domingo, 26 de fevereiro de 2012

Filmes


ao contrário do que algumas pessoas parecem supor, Hugo é um filme para adultos. é um filme para quem tem, a coluna ajeitada ou deformada em poltronas de cinema. 
assim como O artista, muito bom filme, Hugo é uma homenagem ao cinema.
os espectadores mais críticos, devem se desarmar, porque o filme é cheio de lugares-comuns: falas bonitas e comoventes e algumas corridas pastelão. 
o título, dado aqui, A invenção de Hugo Cabret  é um equívoco. o menino Hugo nada inventa, só recupera Georges Méliès, o  primeiro mágico do cinema.
ás vezes, suponho que Paris só existe por causa do cinema americano. por outro lado, é certo que o cinema americano deve muito à Paris.
belas homenagens lhe prestam Scorcese e Woody Allen.

abraqos!

ps-  O Artista é um filme muito arretado.

(Elesbão)

A detestável senhora Thatcher


Fui ontem ao cinema assistir ao A Dama de Ferro. A biografia da terrível mulher, intentada pelo filme, é fraca e ao tentar dar à senhora inglesa alguma emoção, além de trair a biografada – senhora fria como gelo, desprovida de sensibilidade – trai a narrativa, pois, ao tentar trazer à tela convencimentos que lhe adoçassem os detestáveis anos de exercício de poder, eivados de autoritarismo e elevada taxa de injustiça social, se torna patética.

A Dama de Ferro, ao insuflar a parte mais triste do capitalismo, esteja talvez na raiz da crise por que a Europa e o euro passam hoje. Os países envolvidos na Comunidade Comum Europeia tomaram como método o caminho da modernidade econômica, junto à justiça social, que é no mundo europeu, que a senhora Thatcher desprezou, uma saída para a formulação de um socialismo democrático. A crise vivida teria a ver com a “semelhança” com a “filosofia“ econômica americana, que nasce e se planta na Inglaterra da Sra. Thatcher. Não se deram conta, entretanto, que a modernidade econômica, que nos inventou os yuppies, a crença no trabalho exaustivo e sem limites, não se coaduna com o ideário de justiça social.

Por esta razão deve-se debitar na conta da famigerada senhora. Mais curioso ( e terrificante) que apontar para ligação Thatcher/crise é perceber que o adocicamento de sua biografia acontece no exato momento em que as instâncias econômicas internacionais impõem pesado fardo às populações europeias com as mesmas medidas que significam perda substancial dos avanços sociais conquistados durante muitos anos.

(Oswaldo Martins)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

DER TOD DES EMPEDOKLES / A MORTE DE EMPÉDOCLES


DER TOD DES EMPEDOKLES

ERSTE FASSUNG

ERSTER AUFTRITT


Panthea. Delia



Panthea

Dies ist sein Garten! Dort im geheimen
Dunkel, wo die Quelle springt, dort stand er
Jüngst, als ich vorüberging – du
Hast ihn gesehn?

Delia

O Panthea!
Bin ich doch erst seit gestern mit dem
Vater in Sizilien. Doch ehmals, da
Ich noch ein kind war, sah ich
Ehn auf einem Kämpfer –
Wagen bei den sSpielen in Olympia.
Sie Sprachn damals viel von ihm, und immer
Ist sein Nam emir geblieben.


(Hölderlin)



A MORTE DE EMPÉDOCLES

PRIMEIRA VERSÃO

PRIMEIRO ATO

PRIMEIRA CENA

Panhthae. Délia


Panthea

Eis o seu jardim! Naquela secreta
Escuridão onde a fonte jorra estava ele
Há pouco, quando por aqui passei – tu
Nunca o viste?

Délia

Ó Panthea!
Apenas desde ontem me encontro na Sicília
Com meu pai. Porém, outrora, quando
Era criança, vi-o
Num carro de
Combate durante os jogos de Olímpia.
Nesse tempo muito se falava dele e o seu nome
Gravou-se-me na memória.

(Maria Teresa Dias Furtado)

Dois fragmentos de Lúcia Leão


uma bossa nova

disseram que a bíblia era um grande sonho repetidamente interpretado em novos idiomas. pensei muito no assunto e o assunto pensou muito em mim. nos tornamos um só e de tal forma que agora quando falo nele sei que ninguém quer ouvir. difícil abordar uma pessoa que cabe assim totalmente dentro de uma ideia. e hoje quando incomodei a vizinha para pedir água gelada ela me olhou de cima a baixo e me perguntou por que não conserto a geladeira. respondi que minha vida é um deserto que percorro sozinho, só eu e este meu deus. sem falar nada ela me deu uma garrafa plástica, cheia, e uma bandeja de gelo. que eu passasse o gelo na testa, disse, e jogasse a água na cabeça para acordar daquele pesadelo. e riu. interpretei a cena como um sinal. se ela que parece tão equilibrada acha que assim eu resolveria meus impasses, então eu estou no caminho certo. mal posso esperar para ver as estrelas no céu escuro e aberto, deitado na areia, costas no chão, olhos no infinito. mas o que vejo mesmo, da janela do meu quarto, é uma nesga do mar. de copacabana.  neste momento, sei que estamos juntos.


acerto

vigiava maravilhado as pernas dela enfiadas dentro dos patins. na lagoa, as pessoas pareciam não notar tanta beleza. ele ia a pé, de tênis, ela meio rápida com o equipamento que a fazia deslizar com elegância expandida. o desafio, para ele, era acompanhar sua velocidade. não era bonita. nem tinha a juventude de muitas outras ao seu redor. suas pernas suscitavam uma inveja nele como nunca antes. sem serem musculosas, impeliam o corpo para frente como se as montanhas e os prédios, os carros, os barcos a remo, os quiosques, babás, pipas, vendedores ambulantes e restaurantes fosse tudo criação sua, ou seja, dela. era uma deusa. e ele mal conseguia acompanhar o que fazia. não que quisesse tocá-la, sabia que se o fizesse tudo em volta se diluiria em desculpas e explicações. e não há nada pior que encostar no avesso do seu espelho, ele um menino ainda, por dentro. ela, o absoluto de uma quase terceira idade. ela o lembrava de uma professora que nunca tinha tido por ter sido colocado na classe da sala ao lado. talvez tivesse chegado a hora de entender como isso havia acontecido. lembrava agora que as turmas eram divididas pelo sobrenome. 

Poesia espanhola contemporânea


EN LLAMAS
A Jon Juaristi

Canciones que no pueden ser cantadas,
banderas que me manchan con su sangre las manos,
libros oscurecidos por el tiempo,
plazas que sólo existen en las fotografías.

Como el águila vivo
en un bosque incendiado.

El brillo de mis ojos es de llamas extrañas.
Me persiguen las ascuas de una luz enemiga.

Y vuelo, vuelo,
sin un lugar a salvo, sin poder detenerme.

(LUIS GARCÍA MONTERO)

Poema do dia


Histórias de Inverno


A mulher de água
traz limos nas espáduas.
em olhos de lagoa
e o corpo como um rio.

Traz musgo sobre os seios
e a sua voz dá frio,
e o seu olhar magoa.

Mas não lhe sei o nome.

Estende os cabelos de água
no inverno dos meus olhos,
dorme na minha sorte
por toda a noite insone.

Faz um rumor de chuva,
Tem um sabor de morte.

Mas não lhe sei o nome.

(Carlos de Oliveira)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Cosmologia do Impreciso

Os poemas do Cosmologia do impreciso no endereço abaixo:


http://soundcloud.com/cosmologiadoimpreciso

Leitura de Walnice Martins Teixeira para poema do Cosmologia do Impreciso

Leitura de Dora Ribeiro para o Cosmologia do impreciso

Leitura de Geraldinho Carneiro para poema do cosmologia do impreciso

Leitura de Alexandre Faria para poema do Cosmologia do impreciso

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

angeline


angeline

ela é tão bonita
tão bonita e tão boa
nem precisava ser princesa

deu-nos pão
deu-nos água
não nos deixou a vossa beleza.

elesbão
(15/02/12)


A primeira vez que vi Angelina Jolie foi no filme Corações Apaixonados. Rosto e interpretação me fizeram crer que estaríamos, em breve, diante de um novo mito cinematográfico. Mas enganei-me. Jolie tornou-se uma samurai. Tenho uma inveja danada do Drummond pela Greta Garbo dele.
Certa vez, vi o ator Luiz Delfino, marido da Marlene e da Emilinha (sic), tecer comentários babões sobre Brigite Bardot, na tevê, mas eu era menino. Só há alguns anos, descobri a moça, num filme de Godard que deitou-a nuazinha de perfil numa cama. A câmera de Godard é um arraso!

Angelina, salvo engano, anda pelo mundo defendendo os direitos humanos e distribuindo caridade. Acho isso bonito, gostaria de fazer isso: devolver riquezas.
Mas me pergunto se essas pessoas aceitariam que o mundo mudasse de jeito a não precisarem delas e se aceitariam as perdas e danos (Louis Malle) que isso implicaria.


elesbão
(16/02/12)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pilulinha 20


O Livro de Praga, de Sérgio Sant’Anna, escrito para a Cia das Letras, é constituído por uma economia verbal rigorosa. Nos contos em que se passeia por Praga – intencionalmente, o autor visita, além dos ícones da cidade, uma tradição literária que sempre se quis moderna, inquieta e renovadora.

Praga – narrativas de amor e arte – é tudo isso – um visitante da boa tradição dos contos e da inovação absoluta da arte experimental. Já na primeira história – A Pianista – anuncia-se todo o refinamento e tema que Sant’Anna desenvolverá num crescente e pungente erotismo – que o digam A Tenente e O Texto Tatuado, para não falar do erotismo profundo e dilacerante de A Boneca.

O erotismo nos contos de Praga transcende a carne e se joga no corte preciso da arte indo além da perspectiva do erotismo tout court. A criação das perspectivas de se ler o que a arte e a arte de narrar podem ainda atingir leva o leitor ao cerne mesmo da indagação da leitura. Uma peculiar mímesis se opera nos contos do autor, sem que o depurado intrarrealismo[i] de Kafka se afaste do pensar ingente das impossibilidades, os contos de O Livro de Praga o visitam e sugerem a angústia do inominado.

Ao mergulhar nessa angústia não é que o erotismo se afaste para dar lugar ao metafísico, mas que num e noutro polo o erotismo se realiza fazendo do espírito também ele parte sensível dos desejos, como se pudessem ser tocados nesta agônica escrita toda a totalidade do homem despedaçado e silencioso que, entretanto, confronta a esquivança do mundo e dela toma posse.

Para o Cláudio Leitão, pela indagação


[i] Por intrarrealismo queremos dizer do realismo que nasce da perspectiva narrativa ela mesma

Dorival Caymmi - A preta do acarajé/Marcha dos pescadores

A preta do acarajé


Dorival Caymmi

Dez horas da noite
Na rua deserta
A preta mercando
Parece um lamento
Ê o abará
Na sua gamela
Tem molho e cheiroso
Pimenta da costa
Tem acarajé
Ô acarajé é cor
Ô la lá io
Vem benzer
Tá quentinho

Todo mundo gosta de acarajé
O trabalho que dá pra fazer que é
Todo mundo gosta de acarajé
Todo mundo gosta de abará
Ninguém quer saber o trabalho que dá
Todo mundo gosta de acarajé
O trabalho que dá pra fazer que é
Todo mundo gosta de acarajé
Todo mundo gosta de abará
Ninguém quer saber o trabalho que dá
Todo mundo gosta de abará
Todo mundo gosta de acarajé

Dez horas da noite
Na rua deserta
Quanto mais distante
Mais triste o lamento
Ê o abará


sábado, 11 de fevereiro de 2012

Acasos persistentes

3

Aberta ao fato
de haver palavras,
a poça d'água
reflete, imóvel,
a tarde exata.

E, se acaso,
a vinca um inseto,
a bebe um pássaro
ou a desata um passo,
logo se fecha,
imaculada,
em seu presente inato

(Cláudio Neves - Os acasos persistentes)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Poema do dia

a topografia das
lagoas
se regula pelo
voo de certos animais

há muito de
habitável e respeitável
no cerne das águas

a boa feição
da tradução aquosa
não impede que
a história temporã
seja composta em
em língua madura

(dora ribeiro - olho empírico)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Adelino Magalhães e Guimarães Rosa


__ Não, medo propriamente, eu não tive! Comecei a tremer muito, é fato, e vendo todo o mundo espantado, também fiquei um tanto zonzo, como se já não estivesse... em mim mesmo! Uma coisa curiosa! Depois, eu não sou religiosos...
__ Entonce os outro?
__ ... mas fiquei assim numa dúvida: e se fosse mesmo alguma coisa sobre natural, por quem chamar? Por Deus? Mas eu não sou...
__ Entonce os outro?
__ Ah! Todos com um pavor inconcebível! Calcula que até o Isaías e o Jorge Turco, homens daquela coreagem, quase morreram de sust!
__ Mas enfim... era mesmo assombração, sô Quincas?

(Adelino Magalhães – Casos e impressões)


— Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade

(Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas)