terça-feira, 29 de dezembro de 2015

As plazoletas

Quem fez Sevilha a fez para o homem
sem estentóricas paisagens.
Para que o homem nela habitasse,
não os turistas, de passagem.

E claro, se a fez para o homem,
fê-la cidade feminina,
com dimensões acolhimentos,
que se espera de coxas íntimas.

Para a mulher: para que aprenda,
fez escolas de espaço, dentros,
pequenas praças, plazoletas,
quase do tamanho de um lenço.


(João Cabral de Melo Neto – Sevilha Andando)

3

preciso é botar
o cara-pau pra fora
e rir da cara de cu
das ávidas donzelas

dos ávidos donzelas
de cara-pau andante
é rir do cu avesso
do galho metido dentro

(oswaldo martins-andré capilé)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

um bom ano com o velho pajé de Bernardo Guimarães

E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea
de noite ou de dia, 
fodendo se via
o velho pajé!

(Excerto do Elixir do Pajé - Bernardo Guimarães)

Guido Oldani

La lavatrice

la centrifuga gira come un mondo
e i suoi abitanti sono gli indumenti
riposti dalla coppia dei congiunti.
si avvinghiano bagnati in un groviglio
i rispettivi panni in capriola,
sono rimasti questi i soli amanti,
quegli altri se si afferrano è alla gola.


(da La betoniera, LietoColle 2005)

Ossip

1

ossip

tudo é apenas delírio e xerez
(ossip mandhelstam)

o poeta estava morrendo
mãos longas corpo breve

uma côdea de pão
pendia da boca

a inércia  
por dois dias

cumpriu o rito
dos prisioneiros

do campo
de vladivostok


2
toma, peter pan, só um lexotan
(aldir blanc)

a sociedade que matou seus poetas
põe as garras de fora
quando o revólver de maiakovski
for substituído por uma lili brik

para os lamentos oficiais

3
anna
as estrelas da morte pairavam sobre nós
(anna akhmatova)

nos nus de modigliani
a poeta russa
respirava o amor

que a botina
das marias pretas

buscou calar

4

ginsberg
entrarei silencioso no quarto de dormir e me deitarei entre noivo e noiva

os americanos expulsaram de suas terras
o obreiro dos sonhos da liberdade

aquele que deitara nos campos
entre os corpos novos e suados

dos que inebriam a vida
cantando canções e ruas

5

o poeta morto antes da morte
se anunciar

dois dias
no frio da sibéria

bastaram
para o desespero se enfiar

na fome dos que ainda morreriam
depois


(oswaldo martins)

domingo, 27 de dezembro de 2015

Dois poetas dinamarqueses

1

Imagen ciega


La punta como diente de arado
deja en el suelo su huella
destapando la topografía de una mente

Soy el que describe los nervios y soy
el mundo que se traza a su medida

Un reloj de arena que al voltearse
apresuró el vacío que de a pocos redime

El vacío que será completo
cuando el último grano haya partido
el mundo será entonces uno y transparente

por el día que declina

Sueños de marioneta, 1991



(Thomas Boberg)

2

¿HACEMOS UNA VISITA?

¿Hacemos una visita
al mercado de las ideas
para asegurarnos un par de opiniones
para el resto de la semana?

(Han empezado ya las grandes rebajas.
Por cuatro perras
se pueden conseguir verdades de primera
y maduras convicciones.)
¿O nos sentamos
en la terraza de un café
y ahogamos nuestras dudas
en unas cervezas bien frías?

Til en ukendt gud, 1947

(Erik Knudsen)

sábado, 19 de dezembro de 2015

Milo Manra e três poemas


Milo Manara


manara


a posse de si mesma
maná
decaído nos debuxos

do sublime quê – deboche
da brocha

(oswaldo martins)

dengo de menino
o xibiu de minas
e as mamas educadas
nas mãos de manara


(andré capilé)


mamar a mina
destilação arca


cruz e fixação

pulsar dês o mar
de milo manara


(cândido rolim)

i modi



11


a vizinha faladeira
espreita da janela

que importa

além de olhar
o pente

cabeludo

o caralho
até o cabo

afundo

(do minimalhas do alheio - oswaldo martins)

Dora Ribeiro

A poesia de Dora é um pouco o sonho de ser da poesia.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

regência

1

vertigens  se abrem
quando os ventos

invertem a seleção
dos sopros

como um didjeridu
vibrando dentro

abismos
de comedor de sonhos

2

quem de flautinar fino
o sopro
para sair do corpo

3

sacabuxa é um trombone
de vara fina

usa-se à noite para povoar
de íncubos

os sonhos
da mulher amada

4
para caetano veloso

a museta
sopra

à boca
ou meia

da boceta
de tieta


(oswaldo martins)

ciência-metáfora

um cavalo morto
um homem empalhado

o sol tropical

parece uma prancha de gottfried
bem mais próxima da morte

a cabeça amputada

e ressequida
de nina rodrigues


(oswaldo martins)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

ESPERANZA SPALDING - Samba em Prelúdio - Baden Powell

Manet, Mallarmé Décio Pignatari

A tarde de verão de um fauno
A tarde de um fauno
A sesta de fauno

Églogue
1876

Quero perpetuar essas ninfas.
                                              Tão claro
Essas ninfas eu quero eternizar.
                                             Tão leve
Vou perpematar essas ninfas.
            É tão claro
É o rodopio de carnes, que ele gira no ar
É a sua carnação, que ela gira no ar
Seu ligeiro encarnado a voltear no ar
Entorpecido de pesados sonos.
    Sonho?
Sonolento de sonhos e arbustos.
                                                   Foi sonho?
Espesso de mormaço e sonos   

        Sonhei ou … ?
Borra de muita noite, a dúvida se acaba
Massa de muita noite, a dúvida se arma
Massa de muita noite, arremata-se a dúvida
Em raminhos sutis que são o próprio bosque,
Em filetes sutis que são a própria mata,
Em mil ramos sutis a imitar a mata,
Prova cabal de que, em dom bem solitário,
Prova infeliz de que eu sozinho me ofertava
Prova infeliz de que em gozo solitário
Eu triunfava em meio à falta ideal de rosas.
À guisa de triunfo a ausência ideal das rosas.
Eu me dava em triunfo a falta ideal das rosas.
Reflitamos …
Vamos pensar …
Refletir …
E se essas moças, minhas glosas,
Se essas moças que tu glosas
Vamos que as mulheres que tu glosas
Não passarem de sonho e senso fabulosos?
Forem só fumo dos sentidos fabulosos?
Não passem de ilusão dos sentidos da fábula?
Fauno, dos olhos da mais casta, azuis e frios,
A fria ilusão azul escorre, fauno,
Fauno, desfaz-se a ilusão nos olhos frios
Flui a ilusão como uma fonte em prantos, rios:
Dos olhos da mais casta como fonte em prantos:
E azuis daquela que é mais casta, pranto em fonte:
Mas, da toda suspiros, achas que difere
Porém, como contraste, da que é suspiros,
Mas, em contraste, o hálito da outra, arfante,
Da outra, nos teus pelos, como um vento quente?
Dizes que é o ar do dia quente em teu tosão?
Não é o sopro de um dia quente nos teus pelos?
Mas, não! No pasmo exausto e imóvel, a manhã
Não, não! Na quietude do abandono exausto,
Mas, não! Pelo desmaio imóvel e cansado,
Se debate em calor para manter-se fresca
Sufocando a manhã se ela resiste fresca,
Sufocando a manhã de calor, se reage,
E água não canta que da avena eu não derrame
A água não murmura se não vem da flauta
Só o que murmura é a linfa que da avena venha
No bosque irrigado de acordes – e o só sopro
Vertendo sons no bosque – e não há outro vento
Regar de acordes o capão; e só o vento
Além do exalado pelas duas canas
Além do modulado pelos tubos prestes a
Que flui da flauta dupla prestes a exalar-se
Pronto a extinguir-se antes que se disperse em chuva
Desvanescer-se antes que o som se disperse
Antes de dispersar o som em chuva estéril,
Estéril, é somente o sopro no horizonte
No chuvisco impotente de uma chuva árida,
Sem uma ruga a perturbá-Ia, da visivel

Se ouve – não se ouvisse no horizonte liso
A não ser no horizonte sem rugas a calma
O sopro artificial, visível e sereno,
E calma inspiração artificial do céu.
Daquela inspiração que re-expira o céu.
Da inspiração que volta a ascender ao céu.
O calmos pantanais dàs costas da Sicília,
Ó orla siciliana das baixadas calmas,
Ó pântano estagnado às costas sicilianas,
Que, êmula de sóis, minha vaidade pilha,
Que eu saqueio vaidoso em disputa com o sol,
Que eu disputo com sóis na pilhagem vaidosa,
Tácita, sob centelhas floridas, CONTAI
Tacitamente, sob centelhas-flores, CONTE
Sob centelhas de flores, taciturno, CONTE
“Que aqui eu cortava os caniços, domados
Que aqui com arte e engenho vinha eu domar
Que eu costumava aqui cortar caniços ocos
Pelo talento, quando no ouro azul dos longes
Caules ocos no glauco ouro de longínquos
Com meu talento e era, no ouro azul de longes
As fontes os vergéis ofertavam suas vinhas
Verdes, oferecendo às fontes as videiras,
Verdes, às fontes dedicando seus vinhedos,
E ondulava um brancor animal em repouso:
Vendo branco ondular um repouso animal:
Uma animal brancura ondulando em sossego:
E que ao lento prelúdio onde nascem as flautas,
E que ao prelúdio lento em que nascem as flautas,
E que ao lento prelúdio das varas de visgo,
Este arroubo de cisnes, ou náiades! foge
Este vôo de cisnes, náiades! se esquiva
Esses signos no ar, mulheres! ludibriam
Ou mergulha ...
Ou imerge ...
Ou afundam ...“
Arde a tarde inerte na hora fulva
Incêndio inerte na hora fulva,
Inerte é a tarde na hora rubra
Sem um sinal das artes pelas quais partiram
Sem traço da arte combinada que desfez
Sem traço da arte vária pela qual fugiu
Tantos himens sonhados por quem busca o lá:
Tanta núpcia ansiada por quem busca o Ia:
O excessivo himeneu de quem procura o Ia:
Despertarei então à devoção primeira,
Assim, vou retornar ao meu primeiro voto,
Então rejuvenelho no ardor primevo,
Ereto e só, sob um fluir de luz antiga,
De pé e só sob uma luz que flui de outrora,
Direito e só, sob um fluir velho de luz,
Lírio! e um de vós todos pela ingenuidade.
Leia! pela engenhosidade, um só devoto.
E, pela ingenuidade, lírio! um dentre vós.
Bem diverso do beijo, doce nada esparso
Mais que esse doce nada, arrulho de seus lábios,
Mais que esse doce nada a dar de boca a boca,
Através de seus lábios a insuflar perfídias,
O beijo que, bem baixo, é bífida perfídia,
O beijo que, bem baixo, é perfídia segura,
Atesta uma mordida este meu seio virgem,
Dá prova o peito puro de uma morte certa,
Virgem de prova, o seio exibe uma mordida
Misteriosa marca de algum dente augusto;
Mordida misteriosa de algum dente augusto;
Misteriosa, dente de algum deus supremo;


Ilustração Edouard Manet

Mas, chega! que esse arcano elege por amigo
Mas, basta! que esse enigma optou por confidente
Mas, silêncio! que o enigma tem por confidente
O junco vasto e gêmeo sob o céu tocado:
O junco vasto e gêmeo sob o céu gemendo:
O junco imenso e gêmeo sob o céu que sopra:
Ei-Io que chama a si a turbação da face
Eis que assumindo a excitação da face, sonha,
Que para si chamando o tumulto da face,
E num extenso solo sonha que entretemos
Num solo prolongado que estamos deleitando
Num longo solo longo aspira a que encantemos
A beleza ao redor, mediante confusões
A beleza ambiente através das ambíguas
O lugar que nos cerca através de enganosas
Falsas entre ela própria e o nosso canto crédulo -
Confusões entre ela e o nosso canto ingênuo
Confusões entre ela e este canto bisonho
Procurando no módulo do amor mais alto
E tanto quanto alcance um módulo amoroso
E façamos, no módulo do amor mais alto,
Esgarçar, da quimera ordinária de costas
Faz que se esvaia a ilusão banal de dorso
Desmaiar a miragem banal em decúbito
Ou bem de flanco puro seguidos com o olhar,
Ou de lado, seguidos pelo olhar sem ver,
Ou reclinada pura no olhar fechado,
Uma linha monótona, sonora e vã.
Numa linha enfadonha, inútil e sonora.
Numa sonora, vã e monótona linha.















Volta, pois, instrumento de fugas, maligna
Flauta nefasta, pífano de fugas, trata
Flauta nefasta, instrumento de escapes, trata
Flauta, a reflorescer nos lagos onde me ouves:
De reflorir no lago onde por mim esperas!
De reflorir na água onde por mim aguardas!
De meu tropel cioso, irei falar de deusas
Orgulhoso de som, vou falar longamente
Altivo em meu rumor, vou falar longo tempo
Por muito tempo – e em muita pintura profana,
De d e ss – e graças a quadros idólatras,
Das deusas, e, mercê de profanas pinturas,
A sua sombra hei de enlaçar muita cintura;
À sua sombra ainda hei de enlaçar cinturas;
À sua sombra ainda arrebatar cinturas;
E quando a luz das uvas tenha eu sorvido
E assim que chupe a luz destes cachos de uva,
E quando da razão tenha sugado a luz,
P’ra banir uma dor por fingimento oculta,
Afastando um pesar pela astúcia esquecido,
Banindo um dissabor por fingimento oculto,
Ridente, elevo ao céu do estio os bagos murchos
Gozador, ao verão do céu oferta os bagos
Ergo ao céu, com sarcasmo, o cacho esvaziado
E soprando as bexigas radiosas, sedento
E soprando nas peles translúcidas, ávido
E enchendo de ar bagos de luz, ávido e ébrio
De embriaguez, contra a luz os contemplo, bêbado.
E ébrio, fico olhando através até a noite.
De través os contemplo até o cair da noite.

Re-inspiremos, ninfas, MEMÓRIAS, de versos.
Ninfas, vamos inflar RECORDAÇÕES diversas.
Reavivemos, ninfas, LEMBRANÇAS diversas.
“Pelos juncos, o olhar violava as colinas
Varejava, nos juncos, meu olho, uma a uma,
Pelos juncos, meu olho espiava as colinas
Imortais, que na onda afogam o cautério,
As curvas imortais no refrigério da onda
Imortais, que afogam na onda a queimadura,
No céu da mata desfechando um impropério;
– Irados gritos contra a abóbada da mata –
Soltando gritos de ira contra o céu da mata;
E o banho esplêndido de pêlos se dilui
Os mais esplêndidos cabelos esvaindo-se
E o banho esplendoroso dos cabelos some
Em calafrios e claridades, pedrarias!
Em claros calafrios de raras pedrarias!
Em pedrarias de faíscas e tremores!
Precipito-me – e eis a meus pés, enrascadas,
Corro e vejo, a meus pés, enlaçadas, doridas.
Lanço-me e vejo ali, entrejuntas e langues.
Langorosas haurindo esse mal de ser dois,
Do gostado langor desse mal de ser dois,
– Melancolia doce do mar de ser dois –
Duas carnes dormindo entre os braços do acaso:
As dormindas dormindo entre seus próprios braços:
Adormecidas, sós, as ninfas aos abraços:
Empolgo-as sem desvencilhá-Ias e me arranco
Sem desfazer o enlace, arrebato-as e alcanço
Sem desuni-Ias arrebato-as e encontro
Rumo a esse alcatife, odiado pela frívola
Ao canteiro –  que a sombra leviana odeia –
O canteiro de rosas (assédio de sombras),
Sombra, de rosas desperfumando-se ao sol,
De rosas exaurindo todo o odor ao sol
Maciço de perfumes a fundir-se ao sol,
Para esse embate igual ao dia que se consome.
E ali o nosso embate ao dia que finda iguala.
Onde o nosso prazer, junto com o dia, acabe.”
Eu te adoro, furor de virgem, ó delicia
Ira das virgens, eu te adoro, ó delícia
O cólera das virgens, eu te adoro, gozo
Feroz do fardo nu e sagrado que se esquiva,
Feroz do fardo nu e sagrado que desliza,
Selvagem dessa carga nua que se insinua
Fugindo à boca em água ardente, quando um raio
Para fugir, à boca em fogo e sede, como
Para fugir à boca em fogo – como um raio
Faz tremer! o temor mais secreto da carne:
‘Um raio treme! a via secreta da carne:
Sobressalta-se! o medo em segredo na carne:
Dos pés da desumana ao coração da tímida
Dos pés da inumana ao coração da tímida
Dos pés da desumana ao peito da mais tímida
Pela inocência abandonada, ora úmida
Que a pureza abandona, orvalhada ora por
A inocência abandonando a ambas, úmida
De pranto doido ou de vapores mais alegres.
Lágrimas tristes ou não tão tristes vapores.
De pranto solto ou de suores menos tristes.
“Meu crime é o de abrir, com beijos, o tufo
Meu crime foi de ter, contente de vencer
Meu crime é o de haver, alegre por vencer
Hirsuto que tão bem mantinha um deus cerrado;
Um medo insidioso, aberto ao meio o bosque
Temores infiéis, partido ao meio a moita
Pois mal me dispunha a esconder um riso ardente
Desgrenhado, que os deuses guardavam ciosos;
De beijos, pelos deuses tão bem guarnecida;
Sob as pregas felizes de uma só [guardando
Assim que me propunha a esconder um riso ar-
Mal ia eu introduzir um riso ardente
Com simples dedo, a fim que o seu candor de pena
Dentes nas dobras álacres de uma (gesto
Sob as felizes comissuras de uma (dedo
Se maculasse na emoção de sua Irmã· –
De dedo vigilante – que o candor de pluma
Simples de guarda – a fim que seu candor de pluma
Aquela que é pequena, ingênua e não se peja:)
Se tinja na emoção de sua irmã que brilha
Se contamine ao frêmito da irmã que inflama
Que de meus braços moles por deliquios vagos
– Guardando a pequenina, ingênua e que não cora:)
– À pequenina, ingênua e que não enrubesce:)
Liberta-se essa presa para sempre ingrata,
Já de meus braços vagamente amolecidos
Que de meus braços moles por incertas mortes
Sem pena do soluço ainda em mim cativo.
Escapa-me essa presa para sempre ingrata,
A presa, para sempre ingrata, se liberta,
Sem piedade de mim na ebriez do soluço.
Sem pena do queixume ainda a inebriar-me.”
Tanto pior! ao gozo hão de levar-me outras,
Azar! Hão de arrastar-me outras ao prazer,
Felicidade, paciência! Virão outras
Emaranhando suas tranças nos meus cornos:
As tranças amarrando aos chifres desta fronte:
Aos cornos desta fronte emaranhar as tranças:
Tu sabes, vida minha: púrpura e madura.
Minha vida, é assim: já madura e vermelha,
Minha paixão, tu sabes que madura e rubra
Toda romã explode e em abelhas murmura;
Toda romã estala em zumbidos de abelhas;
Toda granada explode em murmúrios de insetos;
E o sangue, enamorado de quem vai colhê-lo,
E o nosso sangue, preso a quem vai possuí-Io,
E o nosso sangue, amante de quem vai sugá-Io,
Escorre pelo eterno enxame do desejo.
Corre por todo o enxame eterno do desejo.
Corre por todo o eterno enxame do desejo.
E quando o bosque tinge-se de ouro e cinza,
E na hora em que o bosque é de cinza e de ouro,
Na hora em que se banha o bosque em cinza e ouro,
Exalta-se uma festa na ramada extinta:
Uma festa se exalta na ramada extinta:
Na folhagem extinta uma festa se eleva:
Etna! é em teu meio quando Vênus vem
Etna! é em meio a ti, visitado por Vênus,
Etna! Tu és a festa quando Vênus vem
Pousar em tua lava as plantas inocentes
Pousando em tua lava o calcanhar ingênuo,
Pousar em tua lava o calcanhar ingênuo,
E estronda um sono triste ou esmorece a chama.
Se troa um sono triste ou desfalece a flama.
Num resultado triste ou num fogo que apaga.

Tomo a dama!
Minha, a rainha!
Conservo as rédeas!
Castigo certo …
O punição …
O castigo ...
                               Não, mas a alma
Vazia de palavras e este corpo espesso
De palavras vazia e este pesado corpo
Sucumbem ao feroz silêncio meridiano:
No tardo meio-dia, em quietude, morrem:
Tarde sucumbem ao silêncio meridiano:
Sem mais, dormir no esquecimento da blasfêmia,
O que resta é dormir no olvido da blasfêmia,
Sem mais, cumpre dormir e afugentas a injúria
Na areia ressupino e sedento – e sequioso
Jazendo sobre a areai, alterado e amando
Sobe a areia sedenta a jazer e, a gosto,
De abrir a boca ao astro eficiente dos vinhos!
Oferecer a boca ao astro audaz dos vinhos!
Ao eficaz astro do vinho abrir a boca!
Ninfas, adeus; vou ver a sombra que vos tornais.
Ninfas, adeus; vou ver a sombra que ora sois.
Casal, adeus; vou ver a sombra que és agora.
- Stéphane Mallarmé  "L’Après-midi d’un Faune" [tridução Décio Pignatari]. In: CAMPOS,
Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; PIGNATARI, Décio. Mallarmé. São Paulo: Perspectiva, 1991. p. 87-106.



terça-feira, 15 de dezembro de 2015

retrato surpreendido de safo

não só as flores
os cabelos soltam

mas as mãos
ao longo
tecem grinaldas

descendo leves
ao longo do rosto

(oswaldo martins)


fragmentos

Com as meigas mãos, ó Dice,
trança ramos de aneto,
e põe essa coroa
em teus cabelos:

fogem as Graças
de quem não tem grinalda,
mas felizes acolhem
quem se enfeita de flores.


(safo)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

colinas

contra a parede os obuses –
duros corpos
ringem

os sentidos pela manhã
derivam em pólvora

um pássaro cantava
até explodirem
as janelas

gerânios eram nas varandas
um braço de criança

o corpo apartado que se jogou
até a calçada e ali jaz

sopra tenebroso vento
sobre a cabeleira
de sangue


(oswaldo martins)

sábado, 5 de dezembro de 2015


louvor para as moças de hoje

1

noite fazem se bares e ruas
ou desejo inequívoco
de todas as moças
madrugadeiras

2

que na praia de ipanema
levantam as saias
para a conquista
do sol

da novidadeira vida
das auroras de olhos róseos

3

ulisses era um bobo
não deixou-se encantar
pelo canto das sereias

4

restou em casa
a compor o canto de penélope
a fiandeira das mordaças

5

nem as marcas do corpo
sobre a areia
o senhor das ítacas
experimentou

6

foda-se , caro ulissses,
foda-se, a expertise
da astúcia

7

nosso périplo apesar de ti
ainda vaga após a helena,
que todos desejam comer

8

na pele da moça – helena talvez
mas belengardas
amandas da cor de jade
também

9

todas sereias
nos encantam

10

por isso o canto
para estas moças
que hoje ocupam
as ruas tortas dos desejos


(oswaldo martins)

Clementina De Jesus - Mudando De Conversa 1968 (álbum completo)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

As novas edições da TextoTerritório


nova edição de lucidez do oco, pela TextoTerritório

diferentemente do que pode pensar a crítica incauta, este livro (lucidez do oco) é o mais erótico de martins. justamente porque nele eros e tanatos se complementam e constroem uma única coindição: a humana.  (orelha da nova edição de lucidez do oco, pela TextoTerritório)



manto


Aforismo 1


manto, o novo livro e os antigos reeditados




domingo, 29 de novembro de 2015

limiar. masculino/feminino

1.soleira da porta; luz e sombra; ritmo. 
2.fronteira em movimento, acontecimento; constante fazer-desfazer do encontro das ondas com a areia; espaço de vaga na retirada do mar. 
3.litoral corpóreo, véu encobridor do corpo, corpo feminino produzido no movimento de desvelar; aquilo que poderia ser revelado. 
4.espaço mínimo, buraco entre linhas: condição essencial da tessitura do texto e do tecido; a linha que costura fragmentos de tecidos, que agarra uma palavra à outra. 
5.toque do tecido no corpo; encontro entre a agulha e o corpo; estilhaçamento da letra contra o corpo. 
6.instante; por excelência, o lugar do ato.

(marina sereno)

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Limiar

Sensação de um corpo primeiro, aquele corpo que está suspenso do signo e é só um arquipélago de corporeidades. Ele percebe que por mais extensa que seja a relação com as coisas, o outro é limiar, abismo, fenda. O corpo passa a ser pensado agora como limiar de si, é do corpo para o corpo, atravessa o corpo para chegar no corpo. Sua ondulação permeia como um litoral. O movimento que oscila o mar na areia é limiar, o desenho na areia é corpo. Limiar de si o corpo avessado, revira, retorce, enviesa, encontra os buracos, muda de posições rapidamente, isola membros, o corpo limiar é o encontro da palavra com a coisa.

(Júlia Fernandez)

domingo, 22 de novembro de 2015

sobre o manto

oswaldo martins sabe que há que dar de presente à linguagem (da poesia) a liberdade que só os destituídos - ou seja, os desprovidos daquilo que vulgar e eruditamente se chama razão, clareza e casticismo - conquistam no recolhimento diante das asperezas do mundo, dos homens e dos ditadores de normas.

(silviano santiago - no posfácio de manto)

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Higrômetros singulares

O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão e protegido por ela — braços largamente abertos, face volvida para os céus — um soldado descansava.

Descansava... havia três meses.

Morrera no assalto de 18 de julho. A coronha da Mannlicher estrondada, o cinturão e o boné jogados a uma banda, e a farda em tiras, diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário possante. Caíra, certo, derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a fronte, manchada de uma escara preta. E ao enterrar-se, dias depois, os mortos, não fora percebido. Não compartira, por isto, a vala comum de menos de um côvado de fundo em que eram jogados, formando pela última vez juntos, os companheiros abatidos na batalha. O destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante; e deixara-o ali há três meses — braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...

E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranqüilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja. Nem um verme — o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria — lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho revelando de modo absoluto, mas sugestivo, a secura extrema dos ares.

Os cavalos mortos naquele mesmo dia semelhavam espécimens empalhados, de museus. O pescoço apenas mais alongado e fino, as pernas ressequidas e o arcabouço engelhado e duro.

À entrada do acampamento, em Canudos, um deles, sobre todos, se destacava impressionadoramente. Fora a montada de um valente, o alferes Wanderley; e abatera-se, morto juntamente com o cavaleiro. Ao resvalar, porém, estrebuchando malferido, pela rampa íngreme, quedou, adiante, a meia encosta, entalado entre fraguedos. Ficou quase em pé, com as patas dianteiras firmes num ressalto da pedra... E ali estacou feito um animal fantástico, aprumado sobre a ladeira, num quase curvetear, no último arremesso da carga paralisada, com todas as aparências de vida, sobretudo quando, ao passarem as rajadas ríspidas do nordeste, se lhe agitavam as longas crinas ondulantes...


(Euclides da Cunha – Terra – Os Sertões)

Cida Moreira - 01 - Viola Quebrada (Mário de Andrade)

Breve Consideração à Margem do Ano Assassino de 1973 - Vinicius de Morae...

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

aforismos

1

lampiões de rua são construções ao ambíguo da luz

2

sombras dos movimentos em dia de chuva parecem menos sombras

3

mãos estão para a dança assim como o espanto

4

pés mitigam passos quando andam

5

mulheres são para a boca da noite tanto quanto homens

6

nudez na rua descontrói  os monstros civilizatórios; nos quartos, os constrói e afaga

7

porto algum de chegada; a busca de outro cais

8

quem convive com o poeta anos a fio percebe suas repetições mais finas

9

poesia é a tara das repetições

10

outro é a ficção de si



(oswaldo martins)  

Dois poemas de Safo



Outra vez Eros que dissolve os membros me tortura,

doce e amargo, monstro invencível,

ô Atis! E tu, cansada de prender a mim

o teu cuidado, voas para Andromeda.


**


Hoje ninguém mais se lembra

 de Anactória ausente.

Ah! gostaria de contemplar o seu andar arrebatador


e o brilho deslumbrante do seu rosto...

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

faca

os centímetros se soltam
alívio combalido

pendente  sem corpo
a cabeça do conselheiro

na ponta do sabre
como um ex-voto

a sânie torpe
urdida de silêncio

caminha

os miseráveis
de outra dicção


(oswaldo martins)

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O rei-chuchu

O Sr. Alkmin I governa São Paulo com a ignorância dos que se acham superiores. Seu governo que busca garantir os privilégios sempre concedidos aos poderosos se põe agora, após embolachar os jovens, com balas, a tirar-lhes a única oportunidade de abandonarem a vida do subemprego, da miséria, para a qual foram encaminhados por anos de espoliação e maus tratos públicos, ao retirar-lhes os estudos. Além, é óbvio, para privilegiar as universidades particulares, retira das já combalidas universidades a verba com que elas poderiam tocar as pesquisas necessárias e a formação mais que necessária dos jovens e profissionais.

Além de plantar a seca, a vanguarda do atraso em que São Paulo vem se transformando tem neste senhor e nos seus sequazes os representantes mais óbvios de um mal disfarçado desejo monárquico, conservador e religioso. Dom Alkmin I, o rei-chuchu, como ficará lembrado na história do país, porque insulso, deveria voltar para sua Pindonga e continuar o capiau que nunca deixou de ser.



(oswaldo martins)

Raphael Rabelo e Elizeth Cardoso Completo Parte 1









Fotos de Alexandre faria e Vand Santiago

Fotos para o lapa




 

Fotos Alexandre faria e Vand Santiago

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

a poesia da conselheira

no meio do caminho os peitos se imiscuíam
era – não era – que a sapa se enterra

no meio do caminho as pernas
as retinas fatigadas

no meio caminha beatriz e trepada
para os olhos do apogeu

caísse mais a blusa
subisse mais a saia

que esse aluá essa cachaça
deixam a gente puta como uma diaba


(André Capilé e Oswaldo Martins)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

1/2

Eu, que sou um, e estou com os demais,
tenho o endereço incerto da partida
enquanto espero. Não desperto a luz,
nem cedo ao desespero dos mosquitos
que zunem pela beira do chapéu.

comia pelo trecho, com os meus
companheiros, a conta da ração
medida por miúda; não o tempo,
inchado na capanga, indiferente
ao sol estacionado que esvazia.

olhava o dia longe, longo e verde
contando só o furo das miçangas
os fios que atravessam o inimigo
a reza da tocaia que se avia.


(André Capilé)

Sobre o lapa


Oswaldo Martins: lapa – memória, fetiche e contemporaneidade.

o detalhe capta a imagem e te
integra toma teus olhos olha
na perspectiva mínima
Oswaldo Martins

Ao se relacionar, de maneira muito menos direta, com a mímesis, a libido, em vez de vazar sua energia, retém a e a prolonga no objeto que constitui.
Luiz Costa Lima

No livro A ficção e o Poema, Luiz Costa Lima desenvolve o conceito de mímesis-zero. Deslindando a noção kantiana de intuição, o teórico brasileiro tenciona as noções de tempo, espaço, violência e libido para propor a mímesis como uma dimensão do conhecimento; assim, em seu estágio zero, [a mímesis] implica todas as faculdades humanas, fracassando na tentativa de explica-la a partir de uma decisão pessoal e consciente (LIMA, 2012, p. 34). Costa Lima explica

Tenho a mímesis-zero como uma mímesis-sem; uma mancha ou nebulosa na psique de um agente, que, não tendo ainda forma, tampouco possui movimento. Mímesis-zero equivale a dizer que não contém figuras ou linhas de força configuradas. Ela é um como se, isto é, algo que, em estado de gestação, se for plenamente diante, será um objeto ficcional. Mímesis sem movimento porque mera potencialidade. Enquanto potencialidade, ela é uma mancha ou nebulosa já tocada pela libido. A junção entre mancha psíquica e libido significa que algo ou alguém, uma paisagem ou quem a atravessou, ali deixou uma marca que, por enquanto, provoca tão só uma impressão, no entanto duradoura (LIMA, 2012, p.  26).         

Assim, gerado pela libido, o objeto ficcional é fruto da mímesis-sem ou mímesis-zero porque é potencialidade; pois, a despeito de suas ligações com o real, a sua criação se dá como o “vir-a-ser”, daí sua “nebulosidade” que, no entanto, se tornará “marca duradoura”.
Tomado como lugar teórico, a mímesis-zero será o fio condutor para a leitura de alguns poemas do lapa, de Oswaldo Martins. Publicado em 2014, o livro é organizado em sete cenas e propõe uma complexidade singular: seus poemas estão em diálogo intersemiótico com diversas fotos feitas pelas ruas do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, cidade onde o autor passou a residir na sua juventude. Feitas para (com)figurar no livro, as fotografias foram produzidas, sob a supervisão do poeta, por Vand Santiago e Alexandre Faria que registraram os movimentos de duas modelos contratadas –  que posaram como prostitutas passantes mulheres tão-somente – e colaboraram para alargar fronteiras de gênero ao se apropriarem dos sintagmas da rua e dos corpos, compondo, numa relação metonímica entre imagem e texto, uma lírica de foto-poemas.
 Assim, fruto da memória (que é a libido prolongada no olho do observador) do rapaz que caminhava por aquelas paisagens, as duas artes miméticas – a fotografia e a escrita – tornam a lapa ficcionalizada  potencialmente o vir-a-ser; pois assim como cada foto desloca a paisagem de seu lugar de pertença, cada poema toma teus olhos, desalienando a visão para uma perspectiva mínima, como adverte o poema citado na epígrafe. Fetiche do poeta, as ruas se desreificam, tornando-se parte da construção de um eu que lê no seu tempo ido o seu tempo presente:


a  rua  caminha  sob  teus  pés  objetos
confusos  miram  e  acatam  a  vista no
recompor  de  moeda uma cega te mira
bicuda  enquanto  levantas   a  saia   va
gabunda   solícita   a   dedos   e   lirismo
(MARTINS, 2014, p.35).


O quinteto, quarto foto-poema da cena II, poderia estar dedicado à une passante. A tônica fetichista que remete à Baudelaire, o gozo do voyeur, atravessará toda a obra, pois a Lapa ficcionalizada por O. Martins é cheia de olhares atentos aos mínimos detalhes, à perspectiva mínima. Os objetos confusos da rua miram a mulher que passa. A cega que guarda a esmola mira a mulher enquanto ela passa com seu movimento de saia de tecido vaporoso. No lapa, tudo se dá a ver. E a foto em preto e branco ao lado esquerdo do poema – meus olhos não perguntam nada – registra o momento em que fortuitamente a saia se levanta enquanto a moça, parada, ajeita o sapato. Enquanto todos esses elementos se movimentam no poema, dançando diante dos olhos, a personagem da foto que é feita em preto e branco, estática, ganha uma perspectiva distante no tempo, como se estivesse a caminhar pela rua projetada na memória do poeta.
Mímesis-zero, a marca das reminiscências do poeta são, não um leitmotiv, mas uma coleção de intuições que a libido projetou no devir. Como relata o poeta no prefácio ao lapa, escrito em 1984, o livro permaneceu inédito até 2014, mas foi se tornando obsessão e matriz de tudo o que escrevi depois. [...] funcionava como um fetiche para mim (MARTINS, 2014, p.06). Assim, como um jogo de sinédoques, toda a obra de Oswaldo Martins é parte do projeto iniciado nos anos 80. É neste jogo de ausências e presenças que a própria categoria de tempo vem à tona nos poemas, através do olhar:




rua da lapa

e paras. as retinas contra-postas nas vitrines quase
espelhos. te olham. o descortínio de um gato modorra
sobre a careca de um manequim de barro. abana o rabo
permite o tempo. o gato. recorre aos lábios o rictus
do peito estufado e paras. as roupas vestem no corpo
o gato no manequim de barro. abana o rabo, previne o
tempo. o pacto. ritualizas os lábios e paras
(MARTINS, 2014, p.33)
   

A cena cindida pelas construções paratáticas para o poema. Ali, o olhar pode se demorar em vitrines sem pressa como a preguiça letárgica do gato, observando a si mesmo como sujeito que sorri o gesto enregelado, ausente de si. A fotografia capta a rua praticamente sem movimento e transeuntes, parada ao entardecer de casas com diversas arquiteturas atravessadas pelo tempo. Segundo Giorgio Agamben, no livro Estâncias – a palavra e o fantasma na cultura ocidental:

Por mais que o fetichista multiplique as provas de sua presença e acumule um harém de objetos, o fetiche lhe foge fatalmente entre as mãos e, em cada uma de suas aparições, celebra sempre e unicamente a própria mística fantasmagórica (AGAMBEN, 2012, p. 62)

Desse jeito, a lapa é construída pela fluidez da memória que, perecível, não pode ser colecionada como coisa; assim, a importância da libido como propulsora desta poética é radical, pois mantém o mosaico de acontecimentos teso e em projeção, podendo ser revisitado e saqueado, ao mesmo tempo matriz e motriz da escrita, como confessa Oswaldo. Como explica Agamben:  

É curioso observar que um processo mental do tipo fetichista está implícito em um dos tropos mais comuns da linguagem poética: a sinédoque (e na sua parente mais próxima, a metonímia). No fetichismo, à substituição da parte pelo todo que ela efetua (ou de um objeto contíguo por outro) corresponde a substituição de uma parte do corpo (ou de um objeto anexado) pelo parceiro sexual completo. Prova-se assim que não se trata apenas de uma analogia superficial pelo fato de que a substituição metonímica não se esgota na pura e simples substituição de um termo por outro; o termo substituído é, pelo contrário, ao mesmo tempo negado e lembrado pelo substituto, com um procedimento cuja ambiguidade lembra de perto a Verleugnung freudiana, e é justamente dessa espécie de “referência negativa” que nasce o potencial poético particular de que fica investida a palavra (AGAMBEN, 2012, p. 60).

A construção do tempo de lapa é, portanto, vincada pela subjetividade e também pelo trabalho do leitor crítico – leitor de si e de seu tempo –, de forma que a criação da Lapa dos poemas é contemporaneamente anacrônica, na mesma medida em que desterritorializada. Isto é; ao tratar do bairro boêmio carioca, o lirismo escatológico de lapa é uma como uma ronda que à maneira de Agamben, percebe no presente uma facho escuro do passado.    

ronda

tocaram-se as fumaças que a outra boca expelia
a paixão repetia têmporas paroxismos os corpos
tensionados refluíam pela névoa chuva miúda na
comissura dos lábios cabelos molhados onde tal
vez suporte do improvável mão vultos movimento
transmude passivo nos labirintos do lirismo
(MARTINS, 2012, p.37).


 (Tatiana Franca - comunicação feita em Três Corações MG)