quinta-feira, 10 de maio de 2018

o socalco da madame


do sul primário a lição das descoisas:
um fio q se arrasta feito de soberbas
no próprio umbigo a olhar-se ousia
do vago-simpático feitor de escravos

do sul primário a raiva dos privilégios:
um q! cu róseo de aromáticas águas
aos traques do pseudo alabastrino
vaso de vazar as tripas intestinas

do sul primário a malsã consciência:
do quid do quê – puto discursivo
de alquímicas lambanças finas –
quando desanca a baiana voz

dos paraíbas

(oswaldo martins)

quinta-feira, 3 de maio de 2018

matula


as praças transitam por meus ombros
carrego-as a tiracolo e translúcidas
borboletas pousam-me os escombros
atassalhados pelas larvas úmidas

bebo o rasto líquido das pernas
que transitam no vai e vem das calçadas
me chutam me pisam como deidades
neo-liberadas de extensas catervas

me indagam se de divas se de súcubas
o manto das praças pórticas cobre-me
a mão descarnada da mão defunta

por vagar sem defesas como ao léu
andam os homens cujas bolas caput
pelos honrados homens da lei

(oswaldo martins)

malta

que os versos os proíbam
velhos poetas da minha laia
a certeza que se segue
às palavras

que lhes tragam antrazes
não na alma
que é lugar vazio
mas feridas nas pernas

e lhes façam pungir
o engodo dos nomes
pelas noites malsãs
da sordidez

(oswaldo martins)

quarta-feira, 21 de março de 2018

xou da xuxa – o ovo da serpente



estavam abertas as portas
e ela chupava o pirulito bá-om bá-om
a linguinha esperta percorria o pra lá pra cá do deleite baboso

estavam abertas as portas e pelo queixo no sinal luminoso
escorria a cantoria cega do chup-chup que a menininha
na aziaga travessia sugava

estavam abertas a portas para a pequenina idiota
que se mirava na exemplaridade da moça
de salto alto e anúncios luminosos

estavam abertas as portas e as potências do horror

(oswaldo martins)

sábado, 10 de março de 2018

terça-feira, 6 de março de 2018

largo do machado


3

largo do machado

vozes altercavam sustos comezinhos. a casa do noca, o papagaio acordado antes da hora, passos. um zumbido constante como que rompia o freio dos ônibus. e o velho, os velhos.

vozes disputavam bugigangas a um real. limpo de manhã e vento, o moço louro. mexericos subiam e desciam como um pregão a anunciar o início dos dias. truco de caras ríspidas.

vozes iludiam o silêncio monocórdias. qual lúcida trombeta, raspavam pratos, dedilhavam cordas. por um segundo, a praça estancada. o som daquela gaita que um velho explodia com sua barba de dez centavos.


(oswaldo martins)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

26 poemas hoje


2

os dentes novos se apertavam uns contra os outros.  trincava, senão a cara, a tensão das armas. o ruído da rua, como o de um pássaro na espera da primeira bomba em bagdá, importava pouco.

os dentes trincados, a cara enfezada. o denodo da ingerência e o riso perdido na mesma imagem com que a soldadesca alheia faz explodir damasco.

os dentes turvos, a cabeça baixa e o surto de cólera contido, a mão pendida entre o afastamento da mãe e o adeus interrompido, quando, no jacaré, fotografam do pai sua infância atalhada.

(oswaldo martins)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

26 poemas hoje


1

sentada sobre si mesma olhava as sandálias que cruzavam as calçadas; com displicência, fingia desconhecer os pés dos que passavam, dos que apagavam o cigarro, dos que se contorciam ao andar, dos que gesticulavam sozinhos.

sentada sobre si mesma – as pernas cruzadas – em um dos seios, uma criança fartava-se ; às vezes seu olhar deixava de perquirir a rua, fingia concentrar-se na criança que trazia ao colo.

a perna balançava e lentamente o olhar se perdia. não mais a rua, não mais o movimento da rua, nem mesmo a criança; em gesto íntimo, para dentro de si mesma, olhava aquela mãe atônita.

(oswaldo martins)

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

cinco estudos para a nudez de brian catelle

1

o corpo se retorce nas ameias
do abandono

os castelos derreiam imagens
na incrustação da pedra bruta

que a lente antes de lapidar
distorce em ereta curvilínea

nudez

2

a oficina de andrajos
cujos objetos

formam fotografias e cadáveres
não fosse por entre eles

a mulher em viagem
nas tripas do abismo

resinificado


3

em uma teoria da resina
o ardil de metais e lixo

o corpo móvel
e este velo

vinho das civilizações

a curtir o momento
de se exarar o licor


4

num canto do quarto
ante a centralidade da cama

a luz esconde o estouro
da paisagem

as urbanas criaturas

5

o desejo do abismo refreia-se
algo ali há além das estacas

uma curva que nos leva
à queda do telhado

da casa em sua dúbia sustentação
de linhas retas


(oswaldo martins)