quinta-feira, 15 de setembro de 2016

desimitação de marguerite

tem a beleza um rosto trágico
retinas olham desde o colo
para aquém delas a centelha
que se esconde e supõe contra

o próprio olhar – agora cego –
um olhar de si – aturdido –
a debruar-se nos pentelhos
teias tangíveis as guitarras

ecoam abismos flor de lis
no peito que olhara sob
tal mantel as margaridas

nas braçadas do teatral viés
guardam nome por não dizer-me
das vozes – mananciais fodidos


(oswaldo martins)

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

desafio aceito


da poesia

1
lirismo sacana

se explodir significa dizer
la petite mort

vá à merda e
afinal

vê se não fode

(oswaldo martins)

2
delicadeza lírica

ir à foda como se vai ao mar
para ser devorado por tubarõas


(oswaldo martins)

retrato

para joão simões fortini

1

por triste o sorriso
quem a seca
estende ao léu
o rosto

2

mas havia negativos
e inversas possibilidades
para o rosto
que reverbera em dry martini

3

ainda no reverso
advinda em lagos,
nigéria
ou na meca do capitalismo

4

podia a vida
mais que a vida pode
se as moças dançassem nuas
num cabaret de paris

5

ou no 69 barbacenense
a que se ia, de bicicleta
pelas bolhas da cerveja
e o lirismo que explodia


(oswaldo martins)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O Cristo de Eugênio

Eugênio Hirsch várias vezes nos visitou em casa. Com seu jeito peculiar de ver o mundo, nos ensinou muitas coisas, a todos. Lembram-se com carinho dele meus filhos, Walnice e eu. Um dia, desses perfeitos que o passado nos cria e faz sentir saudade dele, convidei-o a ir a Barbacena para corrermos o barroco mineiro. Tiradentes, São João e Congonhas – não deu para esticar até Ouro Preto, pena.

Armou-se o amigo de desenhos feitos por ele para presentear a casa de meus pais. Levou uma montagem com a figuração da Pietá com recordes feitos por ele mesmo. Era uma interpretação livre – Zélia Cardoso era a Madona que amamentava um garboso Grande Otelo de Cristo, com uma bela e portentosa atriz, de que não me lembro agora do nome, de cupido. E para meu pai um Cristo na cruz com um pau enorme e ereto, também em montagem de imagens de revistas.
A conversa e explicação da imagem para meu pai foi uma conversa a Eugênio.

Ah, sim – dizia – ele (o Cristo) era do carajo. O fato de ter comido Madalena e algumas outras merecia uma homenagem e como toda pessoa ao morrer tem a rigidez peniana não poderia ser de outra maneira que se podia retratá-lo na cruz. E daí decorria sobre a arte clássica com enorme fervor e sacanagem, temperados pelos ah, sim, que soavam musicalmente nos nossos ouvidos.


(oswaldo martins)

notação

1

o avesso

talvez a janela despeje
pássaros de olhos assassinados
                                                                         
2

o relógio

você rodava sentadito
em uma gangorra da infância

3

o exato

quiçá fosse a manhã
a brancura das roupas sem sol maior

4

a casa

o assoalho rondava os ratos
que ávidos se faziam de mortos

5

a equação

o alarido do dia
explode fora dos silêncios

6

x

em uma igualdade de sentidos
apreendia-se o abismo


(oswaldo martins)

domingo, 21 de agosto de 2016

Pilulinha 48

Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, de Elvira Vigna, tem a qualidade de não se deixar cair em nenhum tipo de concessão ao sentimentalismo emocionado, no entanto, se constrói a partir de um dilaceramento interno de seus personagens, que beira o mais puro lirismo. A linguagem precisa, cortante, envolvente para o leitor, é o tempo todo desconfigurada pela narradora ao, no ato de contar, deixar entrever que a história que se conta não é a história que se conta. Há um além que cinicamente vai sendo desmascarado pelo pensamento que de forma elíptica vai se construindo.

As personagens são surpreendentes. A construção em espiral – as irrealizações possíveis, o jogo de esconder-se de si mesmo –  vai se sucedendo numa possibilidade única, numa temática única, que explode na temática que se escondia sob os desacertos da narração. O palimpsesto – a forma machadiana preferencial –, aqui vivenciado pelo não contar o que na verdade se conta, apresenta a maestria de Elvira, em seu grau mais intenso.

Talvez na literatura brasileira as putas – mas não é, e é, sobre elas que se escreve tenham tido a sua presença narrada de forma tão lírica e humana. As putas do livro assumem um grau de complexidade trágica. Presentes o tempo todo no romance, por sua ausência de caracteres, assumem a máscara trágica que se revelará na cena da morte de Cuíca. A partir desta estrutura, o romance retira as máscaras de seus atores e os coloca nus frente a eles mesmos.

Como nas grandes tragédias, resta ao leitor debater-se com o mundo derruído da contemporaneidade.

Ps – leiam com atenção como a personagem Lurien é o oráculo que se salva.


(oswaldo martins)