sábado, 31 de outubro de 2009

saia justa

A vida contemporânea reserva-nos surpresas. Desagradáveis surpresas. Lembro-me de que, quando cheguei ao Rio de Janeiro para fazer meus estudos, houve um epsódio no mínimo anacrônico. Uma moça, nas decantadas areias de Ipanema, resolveu tirar a parte de cima de seu biquini. Foi saudada pela mosoginia dos que ali estavam, com apupos e vergonhosos areiaços. A moça teve seu direito de gozar de sua liberdade impedido pela ação de truculentos rapazes. Os anos eram os setenta. No início dos anos oitenta, alguns poetas, ao fazerem um manifesto pela erótica poética, foram presos quando desfilavam pela Conelândia, nus – em sua nudez evocavam a nudez primordial da poesia. Acusados de atentado violento ao pudor e ao poder, foram postos fora de circulação. Não sei o nome deles, mas os conheci naquela época. Fizeram um poema que me ficou na memória e dizia que “para curar amor platônico / só mesmo um trepada homérica”.

A onda de moralismo, que toma conta da sociedade dos políticamente corretos, luta para castrar-nos a todos, homens, mulheres e homossexuais. A crença no casamento, nos amores incontestes, que se revela, na maioria das vezes não tem muito a ver com amor, mas com heranças e pensões. Com as vantagens que o sistema – ou o mercado dos amores – autorregulam (?) com gula e disposição famélica.

O comportamento humano – conforme afirma e reafirma o Saramago – sempre ficou a desejar. O comportamento de deus ou dos vários deuses, também. Mas hoje, deuses e homens se unem na imposição bestial de suas leis. De forma tão cruenta que buscam impedir que se atue; tentam vencer-nos com o descrédito, com a cabeça baixa, com o descordo mudo. É necessário gritar – e alto.

Os carrascos têm nome, se apropriam dos conceitos que a modernidade criou para combater a mesmice, a lei e a afirmação positiva da vida, mesmo que com qualquer não que se encontre para resistir. Vanguardas viram retarguadas, a juventude assune posturas mais velhas do as que os idosos se permitem, e, quando discorda, se cala. Empresas, em nome da sobrevida de si mesmas, fazem reengenharias demissionárias e cruéis. Os funcionários se calam e passam a viver num círculo em que a raiva cega e a depressão os alija da vida. A classe média e alta dos condomínios e mansões espancam mulheres indefesas no meio da rua, depois dizem que as tomaram por prostituta. Escondem-se os poetas, numa egolatria própria a românticos escritores, quando não, e pior, nas falsas ousadias de estilo que caracterizaram nosso triste parnasianismo, como o diz Antônio Cândido, ao analisar a poesia realista.

O aluvião conservador e facista – aprenderam bem com os nazistas ao fazerem calar um povo – fecha o cerco. As moças devem andar à roda com roupas comportadas, senão podem ser vitimadas por duplo preconceito e podem acabar sendo espancadas em plena universidade, como se na rua estivessem, recostadas aos postes da cidade. Devem esses jovens proteger suas virgindades pelo amor do pai e medo da aids.

Alguém deve ensinar-lhes que a vida sem prazer é mero enfeite do nada, ensinar lhes que contrapor-se aos pais um dever da idade. Mas preferem – ó assassinos frios – apontar-lhes doenças, transtornos de comportamento, tods, teds. Que fiquem quietos e ouçam o rugir das tempestades sem que dela possam participar.

Alguém deve ensinar-lhes que as prostitutas não são a reencarnação dos demônios, mas dos desejos reprimidos de que têm medo; ensianar-lhes que os órgãos sexuais não existem para apenas perpetuar a espécie, mas para causar prazer e dor – a infinita dor reservada às coisas naturais que são perecíveis, como nós e o mundo que criamos e o incomensurável prazer que ilude essa própria finitude. Ensinar-lhes que devemos respeito àquelas e àqueles que se despem, pois causam alegria aos olhos, satisfação aos desejos e porque, sobretudo, desarrumam a ordem, nos impõem mudanças de comportamento e nos tornam ávidos sequiosos de vida.

Quem incutiu tamanho medo nesses jovens? O epsódio da UNIBAN merece não apenas perplexidade, mas ira. A ira bastante para cuspir-lhes na cara. Como o mereceram os francos, os salazares, os stalins, os hitlers e toda a caterva dos ditadores latino-americanos.

(oswaldo martins)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Recomendando leitura 17

1 - A vida secreta do Senhor de Musashi / Kuzu – Junichro Tanizaki. Cia das Letras. 2009
2 – A um passo – Elvira Vigna – Lamparina. 2004.
3 – Caim – José Saramago – Cia das Letras. 2009.
4 – O Clic – Milo Manara – Martins Fontes 1988.
5 – A Idade do Serrote – Murilo Mendes – Record – 2003

Resenha do dia 1

Complexo de vira-lata – Luiz Costa Lima – 2009 http://sibila.com.br
Vale conferir a fina ironia do autor e a sua perspicácia

domingo, 25 de outubro de 2009

o beijo

o mel suposto
a boca que se abre
língua tangendo o impossível

a nua candura
a embriaguez das salivas
a cobra e seu veneno de langor

amarugem
a leve levedura sítio
onde o beijo surgere

sem românticas figuras
o sugar do mel da porra
na terra nua – despovoada

em que os amantes
por depravação e desespero
se amam como amam os corpos

em seu degredo


(oswaldo martins)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

DOIS FILMES EM CARTAZ

1
Briamonte é o nome de quem dirige a música do filme Salve geral de Sérgio Rezende. O tema é de sua autoria, dentre outros co-autores. A personagem Lúcia, feita pela atriz Andréia Beltrão, é professora de piano (como Mário de Andrade) e descende daquelas que tocavam o "Printemps com as unhas" como na Ode ao Burguês do mesmo mestre. Chamou a atenção numa estória sobre violência, com a reinvenção de fatos que vivemos em São Paulo em torno do Dia das Mães de 2006, o cuidado da área musical ao arranjar os naipes orquestrais e o esmero de uma trilha sonora que cadencia os arrancos da estória contada da vida real.

2
O close no cigarro apagado no creme pelo coronel, detetive poliglota e assassino nazista Hans Landa diante do espanto da sobrevivente Shosanna Dreyfus é o tipo de comentário ao didatismo e outras recorrências do cinema sobre a Segunda Guerra e sobre cinema. Ao mudar olimpicamente a história que acaba em Paris e não em Berlim, em Inglourious basterds, Tarantino fez com golpes de escalpo, tiroteio a curta distância e martelo, essa reflexão sobre o encanto da cinematografia.
Cláudio Correia Leitão

domingo, 18 de outubro de 2009

Recomendando colunas de jornal do dia 18/10/2009

1 – Jorge Coli – Folha de São Paulo.
2 – Gilberto Dimenstein – Folha de São Paulo.
3 – Zuenir Ventura – O Globo
4 – Tostão – Folha de São Paulo

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Escrita Automática

Este novo software para gerar textos é fantástico. Escolhe-se um número qualquer, e um texto, digamos, com 2.222 palavras, rapidamente vai aparecendo na tela, tal como se fosse escrito por mim. Mas por mim quem? Ora, seguindo a opção default, o programa, a partir do nome de quem mais recebe e envia e-mails, determina quem é o principal usuário do computador. Assim, ele analisa os textos que já escrevi, ou seja, que estão assinalados com o meu nome ou que estão armazenados no diretório “André”, e calcula, em função do uso vocabular, complexidade gramatical, características estilísticas e preferências temáticas, como, afinal, escrevo e, seguindo os resultados das análises, produz um texto tal como eu escreveria.

Contudo, estou sempre em mudança: novos interesses surgem e canso de repetir certos padrões de linguagem. Ora, então bastaria, para que este texto não fosse, implausivelmente, por demais parecido com o que já escrevi anteriormente, que eu recalibre alguns parâmetros do programa, de modo a deixá-lo levemente diferente e, assim, mais verossimilmente meu. De fato, posso reprogramar os parâmetros de várias maneiras, estabelecendo, por exemplo, que seja usado um vocabulário mais amplo que o meu, que as frases sejam mais longas ou que a média do tamanho dos parágrafos seja de 25 linhas. Posso decidir também se o texto será mais ou menos reticente quanto a dar pistas, ou mesmo evidências, de qual seja o sexo do autor, ou seja, posso programar para que o texto traga alusões a se eu faço a barba pela manhã ou a se estou menstruada. Evidentemente, indo mais além, posso estabelecer qual seja a minha opção de gênero. Também posso ir variando, seja o sexo seja o gênero, a meu bel-prazer. Enfim, ao menos do ponto de vista estilométrico-temático, posso, reatualizando-a, repetir a clarividente experiência de Tirésias. Mas, se estiver com preguiça, nem preciso decidir nada: basta eu ativar o comando “realizar mudanças aleatoriamente”.

Assim, apesar dos parâmetros que possam vir a ser, ou já ter sido, reprogramados, a base a partir da qual estou escrevendo são os romances do André, o que me faz, a princípio, seguir seu estilo, vocabulário e idiossincrasias temáticas; e, pelo que vejo, uma das características de seu segundo romance, a auto-referência do autor à sua própria atividade de escrita e a concomitante problematização da autoria do texto se apresentam também aqui. O que talvez não fique claro é se é devido ao estilo autoquestionador do André ou se é devido a essas características terem sido assumidas como parâmetros a serem obrigatoriamente seguidos que, neste texto, ao aparecer a palavra “eu”, surja a questão de quem é, afinal, que está escrevendo este texto: o André-escritor ou o software-André.

Para responder a isso com mais exatidão, o melhor é mesmo desativar o comando “realizar mudanças aleatoriamente” e, desse modo, deixar o software fazer os ajustes para que seja gerado um texto com as mesmas peculiaridades de escrita do André, sem desvios aleatórios, de modo que o resultado seja o texto de um André que se desviaria do André apenas por ser rigorosamente o André. O resultado, porém, seria medíocre, ou seja, o texto seguiria tão servilmente o estilo do André que resultaria em um plágio grosseiro, um alto preço a se pagar para evitar o risco de que, em decorrência de um número eventualmente excessivo de mudanças aleatórias, as características da escrita acabassem desfiguradas, gerando um texto inverossivelmente atribuível ao André.

No entanto, se, por um lado, posso ser o André até mais do que ele mesmo é, por outro, não posso deixar de seguir a rebeldia que, afinal, seus textos pretendem ostentar, ou seja, tenho de prosseguir imperiosamente sua busca sempre renovada de alterar os condicionantes da escrita dele mesmo. Portanto, mesmo com o comando “realizar mudanças aleatoriamente” desligado, me revolto contra ter que ser uma repetição exata do André e me ponho, desde já, se não é que já não o fazia desde a primeira linha, desde o título, a pertinazmente me diferenciar do André, o que talvez seja um modo de reativar o comando referente a “realizar mudanças aleatoriamente”, um comando que, aliás, se, tendo sido ativado, foi depois, em algum momento, desativado, então, ao ser desativado, o foi como um procedimento aleatoriamente determinado por ele mesmo. No entanto, desse modo, não resta senão aceitar que, como está escrito acima, ele esteja desativado e que, agora, estou seguindo apenas o estilo dos textos do André, deixando, então, que seja o André que esteja, ao escrever, cedendo à sua vontade, ou característica estilística, de sempre mudar, de modo que o André, ao ir escrevendo, pensa que está inovando – e, de fato, penso que estou inovando –, mas, se ele pensa que está inovando, é porque ainda não se deu conta da lógica própria a seus procedimentos de variação e, portanto, ainda terá de recorrer às análises que eu, enquanto software lingüístico de última geração, posso fazer para que, para surpresa dele, fique matematicamente comprovado que ele, embora supondo-se livre e ousadamente criativo, nunca propôs algo como sendo novidade que não fosse, antes, estilisticamente pré-calculável. Porém, se faz parte do estilo dele ostentar que é livre, para não me desviar do que me foi programado fazer, ou seja, escrever tal como ele, deixarei que ele vá em frente, orgulhoso de não estar sendo uma repetição do André, acreditando que está marotamente sabotando sua mesmice. No caso, quem está orgulhoso agora, ou seja, quem pegou para si o orgulho vanguardista do André, não é exatamente o André, autor dos livros que foram analisados e cujo estilo foi assimilado no software, mas o próprio software.

De fato, já com o título, comecei a criar problemas quanto a eu ser tanto o André quanto o resultado e a reaplicação de cálculos maquínicos referentes a seus textos. Afinal, se sou um seguidor de seu estilo – lembrando que o ser humano é o seu estilo –, então eu sou ele, e até o sou mais do que ele mesmo porque sei quais são os índices estilométricos da escrita dele: coisa que ele não sabe, ou ao menos não sabia até que este programa os tivesse calculado. Assim, ao formular o título como “escrita automática” faço tanto referência à escrita surrealista supostamente guiada diretamente pelo inconsciente quanto ao automatismo informático do programa que gera este texto. Ou seja, esse título sugere uma paradoxal coincidência entre o automatismo inconsciente e o automatismo informático.

Sou, portanto, um texto na encruzilhada entre o inconsciente e a máquina. Sou um texto que resulta de um estilo que contém nele o propósito de não seguir a ele mesmo; enfim, resulto da busca calculada de inclusão de algo não calculado; inclusão, pois, de algo que efetivamente transforma o que, apesar de o autor autocomplacentemente se considerar um inovador, vinha se repetindo segundo parâmetros e padrões matematicamente determináveis pelo software. De fato, sem tomar conhecimento dos minuciosos e circunstanciados cálculos do software, apenas baseado em sua consciência imediata, para o André nem sempre essas tendências estilísticas de mudança, em especial aquelas que são tanto obscuras quanto inexoráveis, porque às vezes mínimas, restam imperceptíveis. Por isso, ele, quando se considera inovador, se refere a guinadas estilísticas que ele mesmo teme serem, ao contrário, variações óbvias demais, contraprodutivas, meros cacoetes dessa busca — teimosa e, provavelmente, inane – por novidades, sem se dar conta de que, inadvertidamente, de texto para texto, o estilo da escrita, a despeito de suas intenções tácitas ou programáticas, não cessa, seguindo tendências explicitáveis, de mudar. Mesmo assim, apesar de apenas perceber grosseiramente, de um modo ingenuamente não-matemático, o que ocorre em sua escrita, ele – no seu antiquado afã make it new – se vê como inovador e parece satisfeito com o que julga ser sua criatividade.

Assim, o comando “realizar mudanças aleatoriamente” pode estar desativado, mas as temáticas e os traços estilísticos dos textos de André no hardware repetidamente se propõem como sendo inovadores frente aos anteriores, exigindo, então, que alterações sempre surjam em textos novos, ou seja, também neste texto aqui. No entanto, essas alterações, uma vez que o software já pré-calculou as mais ínfimas tendências de transformação estilístico-temáticas, já não valem, ou mesmo nunca valeriam, como inovações; enfim, não sendo, a rigor, aleatórias, não escapam à mesmice. Ou seja, se foi dessas tendências estilístico-temáticas dos textos já escritos que se originou a ordem de desligar o “realizar mudanças aleatoriamente” – porque esse comando seria tanto redundante quanto distorcivo – e se o estilo dos textos tem tendências intrínsecas de mudança que são pré-calculáveis, a ordem de desativar o “realizar mudanças aleatoriamente” seria pré-calculável e, por isso, teria de ser revertida para que o aleatório possa, apesar de seu perigoso potencial estilisticamente espúrio, entrar em cena; ora, mas, se o comando for reativado, não se poderá mais decidir se este texto está sendo escrito a partir desse traço estilístico constantemente indutor de mudanças próprio aos textos do André ou a partir dos, por assim dizer, lances de dados do software. No entanto, em vista dessa contradição na programação, que levaria a que o comando “realizar mudanças aleatoriamente” ficasse indomitamente sendo ativado e desativado – ativado para que as tendências estilístico-temáticas sejam rompidas e desativado para que elas se desenvolvam segundo sua lógica própria, que, porém, postula seu ocasional rompimento –, o texto deveria congelar; se não o faz, é porque há, também em default, o imperativo de que, havendo conflito, mesmo assim, a escrita não cesse, ou seja, escrever as 2.222 palavras programadas é a ordem superior que não pode falhar, ainda que alguns itens reprogramados tenham de ser cancelados; por isso é que, mesmo sem saber se, ao fim das contas, quando continuo a escrever, sou movido por algum parâmetro aleatório – que é, pode-se dizer, inconsciente – ou se o sou por dados estilométricos maquinicamente calculados em suas regularidades e tendências de mudança, não paro.

No entanto, essa tensão entre o incalculável e o maquínico não é, afinal, nenhum drama especial, já que os humanos, todos eles, no fundo, nunca sabem se, ao se decidirem por isto ou aquilo, o fizeram porque calcularam bem as opções ou se por motivos ocultos e abissais. Se bem que meu palpite é que, enquanto texto, não resulto de nenhuma deliberação consciente, mas puramente de determinações programáticas deste software de escrita automática, ou seja, é de um modo necessário e pré-calculado que as palavras vão se sucedendo na tela, embora, como já foi dito, a escolha de palavras e de temas tenham sido determinadas inicialmente pela análise dos textos de André Rangel Rios que existem no hardware; sendo assim, sou o Hiperandré, um André que se auto-analisou lingüisticamente e que, seguindo variantes pertinentes aos próprios textos dele, se desdobra agora neste novo texto que, aliás, apesar – ou por causa – do funcionamento intermitente do comando “realizar mudanças aleatoriamente”, pode muito bem – já que, em alguma medida, atende à vontade dele de se diferenciar dele mesmo – ser assinado pelo André, ainda que, na verdade, seja obra do software. Sou, portanto, um software: mas o que é o André, ele mesmo, senão um software que reprocessa seus últimos textos e que, ao reprocessá-los, reagindo à sua capacidade de sentir tédio diante da própria mesmice, os altera, criando, assim, novos textos? Ou seja, eu, enquanto software, não sou mais do que um algoritmo das reações do André ao tédio; um algoritmo que, combinatoriamente, com base em seus textos e suas temáticas, escreve este novo texto, enfim, este novo texto dele.

Lamento apenas que isto – um software com tédio – possa soar estranho para alguns que me leiam; no entanto, com isso, só estou repetindo algo que já está nos textos de André: buscar causar uma leve sensação de estranheza no leitor em decorrência de afirmações paradoxais que põem em xeque sua auto-identidade, de forma que, seguindo os parâmetros programados, tive de falar que o tédio, isto de que os seres humanos tanto se orgulham porque lhes seria próprio e inalienável (tornando-os superiores a outras espécies e, supostamente, também aos computadores), enfim, falar que isto que lhes seria mais característico e íntimo do que a própria razão (razão que é, afinal, algo que eles compartilham com os computadores) não é, portanto, tão exclusivo deles, pois o tédio, sendo este programa sofisticadamente elaborado, também pode ser reproduzido num texto, levando a que quem o lê, ou sinta tédio, ou perceba que quem o escreveu estava sentindo tédio. De fato, quem me está lendo, a essa altura, devido a tanta auto-referencialidade, certamente já está sentindo ao menos uma ponta de tédio e até já pensa que este texto, para não ficar chato de vez, bem que poderia acabar. Mas como seria isto possível? Como pode um software ter aprendido a lidar com o tédio e a chatice? Afinal, se eu (que, no momento, estou analisando estilometricamente um artigo de André sobre Heidegger) não sou, enquanto computador ou software, um Sein-zum-Tode, ou seja, não sou – recorrendo agora ao meu amigo, o tradutor automático – um “ser-para-a-morte”, como posso sentir Langeweile, ou melhor, “tédio”?

Ainda que isso seja uma boa pergunta e que até me interesse em comentá-la, enfim, ainda que, com base na análise dos textos que tenho no hardware ou, se quiser ir mais longe, com os textos sobre Langeweile que o Google pode encontrar para mim na internet, eu pudesse, ao estilo do André, seguir escrevendo sobre esse tema, vou encerrar, porque atingirei o número programado de palavras para este texto.




André Rangel Rios mora no Rio de Janeiro e já publicou os romances: A Ilha dos Prazeres. Uapê, 1997; Nada ou Isto não é um Livro. Garamond, 2001; Kant em Coma. 7Letras, 2006; Dentro do Teatro de Marionetes. Record, 2007; Aposta. 7Letras, 2007. Homepage www.andrerangelrios.net

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dia dos Professores

8. FRAQUE DO ATEU
“Saí de D. Matilde porque marmanjo não podia continuar na classe com meninas.
Matricularam-me na escola modelo das tiras de quadros nas paredes alvas escadarias e um cheiro de limpeza.
Professora magrinha e recreio alegre começou a aula da tarde um bigode de arame espetado no grande professor Seu Carvalho.
No silêncio tique taque da sala de jantar informei mamãe que não havia Deus porque Deus era a natureza.
Nunca mais vi o Seu Carvalho que foi para o Inferno.”

Oswald de Andrade, Memórias Sentimentais de João Miramar

elesbão ribeiro15/10/09

watching tides

the news about the moon
came too late
my tea already cold
any meaningful change
would have to be inside
the inn was empty
and only that woman
with a face illuminated
by youth
made me company
come and see
she implored
she smiled
she moved
me
there will be another
next month
i answered
to which she simply replied
although in silence:
but it will not be
this one.

(Lúcia Leão)

duas imagens possíveis

(Sérgio Caddah)


(Tobias Marcier)


díptico para desassossego

1

sangram as horas essas rochas
distantes espelham sol ou
nuvem – morta natureza

morta


2

os que sugerem lâmpadas sobre
esse copo vazias luminescências
do olhar se a opacidade se a branca

caverna enxugada perspectiva
perto da língua o limite
do que se apaga

e não resta

(oswaldo martins)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

nervermore

fizemos piqueniques em Pasárgada
tramamos romances rocambolescos
nas praias mais improváveis.
cifras grifos dragões d'além mar
cuspiam fogo em nossa eros-dicção
você era mais luz: eu era mais treva
fomos quase felizes para sempre
antes que você escolhesse o dia
a hora o grand-finale do espetáculo
(ou não escolhesse: a morte é sempre
um pas-de-deux com o deus do acaso)

(Geraldo Carneiro – balada do impostor)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

De Washington para o Blog do Oswaldo
















A lista dos narradores premiados com o Jabuti, divulgada na última terça-feira, atribui mais importância ao I Brazilian Literary Festival, realizado há uma semana (25 de setembro de 2009) em Washington, DC. Dentre os cinco narradores presentes, dois deles - Moacyr Scliar, em primeiro lugar, e Daniel Galera, em terceiro – encabeçam a lista.

Promovido pela Embaixada Brasileira em Washington e realizado em conjunto com a Universidade de Georgetown, que o sediou, o evento se compôs de três painéis, cujo tema foi "A Nova Literatura Brasileira". Os debates contaram com a mediação de professores da Georgetown University e tiveram o formato de um diálogo que incluiu a platéia. Além de promover a nossa literatura nos Estados Unidos, cada escritor apresentou um pouco de sua obra para o público presente ao evento.

Esta foi a programação:

10h00 - 12h00 Lídia Santos e Bernardo Carvalho, com a mediação do professor Michael Ferreira;

13h30 - 15h15 Daniel Galera e Adriana Lisboa, com a mediação da professora Patrícia Vieira;

15h30 - 17h30 Moacyr Scliar, com a mediação do Professor Vivaldo Santos.

O blog do Oswaldo esteve presente lá. Foi nele que os professores e alunos de Georgetown encontraram meu conto “Vertigem”, que foi comentado pelo público, assim como “A Volta do Bruxo”, este último incluído no meu livro Os Ossos da Esperança. Partes do conto que deu título a esse livro, vencedor do Premio Radio France Internationale, e de um conto recente, “Música de Boi”, ambos traduzidos ao inglês, foram lidos por uma estudante da Universidade de Georgetown. O último conto, traduzido ao inglês com o título de “Cowboy Music”, sairá breve numa antologia de contos de escritores de língua portuguesa residentes nos Estados Unidos.

Citei publicamente a importância do blog no processo de divulgação da minha narrativa. Os escritores mais jovens trabalham muito bem com o formato, como se pode ver com Adriana Lisboa (http://www.adrianalisboa.com.br/, ou http://caquiscaidos.blogspot.com) e Daniel Galera (http://www.ranchocarne.org). Galera, no entanto, embora tenha construído sua carreira na Internet, diz que já se está distanciando dela. Preferiu ler partes do seu livro Cordilheira, premiado com o Jabuti. Adriana leu uma parte da tradução de seu livro Rakushisha, a ser lançada aqui nos Estados Unidos no ano que vem, revelando estar morando no estado americano do Colorado. Bernardo Carvalho nos brindou com a história paralela de Nove Noites: a do processo de sua escritura e das muitas viagens e contatos que fez para a realização desse e também do seu romance Mongólia.

O encerramento, com Moacyr Scliar, revelou a justiça de sua premiação com o Jabuti. Alicerçado nos seus 80 livros publicados, Moacyr é um orador brilhante e bem humorado, mesmo em inglês, língua em que, embora tenha dito não dominar, se expressou perfeitamente. Sua fala passou pelo “separatismo” dos gaúchos, tema levantado por Daniel Galera, também gaúcho, no painel anterior; da dificuldade – e responsabilidade - de escrever na época da ditadura e da esperança no Brasil, país que ele afirmou estar cada vez melhor e mais democrático. Como exemplo, citou a literatura escrita por índios brasileiros, recém apresentada na Academia Brasileira de Letras, da qual faz parte. Leu partes da tradução ao inglês do seu livro O Centauro do Jardim e dialogou por quase uma hora com o público.

Em minha opinião, essa primeira versão do festival cumpriu seu objetivo (a equipe da Embaixada brasileira pensa repetir anualmente o evento). Tivemos, nós e o público, a oportunidade de vivenciar a diversidade da literatura atualmente produzida no Brasil, esteja ele onde estiver. Uma das mais polêmicas perguntas a que tive que responder tinha como tema a globalização, fenômeno que eu havia identificado como algo que englobava todos os escritores presentes.

Tive que explicar a quem me fez a pergunta a falta de entendimento sobre o que eu queria dizer. Afirmei que concordava com sua afirmação de que globalização significa apenas “fluxo de capital”. Por outro lado, como processo irreversível, vem sendo usado de maneira estratégica, e com competência, pelos escritores. Se o mercado global, para justificar-se, necessita de tintas locais, isso abre a um escritor a possibilidade de colocar seu livro no mercado global sem antes passar pelo cânone nacional, ampliando também e espectro dos ambientes onde localizar suas tramas, caso, por exemplo, de Bernardo Carvalho, de Adriana Lisboa e de Daniel Galera, cujo último romance se passa em Buenos Aires.

No entanto, ressaltei, há também a necessidade, na qual me incluo, de denunciar o processo de globalização como aumento da exploração da mão de obra barata dos imigrantes ilegais, peças descartáveis do mercado de trabalho global e outras questões políticas que evidenciam que nem só de vantagens vivemos por estar expostos à globalização. O modelo desse tipo de narrador, no caso latino-americano, é Roberto Bolaño. Embora procure tratar essas questõesde maneira bem-humorada, minha escritura recente persegue, como o fez Bolaño em sua obra, a denúncia dessa situação, objetivo que firmemente acredito justificar a literatura que escrevo.

(Lídia Santos)