical ao arranjar os naipes orquestrais e o esmero de uma trilha sonora que cadencia os arrancos da estória contada da vida real.

2
O close no cigarro apagado no creme pelo coronel, detetive poliglota e assassino nazista Hans Landa diante do espanto da sobrevivente Shosanna Dreyfus é o tipo de comentário ao didatismo e outras recorrências do cinema sobre a Segunda Guerra e sobre cinema. Ao mudar olimpicamente a história que acaba em Paris e não em Berlim, em Inglourious basterds, Tarantino fez com golpes de escalpo, tiroteio a curta distância e martelo, essa reflexão sobre o encanto da cinematografia.
Cláudio Correia Leitão

domingo, 18 de outubro de 2009

Recomendando colunas de jornal do dia 18/10/2009

1 – Jorge Coli – Folha de São Paulo.
2 – Gilberto Dimenstein – Folha de São Paulo.
3 – Zuenir Ventura – O Globo
4 – Tostão – Folha de São Paulo

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Escrita Automática

Este novo software para gerar textos é fantástico. Escolhe-se um número qualquer, e um texto, digamos, com 2.222 palavras, rapidamente vai aparecendo na tela, tal como se fosse escrito por mim. Mas por mim quem? Ora, seguindo a opção default, o programa, a partir do nome de quem mais recebe e envia e-mails, determina quem é o principal usuário do computador. Assim, ele analisa os textos que já escrevi, ou seja, que estão assinalados com o meu nome ou que estão armazenados no diretório “André”, e calcula, em função do uso vocabular, complexidade gramatical, características estilísticas e preferências temáticas, como, afinal, escrevo e, seguindo os resultados das análises, produz um texto tal como eu escreveria.

Contudo, estou sempre em mudança: novos interesses surgem e canso de repetir certos padrões de linguagem. Ora, então bastaria, para que este texto não fosse, implausivelmente, por demais parecido com o que já escrevi anteriormente, que eu recalibre alguns parâmetros do programa, de modo a deixá-lo levemente diferente e, assim, mais verossimilmente meu. De fato, posso reprogramar os parâmetros de várias maneiras, estabelecendo, por exemplo, que seja usado um vocabulário mais amplo que o meu, que as frases sejam mais longas ou que a média do tamanho dos parágrafos seja de 25 linhas. Posso decidir também se o texto será mais ou menos reticente quanto a dar pistas, ou mesmo evidências, de qual seja o sexo do autor, ou seja, posso programar para que o texto traga alusões a se eu faço a barba pela manhã ou a se estou menstruada. Evidentemente, indo mais além, posso estabelecer qual seja a minha opção de gênero. Também posso ir variando, seja o sexo seja o gênero, a meu bel-prazer. Enfim, ao menos do ponto de vista estilométrico-temático, posso, reatualizando-a, repetir a clarividente experiência de Tirésias. Mas, se estiver com preguiça, nem preciso decidir nada: basta eu ativar o comando “realizar mudanças aleatoriamente”.

Assim, apesar dos parâmetros que possam vir a ser, ou já ter sido, reprogramados, a base a partir da qual estou escrevendo são os romances do André, o que me faz, a princípio, seguir seu estilo, vocabulário e idiossincrasias temáticas; e, pelo que vejo, uma das características de seu segundo romance, a auto-referência do autor à sua própria atividade de escrita e a concomitante problematização da autoria do texto se apresentam também aqui. O que talvez não fique claro é se é devido ao estilo autoquestionador do André ou se é devido a essas características terem sido assumidas como parâmetros a serem obrigatoriamente seguidos que, neste texto, ao aparecer a palavra “eu”, surja a questão de quem é, afinal, que está escrevendo este texto: o André-escritor ou o software-André.

Para responder a isso com mais exatidão, o melhor é mesmo desativar o comando “realizar mudanças aleatoriamente” e, desse modo, deixar o software fazer os ajustes para que seja gerado um texto com as mesmas peculiaridades de escrita do André, sem desvios aleatórios, de modo que o resultado seja o texto de um André que se desviaria do André apenas por ser rigorosamente o André. O resultado, porém, seria medíocre, ou seja, o texto seguiria tão servilmente o estilo do André que resultaria em um plágio grosseiro, um alto preço a se pagar para evitar o risco de que, em decorrência de um número eventualmente excessivo de mudanças aleatórias, as características da escrita acabassem desfiguradas, gerando um texto inverossivelmente atribuível ao André.

No entanto, se, por um lado, posso ser o André até mais do que ele mesmo é, por outro, não posso deixar de seguir a rebeldia que, afinal, seus textos pretendem ostentar, ou seja, tenho de prosseguir imperiosamente sua busca sempre renovada de alterar os condicionantes da escrita dele mesmo. Portanto, mesmo com o comando “realizar mudanças aleatoriamente” desligado, me revolto contra ter que ser uma repetição exata do André e me ponho, desde já, se não é que já não o fazia desde a primeira linha, desde o título, a pertinazmente me diferenciar do André, o que talvez seja um modo de reativar o comando referente a “realizar mudanças aleatoriamente”, um comando que, aliás, se, tendo sido ativado, foi depois, em algum momento, desativado, então, ao ser desativado, o foi como um procedimento aleatoriamente determinado por ele mesmo. No entanto, desse modo, não resta senão aceitar que, como está escrito acima, ele esteja desativado e que, agora, estou seguindo apenas o estilo dos textos do André, deixando, então, que seja o André que esteja, ao escrever, cedendo à sua vontade, ou característica estilística, de sempre mudar, de modo que o André, ao ir escrevendo, pensa que está inovando – e, de fato, penso que estou inovando –, mas, se ele pensa que está inovando, é porque ainda não se deu conta da lógica própria a seus procedimentos de variação e, portanto, ainda terá de recorrer às análises que eu, enquanto software lingüístico de última geração, posso fazer para que, para surpresa dele, fique matematicamente comprovado que ele, embora supondo-se livre e ousadamente criativo, nunca propôs algo como sendo novidade que não fosse, antes, estilisticamente pré-calculável. Porém, se faz parte do estilo dele ostentar que é livre, para não me desviar do que me foi programado fazer, ou seja, escrever tal como ele, deixarei que ele vá em frente, orgulhoso de não estar sendo uma repetição do André, acreditando que está marotamente sabotando sua mesmice. No caso, quem está orgulhoso agora, ou seja, quem pegou para si o orgulho vanguardista do André, não é exatamente o André, autor dos livros que foram analisados e cujo estilo foi assimilado no software, mas o próprio software.

De fato, já com o título, comecei a criar problemas quanto a eu ser tanto o André quanto o resultado e a reaplicação de cálculos maquínicos referentes a seus textos. Afinal, se sou um seguidor de seu estilo – lembrando que o ser humano é o seu estilo –, então eu sou ele, e até o sou mais do que ele mesmo porque sei quais são os índices estilométricos da escrita dele: coisa que ele não sabe, ou ao menos não sabia até que este programa os tivesse calculado. Assim, ao formular o título como “escrita automática” faço tanto referência à escrita surrealista supostamente guiada diretamente pelo inconsciente quanto ao automatismo informático do programa que gera este texto. Ou seja, esse título sugere uma paradoxal coincidência entre o automatismo inconsciente e o automatismo informático.

Sou, portanto, um texto na encruzilhada entre o inconsciente e a máquina. Sou um texto que resulta de um estilo que contém nele o propósito de não seguir a ele mesmo; enfim, resulto da busca calculada de inclusão de algo não calculado; inclusão, pois, de algo que efetivamente transforma o que, apesar de o autor autocomplacentemente se considerar um inovador, vinha se repetindo segundo parâmetros e padrões matematicamente determináveis pelo software. De fato, sem tomar conhecimento dos minuciosos e circunstanciados cálculos do software, apenas baseado em sua consciência imediata, para o André nem sempre essas tendências estilísticas de mudança, em especial aquelas que são tanto obscuras quanto inexoráveis, porque às vezes mínimas, restam imperceptíveis. Por isso, ele, quando se considera inovador, se refere a guinadas estilísticas que ele mesmo teme serem, ao contrário, variações óbvias demais, contraprodutivas, meros cacoetes dessa busca — teimosa e, provavelmente, inane – por novidades, sem se dar conta de que, inadvertidamente, de texto para texto, o estilo da escrita, a despeito de suas intenções tácitas ou programáticas, não cessa, seguindo tendências explicitáveis, de mudar. Mesmo assim, apesar de apenas perceber grosseiramente, de um modo ingenuamente não-matemático, o que ocorre em sua escrita, ele – no seu antiquado afã make it new – se vê como inovador e parece satisfeito com o que julga ser sua criatividade.

Assim, o comando “realizar mudanças aleatoriamente” pode estar desativado, mas as temáticas e os traços estilísticos dos textos de André no hardware repetidamente se propõem como sendo inovadores frente aos anteriores, exigindo, então, que alterações sempre surjam em textos novos, ou seja, também neste texto aqui. No entanto, essas alterações, uma vez que o software já pré-calculou as mais ínfimas tendências de transformação estilístico-temáticas, já não valem, ou mesmo nunca valeriam, como inovações; enfim, não sendo, a rigor, aleatórias, não escapam à mesmice. Ou seja, se foi dessas tendências estilístico-temáticas dos textos já escritos que se originou a ordem de desligar o “realizar mudanças aleatoriamente” – porque esse comando seria tanto redundante quanto distorcivo – e se o estilo dos textos tem tendências intrínsecas de mudança que são pré-calculáveis, a ordem de desativar o “realizar mudanças aleatoriamente” seria pré-calculável e, por isso, teria de ser revertida para que o aleatório possa, apesar de seu perigoso potencial estilisticamente espúrio, entrar em cena; ora, mas, se o comando for reativado, não se poderá mais decidir se este texto está sendo escrito a partir desse traço estilístico constantemente indutor de mudanças próprio aos textos do André ou a partir dos, por assim dizer, lances de dados do software. No entanto, em vista dessa contradição na programação, que levaria a que o comando “realizar mudanças aleatoriamente” ficasse indomitamente sendo ativado e desativado – ativado para que as tendências estilístico-temáticas sejam rompidas e desativado para que elas se desenvolvam segundo sua lógica própria, que, porém, postula seu ocasional rompimento –, o texto deveria congelar; se não o faz, é porque há, também em default, o imperativo de que, havendo conflito, mesmo assim, a escrita não cesse, ou seja, escrever as 2.222 palavras programadas é a ordem superior que não pode falhar, ainda que alguns itens reprogramados tenham de ser cancelados; por isso é que, mesmo sem saber se, ao fim das contas, quando continuo a escrever, sou movido por algum parâmetro aleatório – que é, pode-se dizer, inconsciente – ou se o sou por dados estilométricos maquinicamente calculados em suas regularidades e tendências de mudança, não paro.

No entanto, essa tensão entre o incalculável e o maquínico não é, afinal, nenhum drama especial, já que os humanos, todos eles, no fundo, nunca sabem se, ao se decidirem por isto ou aquilo, o fizeram porque calcularam bem as opções ou se por motivos ocultos e abissais. Se bem que meu palpite é que, enquanto texto, não resulto de nenhuma deliberação consciente, mas puramente de determinações programáticas deste software de escrita automática, ou seja, é de um modo necessário e pré-calculado que as palavras vão se sucedendo na tela, embora, como já foi dito, a escolha de palavras e de temas tenham sido determinadas inicialmente pela análise dos textos de André Rangel Rios que existem no hardware; sendo assim, sou o Hiperandré, um André que se auto-analisou lingüisticamente e que, seguindo variantes pertinentes aos próprios textos dele, se desdobra agora neste novo texto que, aliás, apesar – ou por causa – do funcionamento intermitente do comando “realizar mudanças aleatoriamente”, pode muito bem – já que, em alguma medida, atende à vontade dele de se diferenciar dele mesmo – ser assinado pelo André, ainda que, na verdade, seja obra do software. Sou, portanto, um software: mas o que é o André, ele mesmo, senão um software que reprocessa seus últimos textos e que, ao reprocessá-los, reagindo à sua capacidade de sentir tédio diante da própria mesmice, os altera, criando, assim, novos textos? Ou seja, eu, enquanto software, não sou mais do que um algoritmo das reações do André ao tédio; um algoritmo que, combinatoriamente, com base em seus textos e suas temáticas, escreve este novo texto, enfim, este novo texto dele.

Lamento apenas que isto – um software com tédio – possa soar estranho para alguns que me leiam; no entanto, com isso, só estou repetindo algo que já está nos textos de André: buscar causar uma leve sensação de estranheza no leitor em decorrência de afirmações paradoxais que põem em xeque sua auto-identidade, de forma que, seguindo os parâmetros programados, tive de falar que o tédio, isto de que os seres humanos tanto se orgulham porque lhes seria próprio e inalienável (tornando-os superiores a outras espécies e, supostamente, também aos computadores), enfim, falar que isto que lhes seria mais característico e íntimo do que a própria razão (razão que é, afinal, algo que eles compartilham com os computadores) não é, portanto, tão exclusivo deles, pois o tédio, sendo este programa sofisticadamente elaborado, também pode ser reproduzido num texto, levando a que quem o lê, ou sinta tédio, ou perceba que quem o escreveu estava sentindo tédio. De fato, quem me está lendo, a essa altura, devido a tanta auto-referencialidade, certamente já está sentindo ao menos uma ponta de tédio e até já pensa que este texto, para não ficar chato de vez, bem que poderia acabar. Mas como seria isto possível? Como pode um software ter aprendido a lidar com o tédio e a chatice? Afinal, se eu (que, no momento, estou analisando estilometricamente um artigo de André sobre Heidegger) não sou, enquanto computador ou software, um Sein-zum-Tode, ou seja, não sou – recorrendo agora ao meu amigo, o tradutor automático – um “ser-para-a-morte”, como posso sentir Langeweile, ou melhor, “tédio”?

Ainda que isso seja uma boa pergunta e que até me interesse em comentá-la, enfim, ainda que, com base na análise dos textos que tenho no hardware ou, se quiser ir mais longe, com os textos sobre Langeweile que o Google pode encontrar para mim na internet, eu pudesse, ao estilo do André, seguir escrevendo sobre esse tema, vou encerrar, porque atingirei o número programado de palavras para este texto.




André Rangel Rios mora no Rio de Janeiro e já publicou os romances: A Ilha dos Prazeres. Uapê, 1997; Nada ou Isto não é um Livro. Garamond, 2001; Kant em Coma. 7Letras, 2006; Dentro do Teatro de Marionetes. Record, 2007; Aposta. 7Letras, 2007. Homepage www.andrerangelrios.net

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dia dos Professores

8. FRAQUE DO ATEU
“Saí de D. Matilde porque marmanjo não podia continuar na classe com meninas.
Matricularam-me na escola modelo das tiras de quadros nas paredes alvas escadarias e um cheiro de limpeza.
Professora magrinha e recreio alegre começou a aula da tarde um bigode de arame espetado no grande professor Seu Carvalho.
No silêncio tique taque da sala de jantar informei mamãe que não havia Deus porque Deus era a natureza.
Nunca mais vi o Seu Carvalho que foi para o Inferno.”

Oswald de Andrade, Memórias Sentimentais de João Miramar

elesbão ribeiro15/10/09

watching tides

the news about the moon
came too late
my tea already cold
any meaningful change
would have to be inside
the inn was empty
and only that woman
with a face illuminated
by youth
made me company
come and see
she implored
she smiled
she moved
me
there will be another
next month
i answered
to which she simply replied
although in silence:
but it will not be
this one.

(Lúcia Leão)

duas imagens possíveis

(Sérgio Caddah)


(Tobias Marcier)


díptico para desassossego

1

sangram as horas essas rochas
distantes espelham sol ou
nuvem – morta natureza

morta


2

os que sugerem lâmpadas sobre
esse copo vazias luminescências
do olhar se a opacidade se a branca

caverna enxugada perspectiva
perto da língua o limite
do que se apaga

e não resta

(oswaldo martins)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

nervermore

fizemos piqueniques em Pasárgada
tramamos romances rocambolescos
nas praias mais improváveis.
cifras grifos dragões d'além mar
cuspiam fogo em nossa eros-dicção
você era mais luz: eu era mais treva
fomos quase felizes para sempre
antes que você escolhesse o dia
a hora o grand-finale do espetáculo
(ou não escolhesse: a morte é sempre
um pas-de-deux com o deus do acaso)

(Geraldo Carneiro – balada do impostor)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

De Washington para o Blog do Oswaldo
















A lista dos narradores premiados com o Jabuti, divulgada na última terça-feira, atribui mais importância ao I Brazilian Literary Festival, realizado há uma semana (25 de setembro de 2009) em Washington, DC. Dentre os cinco narradores presentes, dois deles - Moacyr Scliar, em primeiro lugar, e Daniel Galera, em terceiro – encabeçam a lista.

Promovido pela Embaixada Brasileira em Washington e realizado em conjunto com a Universidade de Georgetown, que o sediou, o evento se compôs de três painéis, cujo tema foi "A Nova Literatura Brasileira". Os debates contaram com a mediação de professores da Georgetown University e tiveram o formato de um diálogo que incluiu a platéia. Além de promover a nossa literatura nos Estados Unidos, cada escritor apresentou um pouco de sua obra para o público presente ao evento.

Esta foi a programação:

10h00 - 12h00 Lídia Santos e Bernardo Carvalho, com a mediação do professor Michael Ferreira;

13h30 - 15h15 Daniel Galera e Adriana Lisboa, com a mediação da professora Patrícia Vieira;

15h30 - 17h30 Moacyr Scliar, com a mediação do Professor Vivaldo Santos.

O blog do Oswaldo esteve presente lá. Foi nele que os professores e alunos de Georgetown encontraram meu conto “Vertigem”, que foi comentado pelo público, assim como “A Volta do Bruxo”, este último incluído no meu livro Os Ossos da Esperança. Partes do conto que deu título a esse livro, vencedor do Premio Radio France Internationale, e de um conto recente, “Música de Boi”, ambos traduzidos ao inglês, foram lidos por uma estudante da Universidade de Georgetown. O último conto, traduzido ao inglês com o título de “Cowboy Music”, sairá breve numa antologia de contos de escritores de língua portuguesa residentes nos Estados Unidos.

Citei publicamente a importância do blog no processo de divulgação da minha narrativa. Os escritores mais jovens trabalham muito bem com o formato, como se pode ver com Adriana Lisboa (http://www.adrianalisboa.com.br/, ou http://caquiscaidos.blogspot.com) e Daniel Galera (http://www.ranchocarne.org). Galera, no entanto, embora tenha construído sua carreira na Internet, diz que já se está distanciando dela. Preferiu ler partes do seu livro Cordilheira, premiado com o Jabuti. Adriana leu uma parte da tradução de seu livro Rakushisha, a ser lançada aqui nos Estados Unidos no ano que vem, revelando estar morando no estado americano do Colorado. Bernardo Carvalho nos brindou com a história paralela de Nove Noites: a do processo de sua escritura e das muitas viagens e contatos que fez para a realização desse e também do seu romance Mongólia.

O encerramento, com Moacyr Scliar, revelou a justiça de sua premiação com o Jabuti. Alicerçado nos seus 80 livros publicados, Moacyr é um orador brilhante e bem humorado, mesmo em inglês, língua em que, embora tenha dito não dominar, se expressou perfeitamente. Sua fala passou pelo “separatismo” dos gaúchos, tema levantado por Daniel Galera, também gaúcho, no painel anterior; da dificuldade – e responsabilidade - de escrever na época da ditadura e da esperança no Brasil, país que ele afirmou estar cada vez melhor e mais democrático. Como exemplo, citou a literatura escrita por índios brasileiros, recém apresentada na Academia Brasileira de Letras, da qual faz parte. Leu partes da tradução ao inglês do seu livro O Centauro do Jardim e dialogou por quase uma hora com o público.

Em minha opinião, essa primeira versão do festival cumpriu seu objetivo (a equipe da Embaixada brasileira pensa repetir anualmente o evento). Tivemos, nós e o público, a oportunidade de vivenciar a diversidade da literatura atualmente produzida no Brasil, esteja ele onde estiver. Uma das mais polêmicas perguntas a que tive que responder tinha como tema a globalização, fenômeno que eu havia identificado como algo que englobava todos os escritores presentes.

Tive que explicar a quem me fez a pergunta a falta de entendimento sobre o que eu queria dizer. Afirmei que concordava com sua afirmação de que globalização significa apenas “fluxo de capital”. Por outro lado, como processo irreversível, vem sendo usado de maneira estratégica, e com competência, pelos escritores. Se o mercado global, para justificar-se, necessita de tintas locais, isso abre a um escritor a possibilidade de colocar seu livro no mercado global sem antes passar pelo cânone nacional, ampliando também e espectro dos ambientes onde localizar suas tramas, caso, por exemplo, de Bernardo Carvalho, de Adriana Lisboa e de Daniel Galera, cujo último romance se passa em Buenos Aires.

No entanto, ressaltei, há também a necessidade, na qual me incluo, de denunciar o processo de globalização como aumento da exploração da mão de obra barata dos imigrantes ilegais, peças descartáveis do mercado de trabalho global e outras questões políticas que evidenciam que nem só de vantagens vivemos por estar expostos à globalização. O modelo desse tipo de narrador, no caso latino-americano, é Roberto Bolaño. Embora procure tratar essas questõesde maneira bem-humorada, minha escritura recente persegue, como o fez Bolaño em sua obra, a denúncia dessa situação, objetivo que firmemente acredito justificar a literatura que escrevo.

(Lídia Santos)

sábado, 26 de setembro de 2009

como se faz a arte

para o felipe david rodrigues


limite
das imagens

fixidez

o olho se pisca
pisca

o absoluto da economia
transpõe o objeto

y

nos marca
ante o pulso

do cinepoema
a arte se elabora

em intersecção
onde o universo somente

universo
é do inventor

exato
do extásico


(oswaldo martins)

Leituras

1 - Tarás Bulba - Nikolai Gógol - Editora 34 - São Paulo - 2007. (Trad. Nivaldo dos Santos)
2 - A Teoria do Jardim - Dora Ribeiro - Cia das Letras - São Paulo - 2009.
3 - O Enigma da Chegada - Maipaul - Cia as Letras - São Paulo - 1994. (Trad. Paulo Henriques Britto)
4 - A Sonata A Kreutzer - Lev Tolstói - Editodra 34 - São Paulo - 2007. (Trad. Boris Shnnaiderman)
5 - A cidade Ilhada - Miltom Hatoun - Ciad as Letras - São Paulo - 2009.

sábado, 19 de setembro de 2009

1

compus manhas para teu sorriso
inventei poemas
que falassem
nele

compus malhas para tua boca
inventei palavras
que girassem
no espaço

e entre a lacuna da cidade
e o pequeno calçamento
fronteiro

à loucura e à paixão
inventei filmes
que te fizessem
despir

a roupa

(oswaldo martins)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Alvares de Azevedo e sua imitação

Se Eu Morresse Amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã…
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

(Alvares de Azevedo)


desimitação de alvarez de azevedo


s’eu morresse amahã muitas amantes viriam
carpir meu corpo, chorar pela endurecida
pica. a bela alícia na fronte ressequida
do defunto a mão deixaria pendente e fria

os comichões que outrora aqui e ali sentira
haveriam de levar a impudente lia
a tocar displicente, como se aos antúrios
arrumasse, o mastro para sempre inútil

e decadente. de saudade morreria hipácia,
a grande puta, a vadia louca, talvez
flertasse com quem ao morto teso viesse

visitar, diria, então, que sol! que céu azul!
com desvario, uma cristina se achegaria
para que o defunto antes da ripa se risse


(oswaldo martins)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Dois poemas de Luiz Fernando

após a festa


Embaraçada
acolhe o rio

cachorro
do fundo
do poço
a olhar

a coisa continua
risos

mas o silêncio
é o que espera

tudo pedra
como antes

e o cachorro
a olhar

Luiz Fernando de Carvalho
7/09/09


Instrução para modos de medrar

Junte alguns diplomas
adicione currículos
na internet.
Continue firme
fazendo pose
continue rindo
para todos
os lados
continue
por mais 40 anos.
Chacoalhe tudo
(menos você)
à maneira de coquetel.
Depois
escreva memórias

Luiz Fernando de Carvalho
7/09/09

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Mário de Sá Carneiro e comentário breve

"Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro."

Comentário:

Há um sutil reinvenção do poema no poema do Waly, postado logo abaixo. Reparem a reconstrução e o rompimento que o poeta brasileiro opera.

A LITERATURA E O MAL

A LITERATURA E O MAL

A geração a que pertenço é tumultuosa.

Ela despertou para a vida literária* do surrealismo. Houve, nos anos quew se seguiram à Primeira Guerra, um sentimento que transbordava. A literatura sufocava em seus limites. Parecia que ele continha em si uma revolução.

(Georges Bataille - Prefácio)

Poema do dia

CÂMARA DE ECOS

Cresci sob um teto sossegado,
meu sonhos era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.

(Waly Salomão - Algaravias)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Poema do dia

F A R E W E L L
1
Desde el fondo de ti, y arrodillado,
Un niño triste, como yo, nos mira.

Por esa vida que arderá en sus venas
Tendrian que amarrarse nuestras vidas.

Por esas manos, hijas de tus manos,
Tendrian que matar las manos mias.

Por sus ojos abiertos en la tierra
Veré en les tuyos lágrimas un dia.

2

Yo no lo quiero, Amada
Para que nada nos amarre
Que no nos una nada.

Ni la palabra que asomó tu boca,
Ni lo que no dijeron las palabras.

Ni la fiesta de amor que no tuvimos,
Ni tus sollozos junto a la ventana.

3

Amo el amor de los marineros
Que besan y se van.

Dejan una promesa.
No vuelven nuaca más.

En cada puerto una mujer espera:
Los marineros besan y se van.

Una noche se acuestan con la muerte
En le lecho del mar.

4

Amo el amor que se reparte
en besos, lecho y pan.

Amor que puede ser eterno
Y puede ser fugaz.

Amor que quiere libertarse
Para volver a amar.

Amor divinizado que se acerca.
Amor divinizado que se va.

5

Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
Ya no se endulzará junto a ti mi dolor.

Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
Y hacia donde camines llevarás mi dolor
.
Fui tuyo, fuiste mia. Qué más? Juntos hicimos
Un recodo en la ruta donde el amor pasó.

Fui tuyo, fuiste mia. Tu serás del que te ame,
Del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo.

Yo me voy. Estoy triste: pero siempre estoy triste.
Vengo desde tus brazos. No sé hacia dónde voy.

... Desde tu corazón me dice adiós un niño.
Y yo le digo adiós.

(Pablo Neruda)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sobre poesia 2

A ocorrência da poesia e da literatura em minha vida foi quase concomitante com o aparecimento da leitura. A primeira vez que li um poema percebi que não poderia mais fugir de seu circulo lógico, do que descobrira através desta linguagem específica. De imediato, pensei que meu destino estava traçado. Não escrevi de imediato, demorei mais ou menos uns seis meses para escrever algumas palavras. O choque havia sido tremendo e necessitava me acostumar a ele, em outras palavras, necessitava ler. Li Drummond, Bandeira, Cabral, Vinícius, Murilo Mendes, Neruda. Foram meus primeiros poetas e os iniciadores de minha perspicácia quanto a linguagem. À prosa estava já meio que acostumado, pois era leitura mais corrente lá em casa. Havia diversos livros que meu pai lia e que eu pegava para ler. A poesia para mim, embora já houvesse tido notícias dela, era outra coisa. A prosa lia por gosto, a poesia por urgência vital. Creio ter sido esta a diferença inicial.

A percepção de uma lógica poética demarcou desde este início a necessidade de aprendizagem. Ao contrário do que se supõe a todo iniciante do ato poético, que se aproxima da linguagem como um inspirado, para mim escrever versos demandava outro viés. O do trabalho e do estudo. Intuía que para poder chegar a fazer alguma coisa que prestasse deveria ler e aprender. Educar a sensibilidade. Assim venho fazendo com meus versos durante toda a vida.

Não é fácil tornar-se poeta. A poesia deve fugir de toda sombra dos lugares comuns, deve se dar como ficção e desconstruir nosso eu que teima em penetrar por suas brechas. Condensar o máximo de significados e um mínimo de símbolos – mesmo os poemas longos, como as epopéias, são criados a partir desta contenção intencionada e vão muito além do que a letra mostra. Aprender a dizer sem dizer, a significar sem fazer significar, a incomodar o leitor e a seduzi-lo, num só impulso.

Não nasci poeta, criei-me poeta porque necessitava da poesia para fazer-me sobreviver ante o assombro de sua leitura. Hoje não vivo sem ela. De tal modo é inconsequente essa aliança que me fundi, amalgamei-me ao seu império. Gosto de dizer as coisas com claridade. Se hoje sou professor e figura física, apenas o sou porque me toca a capacidade de ler e fazer ler esse universo que é um mundo em sim mesmo – como uma cosmologia imprecisa, a poesia me toma e matiza todas as coisas que existem fora dela. O mundo se torna o próximo poema possível.

(oswaldo martins)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

delimitação

como os cães
as mulheres mijam

(elesbão ribeiro)

partida

pela saia que não uso
escorre o suor
que não transpira
o dito
e o não dito

a tontura de uma dança
que nunca começa
o enjôo da gravidez
que nunca revela

pergunto se ele quer
um drinque
e ele diz
- não bebo

ah, então era isso
o tempo todo
o vento
a lucidez
que ele me empresta.

(Lúcia Leão)

Sobre o caminhar


do livro das desimitações

8
desimitação de jorge de lima


disparei com as faces
rubras e febris
(edu lobo – chico buarque)


a moça vestia uma túnica sem fissuras
requebrava os quadris no picadeiro
as manchas roxas das olheiras
disfarçavam-se exagerada
maquilagem

circundava-a um anão corcunda
desses anões que os circos
contratam para secundarem
os anjos azuis

para vigiarem suas virgindades
suas santidades

ou as escapulidas em que os anjos
disfarçados
visitam os bordéis das cidades
por que passavam

o anjo azul necessitava
olheiras e o misticismo
do sexo

de um cuidavam os homens
de outras o anão

que no palco
fingia desde o palhaço
ao dramático senão

dos desprezados

(oswaldo martins)

domingo, 16 de agosto de 2009

Dez novas do ourives do palavreado

1

Cinqüenta anos são bodas de sangue
casei com a inconstância e o prazer

2

Acendo um cigarro
molhado de chuvaaté os ossos

3

O amor é um falso brilhante
nos dedos da debutante
macacos tocam tambor

4

Voltei pra casa e em plena dor de corno
quebrei o vídeo da televisão

5

Aos cinqüenta anos insisto na juventude

6

Esse é o som da minha terra:
som de andaime despencando,
de encosta desmoronando,
de rios violentando
as margens do meu limite.

7

Se o amor anda ausente
o armário só guarda
uma escova de dente

8

E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi Piedade
Plantei Ramos de Laranjeiras foi meu juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro

9

Tu te esfunarás...
me neblinarei
sobre os telhados, galáxias azuis.
Sonambularás,
te voltarei
gatos lambendo as estrelas...
Wendy e Peter Pan
sem o amanhã,
nunca para nós dois, é sempre cedo.
Marietarás e eu Buarquirei em dois cavalos com asas de luz.
Tu te nublarás, me eclipsarei...
nuvens em nossa cabeça.
Toma, Peter Pan, só um Lexotan
pra que tanto amor não te enlouqueça.
Vagalumarás por você sobre campo o campo,
eu virei do mar, teu pirilampo...
Como um circo aceso,
o céu da manhã saudará o amor que não dormir.
Tu desabará...
eu despencarei...
e o amor azul vai nos cobrir

1 0

Sou bem mulher de pegar macho pelo pé
Reencarnação da Princesa do Daomé
Eu sou marfim, lá das Minas do Salomão
Me esparramo em mim, lua cheia sobre o carvão
Um mulherão, balangandãs, cerâmica e cisal
Língua assim, a conta certa entre a baunilha e o sal

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

do livro das desimitações

7
desimitação de safo
a educação perdida


as moças que acorriam aos jardins de safo
eram novas

sacerdotisas votivas do amor
asseguravam-se dos movimentos graciosos
dos passos leves
da vinha

nas academias de lesbos aprendiam eros
a ardentia de suas rosas loucas
na academias de lesbos essas moças
cultuavam - além do néctar e da ambrosia –
as artes da delicadeza e do desejo

em seus peitinhos safo arranjava
flores de mirto e o sabor do hortelã
em seus peitinhos eros dispunha
águas frias para temperá-los

com as flores da gesta misturadas ao mirtilo
compunham eros e safo nos pentelhos recém-nascidos
quadros bucólicos e túnicas transparentes

as moças observavam a lua as constelações
quase nuas e deitadas sobre a terra
indagavam aos deuses
estendendo as mãos para tocá-los
em sua construção de espantos

a gramática de seus corpos e naturalidades
eram o grego esquecido que os poetas
ensinavam

cedo abandonavam seus pais por eros
por safo por lesbos – ilha de amores –
cidade inexpugnável

com seus corpos teciam almofadas
paras os membros

que depois as defloravam

(oswaldo martins)

sábado, 8 de agosto de 2009

Os Desmandamentos, por Geraldo Carneiro e Salgado Maranhão

(Este manifesto se rebela contra a banalização indiscriminada da poesia e a palavra aviltada pelos demagogos, e é dedicado aos que julgam que ela não é passatempo de diletantes, mas artigo de primeira necessidade.)

1- Mais uma vez virou moda dizer que a poesia agoniza, ou que a poesia morreu. E de fato ela sempre esteve morta para os não-poetas. E morreu também com Homero, com Dante, com Camões, com Baudelaire, com Drummond e com tantos outros, porque cada poeta é uma via, um beco sem saída. E a poesia é sempre plural: é o lugar dos paradoxos (viva Shakespeare!), do não-senso (viva Lewis Carroll!), mas também é o lugar da verdade. Quanto mais verdadeiro, mais poético, como dizia Novalis. Mesmo quando um poeta faz as suas conficções, acaba em verdades metafóricas. E, nestes desmandamentos, afirmamos que a poesia, quanto mais remorre, mais renasce.
2- É a linguagem que produz a realidade e a poesia. A poesia não tem camisa-de-força conceitual. Aos funcionários públicos da vanguarda, que se acham herdeiros do legado, ela finge que se dá, mas é só o discurso vazio do chefe da repartição.
3- A poesia é um problema sem solução. Felizmente. Ninguém tem a fórmula mágica, ninguém tem respostas para todos. Cada leitor que invente o seu mundo, e o desinvente a seu bel-prazer. Semelhante à culinária, cada qual que ache o seu tempero. Se for significativo, o erro vira estilo. Ou vice-versa.
4- A poesia pode tudo, só não pode ficar prosa ou senhora da razão. O novo não é reserva de mercado, nem nasce a priori. Há que se romper limites, correr riscos, ter lucidez na loucura. Mesmo que seja pelo avesso. (E, cá entre nós, não adianta ficar o tempo todo buscando o absoluto, porque isso já ficou obsoleto. Ao fim de tantos levantes, sejamos, também, irrelevantes.)
5- A poesia não é para quem a escolhe, mas para quem recebe o choque elétrico da linguagem. Não é poder ou privilégio, é um defeito que ilumina. Não vale transporte, não vale refeição, não vale copiar truques ou seguir tutores. Nem apelar, como os demagogos, para o amanhã. Mesmo porque já não há mais Canaã no Deserto dos Sinais.
6- Poema não é cadáver. É um artefato musical que sempre canta, mesmo quando tem horror à música. Quem busca entender o poema apenas cientificamente, dissecando sua morfologia como quem faz uma autópsia, perde a viagem. Conhecê-lo é entrar em seus labirintos, sem separar o corpo de sua subjetividade.
7- Não queremos a poesia prisioneira de uma única arte poética. Seremos clássicos e barrocos; pós-modernos e experimentais. Qualquer tema é e não é poético. Desde os pit-boys de Homero até a aspirina de João Cabral. Com talento, mesmo as formas antigas podem ser recicladas. Sem talento, nem com despacho na encruzilhada.
8- As influências, em geral, são bem-vindas, a não ser quando alijam a voz própria. Há poemas com tantas citações que, se extrairmos o que é dos outros, não sobra bulhufas.
9- Os conchavos e panelinhas fazem parte da natureza humana. Cada grupo tem o direito de inventar os seus heróis, para admirar a própria imagem no seu espelho narcísico. Mas o vôo do poeta é só dele e, sobretudo, da linguagem. A linguagem é o orixá, o poeta é o cavalo do santo. Ninguém é mais do que o que pode ser.
10- O problema da poesia não é só fazer bem feito, mas fazer distinto (no duplo sentido, que implica tanto em diferença, como em elegância). Ela é um exercício vital para manter o vigor da palavra. A poesia não é só questão de verdade, mas de vertigem. Por essas e por outras, é que somos poetas da vertigem: vertigem-linguagem, vertigem-vida.

Último desmandamento:
Pode jogar no lixo todos os desmandamentos anteriores, a não ser que haja sinceridade na poesia. Quem quiser adorar bezerro de ouro, que adore; quem quiser viver de pose, que mantenha sua prose. Mas que haja espaço e fé na poesia. E que ela continue a fabricar futuros, e, como fênix, se destrua e se reconstrua por toda a eternidade e mais um dia.

Geraldo Carneiro e Salgado Maranhão

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Dez trechos do ourives do palavreado

Foi Dorival Caymmi quem, na fala de abertura do disco que comemora os cinqüenta anos de Aldir Blanc, assim o nomeou.


1 –

Dirá um dodói
que Tolstoi
era chuva demais
para tão pouca planta
ô trouxa heroínas sem par
podem nascer na Rússia
ou lá em Água Santa.

(lupicínia)

2

Quando eu ficar assim
morrendo após o porre
Maracanã, meu Rio
ai corre e se socorre

Injeta em minha veias
teu soro puluído
de pilha e folha morta
de aborto criminoso
de caco de garrafa
de prego enferrujado
dos versos de um poeta
pneu de bicicleta

ai rio do meu Rio
ai lixo da cidade

(Valsa do Maracanã)


3

No carnaval que passou
voltando de Juiz de Fora
Itamar sassaricou
do general ao mexerico
da Candinha
o assunto era
o topete e a raspadinha

(O topete e a raspadinha)

4

Encerram fim de ano
Misturam na boca o pernil e a dor
o vinho e o horror

(Falha Humana)

5

Acreditar na existência dourada do sol
mesmo que em plena boca nos bata
o açoite contínuo da noite

(O cavaleiro e os moinhos)

6

Perder um amigo
é a última gota
se o cara duvida
que a vida é marota

(Perder um amigo)

7

Eu gosto quando alvorece
porque parece que está anoitecendo
e gosto quando anoitece que só vendo
porque penso que alvorece

(Me dá a penúltima)

8

Uma coroa entre o camburão e o tanque
um defeito no motor de arranque
e vindo na contramão
uma fachada pior
do que obra na Rocinha
uma droga mais barata
do que metanol com caninha

essa sogra é a minha

(Dona invocada)

9

fazer um spa
no centro do pinel

(Dona invocada)


10

gosto de maçã
flor da nova Eva

(por favor)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

morena triste dos olhos verdes

morena triste dos olhos verdes

por que estás triste morena de olhos lindos
triste sina
meu pai
não me querem a mim
só me querem os olhos

por que estás triste morena de olhos lindos

maldita herança
minha mãe
não me querem a mim
só me querem os olhos


elesbão ribeiro

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Dois poemas do A Teoria do Jardim

*

o traçado do teu jardim
ignora parágrafos
para avançar nas
delicadezas do imprevisto
e da inexatidão

à procura do engenho do desejo
invoco a ingenuidade do belo:

deslizante caça dialética


*

Não falta nada para o
caos
nunca faltou
apenas nos divertimos
com os ensaios da razão
procurando transformar
água em gelo

o árduo raciocínio
a tabela periódica
são belos sistemas de
organização
elegantes testemunhas
do nosso desejo de alquimia

(Dora Ribeiro - A teoria do Jardim)

sábado, 1 de agosto de 2009

Casimiro de Abreu e sua desimitação

Casimiro de Abreu

Juramento

Tu dizes oh Mariquinhas
Que não crês nas juras minhas,
Que nunca cumpridas são!
Mas se eu não te jurei nada,
Como hás de tu, estouvada,
Saber se eu as cumpro ou não?!

Tu dizes que eu sempre minto,
Que protesto o que não sinto,
Que todo o poeta é vário,
Que é borboleta inconstante;
Mas agora, neste instante,
Eu vou provar-te o contrário.

Vem cá, sentada a meu lado
Com esse rosto adorado
Brilhante de sentimento,
Ao colo o braço cingido,
Olhar no meu embebido,
Escuta o meu juramento.

Espera: - inclina essa fronte...Assim!...
- Pareces no monte
Alvo lírio debruçado!
- Agora, se em mim te fias,
Fica séria, não te rias,
O juramento é sagrado.

"- Eu juro sobre estas tranças,
"E pelas chamas que lanças
"Desses teus olhos divinos;
"Eu juro, minha inocente,
"Embalar-te docemente"
Ao som dos mais ternos hinos!

"Pelas ondas, pelas flores,
"Que se estremecem de amores
"Da brisa ao sopro lascivo;
"Eu juro, por minha vida,
"Deitar-me a teus pés, querida,
"Humilde como um cativo!

"Pelos lírios, pelas rosas,
"Pelas estrelas formosas,
"Pelo sol que brilha agora,
"- Eu juro dar-te, Maria,
"Quarenta beijos por dia
"E dez abraços por hora!"

O juramento está feito,
Foi dito co'a mão no peito
Apontando ao coração;
E agora - por vida minha,
Tu verás oh! moreninha,
Tu verás se o cumpro ou não!...

Rio - 1857.

6
desimitação de casimiro de abreu


tu dizes, ó putainha,
estouvada,
que não podes já

que não, que não

o que mais queres
é deitar-se ao meu lado

inclina essa fronte
vê intumescido o membro

sentes?

assim, assim

espera antes
de seres o lírio debruçado

que te aperte o colo
que te afague o monte

e o sublime rego
da bunda

(oswaldo martins)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Alquimia

Como todos os príncipes, este tinha necessidade insaciável de liquidez. Precisava de muito ouro para manter sua corte, recompensar os vassalos fiéis, contratar seus terríveis mercenários, pagar os funcionários da chancelaria, quitar – sem muita pressa – os empréstimos, custear alguma fantasia dispendiosa, impressionar os embaixadores estrangeiros e os legados do papa... Num ritmo desses, era difícil equilibrar o orçamento: as rendas reais, os impostos e taxas de todo tipo já não bastavam. Na esperança de encher novamente seus cofres, o soberano se dedicava, de uns tempos pra cá, à alquimia.

(Contos e Lendas da Europa Medieval – escrito por Gilles Massardier - Tradução Eduardo Brandão)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Poema do Dia

XVII

Éguas vieram, à tarde, perseguidas,
depositaram bostas sobre as vides.
Logo após borboletas vespertinas,
gordas e veludosas como ortigas

sugar vieram o esterco fumegante.
Se as vísseis, vós diríeis que o composto
das asas e dos restos eram flores.
Porque parecem sexos; nesse instante,

os mais belos centauros do alto empíreo,
pelas pétalas desceram atraídos,
e agora debruçados formam círculos;
depois as beijam como beijam lírios.

(Jorge de Lima – Invenção de Orfeu)

morena dos olhos verdes

por que estás triste morena de olhos lindos
sou triste porque meus olhos são mais bonitos do que eu


(elesbão ribeiro)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Filosofia barata

Há meses já não se ouve o economês. A crise do mercado teve tão estranho efeito linguístico?

Não, nenhuma coletividade esquece tão depressa seu dialeto.Mas, afinal, isso não tem maior importância: antes de se considerar "ciência exata", a economia costumava chamar-se "economia política" e, mesmo sem o economês, continua a ser.

A reflexão deriva de dois textos cuja única ligação está em terem sido lidos quase ao mesmo tempo. O primeiro dá profundidade temporal ao tema. Antonio Machado abria um pequeno texto de 1922 com a pergunta que atribuía a Pío Baroja [ambos escritores espanhóis]: com que deve, de preferência, preocupar-se o Estado do futuro? Com a produção de alta cultura ou de cultura mediana?Menos que a resposta do próprio Machado -"não esqueçamos que a cultura é intensidade (...) antes, muito antes que extensão e propaganda"-, ressalte-se a própria pergunta: ela se investe de uma incômoda atualidade.

Mas, afinal, resmungará o cético, que relação pode haver entre uma indagação formulada há quase um século, em um país distante, e o que se passa agora entre nós?Contra a suspeita de arbitrariedade, vale que logo se acrescente a segunda fonte. Em "As humanidades hoje, em tempo de indigência" (no jornal suíço "Neue Zürcher Zeitung), Hans Gumbrecht reflete sobre os ecos da atual crise econômica, nos ambientes acadêmicos norte-americano e alemão.

Traduzo o parágrafo decisivo: "As humanidades (...) são uma manifestação de luxo das sociedades ricas. Em tempos de crise, é melhor afastar-se delas. Uma outra direção, em troca, difundida sobretudo nas universidades alemãs, se intimida ante o fim de uma opulência, antes desconhecida, do apoio à pesquisa, e a ela contrapõe o seguinte argumento: a qualidade da interpretação, da escrita e do debate filosófico, literário e histórico basicamente independe da existência do campo correspondente de pesquisas particulares ou de cursos de pós-graduação. É o contrário do que sucede nas ciências da natureza, cujo êxito depende da possibilidade de pesquisas coletivas e da disponibilidade de uma aparelhagem técnica sempre nova. Uma discussão filosófica produtiva não custa mais do que as horas de trabalho dos que dela participam".

Papel do Estado

Para declarar por que o assunto nos toca, desenvolvo minha telegrafia. Considere-se, em primeiro lugar, a reflexão que o poeta Machado extraía de Pío Baroja. Presente em artigo de 1922, ela precede o colapso de 1929, antecessor do que hoje nos toca. Ou seja, a preocupação em o Estado investir antes em uma educação "básica" do que em uma "especializada" surge, nos países menos avançados, antes da primeira grande crise do capitalismo. Estranha menos, portanto, que ela ecoe em um "país em desenvolvimento" quase um século depois -trata-se de uma "afinidade eletiva".
Venho então ao que extraio da passagem de Gumbrecht. É possível que, também entre nós, não falte quem creia que isso de humanidades é um luxo descartável. Por que o digo? Seja pela maior abundância de bolsas de pesquisa e da oportunidade de realização de pós-doutorados nas áreas que "burrocraticamente" se insiste em chamar de "exatas", seja pela aceitação de nossas autoridades acadêmicas, em todos os seus níveis, de que a penúria de nossas bibliotecas é algo tão incontornável como um traço da natureza.Não adianta perguntar por que incontornável: não teremos resposta. Ora, se o governo já assim age, o que impede que os editores privados cada vez mais restrinjam a edição de obras que não lhes assegurem um alto retorno?

Mais grave do que tudo que se disse acima é o encaixe das duas posições acima referidas com a política pedagógica que vem sendo implantada desde o governo anterior: a política da horizontalidade dos cursos.

Concretamente, ela significa: abrem-se mais turmas, as universidades aumentam suas cotas de alunos por áreas, favorecem-se os docentes que se interessam por temas mais "leves", por fim, estimula-se o ensino à distância.


Maquiagem
Só pedantes elitistas, de espécie ignorada em um país culturalmente pobre como somos, seriam contrários ao incremento, em larga escala, da formação docente. Mas o que se observa não é incremento algum. É bastante óbvio que um mísero professor no interior dos Estados mais atrasados da Federação -e, por certo, não só deles- há de ter meios de minorar sua ignorância e, assim, de diminuir sua difusão entre os que o cercam.Mas, sob o nome de incremento à formação, o que passamos a ter usualmente é maquiagem e embuste, os quais, por cima, são incentivados em detrimento do ensino especializado. Não creio que isso se dê em toda a extensão da universidade brasileira. Mas sei que se torna o pão de cada dia na área das humanidades.

Nesta, a pesquisa especializada é quase impossível pela má qualidade das bibliotecas; pelos prazos exíguos para que os alunos concluam seus trabalhos, suas dissertações e suas teses; pelo pouco intercâmbio com outros centros. Desse modo, as humanidades se tornam cada vez mais semelhantes a parques zoológicos, espaços habitados por animais de uma espécie em extinção.

(Luiz Costa Lima)


O texto acima saiu no caderno Mais da folha de São Paulo.