domingo, 10 de abril de 2016

quarta-feira, 6 de abril de 2016

sob o domínio de eros

para josé celso martinez

quando na praia de ipanema nos idos dos anos oitenta jogaram bolas de areia na mulher que desnudava os seios quando na praia de ipanema nos idos dos anos sessenta crucificaram leila por expor a barriga grávida de sonhos quando as jovens as senhoras voltaram a usar sutiã e se plastificaram nos idos dos anos noventa quando as vozes cerceavam o direito à trepada o direito à posse do próprio corpo quando os travestis foram e continuam sendo  assassinados nos aterros, nas glórias e arredores quando perseguidos dos anos sessenta levantam a voz para clamar pelo golpe que os catapulte ao cenário indecoroso do poder quando luluzinha recebe o santo nas assembleias de deus quando o clube do bolinha se arma de maldades adjetivas e proíbe os trans os hétero os homo de se manifestarem quando os neo nazi armam os dentes quando

é preciso ir à luta
é preciso despir os peitos
evocar os atributos da linguagem
é preciso erotizar o sexo
clamar por eros brômio baco
e resistir com o aço da utopias

para não se curvar aos discursos hegemônicos
para não se curvar à coerção da cultura
para não se curvar ante a naturalização da lei

para abrir os territórios livres
para abrir a anarquia dos desgovernados
e intuir que o presente se presentifica
no aluvião das ternuras dispersas
nos amores colhidos ao sabor dos desejos
como anna se entregou a amadeo
como verlaine à juventude de rimbaud
como as duas mulheres de espanha

quando lhes foi urgente o amor
quando lhes é urgente a vida


(oswaldo martins) 

sábado, 2 de abril de 2016

janela sobre a lapa


ensaios para o lapa




Em odor de santidade

A Baronesa, como era conhecida, acabara de morrer, acompanhada por uma de suas antigas protegidas. Fora acompanhada em seu calvário por toda a cidade condoída. A baronesa, pundoronosa nos últimos tempos, peidava, na curta agonia de sua despedida e, entre dentes, baixinho, como soía ser de bom tom para aqueles que deixam a vida, murmurava um sai diabo, como se o cheiro do metano, que expelia pelo cu – tantas vezes usado – a livrasse das lembranças que teimavam em lhe dar as graças de que fora senhora nos tempos em que mantinha sua Casa.

A Baronesa, enquanto suava e peidava, lembrava-se dos antigos clientes, das antigas princesas. Muitos dos quais estavam presentes à sua agonia. O padre presidia a tudo pesaroso. Acabariam as verbas doadas, com desprendimento e altivez, por aquela velha senhora. O que seria do teto da paróquia, das roupas engomadas, das ceias de natal, fartas de perus, rabanadas e baba de moça. O padre se interrogava, enquanto a Baronesa morria, suando e peidando.

O quarto, com as amplas janelas fechadas, protegendo a moribunda do frio que fazia, exalava o famoso cheiro, que no passado fizera a algazarra das mocinhas, quando por acaso um dos clientes de pregas soltas pontuava a trepada com os estrondos característicos dos coléricos trovões do intestino. A Baronesa, com a lembrança dos tempos passados, ao mesmo tempo em que abriu seu último sorriso, deu seu último suspiro e deitou pelo quarto, como última lembrança, o característico eflúvio de quem morre em odor de santidade.


(Oswaldo Martins)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Com o Russo em Berlim

Esperei (tanta espera), mas agora,
nem cansaço nem dor. Estou tranquilo,
Um dia chegarei, ponta de lança,
com o russo em Berlim.

O tempo que esperei não foi em vão.
Na rua, no telhado. Espera em casa.
No curral; na oficina: um dia entrar
com o russo em Berlim.

Minha boca fechada se crispava.
Ai tempo de ódio e mãos descompassadas.
Como lutar, sem armas, penetrando
com o russo em Berlim?

Só palavras a dar, só pensamentos
ou nem isso: calados num café,
graves, lendo o jornal. Oh, tão melhor
com o russo em Berlim.

Pois também a palavra era proibida.
As bocas não diziam. Só os olhos
no retrato, no mapa. Só os olhos
com o russo em Berlim.

Eu esperei com esperança fria,
calei meu sentimento e ele ressurge
pisado de cavalos e de rádios
com o russo em Berlim.

Eu esperei na China e em todo canto,
em Paris, em Tobruc e nas Ardenas
para chegar, de um ponto em Stalingrado,
com o russo em Berlim.

Cidades que perdi, horas queimando
na pele e na visão: meus homens mortos,
colheita devastada, que ressurge
com o russo em Berlim.

O campo, o campo, sobretudo o campo
espalhado no mundo: prisioneiros
entre cordas e moscas; desfazendo-se
com o russo em Berlim.

Nas camadas marítimas, os peixes
me devorando; e a carga se perdendo,
a carga mais preciosa: para entrar
com o russo em Berlim.

Essa batalha no ar, que me traspassa
(mas estou no cinema,e tão pequeno
e volto triste à casa; por que não
com o russo em Berlim?).

Muitos de mim saíram pelo mar.
Em mim o que é melhor está lutando.
Possa também chegar, recompensado,
com o russo em Berlim.

Mas que não pare aí. Não chega o termo.
Um vento varre o mundo, varre a vida.
Este vento que passa, irretratável,
com o russo em Berlim.

Olha a esperança à frente dos exércitos,
olha a certeza. Nunca assim tão forte.
Nós que tanto esperamos, nós a temos
com o russo em Berlim.

Uma cidade existe poderosa
a conquistar. E não cairá tão cedo.
Colar de chamas forma-se a enlaçá-la,
com o russo em Berlim.

Uma cidade atroz, ventre metálico
pernas de escravos, boca de negócio,
ajuntamento estúpido, já treme
com o russo em Berlim.

Esta cidade oculta em mil cidades,
trabalhadores do mundo, reuni-vos
para esmagá-la, vós que penetrais
com o russo em Berlim.

(Carlos Drummond de Andrade)