quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

antiode ao apocalipse

se

aretino criou uma metafísica própria estranha ao mundo dos mortos a foda de adão e eva
henry miller buscou no espanto da linguagem suas derivas à morte
bukowski no rito dos sacripantas afugentou as esteiras de deus, com bebida e trepada

inventaram o moderno carpe diem

dançaram como dançam as bacantes
dançaram como dançam as ninfas
dançaram como dançam as putas

fizeram da linguagem um altar ignóbil para nós
fizeram da linguagem um avatar dos sem deuses
fizeram da linguagem a língua sem igual

na memória das triste putas
na descoberta da américa pelos turco
na boceta de chupeta
na teresa filósofa
na justine

a língua que nos revela anadiômenos
surgidos do nada

a língua de nossas misérias
de nossos trampos
de nossos vieses mais sórdidos

a língua universal em que trocamos desditas e trepadas
como deuses

a língua dos exus
que abrem os caminhos

a língua dos itimoratos
que mandam à merda o juízo final

sem mais

os pastores das ovelhas do dízimo
os pastores das ovelhas inquisitivos
os pastores das ovelhas carcomidos

pela retórica vazia
pela retórica apostrofaica

torquemadas da modernidade

fazem vezo de puros e benzem vassouras fazem vezo de puros e benzem os coxos para que comprem as vassouras benzidas fazem vezo de vozes celestiais para venderem aos pios a pia a piaba com que pagam a cura com que pagam a pia as vassouras os coxos os pastores dos piolhos

piabanhos senhores dos fracos de espírito
piabanhos senhores da destruição e do caos
piabanhos senhores empoleirados em linguagem reles

anunciadores do fim
anunciadores da esquálida morte em vida

sua ladainha irrita os ouvidos
sua ladainha irrita a pelve
sua ladainha é uma ficção urdida por um poeta ruim

truões que se divertem com a núncio do caos
truões que se postam ao largo das desditas
truões com taça de champanhe na intimidade

o cálice sagrado no púlpito destila fel
destila podridão e o cu do mundo

é aqui

como wall street foi o berço dos canalhas da subjetividade
como wall street foi o berço das novas batalhas
como wall street foi o berço da ocidental praia lusitana

os neo canalhas vociferam na bolsa humana
com cartão de crédito reinventam a escravidão moderna
das dívidas sempiternas dos que despossuem tudo

até a consciência de si
até a insciência dos bêbados de um deus impostor
dos deuses todos

impostores que subjugam a vida
que subjugam a molície dos homens das mulheres e dos gays

a malícia dos que trepam nas ruas
como se as ruas fossem a nossa casa
e assim retomada a vertigem dos dias
como queriam drummond e souzândrade
poderiam explodir as ilhas desta velha e nova manhattan.

(oswaldo martins)


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

pilulinha 50

O Fogo de Henri Barbusse, editado pela Mundaréu, no Brasil, tem a virtude de pegar o leitor aos poucos. A descrição da guerra, da crueza da guerra, vai aos poucos se desenvolvendo até que da narrativa não se consegue esquecer e exige uma leitura contínua até a última página.

No front da 1ª Grande Guerra, o homem está sozinho, abandonado; contando com o imediatismo da sobrevivência, alguns elos humanos são feitos e destruídos. Os generais, senhores da guerra e das nações, não se mostram em nenhum momento e sua ausência se transforma na grande presença da inutilidade dos eventos, que são a luta, a fome e a miséria de homens que se matam por um naco de terra – que não pertencerá a eles.

Escrito no ano de 1916, O Fogo, além do infausto da guerra, traz duas reflexões ao largo da narrativa. A primeira, sobre os alemães, permite que se perceba a guerra, para acabar com todas as guerras, como um instrumento da opressão que inevitavelmente levaria à 2ª Grande Guerra. A segunda, o processo que reflete sobre a guerra dentro da guerra, quando a Rússia, ao se afastar das lutas externas, se coloca internamente na luta contra os generais e reis que da guerra até então não participavam. Serão derrotados, e Barbusse percebe as possibilidades de um mundo que não evocasse as trincheiras abandonadas pelos donos das nações.

Pouco importa se o prognóstico do autor não corresponda ao que a história nos propôs. A atividade intelectual deve se fazer sempre sobre o risco da reflexão ligada a seu tempo.


(oswaldo martins)

sábado, 7 de janeiro de 2017

duas desimitações desembestadas

desimitação de bukowsk

a conversar com as baratas e a ler um livro
para que ele o arrase, caro leitor
ou trançar metáforas fedorendas
loucas de bêbedas
caídas no porre

entre a cozinha atulhada de lixo
e com copos emborcados
corpos pelo sofá da sala
que não dá conta de si
como o algodão nas narinas do morto

pode dar conta de vencer a noite
seu tédio o que não fazer da vida

poesia é que não é
nem aqui nem na ali califórnia

(oswaldo martins)

desimitação de vinícius

uma copa de uísque
uma copa de árvore
uma copa de mulher

e o vomitório bêbado
das paixões platônicas
realizadas ou não

e o latinório fugaz
de quem com a língua
faz o que quer

supõe ao réu a dúvida
de ser no sovaco da menina
de Ipanema

o que designa a língua
quando se desata a fúria
deste meu cão engarrafado


(oswaldo martins)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Pilulinha 49

Machado, novo livro de Silviano Santiago, lançado pela Cia. Das Letras, no último dezembro, constrói, a partir do grande escritor brasileiro, uma obra em que a linguagem de apropriação do outro se torna ao mesmo tempo um duplo palimpsesto. A mimetização do estilo de Machado por Silviano é também a mimetização do estilo de Silviano por Machado, operado por uma narrativa que nos entrega – e ensina – como os romances de um e de outro, ou como os romances, devem ser lidos e escritos.

Primeiro palimpsesto: o Machado que se anuncia na intenção da narrativa é o Machado dos últimos anos de vida, carcomido pela doença e por seu tratamento; entretanto, mais que o fluir da narrativa que nos mostraria o velho bruxo em sua inteireza, repassando passo a passo seus últimos anos, a escolha, ao efetivamente percorrer estes anos, nos mostra outra deriva, espicaçando a curiosidade do leitor em várias outras direções. A técnica de despiste tão machadiana aqui se aplica como uma luva. Ao evocar a presença de diversas personalidades da época, Silviano faz-se bruxo e palimpsesta (deve-se ler aqui o vocábulo como verbo) na narrativa a sociedade da primeira República, a chamada Velha, e com ela constrói um painel desvantajoso, sob a capa do elogio, de nossa formação republicana.

Tal palimpsesto se abre em outra direção, dando vigor ao nosso segundo palimpsesto.

Segundo Palimpsesto: a República, chamada Velha, insisto, adquire colorações do presente. As escolhas dos textos de diversos autores, os anúncios em jornais da época, os documentos selecionados por Silviano dão conta de uma amplidão bem maior e nas entrelinhas do romance se inserem diversas estocadas que dão conta da paralisia de nossa vida política, sempre afeita aos mitos fundadores da grandiosidade da terra. Ao roubar de Mário de Alencar a herança paterna, joga como uma sombra, que se estende ao longo de todo o romance, a dúvida que ainda hoje permeia uma diversidade grande das obras literatura escritas por aqui, mistas de auto complacência e deslumbramento com os mitos fundadores.

O segundo palimpsesto se constrói aos poucos, vai juntado pedaços de discursos para explodir com força no penúltimo capítulo do livro ao expor a percepção machadiana, a partir da presença de Joaquim Nabuco. As derivações a que se prendia a narrativa machadiana se diluem e se reforçam em outra direção. A consistência da obra Machado se condensa, o espectro narrativo se adensa e faz com o leitor mergulhe em outra direção e perceba que o Machado ali presente é Silviano e o presente de sua época, esmiuçados com um piscar de olhos rápido e rasteiro como o de um capoeirista ou de uma vidente que nos prevê irônica e desconsoladamente o futuro reservado aos gêmeos de Esaú e Jacó.

No Machado de Silviano, as metáforas bíblicas cedem lugar ao trágico grego. Se aquela nos dava uma lição de moral – e bons costumes – esta nos dá a possibilidade trágica que formula uma ética. Os irmãos Pedro e Paulo no burlesco que estão envolvidos semelham a burla da própria república brasileira, cujos representantes são patéticos e moralistas.

O último capítulo do livro é uma pequena peça que enfeixa e dá ao romance a ousadia com que foi escrito. A análise do quadro (que se anuncia na primeira página do romance) vai compondo um painel que é ao mesmo tempo o louvor de Machado, e, ao contrário do que possa parecer, o elogio dos decaídos, dos doentes, dos desprovidos, dos desobedientes.

(oswaldo martins)





quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

baco bêbado

essa cara não me engana senhor paul cesar
finge-se de divindade para a guimba
garantir como um velho sábio
ou o trago de última hora

para o torto francês do ali
há pouco aprendido nas casas
das putas que nem francesas eram
talvez polacas a elas a elas senhor paul cesar


(oswaldo martins)

Mariinha revisitada e revista

1

José Maria

Mariinha recebia em seus domínios a vasta rede de relações humanas da cidade. Velhos coronéis, médicos, professores, amanuenses, alguns padres e os bêbados contumazes que ali iam ter um pouco de proteção e carinho. Suas meninas serviam, sentavam-se para um dedo de prosa desinteressado. As visitas tinham em sua casa aconchego e paz.

José Maria, do púlpito de sua igreja, vociferava contra os desregramentos – comparando a cidade à Sodoma, à Gomorra – ameaçava com o sal, com a chaga, com a lepra. Apontava o caminho do Carmo, o leprosário que era mantido pela irmandade das carmelitas órfãs. Tantas fez o pároco que acabou sendo chamado a descanso e oração por seus superiores. Do que não se sabia era a razão da volta triunfal de José Maria à cidade. Fanfarras, prefeito municipal e até o capitão, que comandava o destacamento local, acorreram na demonstração de apreço e laços de amizade. José Maria sorria, feliz.

No quinto dia, após o beija-mão das beatas, convocou Mariinha para uma conversa na casa paroquial. Aí havia – ah, se não havia – remoía a grande dama. Quando o coroinha, menino de uns doze anos, levou-lhe o recado, esquecera-se de dizer o dia em que o padre a esperava. Pensou em chamá-lo, mas esperou e em seu lugar gritou por Gracinha, mulata nova e sorridente. Gracinha, que tinha do nome a leveza e os atributos que levaram o Doutor a apelidá-la assim, acorreu.

__ Dona?

A papisa estendeu a mão e a convidoua sentar. Gracinha, com os peitos meio a descoberto, brejeira, sorrindo, sussurrante, murmurou para Mariinha:

__ Doutor?

Sorri, passa a mão sobre a cabeça de Gracinha e espera. Olha a seu redor, a casa estava bonita, pintada de nova, com cadeiras e poltronas confortáveis – a mesa era farta, as meninas, escolhidas a dedo. Diligenciara a decoração da casa – a cor penumbrosa, convidativa, lembrava os meios tons de uma sacristia. Fizera de propósito, sua experiência mostrava que os homens gostavam de gozar e depois se arrepender. As mulheres de seu tempo, em sua casa, sempre conheceram o recato da sala e soltura da cama – entre a santa que sabia ouvir e a puta que pedia mais e deixava-se bater. Agora José Maria, em triunfal volta e poder.

__ Gracinha, vá e diga ao padre que de uns dois dias estarei lá, boa devota sou e não posso recusar o chamado de meu pastor. Mas, arrepare, faz com que ele te bata. Se voltar sem ter apanhado uma surra, esquece minha casa.

Recompôs os peitos para dentro da roupa, foram para dentro de casa e voltaram, com Gracinha pronta para cumprir seu dever. Em sua bolsa levava algumas outras pequenas coisas, além de uma espórtula para as obras da Igreja. Saiu sorridente – sua carreira de puta começava bem. Primeiro o Doutor, agora o padre.

__ Bença, Padre, vim a mando de dona Mariinha.

Com o cenho fechado, o padre hesitou. Aparentava uns quarenta e poucos anos e tinha a tez dos morenos de além mar. De boa compleição, mesmo bonito podia dizer-se que o padre era. Ao ameaçar fechar a porta, encontrou meio corpo da mulata já em sua casa, que, rápida, pulou pra dentro. José Maria tremia, o rosto cada vez mais fechado.

__ Dona Mariinha, manda que eu vince vê o pastô. E descuidadamente faz um gesto de retirar algo dos seios. Com malícia falava e esperava, aturdia o padre.

__ Dona Mariinha...

José Maria não pensava, apenas via, em seus domingos gloriosos de púlpito, beatas vestidas, vestidas. Entrara cedo para o seminário, e o mundo para ele havia sido desde então aquelas mulheres de roupas enegrecidas. Odiava-as. Mas essa parecia diferente, lembrou-se do capeta.

__ Dona Mariinha pediu... e esperava. Pediu que entregasse pra ocê, sinhô.

E enfiava a mão nos seios, cada vez mais os descobrindo. Num gesto meio estabanado, de quem sente vergonha, Gracinha toca as mãos do padre, que recua. Lembra-se das duras noites de frio do seminário. Sorri para o padre. Retira um papel e o movimento se faz de tal jeito que, ao mesmo tempo em que ela desaba sobre o padre, que cai, seus seios pulam para fora do vestido. O padre a empurra, ela se abandona  nele, que se enfurece e a empurra com mais vigor. As mãos da mulata apertam seus braços contra o chão. Os joelhos dela se dobram ao longo da cintura do padre, que não se mexe. A voz de Gracinha soa fresca, feliz:

__ Dona Mariinha, mandou que eu vince, eu vim para dizê pru sinhô que dispois de amanhã pela tardinha estaria aqui pro mode de falar com o pastor.

Sente o corpo do padre enrijecer, depois relaxar e, lentamente, solta as mãos de José Maria que se mantém crucificado no chão. Com certo receio, passa a mão sobre o rosto, os dedos tocam os lábios e inesperadamente começa a bater no rosto do padre devagar, devagar. Seus seios balançam. José Maria fecha os olhos e os abre, quando sente a mão de Gracinha descair de encontro a sua face com uma força cada vez maior. Grita. Em vão. Gracinha continua a espancá-lo. José Maria sente-se como que espetado pelo tridente do demônio. Derruba-a de cima de si. Ela luta. Seu vestido se desfaz cada vez mais. Suas pernas enroscam-se às pernas de Maria. O padre busca puxar-lhe os cabelos. Gracinha ri. Rolam pela antecâmara do quarto.

Após a noite do padre, Gracinha procura recompor-se – assim como o Doutor e Mariinha lhe ensinaram algumas das artes de sua profissão, fizera ao José Maria sua iniciação como instrutora e amante. Sabia que Mariinha ficaria satisfeita – galgara um degrau na hierarquia das putas.

Recolheu suas coisas, beijou o padre na testa, em gesto maternal e falou:

__ José, dona Mariinha pediu pra avisar que vem, mas me mandou antes para falar com o sinhô.

O padre respirou lentamente. Pensava.

__Diga à dona Mariinha que a espero na igreja, no próximo domingo.

Tempos depois, quando de férias para o litoral, Mariinha banhava-se numa praia quase deserta, esquentando ao sol. Acompanhava-a a divina Graça, com seu sorriso.

__ Doutor, vou ficando velha. A arte de domar meus cabritinhos, de conduzir a sociedade, com segurança e tranquilidade, passo a outras mãos, querendo dispor. E riu apontando Gracinha. Para mim, entre convidativa e festeira:

__ E o menino, quando aparece?

Ao nos afastarmos, o Doutor, certo de que seu tempo havia chegado junto ao de Mariinha; eu, louco para que acabassem as férias, percebemos ao longe a figura de um velho cônego, que nos acenava, reintegrado à vida.

2

Mariinha, o cônego e o doutor

Mariinha contou ao Doutor quando foi ao confessionário da Igreja. O cônego era ser amigo já de muitos anos. Com os proverbiais segredos de alcova e sacristia, se entendiam às mil maravilhas. Se o padre dava a extrema-unção e acalmava a consciência pesada das moças; Mariinha, a grande senhora, oferecia seus préstimos e suas pupilas, e, é claro, para as pequenas obras da igreja seus dízimos. Era quem fazia a ceia do natal de jesus cristinho da casa paroquial.

Eram perus que não acabavam mais, farofa de miúdos, rabanadas e, preferência do cônego, baba de moça, bem molhada. O religioso se refastelava. Mariinha, que ali se introduzia com cuidado, passando por uma porta lateral e vestida à moda de então, capa de boiadeiro e chapéu, se via na condução da cozinha enquanto era pronunciada a missa da meia-noite. Quando o padre – solitário – voltava tudo estava pronto e Mariinha já voltara para sua casa onde presidiria o natal dos deserdados da cidade. Deixava apenas uma das suas moças para servir a janta do Padre José.

Tantos foram os natais em que a cena se repetira que foram aos poucos se descuidando e como era inevitável cruzaram-se o cônego e Mariinha, nas antessalas da casa. Meio atrapalhados, os dois se cumprimentaram e travaram um pequeno diálogo sobre seus negócios. Como estavam bem, se despediram e, discretos, foram cada um a cumprir o papel que lhes cabia.

Quando já morto o cônego e Mariinha envelhecida, em uma consulta, contou que, na famigerada noite, a frase que o padre soltara quase ao acaso e que lhe ficara na cabeça durante todos esses anos foi como uma absolvição de seus pecados. Circunspecto dissera “você sabe, Mariinha, que, neste mundo de Deus, a única coisa que dá mais que minha paróquia é sua casa e suas meninas”.

Levantou-se, despediu-se e disse com a cara mais santa que podia “hoje, Doutor, eu pago a consulta”. Com uma de suas tiradas, o velho Doutor respondeu que a paga já estava na mesma medida do santo padre, pela eternidade da história.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Dez dos melhores livros lidos em 2016

1 – Machado, de Silviano Santiago;
2 – Os contos de Kolimá, de Varlam Chalámov;
3 – Submissão, de Michel Houllebecq;
4 – Como se estivéssemos num palimpsesto de putas, de Elvira Vigna;
5 – Sem Gentileza, de Futhi Ntshingila;
6 – O conto zero, de Sérgio Sant’Anna;
7 – Teoria da não conceitualidade, deHans Blumenberg;
8 – Abnegação, de Elesbão Ribeiro;
9 – O uruguaio, de Copi;
10 – Anna, a Voz da Rússia - Vida e Obra de Anna Akhmatova.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

duas desimitações - uma barata outra gaiata

desimitação barata do tropa de elite

a dança nua
desobedece os deuses

gosta de putarias
se sabe a índias

trança as pernas em algazarra
como ornella mutti

e bem gazzara no conto
de bukowski


transposto para as telas


desimitação gaiata dos velhos árcades

antes do bosque a cidade
um foda-se para o claudio
outro para o peixotinho
do rolim apenas a rola

antes do bosque a cidade
um foda-se para as begônias
outro para os jasmins
da rosa apenas o trancelim

antes do bosque a cidade
um foda-se para os bucolíticos
outro para o cheiro a bosta
de marília apenas o belo negocim

antes das virgens as filhas de baco
que são –  entre outras coisas –
flores do balacobaco


(oswaldo martins)



quadro

à vermelha do umbigo pele
carcomida pela tinta táctil
de olhar o avesso do ponto
quando sem fuga o tranco

corpo a corpo com o poema
vaza em tela embrião sóbria
muda velhacaria essa roupa
deixada ali à súbita avidez

com que os braços a caírem
interrompido o gesto gritos
não ouvidos sobre o poema
que por fim o traço se feito

desdiz no correr dos pincéis
parados no ar a seca alusão
do nu em movimento ritmo
da austera vertigem a busca

do centro a que ninguém vai

(oswaldo martins)



pequeno poema de amor

deitou-se
no chão frio do quarto
ao lado da cama
e em delírios
dizia e repetia
e eu a pensar que fosses minha

elesbão ribeiro
20/12/2016