sábado, 19 de janeiro de 2019

Dois poemas de Nizar Qabbani


1

A função da poesia é fornecer-te um passaporte...
Sem interferir nos detalhes da viagem
No horário dos trens que apanhas
Ou no nome dos hotéis onde te hospedas
A função da poesia
É colocar à tua frente
A garrafa e o copo
E deixar que te embriagues
À tua maneira.

2

PASIÓN

Entre tus pechos hay aldeas incendiadas,
millones de fosas,
restos de barcos hundidos
y armaduras de hombres asesinados.
Ninguno de ellos ha regresado.
Todos los que pasaron por tu pecho
desaparecieron
y los que permanecieron hasta el alba
se suicidaron.

Entre seus seios existem aldeias incendiadas,
inúmeros poços
restos de barcos naufragados
e armaduras de homens assassinados
Ninguém regressou.
Todos os que deitaram entre seus seios
desapareceram
e os que nele se deixaram até o amanhecer
se suicidaram.

(tradução oswaldo martins)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

carpir


os corpos vagam suas superfícies
em simbiose imperfeita
mútuos se diluem
no ardor

o que a eles toca de pétala
pende haste apenas
bastam-se no licor
das ervas

confrontam no inexistir
o contradito estupor
daqueles a quem resta
somente o amanhã

(oswaldo martins)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Ressaquinha


3

O fura-bolos fora um dedo que se esquecera de si para dar vazão ao incômodo provocado pela unha contra os mandriões das falsas verdades, os juízes, os carcereiros e carrascos que lhe empurraram o corpo para o cadafalso. A unha deste dedo transformada em ideia fazia com que os corpos dos que habitavam Ressaquinha resistissem.

Alógenos

3

Nariz de porco, nariz de rato. De quando não cheirou as flores raras dos alógenos. A pele que não esteve na Califórnia nem possuiu um sonho branco dos bem-nascidos. A pele sonhava sonhos mais enxutos que se misturavam às diversas cores pontuadas nos suportes quase como uma inexistência, quase como um zé ninguém ou um psiu.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A noite acorda diferente


A noite acorda diferente
na gramática da brisa

As pupilas suportam
a solidão solar

Com o vocabulário dos dedos
a mão fala com vagar do ar

Seguro na estância tão clara
o corpo abre a porta mais serena

(Yao Jing Ming)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

para o que servem as classes sociais


há quem estenda os braços
e esqueça o resto do corpo
e o braço fique ali exposto
para as chagas dos trapos

há este trapo em delícias
que toca o ar abre os poros
e desmancha bordados
nas facas que se desafiam

há esta faca ao sol nordeste
cerzindo a barriga dos peixes
costurada madrugada a reinar
o absoluto do que ainda resta

há o resto da barriga do feixe
que ao braço devora em avidez
sobre o braço que vaza
o corte de uma só sordidez

há esta ficção estrupício
este braço de sarjetas unhas
que unhas abjetas ranham
os fatos falsos dos palácios

oswaldo martins

A lição de poesia


1.
Toda a manhã consumida como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2.
A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da ideia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3.
A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis – naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

João Cabral de Melo Neto

domingo, 6 de janeiro de 2019

estudo para espelhos de Toulousse Lautrec


1

resta a ausência
de quatro

alguns panos
tramam o fundo-cama

o corpo quase
a se entregar

2

os reflexos acompanham
esta imagem que nua se vê

de costas a opulência da bunda
se mostra

no espelho ao lado
a cortina compõe ausência

3

vestiram a bailarina
de programa

a tara
no perfil do prazer

olha o senhor
vestido de bengala

(oswaldo martins)

Toulousse Lautrec