segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

ode

 

ode 1

descantar os sucessos do dia as hordas

de orifícios compõem do tempo

a sua ficção

 

casebres e palácios surgem do nada

para onde seguem sem suspiro

ou vozes

 

as cataratas cegam ao sabor do léxico

os desguardados dele – tudo – o silêncio

de vias findas

 

as potências alardeiam de há muito

o silêncio-torpeza afetivo do acúmulo

ao dará deus

 

as fugas inexistem ao pé de um toque

o mundo cessa as casas caem

o outro já morto

 

os versos decantam seus licores

o abismo mostra onde ressurge

sobre a garupa

 

uma biruta de desnortes assente

na embriaguez vela o tartamudeio

das sintaxes cruas


ode 2

o látex serve bem à sua dona

impõe-se justo à maré baixa

da boca coleante das línguas

 

náufragos dele tanto necessitam

quanto afagos crus sugerem

o irem-se descamados ao rés

 

do submundo para ouvirem

da sarça ardente o reproche

e se ajoelharem cães aos pés

 

divinos – corcel condutor da chã

obediência em seu elástico

movimento entre o imundo

 

e o prazer

 

ode 3 

os pés sobre a terra

acorde após acorde adiam

a fenda lenta ao subir

 

mostram através dos passos

pernas a andarem o corpo

sopram surpresas às ruas

 

com suas sarnas – fulgor

a relampear – essa visão

tirana do instante – depois

 

as sombras caem nos ventos

do silêncio retorto avançam

até o limite da ave sem voo