quarta-feira, 14 de novembro de 2018

estudo para alguns tons


2

Quando não esteve em Paris, JM visitou os bairros mais distantes onde recolheu uma série de madeira de construções devolutas. Viu os realistas da revolução, visitou museus, os andrajos do braço da vênus e os usou nas séries temáticas de suas composições. O braço ficou vagando, ora aparecia de cabeça pra baixo, ora de cabeça pro lado, ora oblíquo ao pano de fundo no qual faltava o corpo da deusa. De Aquiles roubou o calcanhar. De da Vinci, a máscara mortuária e o estudo da anatomia humana. De Coubert, a boceta.

Quando voltou da cidade em que nunca esteve, se pôs a trabalhar tão freneticamente que era possível àqueles que morte visita cedo enxergá-los dispersos pelos muros contra os quais se dançava uma coreografia quebrada, ao som do haxixe.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

o sangue e o leite


cena 1

no cárcere as mães
acalentavam os filhos

os algozes vigiavam-lhe os seios
expostos para fora das grades

os pais esperavam híspidos
para levá-los a casa

aguardavam-nos as amas
e a água das sarjetas

cena 2

as mães expunham os seios
por um copo de vinagre

acendiam um mata-rato
para inebriar os sentidos

e se riam máscaras
no teatro de horrores

3

para os homens à sombra
da carceragem dançavam

deusas desdentadas
que o baixo ventre intuía

e os devoravam como se de cronos
esperassem outra ordem

para que pudessem devorá-los
os filhos

(oswaldo martins)

terça-feira, 6 de novembro de 2018

os gorilas também amam



para o guta

os gorilas ocidentais das terras baixas
andam perdendo o sono
não comem mais a folha
nem o sumo dos frutos tragam

os gorilas ocidentais das terras baixas
preferem a canabis
que lhes cura as dores
e os faz escapar à realidade

os gorilas ocidentais das terras baixas
vestem roupas estranhas
um estrondo de cores
que inventa o atual requebro

os gorilas ocidentais das terras baixa
caçados a fuzis e pretzels
invernam nas matas
para voltarem triunfantes

ao azul de suas matas

terça-feira, 30 de outubro de 2018

fantasia sobre um poema de rilke


se grades nos aferram os olhos
se a lâmina seca seu punhal
se os cacos de vidro nos ossos
compõem melodias de atonal

ódio recai sob o horizonte a fera
sinuosa das palavras-ardil
quando longas as primaveras
fecham os olhos em flexível

circunvolução os corpos agem
ante o travo do vinagre e o ácido
do sol despencado na salsugem
se das facas os dentes afincam

oswaldo martins


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

paixão


paixão. até o último minuto. ato de resistência e fé. afastamento da noite. percepção crítica e convívio. mesmo quando o convívio tende ao fim, à aniquilação, o cristo de minha paixão é reativo, não aceita o destino a que os homens o jogaram, é mais um filho de um beliscão e de uma piscadela, um homem que resiste à morte e que, mesmo morto, ainda percebe o ardor do corpo das madalenas. um cristo contrário ao luto, afirmador da vida, um cristo cuja paixão não se deixa enlevar senão pelo signo do homem apaixonado, até o limite de suas forças. um deus, se deus, fodedor.
paixão. até o limite de mim mesmo, até o limite da resistência, que reage às torturas, ao ouvir os gritos desgrenhados das mulheres de jerusalém, os gritos desesperados dos amigos, os gritos dos barbarizados da humanidade; paixão que reage ao grito da barbárie e do medo, com o corpo de sangue, com o corpo do tesão e a nudez física dos amores, tão vastos quanto a possibilidade mesma do amor.
paixão, quando o poema se faz no limite da compreensão, da sintaxe
paixão, quando os desenhos de roberto se fazem abstração e concretude
paixão, quando o sentido do pau de corda se faz nordestino
paixão, quando mandamos à meada da merda o horror de hyeronimus bosch
paixão, quando, enfim, celebramos, mesmo torturados e vilipendiados, o nosso quinhão de vida.

paixão


quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Leitura de romances 3



O objetivo dos encontros busca colocar em circulação ideias e discussões sobre romances seminais da Literatura Universal. Serão quatro encontros mensais. Com duas aulas dedicadas ao estudo do autor, da época, do significado literário e filosófico em que se insere o livro e dois romances lidos.

Programação

Livro 1 – Desonra  – J. M. Coetzee
Encontro 1 – dia 30/10 – Apresentação do autor e primeiras questões
Encontro 2 – dia 06/11 – Análise e debate sobre o livro
Livro 2 – No seu pescoço – Chimamanda Ngozi Adichie
Encontro 3 – dia 13/11 – Apresentação do autor e primeiras questões
Encontro 4 – dia 27/11 – análise e debate sobre o livro

Local: Rua Pires de Almeida 76/201- Laranjeiras
Duração dos encontros 1:30 h.
Horário: das 20:00 às 21:30 h.
Custo: 400,00 reais os quatro encontros
Mediador de leitura: Oswaldo Martins
Contato pelo tel (021) 981439622

Oswaldo Martins, nascido em Barbacena – MG, em 1960, reside no Rio de Janeiro desde 1979. Fez graduação em Letras (Português-Literatura), pela PUC-RJ o mestrado (Literatura Brasileira), pela UERJ. Autor dos livros desestudos (2000 -  7 Letras / 2015 TextoTerritório); minimalhas do alheio (2002 – 7 Letras / 2015 – TextoTerritório);  lucidez do oco (2004 – 7 Letras / 2015 – TextoTerritório) cosmologia do impreciso (2008 – 7 Letras); língua nua (com ilustrações de Elvira Vigna 2011 – 7 Letras); lapa (2014 – TextoTerritório); manto (2015 – TextoTerritório). Tem no prelo o livro paixão (sobre imagens de Roberto Vieira da Cruz), a sair no ano de 2018.

Fez os roteiros dos filmes Urânia, poema de Alexandre Faria (com Felipe David Rodigues – 2009); Venta-não, (com Felipe David Rodrigues e Alexandre Faria – 2013). É editor da TextoTerritório.


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

desimitação de bukowski


a conversar com as baratas ler um livro
para que o arrase, caro leitor

trançar metáforas
loucas de bêbedas
caídas no porre

entre a cozinha atulhada de lixo
copos emborcados
corpos pelo sofá da sala

não dar conta de si
como o algodão nas narinas

talvez possa vencer a noite
o tédio o que não fazer da vida

poesia é que não é
nem aqui nem ali

na califórnia

(oswaldo martins)

sábado, 6 de outubro de 2018

Elegia a Emmett Till


A tradução tem quase trinta anos; hoje eu faria outra e não esta. Reli e publico assim, sem mudanças, para lembrar o que senti enquanto traduzia e confirmar que ainda sinto a mesma indignação (e porque não teria tempo de traduzir poesia, algo que me faz falta),
Também vejo que não perdi de vista o que é importante
.
Elegia a Emmett Till
Nicolás Guillém
(Tradução Francisco César Manhães Monteiro)

A Miguel Otero Silva

O corpo mutilado de Emmett Till, 14 anos, de Chicago, Illinois, foi retirado do rio Tallahatchie, perto de Greenwood, em 31 de agosto, três dias depois de ter sido raptado da casa de seu tio por um grupo de brancos armados de fuzis...
The Crisis, New York, outubro de 1955.

Na América do Norte,
tem a Rosa-dos-Rumos
a sua pétala sul rubra de sangue.

O Mississipi passa
ó velho rio irmão dos homens negros!
com as veias abertas entre as águas,
o Mississipi quando passa.
Suspira o amplo peito
e em sua guitarra bárbara
o Mississipi quando passa
chora com intensas lágrimas.
O Mississipi passa
e fita o Mississipi quando passa
árvores silenciosas
que têm pendentes gritos já maduros,
o Mississipi quando passa,
e fita o Mississipi quando passa
cruzes de fogo ameaçador,
o Mississipi quando passa,
e homens de medo e de tumulto,
o Mississipi quando passa,
e a fogueira noturna
cuja luz canibal
alumbra a dança branca,
e a fogueira noturna
com um eterno negro ardendo,
um negro segurando
envolto em fumo o desprendido ventre,
os intestinos úmidos,
o perseguido sexo,
ali no Sul alcoólatra,
ali no Sul de afronta e látego,
o Mississipi quando passa.

Agora, ó Mississipi,
ó velho rio irmão dos homens negros!,
ora um menino frágil,
pequena flor de tuas ribeiras,
não ainda raiz dessas tuas árvores ,
não tronco de teus bosques,
não pedra de teu leito,
não caimão de tuas águas:
menino apenas,
menino morto, assassinado e só,
negro.

Menino com seu pião,
com seus amigos, com seu bairro,
com sua camisa de domingo,
com sua entrada pro cinema,
com sua carteira e quadro-negro,
com seu frasco de tinta,
com sua luva de baseball,
com seu programa de boxe,
· com seu retrato de Lincoln,
com sua bandeira norte-americana,
negro.

Menino negro assassinado e só,
que uma rosa de amor
lançou aos pés de uma menina branca .

Ó velho Mississipi,
ó, rei, ó rio de profundo manto!,
detém aqui tua procissão de espumas,
tua azul carruagem de tração oceânica:
fita este corpo leve
de anjo adolescente que trazia
sequer ainda bem fechadas
s cicatrizes sobre os ombros
onde teve suas asas;
fita este rosto de perfil ausente,
desfeito a pedra e pedra,
a chumbo e pedra,
a insulto e pedra;
fita este aberto peito,
o sangue antigo já de duro coágulo.
Vem e na noite iluminada
por uma lua de catástrofe,
a lenta noite de homens negros
com suas fosforescências subterrâneas,
vem e na noite iluminada,
diz-me tu, Mississipi,
se podes contemplar com olhos de água cega
e braços de titã indiferente
este luto, este crime,
este mínimo morto sem vingança,
este cadáver colossal e puro:
vem e na noite iluminada
tu, repleto de punhos e de pássaros,
de sonhos e metais,
vem e na noite iluminada,
ó velho rio irmão dos homens negros,
vem e na noite iluminada,
vem e na noite iluminada,
diz-me tu, Mississipi...

desimitação de cabral


o poema se faz seta de sal
resseca olhos com vinagre
e o sol nordeste de cabral

ativa por dentro os cristais
dos retirantes o ácido-flor
o estilo das facas factrais

que facas-canudos canecas
facas mais explodem a vida
e suas formas de areia seca


oswaldo martins