segunda-feira, 28 de setembro de 2015

meus dedos desfilam

meus dedos desfilam em sua coluna vertebral
distribuindo carícias com a urgência voraz
que os ursos tem ao destrinchar peixes
riocorrente de aflições transbordando às margens
da morada onde tu e eu éramos Adão & Eva
profanando solo sagrado e sendo tu e eu
fera & fera
nesse ínterim
entre o hálito calado ante a pegada e a fricção
da língua contra a carne e contra a garra
os mitos entram em ruína e desalinham todas as
cosmologias ao redor

(jopa moraes)

salomé

sem mais
despe-te

das palavras
que ainda restam

fica nu delas
para contemplar-te
o corpo

fica nu
para contemplar-te
a ânsia

nua
no abismo

de teu sexo
nu


(oswaldo martins)

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

as maltrapilhas

1

vestem
o bom jesus

do ouro saqueado às fazendas
do gado saqueado

oferecem à carne
a glutonaria inventariante

dos cadáveres fazem
carcaças

e as espalham pelo caminho
até o belo monte

2

de vênus

qualquer outro
outra

o que
ousam

é
horizonte

3

guardam
o resto das roupas

e compõem os retalhos
aproveitados ao pó

4

lavam elas
as bocetas
o pó da estrada

5

lavam elas
ladainhas

lavam elas
ladainhas

lavam elas
ladainhas

6

fincam no pé
o assombro terra a terra
da faxina

7

depois esperam
os homens

que seu mantra
espargiram

o assustado
ressequido

espantalho

8

ao vento como
os desolhos

as caveiras
lançam

9

a alma
dos sertanejos

litorâneos

10

que debandam


(oswaldo martins)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

dança

para júlia fernandez

1

meus abismos mais densos
inventeio-os como dança
e corpo

2

os braços se enroscam
neles movem-se umbigos
cadeiras

3

quebram-se
no requebro

4

abrem narinas
fendem no corpo
o corpo

5

perfeito
da ferocidade

6

a dança dos abismos

7

nua como a língua nua

8

dança

9

o q além da dança
dos embriagados

10

de delícias e chão


(oswaldo martins)

1

passos arriscam estradas do que vai lá
arrasto de sandálias os descampados
da barba olho do próprio peito asas
de nos pés ir ou a voz inhã inhã lauda

de deus o ô-dê findo da caminhada cerca
até qual o morro mais ínfimo e longo ecoo
que o bom há-de ecoar até o crescer voo
cano dos desabridos a variante verga       

do anacoreta nas pregas da já louvada
mais achega na voz rochedo das casas
que sobem até o fundo nas espirais                       

do terra a terra pelas matas derruídas 
quando o bom conselho desafia do gado
a posse avara com seu panteão de defuntos


(oswaldo martins)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

lecuona


le sue viscere mi vestono

sulla strada fredda
piove

forse
la città scivola

al di qua di tutto traffico
di tutta ricerca

il bacio come la musica
compone sul corpo

dell’amore
*
lecuona

suas vísceras me vestem

na calçada fria
chove

talvez
a cidade deslize

aquém de todo trânsito
de toda busca

o beijo como a música
compõe sobre o corpo

do amor

(oswaldo martins)

trad. Fred Spada

Confiram outros poemas no site abaixo:

http://www.nuoviargomenti.net/poesie/luniverso-come-traduzione-poeti-brasiliani-contemporanei-2/