quarta-feira, 31 de julho de 2013

Texto de Horácio Matela para o Observatório da Imprensa

Nos últimos dias meu filho Igor Pouchain Matela e sua esposa Carla Hirt foram duramente atingidos em dois ataques brutais pelo simples fato de estarem comprometidos com a luta política que trava a população do Rio de Janeiro e de todo o país, contra a inépcia e os desmandos que estão nas manchetes dos veículos de comunicação.

O primeiro ataque foi por uma polícia completamente despreparada para lidar com manifestações pacíficas de movimentos organizados como o do Passe Livre e o do Comitê Popular Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro.

O segundo brutal e covarde ataque foi cometido pelo jornalista Antonio Werneck, n’O Globo, nos dias 25 (Capa e página 8) e 26 de julho (página 11) passado – uma semana após as manifestações em que Carla foi baleada e em vez de ser socorrida e levada para um hospital, foi trancada numa delegacia de polícia.

Com uma semana para fazer uma bela apuração, o indigitado jornalista – aparentemente – só utilizou de suas fontes na delegacia e seus contatos com um ex-deputado federal que desponta para o anonimato.

Matéria de envergonhar um chefe de Redação que preze o trabalho jornalístico. Nem a legenda da foto da reportagem é verdadeira. Tudo é fabricado no ar condicionado da Redação.

O jornalista Luiz Carlos Azenha percebeu a farsa e, em poucas horas, ouviu, analisou e informou com clareza todos os pormenores do ocorrido em seu site (ver aqui). Mario Augusto Jakobskind, também (ver aqui).

Fácil para quem sabe pensar e exercer dignamente a profissão de jornalista.

Penso que se eu fosse diretor de Redação de um grande jornal demitiria um jornalista que me trouxesse uma matéria como esta, e por justa causa. Um empregado de meu jornal não poderia estar fazendo matérias a serviço de suas fontes; não deveria ser moleque de recado de interesses espúrios. Afinal quem paga o salário de um jornalista, quer – imagino – trabalho competente e informativo e isto não se consegue com indigência mental. (Horacio Sanches Matela, aposentado, Rio de Janeiro, RJ)

Nicolás Guillén

"Não me dão pena os burgueses
vencidos. E quando penso que vão me dar pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.
Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso em meus longos dias sem abrigos nem nuvens.
Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.
Penso em meus longos dias com minha pele proibida.
Penso em meus longos dias".


(Burguesia Nicolás Guillén)

Escritos 9

9
amontoado de meias palavras a lugar nenhum novos códigos pras coisas velhas que não são teias de aranha onde eu jogo paciência incansavelmente pra ver se a luz já está acesa.


1995

(Letícia Tandeta)

Leitura de poemas 3 - cavaquinhos poema 8

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terça-feira, 30 de julho de 2013

Leitura de Poema 2 - Ungaretti em tradução de Haroldo de Campos

Sol-pôr

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Leitura de poema 1 Dora Ribeiro - Olho Empírico

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Oficina Literária TextoTerritório - Moviola

Programação:
1)      Segundas literárias
Apresentação da obra de autores renomados e debate com o público
3 encontros de 2h cada
Investimento: R$ 80,00 cada encontro
                Horário: das 19:00 às 21:00
Temas dos encontros:
19/08/2013
Edgard Allan Poe
23/09/2013
Dalton Trevisan
04/11/2013
Julio Cortázar

2)      Oficina TextoTerritório
Oficina de criação literária.
12 encontros de 2 horas cada
Investimento:  4 parcelas de R$ 300,00 (05/08, 02/09, 07/10, 04/11)
Obs:  O pagamento da Oficina inclui a participação nos “Segundas literárias”
                Horário: das 18:30 às 20:30

Cronograma Geral:

05/ago
Módulo 1 – Leitura e exercícios
12/ago
Módulo 1 – Exercícios de escrita
19/ago
Segunda Literária – Edgard Allan Poe
26/ago
Modulo 1 – Escrita e revisão crítica
02/set
Modulo 1 – Escrita e revisão crítica


09/set
Módulo 2 – Leitura e exercícios
16/set
Módulo 2 – Exercícios de escrita
23/set
Segunda Literária – Dalton Trevisan
30/set
Modulo 2 – Escrita e revisão crítica
07/out
Modulo 2 – Escrita e revisão crítica
14/out
Recesso


21/out
Módulo 3 – Leitura e exercícios
28/out
Módulo 3 – Exercícios de escrita
04/nov
Segunda Literária – Julio Cortázar
11/nov
Modulo 3 – Escrita e revisão crítica
18/nov
Modulo 3 – Escrita e revisão crítica
25/nov
Evento de encerramento

sábado, 27 de julho de 2013

No viomundo

http://www.viomundo.com.br/denuncias/carla-hirt-baleada-agredida-e-acusada-de-formar-quadrilha.html

Carla Hirt: Baleada, agredida e acusada de formar quadrilha, militante diz que foi difamada pela mídia e teme represálias







Luiz Carlos Azenha

Desde a noite do dia 17 de julho a geógrafa Carla Hirt, integrante do Comitê Popular Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro, vem vivendo um pesadelo.

Primeiro, foi atingida por dois tiros de balas de borracha durante manifestação na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Depois, foi presa sob acusação de formação de quadrilha, apesar de desconhecer totalmente aqueles que foram presos junto com ela — supostamente integrantes da mesma quadrilha.

Em seguida, Carla foi autuada como se tivesse sido presa na rua Visconde de Pirajá, onde de fato aconteceram atos de vandalismo — quando, assegura, foi presa na rua Redentor, 294, diante de um prédio intacto, de fachada de vidro, onde ela e outros manifestantes se abrigaram justamente para evitar os tiros da polícia.

Finalmente, no dia 25, o jornal O Globo publicou uma reportagem ilustrada por uma foto que sugere que Carla e o marido dela, Igor, agente da ABIN – Agência Brasileira de Inteligência — teriam sido flagrados em atos de vandalismo.



Leiam a legenda.

Nem Carla, nem o marido aparecem na foto acima.

Ela não foi presa atirando pedras.

O marido nunca foi preso, nem nas ruas, nem na delegacia.

Igor foi à delegacia para socorrer Carla, que havia telefonado para relatar que tinha sido ferida por uma bala de borracha e estava a caminho da delegacia, presa.

O Globo fez mais: sugeriu no título que Carla e o marido foram presos “participando de quebra-quebra”:
  
A notícia de O Globo foi replicada nas redes sociais e por outros meios.

O jornal voltou ao assunto em outro texto, no qual destacou que a ABIN faria uma investigação do caso.

Porém, a própria nota oficial da ABIN desmentia o jornal.

Primeiro, deixou claro que Carla não pertence aos quadros da agência.

Depois, informou que o marido dela não estava infiltrado na manifestação.

Finalmente, que Igor passava férias no Rio de Janeiro.

Na edição impressa, o diário direitista anunciou: “Vândalo chapa-branca: Agente da Abin foi preso em protesto“. E fez trocadilho:



Igor Matela, o marido de Carla, escreveu um texto rebatendo o jornal.

Enviou por e-mail a O Globo:

“Hoje fui surpreendido por uma reportagem da editoria Rio do jornal O Globo que relata que eu e minha esposa, Carla Hirt, teríamos sido presos por ações de vandalismo no dia 17/07 na sequencia do protesto em frente à casa do governador Sérgio Cabral. Além disso, a reportagem afirma que eu e minha esposa teríamos nos identificado como agentes da Abin, insinuando que estávamos infiltrados e com outras intenções que não a livre manifestação política.

Gostaria de informar que tal reportagem é difamatória, não nos ouviu e publicou informações erradas que poderiam ser facilmente checadas na própria 14 DP. Carla é professora e atualmente doutoranda no IPPUR/UFRJ. Foi presa de forma arbitrária, agredida, baleada, acusada de formação de quadrilha junto com outros rapazes que ela sequer conhece. A denúncia é tão absurda que o Ministério Público indicou que não irá levar adiante, uma vez que a polícia não conseguiu provas do crime.

No meu caso, é verdade que trabalho na Abin. Passei num concurso público e sou um servidor federal como qualquer outro, submetido à lei 8.112. Tenho garantido minha livre manifestação política. Neste dia, não fui preso. Quando Carla estava sendo abordada e já tinha sido ferida, conseguiu me ligar.

Ouvi pelo telefone que estava sendo agredida e levada para a delegacia. Corri para a DP e cheguei lá uns 30 minutos depois indignado, perguntando pela minha esposa e questionando o abuso de autoridade da PM. Injustamente fui acusado por desacato, numa situação que nada teve a ver com atos de vandalismo. Me identifiquei com minha carteira de motorista e disse, quando a delegada que questionou, que trabalhava na Abin. Em nenhum momento tentei usar isso para o que quer que seja, pois se fosse assim teria sido autuado por abuso de autoridade ou então teria sido liberado.

Tudo isso está nos registros de ocorrência da delegacia.

Esta história conspiratória está me causando muitos prejuízos. Está ferindo minha honra e de minha esposa, me colocando em risco por me associar com policiais infiltrados e está me trazendo problemas no trabalho, onde posso sofrer um processo disciplinar.

Se quiserem ter referências sobre mim e sobre a Carla, sobre nosso efetivo e honesto engajamento político, podem perguntar a várias pessoas: professores do IPPUR/UFRJ (onde eu também curso mestrado), com o vereador Eliomar Coelho que conhece bem a Carla, Comitê Popular da Copa e Olimpíadas, Justiça Global, etc.

Gostaria de pedir que esta reportagem fosse retirada do site do jornal, pois nossos nomes completos estão sendo expostos, causando um prejuízo incomensurável para nós. Já estamos desmentindo a reportagem nas redes sociais, recebendo muita solidariedade de todos. Mas gostaria que os senhores também fizessem uma retratação.

Ciente de sua compreensão,
Atenciosamente,


Igor P. Matela“.
 












A foto acima foi feita no dia 23, pela fotógrafa Tahiane Stochero, do G1. Ou seja, cinco dias depois de Carla Hirt ter sido baleada e em seguida presa, nas ruas do Rio de Janeiro.

A geógrafa também escreveu uma carta sobre os acontecimentos, antes da “denúncia” de O Globo:

“Prezados(as)

Tenho 28 anos, sou professora e faço doutorado no IPPUR/UFRJ. Acompanho as manifestações pois acho importante o momento que estamos vivendo, no qual inúmeras pessoas saíram da letargia e apatia que caracterizou os últimos anos no Brasil.

Mando este relato sobre o que passei na noite de 17 de julho de 2013, quando fui presa, agredida e acusada de formação de quadrilha junto com mais 6 rapazes que não se conhecem entre si:

Neste dia 17 eu e mais alguns manifestantes fomos presos sob a acusação de formação de quadrilha, pelo simples fato de termos corrido de 3 viaturas que entraram atirando na rua em que estávamos.

Não nos conhecíamos, e a polícia resolveu que éramos uma “quadrilha” simplesmente por que nos abrigamos em frente a um prédio com fachada de vidro, pois sabíamos que a chance de os policiais continuarem atirando, em Ipanema/Leblon, em um prédio daqueles, seriam menores.
 
















Eu fui baleada 2 vezes por balas de borracha (uma na perna e outra na altura da cintura, que acertou a minha bolsa e quebrou minha máquina fotográfica). Além disso fui agredida por um policial, e para não ser levada para Bangu (!!!), precisei pagar 700$ de fiança (cada um dos membros da suposta “quadrilha” também teve que pagar).

Fui liberada às 5:30 da manhã  quase sem conseguir caminhar, com muita vontade de chegar em casa, lavar o ferimento da perna (não tive atendimentos da delegacia) e ver o tamanho do estrago.

Hoje, assistindo os noticiários, fiquei surpresa com a quantidade de imagens  que a mídia e a polícia tinham dos atos que são, por eles, considerados de vandalismo. Alguns videos tem cerca de 10 minutos.

Com tanto policial infiltrado (fáceis de identificar) e com a polícia motorizada entrando à toda velocidade e atirando no meio dos manifestantes, me pergunto: por que nenhuma daquelas pessoas filmadas não estavam na delegacia e não foram presas?

Quando fui presa, havia um policial à paisana ajudando a colocar-nos dentro dos camburões. Se a polícia tivesse mesmo tão interessada em conter os atos de vandalismo, por que esses policiais à paisana estavam seguindo pessoas que estavam longe da “confusão”?

Cabe ressaltar que a policia registrou que nos prendeu na rua Visconde de Pirajá, sendo que eu fui presa na Redentor, 294. A intenção da polícia é dizer que nos prendeu no meio de onde estavam quebrando bancos. A sorte é que eu fiz registro de agressão policial (um policial me agrediu), e no meu depoimento eu disse exatamente o endereço em que tudo aconteceu*.

Em vários momentos vi policiais mascarados e sem identificação perseguindo, agredindo e enraivecendo os manifestantes (os mais “inofensivos”). Os P2 em nenhum momento se ocuparam daqueles que eles chamam de “vândalos” na TV.

Para mim, está claro que a intenção é amedrontar manifestantes, deixar o “vandalismo” correr solto (incitando-o, inclusive), para desqualificar os atos para que percam cada vez mais o apoio popular.

Meus colegas de “quadrilha” eram mais jovens do que eu, entre 17 e 20 anos, de diferentes classes sociais e não se conheciam entre si. Um perigo para a sociedade!

Eu nunca cometi crime algum, tampouco quebrei bancos ou seja lá o que for. Participo do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas.

Lá, organizamos atos, manifestações, acionamos o MP, fazemos denúncias em várias esferas, acompanhamos e documentamos as arbitrariedades que ocorrem com a desculpa festiva dos megaeventos, etc (ex do nosso último dossiê).

Nunca em nenhum ato organizado pelo comitê houve confronto com a polícia ou atos classificados como vandalismo. Isso é um indício de que a minha forma de participar das manifestações, seja colaborando com a organização, ou simplesmente como manifestante, é pacífica.

Já fiz denuncia no Ministério Público [Nota do Viomundo: Ver no pé do post a íntegra] e agora espero a defensoria pública (que parece estar bem empenhada contra as recentes arbitrariedades policiais) para responder à acusação.

Segue anexo um arquivo com cópia da denúncia ao MP, e fotos.

Atenciosamente,

Carla

* isso corrobora com essa (e outras) noticia tendenciosa: que dá a entender que estávamos depredando as ruas (o que suspeitávamos que aconteceria quando vimos que a policia disse que nos prendeu na rua Visconde de Pirajá, e não na Redentor).

*****

Em sua página no Facebook, o Comitê Popular da Copa sugere que a “denúncia” de O Globo, publicada uma semana depois dos acontecimentos, foi baseada em informação fornecida ao repórter Antonio Werneck pelo ex-deputado Marcelo Itagiba.

A página reproduziu a troca de mensagens entre os dois no twitter (ver abaixo) na véspera da publicação da reportagem; no dia 25, Itagiba diz, ao tuitar o texto que acusa o casal: “Minha informação no Globo”.

Informação, sustentam Carla e o marido, que era falsa.



*****

Ferida, presa, acusada pela polícia e difamada sem defesa na mídia, Carla Hirt deixou de dormir em casa, por medo de retaliações.





Manifestação

As notícias que vêm sendo trazidas quase diariamente pelos jornais são típicas de uma imprensa interessada e interesseira. As versões noticiadas se apresentam sob a capa protetora de uma sociedade bem estabelecida nos seus privilégios e desmandos. Fazem os jornais coro com o que há de mais reacionário, tacanho e acusatório na sociedade brasileira. Formadas que foram no apoio sempre suspeito das ditaduras militares da América Latina, buscam reeditar, em seus papéis, um clima de medo, horror e reação.

A vida em uma sociedade democrática pressupõe o debate e o embate das vozes envolvidas nos processos sociais, desde que tenham as diversas vozes, que se confrontam, peso e medida iguais. O apagamento de jornais, no Rio de Janeiro, que sempre permitiram essas diversas vozes, vem a dar a primazia da notícia a um único jornal – que se estende desde o papel à televisão – criando um clima em que a notícia não possa ser contraditada. Passam assim verdades que não se põem em dúvida por que o estilo acusatório do jornaleco, que nos cabe, forja essa verdade para além de toda possibilidade de discussão.

As redes sociais cumprem o papel de difundir versões outras. Os que se sentem acusados ignobilmente pela vasta rede de comunicação que detém o monopólio da comunicação no Rio de Janeiro procuram se defender dentro das medidas cabíveis e legais. Lutam com as armas que possuem, no regime democrático que se vê ameaçado pela impunidade dos agentes da ordem (ou da desordem?) que o subvertem e prometem prolongar-se até a possibilidade da desestruturação profunda dos modelos de democracia ocidental.

A força policial descabida, o uso das balas de borracha, as leis de exceção permitem o aparecimento de ações radicais e obviamente da repressão aos manifestantes que pacificamente se põe a lidimamente fazer com que suas vozes sejam ouvidas para além das notícias que servem de esteio ao que as elites sempre quiseram. O abuso do poder sempre tem como vítima a própria sociedade na figura daqueles que se põe firmemente na defesa de seus pontos de vista. O abuso do poder sempre busca calar os que protestam e os empurram para uma posição de desconforto frente seus próprios atos. O abuso do poder não permite a contradita.

As primeiras manifestações tiveram o caráter de festa, comum a todo ato de liberdade. Muitos dos que participaram da festa democrática refluíram a partir dos ataques policiais na Lapa, na av. Men de Sá, nos arredores do Palácio os no Leblon. O refluxo dos manifestantes se deu a partir de Três premissas básicas. O natural desinteresse dos menos politizados; a ação truculenta das forças que deveriam manter a paz e garantir o direito a manifestação e as notícias que buscam intencionalmente torcer os fatos e permitir que se faça das manifestações uma má leitura, seja no ataque diário que os governos instituídos sofrem com o bombardeio da mídia, segundo seus interesses classistas e políticos.

A demonização dos manifestantes presos por dá cá aquela palha, a confusão criada contra pessoas de bem, vítimas de um jogo político sujo que busca entorpecer os ouvidos dos leitores e das pessoas com uma ladainha típica dos privilegiados, cria possibilidades concretas de não só dificultar o indivíduo que se opõe aos alicerces de uma sociedade injusta e formadora de castas, como de criar um clima propício à representação conservadora cuja maior vitória estaria em barrar os avanços sociais conquistados pela população mais desassistida.

É necessário que se tomem providências reais contra a hegemonia da mídia.
É preciso que se criem leis que protejam a sociedade do vandalismo midiático.
É urgente que se criminalize toda e qualquer notícia tendenciosa e acusatória dos meios de imprensa
É fundamental que pessoas íntegras tenham como se salvaguardar dos ataques gratuitos dos que as utilizam para criar um clima que nada dizem respeito a elas, mas que buscam usá-las com a tenebrosa finalidade de desestabilizar a própria democracia.


(oswaldo martins)

quinta-feira, 25 de julho de 2013

curtas

1

Numa roda de amigos pontificava o Chiquito. Tem de acreditar. O Ângelo é um bobo. Não acredita. Estava outro dia no átrio, chegou uma mocinha. A coisa estava feia, mole. Aí me concentrei, rezei uma ave-maria, um padre nosso. Foi uma beleza. O Ângelo é um bobo. Tem de acreditar.

2

Com a consciência tranquila. Quando passa uma mocinha por mim, eu canto. Se ele quiser me dar, muito bem; se não, não tem problema. Cumpri com meu dever. Estou com a consciência tranquila.

3
conforme oswald de andrade

Foi esse?
Foi
Chama a ambulância, moço.

(oswaldo martins)



Duas sobre notícias recentes

Triste país.

Além de receber as diatribes de um Papa conservador, sobre quem há a suspeita de haver colaborado com a ditadura militar argentina, soltam-se notícias (notícias?) aleatórias procurando denegrir os dirigentes do país. Ontem foi Lula, com o caso Lurian; hoje Dilma. Ontem deu no que deu – Collor, privatizações, compra da reeleição do imortal.

Triste país.

Além de se fazer o Papa e o Vaticano conservadores até a raiz dos cabelos dizerem que são apolíticos e fazendo – como sempre fizeram – uma política travestida de franciscanismo – há uma frase que meu pai repete sempre de um colega seu que dizia que aquilo lá era de uma putaria franciscana – condenam o fato de que Dilma faça o que deva fazer, tanto por ser a representante máxima do país quanto por perceber que o que na verdade se coloca sob uma parcela dos movimentos é uma utilização política que aponta para todos os lados e da qual seria “bom” que a presidente se abstivesse. Bom para quem – perguntaria no velho jargão.


(oswaldo martins)

Bricanagem 13 e 14

13

o cão – maldito – latiu
minha cabeça desfrutava de um silêncio
perdido
de um cenário jamais visto


14

um par de asas esvoaça e some sob o telhado
nada mais sucedeu até o meio-dia

até as nuvens se petrificaram

(Ricardo Tollendal)

Escritos 8

8

vou amarrar minhas mãos pra trás porque assim não posso  fazer o que simplesmente minhas mãos podem por pura vontade como mãos incontroláveis a cata de alguma emoção deslocada pelo sofrimento cruel de viver tão confinada nos ambientes da casa por que assim não posso fazer o que simplesmente minhas mãos podem como eu tenho por pura vontade dizer pra você que assim a vida não tem graça e que podemos ficar juntos em paz quando a velhice chegar e os meus cabelos perderem a cor que você não vai mais ouvir os ruídos baixinhos que se espalham pela casa.


1995

(Letícia Tandeta)

namorada anarquista 7

como tenho o ombro direito
machucado
durmo em sentido contrário
ao sentido em que dorme a minha amada
temos dormido assim
libertária durante o dia
dorme anjo

dolorido
meu ombro não suporta o seu mundo

roçou-me o peito com
o calcanhar

o que vamos fazer
durante a visita do papa?

contratei outros canais de tevê a cabo

diz-me o que achas
de eu ir assim ao papa
com este lenço na cabeça
que a tua mãe trouxe-me de Fátima?
e precisas ir assim com os seios ao leu?

pois então
como havia de ir
vou clamar por direitos
da mulher sobre seu corpo

de manhã
encontrei-a a por a mesa do café
trajava blusa a cobrir
tudo que Deus lhe deu
tiveste um sono agitado
não estivesse de costas
tinhas-me chutado a cara
maus presságios?
sonhei com a visita do papa
que vai andar pelas ruas
em carro descoberto
e o que mais?
deixa pra lá
não queres ir a Penedo por uns dias?

elesbão ribeiro

14e15/07/13

O senhor Carlos

O senhor Carlos, dono da camionete em que o Jorge batia o ritmo do River e que agora me foi lembrado pelo disco WAVE, do Tom Jobim, sobretudo pela música Captain Bacardi, era um sujeito porreiro, muito legal mesmo. Era filho de japoneses e os filhos dele eram netos de japoneses, certamente.
A camionete era uma camionete velha e fechada atrás, sem janelas. Fazia entregas do chá Ipiranga, cujos pacotes eram embalados com papel celofane em casa pela esposa, pelos filhos e pelos amigos dos filhos Impressionava-me a rapidez com que o Kosô, um sobrinho dele, colava o celofane no pacote de chá.
Às vezes, levava-nos à praia, na Barra da Tijuca. Talvez tenha sido só uma vez (deveis saber que a memória generaliza, multiplica em muitos um só acontecimento). O senhor Carlos chegou a ter mais uma camionete, também velha. Mais adiante, tornou-se taxista e chegou a conduzir-me em seu táxi a um colégio em que eu dava aulas, em Ramos. Foi o meu primeiro ano a ter o direito de ficar em pé em sala de aula. Eu ainda cursava o segundo ano da faculdade, o ano era 1970. Eu tinha sofrido uma queda. A perna engessada era um trambolho para andar de ônibus. Um dia, o senhor Carlos levou um tiro em seu táxi. Sobreviveu, felizmente.


elesbão ribeiro

25/05/13  

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Futebol

Para Romário de Souza Faria

A elite da sociedade brasileira sempre viveu de golpes. Quando importaram o futebol dos ingleses, fizeram-no esporte de brancos. Os fluminenses da vida – como é de conhecimento geral – mandavam que seus jogadores disfarçassem a cor com o uso do pó de arroz. Não espanta que os clubes de apelo popular tenham subvertido essa regra e posto para jogar os negros de meu país, sem que precisassem se disfarçar. A contribuição do Vasco da Gama e do Bangu está além de toda a vertente racista da elite da sociedade brasileira; com ela, iniciou-se nos gramados do país uma pequena revolução de hábitos e costumes que vai fazer com que a configuração mestiça do país se torne aceite ao longo dos anos.

Vieram os movimentos identitários da nação. Com luta e inteligência bastantes, aos poucos a antevisão da destreza do brasileiro, percebida pelo aristocrático bairro de São Cristóvão e pelo bairro operário de Bangu, foi tomando conta de todo imaginário nacional. O samba de Ismael nasce da mesma deriva, ao agrupar os sambistas do Estácio, para além de toda perseguição, monta a manifestação genial, que se chamou o carnaval.

Sabemos já que, quando a elite – acusando o golpe em seus privilégios – busca organizar a manifestação dos estivadores, operários e subempregados, o samba deriva para o que hoje é: uma lástima oficial em que a marcha quase militar tomou de assalto as cadências ilimitadas de um Cartola, de um Silas, de um Mano Décio, Paulo da Portela – que compuseram belos sambas de enredo. Não sabemos ainda que a seleção quase branca do gaúcho Scolari, que as modificações em relação aos gramados em que os jogos se darão trazem uma simbologia nefasta.

Ao dar a primazia aos fluminenses da vida, ao proibirem-se os sem camisa, ao proibirem o palavrão, e as vaias, simboliza-se a destruição de uma conquista, feita de prisões, feita de sofrimento, feita de lutas. O episódio ainda recente do divino jogador de futebol Paulo César Caju nas dependências do country club é revelador de como a elite brasileira não aceita de maneira alguma que os homens que representam e representaram nossas lutas façam parte da nação democrática que almejamos, uma nação para todos.

As recentes questões em torno do Maracanã são mais sérias do que a vã filosofia dos contemporâneos pode apontar. A resistência tem de ser montada. Que os bangus os vascos da gama possam se reposicionar nesta luta e façam de suas moças bonitas de seus são januários  o bastião das vaias, dos sem camisa, do sonoro palavrão.


(oswaldo martins)

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Dois poemas de Kepa Murua

Amor dormido el habla

Perdida la costumbre de amar
te diré en qué nos convertiremos.
La ternura como dormidos,
sin ropa y entre harapos
los brazos apoyados en las sienes.
Pulmones disminuidos.
Ojos apagados donde el habla.
Rumores faltos de aire
y de-golpe, el silencio
que nos llevara a la infancia
y nos obligará a huir de nosotros
como de las palabras.


Amor adormecido a fala

Perdido o costume de amar
te direi em que nos converteremos.
A ternura como quem dorme,
sem roupa e entre farrapos
os braços apoiados nas têmporas.
Pulmões diminuídos. 
Olhos apagados onde a fala.
Rumores com falta de ar
e de súbito, o silêncio
que nos levará á infância
e nos obrigará a fugir de nós mesmos
como das palavras.


AUTORRETRATO COMO EL TUYO

Mi nombre es como todos, me llamo
como mi padre, como mi abuelo y algún otro
de la família. Mi vida es como la de otros.
Igual de mezquina y llevadera.

Mi rostro está condenado a ver el vacío.
Pobre de mi si pienso en mi segundo apellido,
pobres de nosotros si no somos como ellos,
pobres todos nosotros si no somos nadie.

Mi rostro es como un rio seco en una botella
de esperma. Nada es como lo que pretendo.
Si más alia de estas letras te persigo
es para gritar mi inocência.



AUTO-RETRATO COMO O TEU

Meu nome é como todos, me chamo
como meu pai, como meu avô e algum outro
da família. Minha vida é como a de outros.
Igual de mesquinha e suportável.

Meu rosto está condenado a ver o vazio.
Pobre de mim se penso em meu segundo nome
pobres de nós se não somos como eles,
pobres todos nós se não somos nada.

Meu rosto é como um rio seco em uma garrafa
de esperma. Nada é como o que pretendo.
Se mais além destas letras te persigo
é para gritar minha inocência.



(KEPA MURUA – tradução Antonio Miranda)

domingo, 14 de julho de 2013

namorada anarquista 6

ao ver a minha amada libertária
a pilotar o fogão
o que  faz aos domingos
abracei-a por trás
o que vamos comer hoje?
línguas de perguntador

anda afasta-te de mim
não te animes
que não estou pra isso

só se me disseres o que estás a fazer
então não vês que é caldo verde?
mas tu sabes que eu não
gosto de caldo verde

vais gostar é com couve troncha
couve tronchuda  couve portuguesa
couve salazarista, couve da tua terra
couve com  que a tua nossa senhora de Fátima
alimentava o teu menino Jesus
comprei-a ontem na feira

chega!

então larga-me
deixa-me o rabo em paz
já disse que não estou pra isso
hoje não me vais ao pito

e antes de te sentares
a ler esses jornais
que te entortam a cabeça
vai à rua comprar charutos

olha também não há mais bagaceira
enquanto ontem discutias política
com o teu amigo bundão

eu e a mulher dele enxugamos
a aguardente a comer
as pataniscas que fizestes tão bem

ela meio que parece esperta
mas não é
acho que a aguardente
embaçou-me os sentidos.


elesbão ribeiro

14/07/13

sábado, 13 de julho de 2013

Les Mystères du Château de Dé (1929, Man Ray)

MAN RAY - Jaramillo's Collection - Powered by Anibaldi.it@Network

namorada anarquista 5

devagarinho
vai devagar
devagar quase parando disse-me
a minha amada libertária

o que estás a olhar?
o que queres ver?

quero ver se já repuseram
o vidro na janela
que ainda ontem quebrei

então andas praí
a atirar pedras?

ah,  precisavas ouvir
a musicalidade que os estilhaços
de vidro
produzem ao cair!

deu-me tanto prazer
quase o mesmo prazer
que me dás ao beijares-me o corpo

já sei o que estás a pensar
meu querido burguês
foi pela causa que atirei a pedra
o prazer veio-me depois.

ah, ver a QUEDA
é uma grande
uma outra alegria!


elesbão  ribeiro
13/07/13


namorada anarquista 4

a minha amada libertária
não pode beber mais do que duas taças
enquanto eu caprichava um salmão na cozinha
ela passeava no facebook

á mesa sem luz de velas
hábitos de uma burguesia que aspira ser aristocrata
romantismo decadente
disse-me  certa vez

perguntou
o que eu achava da truculência policial
ter chegado à zona sul

como assim?

então não sabes?
todas as noite vês o JORNAL NACIONAL!

pegou-me pelo  braço
levou-me para diante do computador

é com esta truculência
que vivem diariamente
as gentes da periferia

despiu-se
e nua pôs-se na varanda
a gritar estes versos:

na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
e não dizemos nada.
na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
e já não podemos dizer nada

como com ela ninguém pode
deixei-me sentado no sofá
a enxugar a garrafa de vinho
e a pensar
o que vão dizer os vizinhos?

elesbão ribeiro
12/0713
Nota: os versos em itálico são de Eduardo Alves da Costa transcritos do poema No Caminho, com Maiakóvski.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Gadji Beri Bimba

Odisseia canto I

Canto I Odisseia

Nesse tempo, já todos quantos fugiram à morte escarpada
se encontravam em casa, salvos da guerra e do mar.
Só àquele, que tanto desejava regressar à mulher,
Calipso, ninfa divina entre as deusas, retinha
15 em côncavas grutas, ansiosa que se tornasse seu marido.
Mas quando chegou o ano (depois de passados muitos outros)
no qual decretaram os deuses que ele a Ítaca regressasse,
nem aí, mesmo entre o seu povo, afastou as provações.
E todos os deuses se compadeceram dele,
20 todos menos Posídon: e até que sua terra alcançasse,
o deus não domou a ira contra o divino Ulisses.

(Homero – Odisséia. Trad. Frederico Lourenço)


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Quero saber quantas estrelas tem no céu

Chamego de Lia

O mar tem um verde louco
Eu acho pouco dizer que é beleza
Na praia tem tanto coco
Eu fico rouca de gritar riqueza

És pescador
É de agua fria
Eis moreno cirandeiro
Eis o chamego de Lia

Quero saber quantas estrelas tem no céu
Quero saber quantos peixes tem no mar
Quero saber quantos raios tem o sol
Eu só desejo é a luz no teu olhar

Não sei o meu amor
Não sei o meu amor
Não sei eu não posso parar

Só sei o meu amor
Só sei o meu amor
Foi na ciranda
Que aprendi a te amar


Os versos acima de uma ciranda de Lia de Itamaracá são precisos, simples e de alta voltagem poética. Os correlatos do que se esconde, perfeitamente equilibrados entre o deixar pistas para os ouvidos atentos, se constroem na intenção do primeiro verso em que surge este mar de um verde impressionantemente louco. A loucura verde do mar, acrescentada do achar pouco dizer que é beleza, se compõe no moreno cirandeiro, chamego de Lia.

A voz da cirandeira se expande para a indagação metafisica da beleza, resolvida como impossibilidade desejante; quantos são os incontáveis, parece ser a dimensão textual da paixão que a domina e seduz nesta contaminação fulgurante da luz do sol, do mar, das estrelas nos desejo dos olhos de luz nos olhos do cirandeiro moreno, chamego de Lia.

A dimensão irredutível apresenta sua volta e se liga intrinsecamente ao não saber do amor, preenchida por este verso de uma continuada beleza – não sei eu não posso parar – reparem a dimensão do que nele está dito o não saber da paixão, do conhecimento, das coisas, do mundo e uma deriva do não poder parar, da afirmação da vida.

O chamego de Lia despreza o amor e investe profundamente nas indagações que nos levam a perceber o canto como personificação da paixão, de eros, princípio do presente e da entrega dos que se veem aprisionados pelo chamego. A percepção da paixão que nos é dada nestes versos talvez no nosso cancioneiro só encontre parelha nos versos de outro mestre, Aldir Blanc, quando em Lupicínica vai dizer-nos, com a sabedoria dos que abraçaram a capacidade de mimetizar os sentimentos, que

Na rua do Tijolo, bloco 5, aquele de esquina,
morou uma enfermeira com a chama vital de Ana Karenina.
Dirá um dodói que Tolstói era chuva demais pra tão pouca planta.
Ô trouxa, heroínas sem par podem brotar na Rússia ou lá em Água Santa...

Diria aqui, plagiando Aldir Blanc, que Lia de Itamaracá tem a chama vital de Anna Karenina e aos trouxas que buscam as belezas intransitivas da alta poesia que mergulhem como o albatroz de Baudelaire mergulhou,  para enxergarem a própria insuficiência poética que busca gritar aos quatro ventos sua excelência e o inextrincável de suas indagações. A poesia deve e pode se fazer com simplicidade e sabedoria.

A indagação metafísica da paixão encontra no chamego de Lia uma de suas mais altas expressões poéticas.

(oswaldo martins)