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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O Sutur de Cândido Rolim

Tempo

Esses senhores.
Ninguém os chama de filhos.
Nem de órfãos.

(Cândido Rolim)



As definições da poesia são várias, demandam uma série ininterrupta de percepções e inovações, que vão desde o corte rítmico ao corte visual em proveito do sentido – nem sempre tangível do poema. Em Sutur, o poeta Cândido Rolim apresenta, para além da acuidade com que enxerga a realidade, uma densidade cujo desdobramento se dá na forma com que trabalha seus poemas.
Se assíntota é linha que se aproxima indefinidamente de uma curva sem jamais cortá-la, a palavra do poeta retransfigura a definição e nos entrega, mais que um modo de operação de suas poesias, a definição que permite ao leitor buscar, nos cortes operados, um sentido oculto que se desvelará na percepção do leitor como construção das relações do espaço e do tempo. Senão veja-se:

Assíntota

linha que se
aproxima
indefinidamente de
uma curva sem
jamais
cortá-la

O isolamento dos verbos aproximar e cortar, entre o curvo e o reto, acerca-se e dá destaque ao modo de operação dos poemas do livro. Neste entre-lugar, o poema cria como que uma terceira possibilidade que não é nem o curvo nem o reto, nem mesmo o modo de operação do pôr o mundo a nu, mas o próprio do mundo repovoado. Essa técnica, no sentido mesmo de arte, possibilita que se desdobrem inúmeros modos de aproximação com o sentido e inaugure possibilidades inovadoras de participação e confecção das suturas expostas pelo poeta.
Veja se, por exemplo, este outro poema – sábado -, cuja ironia, cáustica, por sua mínima lírica, faz retroceder toda constatação da ação humana a uma “qualidade negativa” preenchida dos vazios em que a propulsão dos afetos não encontra respostas afetivas, como se o sujeito da ação afetiva se permitisse um não-lugar à satisfação dos desejos e o transmudasse em outro móbile que se conformasse, ao sabor dos ventos, ao que possa ser apreendido como objeto do desejo. Em outras palavras: o vazio a ser preenchido só se opera a partir da falta.

SÁBADO
Homens acariciam
carros
O modo de operação dos poemas vai se construindo aos poucos, complementando ao longo de todo o livro esse primário dizer que faz com que a poesia de Cândido Rolim se mostre necessária e pulsante frente a este mundo de construções falseadoras do real, por ele mundo se contentar com a repetição do mesmo. Se o mundo opera com o preenchimento dos vazios pela positividade dos sentidos, a falta desta positividade, em Rolim, pressupõe seu preenchimento a partir dos desdobramentos dos vazios em mais vazios; como os móbiles de Calder, a construção da poesia de Sutur se mostra na configuração do momento de leitura. O que, aliás, é mais do que necessário no panorama da literatura contemporânea.

Oswaldo Martins

sábado, 1 de dezembro de 2018

unha 1


Quando o dedão do pé nasceu, ficou plantado no meio da sala. Talvez esperasse o resto do corpo vir aos pedaços. Por pouco ficaria assombrando a memória de sua mãe, se ele não desse alguma serventia ao que ainda lhe restava de vida. A unha encravada, o aspecto tenebroso daquele menos que pé constituíram, meio que oracularmente, os percalços de sua vida. Depois que o corpo veio se juntar ao dedo, JM passaria a vida inteira a buscar com a obstinação dos atormentados um meio para fazer com que seu dedo, dedão, se materializasse em todo seu esplendor, por isso o disseminou com o disfarce de outras partes do corpo nos suportes que viria a utilizar.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Texto de Horácio Matela para o Observatório da Imprensa

Nos últimos dias meu filho Igor Pouchain Matela e sua esposa Carla Hirt foram duramente atingidos em dois ataques brutais pelo simples fato de estarem comprometidos com a luta política que trava a população do Rio de Janeiro e de todo o país, contra a inépcia e os desmandos que estão nas manchetes dos veículos de comunicação.

O primeiro ataque foi por uma polícia completamente despreparada para lidar com manifestações pacíficas de movimentos organizados como o do Passe Livre e o do Comitê Popular Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro.

O segundo brutal e covarde ataque foi cometido pelo jornalista Antonio Werneck, n’O Globo, nos dias 25 (Capa e página 8) e 26 de julho (página 11) passado – uma semana após as manifestações em que Carla foi baleada e em vez de ser socorrida e levada para um hospital, foi trancada numa delegacia de polícia.

Com uma semana para fazer uma bela apuração, o indigitado jornalista – aparentemente – só utilizou de suas fontes na delegacia e seus contatos com um ex-deputado federal que desponta para o anonimato.

Matéria de envergonhar um chefe de Redação que preze o trabalho jornalístico. Nem a legenda da foto da reportagem é verdadeira. Tudo é fabricado no ar condicionado da Redação.

O jornalista Luiz Carlos Azenha percebeu a farsa e, em poucas horas, ouviu, analisou e informou com clareza todos os pormenores do ocorrido em seu site (ver aqui). Mario Augusto Jakobskind, também (ver aqui).

Fácil para quem sabe pensar e exercer dignamente a profissão de jornalista.

Penso que se eu fosse diretor de Redação de um grande jornal demitiria um jornalista que me trouxesse uma matéria como esta, e por justa causa. Um empregado de meu jornal não poderia estar fazendo matérias a serviço de suas fontes; não deveria ser moleque de recado de interesses espúrios. Afinal quem paga o salário de um jornalista, quer – imagino – trabalho competente e informativo e isto não se consegue com indigência mental. (Horacio Sanches Matela, aposentado, Rio de Janeiro, RJ)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Prosa 4

__ Devo dizer-lhe que, desde que o caro Ogou não dá mais no couro, sou obrigada a buscar parceiros entre os mortais, e eles não estão à altura, naturalmente. Posso trepar facilmente um mês inteiro sem parar.
__ Para fazer amor o ano inteiro, é preciso...
__ Escute, meu jovem, os humanos fazem amor, mas os deuses trepam.

(Dany Laferrière - País sem chapéu - Editora 34)

domingo, 15 de janeiro de 2012

As edições de Carpeaux


Resenha Eletrônica  
 
   
   
 Uma história  da esperteza editorial
 Revista Época - 09/01/2012 
 
   
 O relançamento de "História da literatura ocidental", de Otto Maria Carpeaux, pela editora Leya, é uma cópia fiel da edição  feita pelo Senado. Antes disso, a Leya publicou uma biografia autorizada do presidente do Senado, José Sarney.
 
 
 MURILO RAMOS

 
 
 

História da literatura ocidental, de  autoria do austríaco Otto Maria Carpeaux (1900-1978), é  uma obra monumental. Um intelectual brilhante, radicado  no Brasil, aonde chegou em 1939 da Europa, Carpeaux, um  judeu convertido ao catolicismo para fugir do nazismo,  adotou o sobrenome afrancesado em substituição ao  original Karpfen, de origem germânica. Ele discorre na  obra, de forma fluente e erudita, sobre 8 mil  escritores, desde Homero, na Grécia Antiga, até os  autores modernos da década de 1970. Uma preciosidade de  fôlego enciclopédico, sem similares no mundo, a obra,  até 2011, só tinha tido três edições: uma em 1959  (Edições O Cruzeiro); outra em 1978 (Editorial  Alhambra), revisada e atualizada pelo próprio Carpeaux;  e a terceira em 2008 (editora do Senado). No fim do ano  passado, História da literatura ocidental foi relançada  pela editora Leya em quatro volumes, sendo vendidos ao  preço de R$ 179,90 exclusivamente nas lojas da rede da  Livraria Cultura (que coassina a edição).

Num  país ainda tão pouco afeito à leitura, o relançamento de  uma obra tão seminal só poderia ser digna de aplausos e  elogios. Não fosse por uma questão. À exceção da capa,  contracapa e das páginas iniciais, a edição da Leya (uma  editora comercial de origem portuguesa) é uma cópia fiel  da edição do Senado. Ela só foi possível graças a uma  daquelas ações financiadas em parte com dinheiro  público, bem típicas de certas rodinhas do mundo  cultural. A cópia feita pela Leya é tão flagrante que  até detalhes do projeto gráfico criado para os livros  publicados pela editora do Senado são reproduzidos na  nova edição. Uma das marcas características da coleção  de livros do Senado é um pontilhado nas capas e no alto  das páginas. A edição recente de História da literatura  ocidental da Leya reproduz o mesmo pontilhado em suas  páginas.

O projeto gráfico dos livros do Senado  foi feito pelo publicitário Achilles Milan Neto. Ele  venceu uma concorrência pública no fim dos anos 1990  para desenvolvê-lo e recebeu R$ 10 mil na ocasião (cerca  de R$ 24 mil em valores atualizados). Milan Neto  frequentou as dependências da Gráfica do Senado para  adaptar suas criações às necessidades específicas e aos  equipamentos de seu cliente. "Defini espaçamento, corpo  da letra, entrelinhas e a capitular que seriam usados  nos livros. Deixei uma espécie de apostila com  orientações aos servidores do Senado", afirmou. Ele se  declarou surpreso com a reprodução de seu projeto  gráfico na nova edição do livro de Carpeaux e disse que  consultará advogados para saber se terá direito a  receber parte dos recursos obtidos com as vendas  realizadas pela Leya.

A Leya teria feito, então,  um plágio descarado da edição do Senado? O problema não  pode ser resumido assim. A editora portuguesa fez  questão de dar os créditos do projeto gráfico do miolo  do livro a Milan Neto (mesmo sem seu conhecimento), de  registrar um agradecimento ao Senado pela "cessão dos  direitos da obra" e de atribuir a edição ao  vice-presidente do Conselho Editorial do Senado, Joaquim  Campelo Marques. O próprio diretor editorial da Leya,  Pascoal Soto, reconhece que houve uma cópia da edição do  Senado. "Reproduzi a edição que ele (Campelo) fez. É  igual. O Campelo me autorizou a fazer do jeito que eu  fiz e estou orgulhoso disso", disse Soto a  ÉPOCA.

Para copiar a edição da forma como foi feita, o mais barato e rápido, para a Leya, seria simplesmente reimprimir um arquivo digital recebido do Senado. Mas Pascoal conta outra história. "O Senado não cedeu nada. Tenho a edição impressa. Temos recursos para  reproduzir. Digitamos e reproduzimos tal como foi feito  pelo Senado", diz. Essa é uma versão considerada pouco verossímil pelos conhecedores dos meandros das impressões gráficas. "Seria um trabalho gigantesco para a Leya digitalizar as imagens para pôr no mesmo formato da edição do Senado", diz o editor José Mário Pereira, dono da editora Topbooks.

A história da cópia da  edição da História da literatura ocidental poderia se  limitar a uma trapalhada nota de rodapé, mal contada por  seus autores, não fosse a proximidade da Leya com o  presidente do Senado e do Conselho Editorial, José  Sarney (PMDB-AP), e o vice-presidente do Conselho,  Joaquim Campelo. A biografia autorizada de Sarney,  escrita pela jornalista Regina Echeverria, que traça um  retrato simpático do político do Maranhão, foi publicada  pela Leya. Na semana passada, Sarney também entregou à  editora seu livro de memórias, que deverá ser publicada  no segundo semestre deste ano. A Leya, segundo confirmou  Pascoal Soto, também examina a possibilidade de publicar  um dicionário de autoria de Campelo.

Maranhense  da cidade de Viana, Campelo, de 80 anos, é amigo de  Sarney desde a década de 1940, quando estudaram no mesmo  colégio. Campelo foi amigo de Carpeaux, ajudou a revisar  a edição de sua obra pela Alhambra em 1978 e ganhou fama  ao auxiliar Aurélio Buarque de Holanda na elaboração do  dicionário mais conhecido do Brasil. Casado com  Margarida Patriota e cunhado do ministro das Relações  Exteriores, Antonio Patriota, Campelo assessora Sarney  desde a Presidência da República, no fim dos anos 1980.  Ele era responsável por preparar discursos para o então  presidente e por ler documentos importantes antes da  assinatura presidencial. Como vice-presidente do  Conselho Editorial do Senado, comanda a editora do  Senado. Foi ele quem negociou com Soto a edição recente de História da literatura ocidental.

A suspeita  de que a Leya foi favorecida é reforçada porque havia  editoras concorrentes interessadas na reedição da obra  de Carpeaux. José Mário Pereira, da Topbooks, disse que prepara a edição de História da literatura ocidental há alguns anos e foi surpreendido com o relançamento da Leya. "Estimo gastar entre R$ 60 mil e R$ 70 mil com os três volumes que vamos lançar. Esse é aproximadamente o montante economizado pela Leya quando o Senado cedeu os direitos da obra à editora", diz Pereira. "O Senado ajudou uma editora estrangeira. Por que escolheu ela?"  No cálculo feito por Pereira, estão as previsões de  despesas com pesquisas, revisões e  digitalizações.

Tanto Sarney como Campelo  defendem-se e dizem que não houve nem favorecimento à  Leya nem cessão de direitos de História da literatura  ocidental, uma vez que se trata de uma obra de domínio  público. Uma obra torna-se de domínio público 70 anos após a morte de seu autor ou quando o autor não deixa  herdeiros, caso de Carpeaux. Mas há aí também uma confusão. Segundo a advogada especializada em direitos autorais Sônia Maria D"Elboux, ainda que uma obra seja de domínio público, uma editora que se utiliza da criação intelectual de outra, constituída pela seleção, organização ou disposição desse conteúdo estará violando direitos autorais. "Para que haja proteção autoral,  exigem-se criatividade e originalidade", diz  Sônia.

Para o público interessado em literatura,  o relançamento da obra de Carpeaux trouxe um duplo  benefício. Além de tornar o livro mais acessível a novos  leitores, a reedição permitiu uma redução do preço pago  pelos quatro volumes. Até o final do ano passado, a  História da literatura ocidental, editada pelo Senado,  só podia ser comprada pela internet ao preço de R$ 200.  Alertado de que a Livraria Cultura vende os quatro  volumes a R$ 179,90, o Senado, na semana passada,  resolveu baixar seu preço para R$  170.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Datas coincidentes:


Entre 1896 e 1897 aconteceu Canudos, em 1895 ou 1897 nasceu Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá ou Besouro Cordão de Ouro.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Prosa avulsa 1


Todos conheceis a pro0funda melancolia que nos acerca, ao recordarmos tempos felizes. Eles são irrevogáveis, e deles somos cruelmente separados por uma distância maior que todas as distâncias juntas.

(Ernest Jüger – Nos penhascos de mármore)

sexta-feira, 19 de março de 2010

TRISTES TRÓPICOS

Caríssimos e íssimas,

Começo nesse nosso espaço fazendo uma denúncia, e contando com esse valoroso grupo para me ajudar a divulgar o que vem acontecendo com as escolas municipais da cidade do Rio de Janeiro.

Finalmente, a SME/RJ está utilizando as verbas a ela destinada desde sempre. A Claudia Costin, como boa administradora que é, e já tendo tido experiência em outros cargos governamentais, inclusive na esfera federal, sabe direitinho onde o dinheiro está e tem captado literalmente tudo o que é possível captar. Mas...

Apesar de todos os avanços no campo administrativo que estão sendo realizados nessa gestão, a orientação pedagógica está uma verdadeira barafunda!
Dentre as inúmeras propostas de "salvação" que a SME/RJ anda apresentando aos professores, de maneira absolutamente arbitrária, está uma cartilha, baseada no método fônico ou fonético - muito utilizado nos anos 50/60 e que é condenado por todos os estudiosos do assunto, desde a década de 80.

As cartilhas chegaram para serem distribuídas para as escolas cujos alunos têm dificuldade na aprendizagem da leitura. É um projeto caro, encomendado a um Instituto chamado Alfa e Beto. Chama-se "Aprender a ler" e tem um livro suplementar, com pseudo histórias para os alunos.

Com essa cartilha, pretende-se alfabetizar, finalmente, as crianças... a justificativa é que, com os métodos anteriores, as crianças não obtiveram sucesso. Posso afirmar que a metodologia do ensino de alfabetização que era orientada aos professores nunca chegou a ser implantada efetivamente no nosso município - por motivos políticos.

Desde 2002, ainda na gestão do Prefeito César Maia, as capacitações em serviço para os professores da Rede Pública Municipal foram suspensas.

As atualizações para os professores foram retomadas no final de 2009, já na gestão do Eduardo Paes. Esse vácuo de 7 anos para o magistério foi fatal. Haja vista a pesquisa recentemente publicada, em que os professores culpam as famílias dos alunos pela não aprendizagem dos mesmos. (O pior é que a SME/RJ também acredita nisso uma vez que lançou uma "cartilha" para as mães - e somente elas - aprenderem a acompanhar os filhos em seus estudos. Isso é, no mínimo, grotesco... um dos conselhos dado às mães, é que tenham um local adequado em suas casas, para as crianças estudarem. Um local silencioso, com boa iluminação, boa ventilação e confortável...) Têm ideia de qual planeta quem escreveu isso vive?

Retrocedemos 20 anos no pensamento pedagógico dessa Rede.

Algumas outras propostas de salvação do ensino na Rede Pública, são, ainda, a volta da 2ª época e dos deveres de casa... Voltando à cartilha de alfabetização, envio um dos textos para vocês verem, com algumas observações iniciais.

*Minha chinela amarela*

/"Olá, eu sou o Charles.
Eis a minha chinela.
Minha chinela é amarela.
Eu chamo minha chinela de Chaninha!

Chaninha vive no armário
De manhã, Chaninha sai do armário e vem para mim.
E Chaninha vem me ver, cheia de charme!

Eu saio ao sol, eu e a minha chinela...
Eu saio na rua...
Eu e a minha chinela.
Eu e a minha Chaninha! Lá vamos nós!

Às vezes, eu suo muito.
Eu suo na Chaninha.
Aí, ela cheira mal!
Uuuuu! Ela cheira a chulé!

Se dá chulé na Chaninha, mamãe leva e lava.
Mamãe lavou, lavou e a Chaninha furou.

Hum, a chinela é cheirosa afinal!
Chaninha é velha.
Mesmo assim ela é maravilhosa!"/

1 - Qualquer professor de Língua Portuguesa pode atestar que isso acima é quase um não-texto, porque possui débeis elementos básicos de coesão, e baixíssimo nível de coerência. São quase frases soltas;
2 - costumamos dizer que esse tipo de não-texto imbeciliza os alunos;
3 - é também inadequado para a faixa etária a que está endereçado;
4 - não utilizamos chinelas no Rio de Janeiro;
5 - Charles é um nome, ah digamos... não brasileiro;
6 - e, Chaninha, na minha terra é... vocês sabem o que significa.

Sou profª da Rede Municipal há 32 anos e nunca vivenciei nada semelhante. Nunca a SME foi tão retrógrada, com atitudes tão conservadoras e tão inconsequente em seus atos.

A Claudia Costin tem uma mídia hiper forte com ela, que é excelente administradora, mas não entende bulhufas de Educação e nem a equipe que montou para assessorá-la. E os professores ah, digamos, mais conscientes, estão sem espaço pra contar suas histórias. Só aparece o que dá cartaz ao governo, e que está apenas na superfície.

Pra terminar, outra "história" tirada da cartilha:

*Zé e Zuza*

/"Zé amola seu mano Zuza.
- Ei, Zuza zonzo!
- Não amola, Zé!

Uma manhã, uma luz iluminou Zuza.
- O Zé não me amola mais!

Zuza assou uma massa de sal numa noz.
- Uma noz, mano Zuza! Eu amo noz! Ulalá!

E zás!
Ai, ai, ai!
Noz com sal?
Zuza amolou o Zé, ou não?

O Zuza não amolou.
- Amo noz! amo sal! Noz e sal, uau! Amei!

Ué, nem o sal na noz amola o Zé!
- Ô, mano Zé lelé!
- Ê, miolo mole!"/

Parece sacanagem? E é!!! Sacanagem com os meninos e meninas das escolas públicas municipais do Rio de Janeiro.

Obrigada pela atenção

*
/Denise Vilardo/

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A LITERATURA E O MAL

A LITERATURA E O MAL

A geração a que pertenço é tumultuosa.

Ela despertou para a vida literária* do surrealismo. Houve, nos anos quew se seguiram à Primeira Guerra, um sentimento que transbordava. A literatura sufocava em seus limites. Parecia que ele continha em si uma revolução.

(Georges Bataille - Prefácio)

domingo, 17 de maio de 2009

Um trecho do leite derramado, e uma pergunta

"Penso que ele sabia muito bem com quem sua mulher se deitava, como deve ter sabido no Panamá, na Guiana Francesa e não sei mais onde, como saberia na Turquia e por aí afora. Perigrinava pelo mundo como quem arrasta uma esposa com moléstia incurável, mas eu não tinha nada a ver com sua vida" (Chico Buarque: Leite derramado, p. 162)

Oswaldo, como anda o Diário do Manuel?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Da Solidão

Com o caderno na mão, olho para a foto dela enquanto falamos, e me parece de repente que meu avô, da página ao lado, também olha para ela com seu olhar soturno, ao mesmo tempo sardônico e acuado. Sente inveja de mim, me quer mal, mas nesse instante penso que ele nada pode contra nós. Amo uma mulher, essa mulher me ama. Não estou mais sozinho.

(Emmanuel Carrère - Um romance russo - Alfaguara - 2008)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O Fantasista

Com a emoção ligeiramente arrefecida, o homem se sentou à sombra do mausoléu e, com a coroa de flores entre as pernas, começou a recordar sua infância nas ruas de Temuco e seus primeiros contatos com a bola de meia. E, sem nos darmos conta, lá estávamos nós, junto à tumba do jogador pampiano, conversando animadamente sobre a transcendência que o futebol pode ter na vida de um homem; em sua maneira de ser e no seu modo de enfrentar as adversidades. Todos concordamos que, no terreno exíguo de um campo de futebol, era possível apreciar o melhor e o pior do ser humano. Ali, no campo de jogo, naquele retângulo de terra e grama, fechado ou aberto, no meio da grande cidade ou nos mais perdidos rincões, ao longo de escassos noventa minutos de porfia, podiam-se se ver a nobreza, a coragem, a lealdade e tudo de bom que havia num indivíduo; ao mesmo , contudo, podia aflorar também o que ele possuía de pior: a covardia, a injustiça, a soberba e a malandragem. Todos concordamos, igualmente, quando o Fantasista, com um travo de amargura na voz cavernosa, falou que ninguém tinha condição de dizer o que era o prazer se nunca havia feito um gol olímpico no melhor goleiro do ano; que ninguém tinha condição de saber o que era júbilo mais desenfreado se nunca havia driblado três adversários de uma vez e em seguida marcado o gol da vitória nos acréscimos de uma final de campeonato. Mas, igualmente, nenhum cristão podia dizer que conhecia a derrota e a humilhação mais profunda sem nunca ter ido até o fundo das redes de uma baliza para buscar a bola após fazer um gol contra.

Por fim concluímos em total acordo: ninguém terá experimentado a angústia de se sentir só no universo se não ficou de pé debaixo dos três paus à espera de ser fuzilado por uma cobrança de pênalti no último minuto de jogo.

(O FANTASISTA – Hernán Rivera Latelier)

Este post é dedicado aos grandes vascaínos Pedro de Lima Martins Teixeira, meu pai e Mateus Souto Martins Teixeira, meu filho.
Ao grande flamenguista e amigo Ronald Iskin.
E ao não menos grande botafoguense e amigo Leo Barbara Machado.

(oswaldo martins)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Imre Kertész

*
É possível que suportemos a vida tão somente por ela ser tão improvável; por outro lado. a consciência procura investigar o tempo todo a chamada realidade, deseja a realidade.
**
A pergunta singularmente desconfortável com a qual Wittgenstein não pára de se atormentar: será que o que escreve tem valor? Parece a ostra observando as flutuações do preço de mercado da pérola enquanto produz no fundo do mar: deve-se reconhecer que a natureza da pergunta de Wittgenstein é radicalmente diferente da natureza da ostra.

(Kertész, I. Eu, um outro. Planeta - 2007)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Anotações sobre as cores - Fragmentos

35. Lichtenberg sagt, nur wenige Menschen hätten je reines WeiB gesehen. So verwenden also die Meisten das Wort falsch? Und wie hat er den richtigen Gebrauch gelernt? —Vielmehr: er hat aus dem tatsächlichen einen Idealgebrauch konstruiert. Wie man eine Geometrie konstruiert. Aber mit "Ideal" ist hier nicht etwas besonders Gutes, sondem nur etwas auf die Spitze getriebenes gemeint.”
36. Und freilich kann só ein erfundener uns wieder über den wirklichen Gebrauch belehren.
Und es könnte auch sein, daB wir, z.B. für wissenschaftliche Zwecke, einen neuen Begrifl des 'reinen WeiB' einführen. (Ein solcher neuer Begriff entspräche dann etwa dem chemischen Begrifí eines 'Salzes').


35. Lichtenberg diz que muito poucos homens teriam visto alguma vez o branco puro. Nesse caso, usará a maioria a palavra de uma forma errada? — E como aprendeu ele o uso correcto? Pelo con­trário: Ele construiu um uso ideal a partir do uso executivo. Tal como construímos uma geometria. E "ideal" não significa aqui uma coisa especialmente boa, mas apenas algo que foi levado aos extre­mos.
36. E, certamente, uma tal construção pode, por sua vez, ensinar--nos algo sobre a sua utilização efectiva.
E poderíamos também introduzir um novo conceito de "branco puro", para fins científicos, por exemplo (um novo conceito assim corresponderia, digamos, ao conceito químico de "sal").

(Ludiwig Wittgenstein Tradução: Filipe Nogueira e Maria João Freitas)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

ONDJAKI

O mundo tinha aquele cheiro de terra depois de chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança.
Desci. Sentei-me perto, muito perto da avó Agnette.
Ficámos a olhar o verde do jardim, as gotas a evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novas caminhadas. O recomeçar das coisas.
__Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.
__Vão pra casa, filho.
__Tantas vezes de um lado para o outro?
__ Uma casa está em muitos lugares - ela respirou devagar, me abraçou. __ É uma coisa que se encontra.

(ondjaki - palavras para o velho abacateiro in os da minha rua - Língua Geral Editora)


terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Memórias do filho do sorveteiro

Não sei quantas horas depois resolveu parar. Levantou da cama e acendeu a luz. Antes não tivesse acendido.

__ Ai, menino, você me ralou a boceta. Gosta tanto assim?
__ Gosto.

Por fim a vi nua. A barriga flácida, as pernas e as coxas cobertas de varizes, os peitos grandes e caídos, a pele suja e encardida, os dentes amarelos e podres. Olhou para mim com as mãos na cintura e riu:

__ Gosta mesmo de mim? Olhe bem.

E deu um giro, alegre, como uma modelo, como uma ninfa púbere com todas as medidas do cânone grego. Olhei bem para ela e me deu raiva de mim mesmo. Ou asco. Não sei.

(Pedro Juan Gutierrez, 2005 p. 15 -16)
Há no aguarrás um texto que escrevi sobre este livro. Vejam no sites onde escrevo.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Tolstói por Victor Chklóvski

Ao se comparar a arte de Tolstói com a de Maupassant, percebe-se que o mestre francês tende a omitir o segundo termo do paralelo. Em um conto de Maupassant, esse elemento - seja o padrão tradicional do conto ou a perspectiva convencional da burguesia francesa - está sempre implícito. Em muitos dos seus contos, Maupassant descreve a morte de um camponês; ele o faz com muita simplicidade, ainda que a torne "estranha": a descrição literária convencional da morte de um habitante de uma cidade funciona, por implicação, como fonte de contrarste, embora tal descrição não apareça, de fato, no conto.
Pode-se dizer que, desse ponto de vista, Tolstói é mais grosseiro que Maupassant. ele precisa de um paralelo explícito, por exemplo, o contraste entre a cozinha e a sala de visitas em Os frutos da ilustração. Isso pode ser explicado pela maior disponibilidade da tradição literária francesa. O leitor francês é mais sensível a uma violação do Cânon, ele identifica os termos do paralelo mais prontamente do que o nosso leitor (o russo), cuja idéia de norma é mais nebulosa.
Diag-se de passagem que, quando falo de tradição literária, não tenho em mente o que um autor toma emprestado de outro. Vejo a tradição de um escritor como sua dependência em relação a um conjunto de normas literárias preexistentes, assim como a tradição de um inventor é a soma total dos recursos técnicos disponíveis em dado momento.

(Chklóvski, Victor - in: Os paralelos de Tolstói por Victor Chklóvski - retirado do livro O diabo e outras histórias)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

The Experience of Poetry

The Experience of a poem is the experience both of a moment and of a lifetime. It is very much like our intenser experiences of other human beings. There is a first, or an early moment which is unique, of shock and surprise, even of terror (Ego dominus tuus); a moment which can never be forgotten, but which is never repeated integrally; and yet which would become destitute of significance if it did not survive in a larger whole of experience; which survives inside a deeper and a calmer feeling. The majority of poems one outgrows and outlives, as one outgrows and outlives the majority of human passions: Dante's is one of those which one can only just hope to grow up to at the end of life.

T.S. Eliot, in "Dante", 1929.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O desejo de virar índio


The Wish to Become an Indian

If only you were an Indian, instantly alert, and on a galloping horse, leaning into the rushing air, again and again trembling over the trembling ground, until you leave the spurs behind, for there were no spurs, until you throw away the reins, for there were no reins, and you scarcely saw the land lying before you like a smooth-mown heath, already without a horse's neck and a horse's head.

Franz Kafka, in "Meditation", 1913. Traduzido do alemão por Siegfried Mortkowitz.
Foto Ansel Adams


Se ao menos você fosse um índio, imediatamente vigilante, e num cavalo a galope, abraçando o vento, e vez seguidas sendo sacudido sobre o chão estremecido, até deixar para trás as esporas, porque não existiam esporas, até jogar fora as rédeas, porque não existiam rédeas, e você viu apenas vagamente a terra como um tapete verde e macio à sua frente, já sem um pescoço de cavalo e uma cabeça de cavalo.