terça-feira, 15 de novembro de 2016

NITERÓI COM MARESIA

O fim das tardes frias de vento e chuva na rua da praia trazia o deserto. Enchiam as sombras fantasmas ilusórios na óptica da minha imprecisão. O contorno ali fora com pátio, quintal, mangueira e muro compunha pesadelos por fresta inapagáveis de menino.

Cláudio Correia Leitão


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

tourear com goya

para alexandre faria

a cena
sob o aluvião da dentadura
do cão no beiral dos estátuas

que se erigem por onde pastaram
os pastores do sr. tomás!
impede a deseducação dos conceitos

a teoria dos prazeres
que aponta abismos
e não certezas


(oswaldo martins)

goya

para geisa silva

francisco josé de goya y lucientes,
desde os rostos carcomidos
dos que na rua dançam
sob os sinistros sons

dom francisco,
luzente dor dos meninos e meninas
assassinados nos paredões das escolas

goya,
a lucidez do asco
em um país ocupado

dom josé,
a torta rua dos bueiros
em que dormem as crianças do abandono

dom francisco josé de goya y lucientes,
soltai vossos exus


(oswaldo martins)

sábado, 22 de outubro de 2016

desimitação sacana para manuel bandeira

a bêbeda palavra dança diante de seu lugar
comum as inversões do dia tabulam co-senos
e c’o os seios de fora bebe ao amado rum
com o livro de shakespeare ao lado

para qualquer necessidade
de irrisão

para qualquer palavra perdida
entre o olhar da paisagem
e o zelo com as unhas

depois se belisca
e tonta vai por aí
a desabrochar a rosca
do amor


(oswaldo martins)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

muro

um sol-muro por dentro
insubmisso insubmerso

o muro nu como se
nu o muro detivesse

ativo o sol lúcido
do amanhecer

(oswaldo martins)

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

antiode aos calhordas

para o zé luiz e luiza aieta, educadores porretas

as damas dos calhordas chamam-se calhôrdas
e cumprem seu dever com muita eficiência

(rubem braga – ode aos calhordas)

I

os homens plantam o que a terra dá
colhem em abundância frutos como o caqui
a abóbora e o hortelã

às vezes colhem a dura pedra cabralina nos sertões caatinga
às vezes colhem as vidas secas gracilianas nos setentriões
às vezes euclidianas figuras bíblicas nos casebres de belo monte
às vezes lampiônicas marias bonitas

colhem esses homens o trágico de édipo de medeia
o trágico dílmico a responder perdido o jogo a encenação da comédia

colhem essas mulheres os seios desnudos na praça de são salvador
colhem essas mulheres a força
colhem a vida e de eros a bela dicção dos poemas da poeta de lesbos

homens e mulheres plantam vida sob o arado extenso das pedras

II

os treze tiros em mineirinho foram em mim que deram

III

ai donzela!
princesinha dos deboches

sois quem sois neste lugar
triste senhora das criancinhas e da fome
triste senhora de seios recobertos e marido atento
triste senhora marionete das bocas tristes
triste senhora dos jurisconsultos do século XIX

cuja retórica é de uma inocência pior que a do romantismo brasileiro
cuja retórica pequena principesca faz corar os anjos e as bobagens de exupery
cuja retórica é mais vazia que o vazio dos menininhos sarados
cuja retórica é tão nociva quanto as mesóclise do senhores neo-bilacs da poesia de pacotilha

gorda senhora de alma e esperteza – poluída alma de miss
imagina o que vem a ser o cheiro de gente
imagina o que vem a ser os valões dos esgotos das favelas
onde seus meninos não usam perfumes franceses

mandarás acaso que os pulverize com perfumes da coty para não incomodarem vossas narinas finas

senhora, caíras no resfolego da sanfona de luiz gonzaga
ou como a sebastiana de jackson do pandeiro
gritarás a e i o u ypsilone
como gritam as gabrielas as shirleis as vandas tenebrosas
das vilas mimosas

ou como um político desses quaisquer ao ir ao mangue botanto a mão nos olhos como se continência prestassem exclamassem aí meu deus que fartura

ou como a durvalina disse que de buceta homem casado está por aqui, num gesto característico num gesto característico das explicações pru quê.

ai madona, onde perdeste a rosa da puberdade?

IV

triste senhora leste madame bovary?
o charles é isso aí.


(oswaldo martins)

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

bêbada desimitação de homero

as embarcações partem das areias secas
à frente o busto da tragédia anuncia
o silêncio duro das sereias

quem com elas tange ondas de oceânico sal
quem sobre o branco dos olhos de poseidon
quem nas miríades do cemitério marinho

as embarcações secas
o busto de peixes carcomido
a água silenciada no abismo

eis o simulacro e o delírio dos ébrios
da linguagem solta, e dos vitupérios
eis a mão que mergulha e decepa


(oswaldo martins)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Ci, a mãe do mato

entre a ladeira e os humores
a névoa baixa de seus olhos
como se nos meus

baixassem unhas vermelhas
e uma paisagem inteira
sobre o mato

como se um rubor brotasse
da selvagem mata
por dentro os meus


(oswaldo martins)

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

de flores e de lambanças

para oswaldo martins  eugênio hirsch e manuel bandeira

não
não cruzes as pernas
não escondas
tua relva escura

não
não vou embora
ninguém me leva de onde estou
não tenho rei amigo
nem amigo sei

e as putas
andam todas raspadinhas
com grelos estranhos
não têm feridas bem se vê

putas com
certificados do imetro
da fiocruz

ah as belas putas
putas de dante
putas dantescas

cheias de relva
de selva
de relva escura


elesbão ribeiro

27/09/16