segunda-feira, 2 de julho de 2018

bens da perduração


os bens da perduração:
um relógio sem tempo
um cinzeiro estilhaçado
amores que se perdem

as benfazejas noites
um copo de cachaça
e um ombro para as
descargas emocionais

injeção para o tétano
e este pequeno risco
de palavras sustento
diário para o tranco

das desditas

(oswaldo marins)

sábado, 9 de junho de 2018

o capitalismo pós-moderno (sáitra menipéia)

a boca
era
um cu

o cu
uma
boca

assim como a bunda
era um rosto o rosto
era uma bunda

assim como olhos da cara
se tomavam como olho do cu
o olho do cu
custava os olhos da cara

(oswaldo martins)


domingo, 3 de junho de 2018

#LulaLivre



#LulaLivre
#LulaLivre
#LulaLivre
#LulaLivre

O Chefe da Polícia


Aberto como uma ferida, o sol no céu dessangra-se
Um aeródromo.
Prisioneiros preventivos, mãos no ventre.
Porretes, jipes,
muros da prisão, delegacias
e cordas que balançam sobre o patíbulo
e os conterrâneos que não aparecem
e um guri que não suportou a tortura
e se jogou do terceiro andar da Chefatura.
E aí está o chefe da polícia
salta do avião
volta da América
de um curso de formação.

Estudaram métodos para não deixar dormir
e ficaram maravilhados
dos eletrodos aplicados aos testículos
e também deram palestra sobre nossas celas de castigo,
ofereceram explicações satisfatórias
sobre como pôr ovos recém-cozidos nos sovacos
e como, delicadamente, esfolar com fósforos acesos a pele.
O senhor Chefe de Polícia salta do avião
volta da América
porretes e jipes
e cordas que balançam sobre o patíbulo,
o chefe voltou, dizem encantados.

Tradução Francisco Manhães do poema de Nazin Hikmet.

terça-feira, 29 de maio de 2018

matisse


10

essa mulher sem rosto, marroquina
vivia num prostíbulo elegante de espanha

depois mudou-se com seu tapete
para uma casa qualquer e lá deixou-se
envelhecer com seu gato

(oswaldo martins)

segunda-feira, 28 de maio de 2018


francesa, mg
(oswaldo martins)



4

o nu blue foi conquistado
quando matisse visitou
no lugarejo de francesa mg

a puta que em sua casa dava
aos visitantes a metamorfose
dos tons cambiantes cujas

réguas torciam de espantos
o experimento de deus

(oswaldo martins)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

goya



pichar os muros
como se último goya
em abismo a preto e branco
das desfiguras que assombram
opinativas o país carcomido dos asnos
que avoam qual mostrengos que o levam
como se lavassem a alma ao poço bem fundo
das masmorras ao desalento e ao gáudio funesto

da desrazão


(oswaldo martins)