quarta-feira, 22 de maio de 2019

erótica


ao tecer-te girassóis pelo corpo
uma brisa atordoa o espaço

o seio salta e se esconde
saliente sob a blusa

as pétalas vicejam
quando se rega

desde a raiz o rego
espetam a blusa

a auréola exata
o exato bico

do gineceu

(oswaldo martins)

terça-feira, 14 de maio de 2019

A Vegetariana - trecho mínimo


Foi então que ele entendeu o que o havia impressionado tanto ao vê-la de bruços no lençol. Um corpo totalmente livre de desejo e, ao mesmo tempo, belo e jovem. Dessa contradição exalava uma fonte de mistério efugacidade. Não era uma simples fugacidade: tinha força.

(A Vegetariana – Han Kang)

sábado, 11 de maio de 2019

mangas


Sonhei que me trazia mangas
mas não soube o que dizer
sonhei que me trazia mangas
e me deixava sem alento.

Sonhei que me trazia mangas
recém caídas das árvores
sonhei que me trazia mangas
que as havia recolhido para mim.

Sonhei que me trazia mangas
todas vermelhas, verdes e douradas
sonhei que me trazia mangas
o sensível e insinuante presente.

Sonhei que me trazia mangas
doces e saborosas
Sonhei que me trazia mangas
E caía rendido aos meus pés.

(Teresia Teaína – Hawaí – Trad. Oswaldo Martins)

quinta-feira, 9 de maio de 2019

O beijo do iceberg


A acidentada superfície do iceberg
está acariciando meus joelhos

O frio abrasa-me em seu calor
enrodilha-me em seu doce poder
envolve meus músculos como drogas
e meu brando ventre se torna lento e duro.

O calor acaricia-me de perto
como se fosse a mão de um homem
o calor quente, quente
sobe-me pela espádua e dos ombros
arrasta-me firme pelo pescoço
beijando-me até a morte

A água naufraga.
Meu desejo toma-me inteira
levando-me
até o mais baixo
até o mais baixo
para cair sem fim

o iceberg
a evidência mais bela
da lei da gravidade
e mesmo da vida
se estilhaça em mil pedaços
depois do amor

O frio então se apodera de mim
até a última intensidade.


(Jessie Kleeman – Groenlândia)

terça-feira, 30 de abril de 2019

Os sinos da agonia de Autran Dourado, mestre


De dentro da névoa que a claridade do sol matinal vinha desfazendo, começou a se movimentar a procissão de Corpus Christi. Agora de repente a noite virou dia luminoso e o sol brilhava intenso. Estranho, a procissão se parecia demais com o aparatoso cortejo que o Capitão-General mandou preparar para a sua execução. As mesmas gente e irmandades, só que no cortejo do enforcamento não havia santos e andores, carros triunfais e figuras de Ventos e Planetas, a não ser os padres e o cruciferário. Quando Mulungu apareceu rebrilhando negro como untado de alcatrão, numa estátua de bronze, soberbo.

[...] Agora seguia de longe a procissão, os olhos maravilhados. O cruciferário erguendo alto o Cristo de prata, todos se ajoelhavam se benzendo à sua passagem. Mulungu, o peito nu, brilhoso. O que estava fazendo ali o preto Mulungu? Não, não era sonho, ele sabia apesar da nitidez diáfana, do brilho das coisas. Procurava atribuir a presença de Mulungu à cabeça cansada, à sua confusão de espírito. Também não era coisa que Isidoro tivesse contado, nada ainda tinha acontecido: a sua prisão no Sabará, a sua fuga da cadeia, a
conversa com o carcereiro, a despedida do pai. A sua morte em efígie ainda ia acontecer na praça, veria pelo branco acastanhado dos olhos de Isidoro, raiados de sangue.

E tudo ele via nítido e preciso, como se as coisas existissem sozinhas e isoladas e não misturadas e embaralhadas, cinzentas. Com um olho lúcido, agudo e imóvel de relojoeiro montando e desmontando complicado engenho. Ele via de novo, revia

(Autran Dourado – Os sinos da agonia)

segunda-feira, 29 de abril de 2019

conselheiros


conselheiro 1

o estorno das palavras afunda
a voz nas cercanias

nega-se até a exata
designação das coisas

quando o dizer cala
a face enruga

e o corpo nu
marca as aras

e as sustenta
de enxugamentos

no oco
da lucidez


conselheiro 2 

destampa o vau
dos bons conselhos

faz com que os rios
de areia seca

transmudem-se
labirintos

em que a escuna
dos fiéis

braceja pelos mares
da alucinação

constrói casas
que se subissem

os montes santos
a escada de jacob

(oswaldo martins)

segunda-feira, 22 de abril de 2019

ATÉ AS RUÍNAS PODEMOS AMAR NESTE LUGAR



Lembro-me muito bem do tal cantor basco
que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar
Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho
As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente possa ser possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.


Matilde Campilho



Confira no blog da Editora TextoTerritório
www.textoterrotio.blogspot.com

sábado, 20 de abril de 2019

desimitação para castro alves


o auriverde tribuno
(que deus beija e balança)
morreu e se safou
das portas da academia

saído das pernas de eugênia
o gênio das palavras aladas
se auto louvava

cruz e credo!
tal qual um senador
do império

(oswaldo martins)

sexta-feira, 19 de abril de 2019

desimitação para cora e mário


o aparelhinho de ver longe
pouco enxerga no banco
de dados consabidos

sem acaso o poeta
repete os ulalás
do repertório

e tome, distraído,
a velha senhora goiana
com de permeio

um docinho de coco
e uma palavrinha
que ninguém é de ferro

cujo passarinho passarinha
e rebola da rio-são paulo
até o passadiço da beócia

(oswaldo martins)

terça-feira, 16 de abril de 2019

a indeterminação objetal


a medida do impossível se destaca
nos objetos fartos de precisão

uma cadeira – o objeto bruto
compõe-se de espaços e tempos

ou

o braço amigo que te enlaça
tudo faz parte do equívoco

a que soterrados se percebem
os homens contra a nulidade

do espavento

(oswaldo martins)


Janela


quarta-feira, 10 de abril de 2019

a criatura iníqua


górgona faz dançar
as extensas serpentes da opressão

medusa pede rostos
com que emparedar os coxos

esteno, náusea e dor
incentiva no corpo do leproso

a euriale que se põe ao largo
para saborear o sobejo dos despojos

(oswaldo martins)

terça-feira, 9 de abril de 2019

OS CINCO SENTIDOS


 Todos os dias o ouvido ouve aquilo que ainda não ouviu.

Provérbio Bambara, Mali


Não há dia nenhum
em que os teus ouvidos
não oiçam

aquilo que nunca antes
lhes foi dado escutar.

Não há dia nenhum
em que os teus olhos
não vejam

aquilo que nunca antes
lhes foi dado observar.

Não há dia nenhum
em que o teu nariz
não inale

um odor que nunca antes
lhe foi dado a conhecer.

Não há dia nenhum
em que as tuas mãos
não tocam

em algo que nunca antes
lhes foi dado acariciar.

Não há dia nenhum
em que a tua boca
não prove

um sabor que nunca antes
lhe foi dado a degustar.

Não há dia nenhum
em que a vida,
o mundo,

os cinco sentidos
não te surpreendam.

− Não há dia nenhum!
Não há dia nenhum!
Não há dia nenhum!


ZETHO CUNHA GONÇALVES
In: O Sábio de Bandiagara: Esconjuros, ebriedades e ofícios. Lisboa: Maldoror Livros, 2018.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

o falso mendigo


pinguilim vivia deitado nos bancos
todos aqueles que rompiam anchos
satisfeitos de si a porta mágica
a virar a cara e a correr à socapa

daquele emblemático descidadão
calçado por tênis achados
calças largas e meias rotas
que lhe mostravam o dedão

voltariam sempre e sempre ali
o velho emblema os esperava
com a máscara de que fugiam

os édipos de olhos vagos
a julgarem as escusas do totem
que os acusava com desdém

(oswaldo martrins)

segunda-feira, 1 de abril de 2019

o cozinheiro absoluto

para walnice

os utensílios enigmáticos
em seu preparo de licores

macios se desdobram
os deuses em suas iras

ferem a carne
fazem vagar o corpo

no tempero dos sabores
à primeira hora

seja cebola, alho ou kummel
revelam -se no toque afiado

em que a língua goza
a aguda forma de poema

(oswaldo martins)

sexta-feira, 29 de março de 2019

geografia impessoal


não desço mais a pires
embora a rua permaneça
com o lixo nas calçadas
os buracos os abismos

na certa haverá um busto
à praça e ao abandono
até que ao descerem a rua
derrubem a cabeça oca

onde mijarão os cães
e – do caos à lucidez
de uma forja desatada

a vir – a rua escura
há de cobrir o espanto
com um vaso de gerânio

oswaldo martins

quarta-feira, 27 de março de 2019

FALAM, CONVERSAM O MUNDO



Para Arnaldo Santos e José Luandino Vieira,
Meninos Mais-Velhos dos Pássaros e dos Rios,
na celebração dos seus 80 anos de Vida e Poesia
         

Falam,
conversam o mundo.
E do segredo mínimo
das águas – correndo,
ascende o brilho
do ouro submerso.

Estão sentados no fogo antigo
da Terra – escavam,
retiram as palavras
do seu estado larvar,
atam seus cordões umbilicais a ventres
inaugurais e púberes:
− A palavra,
dizem: procura-a
na concha do ouvido.
Que ela cante – expedita e natural.

Estão sentados no fogo antigo
da Terra – a voz é o seu poder
e bordão:
caligrafia aérea e cantante
insculpida no sangue e sua dança
− batendo, fluindo, sustentando
a escultural melodia da Terra:
de geração em geração: o mundo,
nosso – canto,
poema.

E que a palavra seja –
modelando-se por águas noctívagas,
iluminadas,
ao rés do vento: epopeia breve
− que o tempo alonga,
acrescenta,
rememora – a voz.
E estas mãos:
sua inumerável herança.

                                                8.9.2012-29.7.2013

ZETHO CUNHA GONÇALVES
In: Noite Vertical. Lisboa: Língua Morta, 2017.

Hérnia - Rogério Batalha


quarta-feira, 20 de março de 2019

duas oswaldianas


1.

Dum país que possui a maior reserva de ferro e o mais alto potencial hidráulico, fizeram um país de sobremesa. Café, açúcar, fumo, bananas.

2

Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo: o teatro de base e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Leitura 03 2019


Livros:

1 – Relato de um certo oriente – Milton Hatoum
2 – Os sinos da agonia – Autran Dourado

Os encontros objetivam colocar em circulação ideias e discussões sobre romances clássicos e contemporâneos da Literatura Universal e Brasileira. Serão quatro encontros semanais, com duas aulas dedicadas ao estudo de um dos livros selecionados, da sua época, do significado literário e filosófico em que se inserem os autores. Os livros selecionados para o novo ciclo de leituras críticas são RELATO DE UM CERTO ORIENTE, do premiado escritor manauara, Milton Hatoum e o livro, OS SINOS DA AGONIA, do clássico mineiro, Autran Dourado.

O livro de Hatoum, a partir da imigração árabe para o Brasil, busca reconstituir, através de relatos, a vida, a memória e a formação das personagens, muitas vezes os relatos retomam os mesmos motivos a partir de diversos pontos de vista. O Livro de Autran Dourado, construído com o rigor que marca a obra do escritor mineiro, traz também a marca da diversidade de pontos de vista. A estrutura obedece à estrutura da tragédia grega e o romance busca reconstituir, no período barroco mineiro, a percepção de uma ética ligada à afirmação das percepções humanas.

Programação:

09/04 – Relatos de um certo oriente – Hatoum.
Apresentação do romance e estudo das linhas gerais da construção romanesca, problematização do narrador. A construção dos diversos ponto-de-vista.

16/04 – Relatos de um certo oriente – Hatoum.
Memória e ficção. Os problemas que envolvem o gênero e a constituição de um como da memória como ficção.

23/04 – Os sinos da agonia – Autran Dourado.
Apresentação do romance e estudo das formulações trágicas e sua adaptação ao romance de Autran Dourado.

30/04 – Os sinos da agonia – Autran Dourado.
A reconstituição do Barroco. Os aspectos da história como ficção. Os relatos de amor e morte presentes no romance.

Local: Rua Pires de Almeida 76/201- Laranjeiras
Duração dos encontros 1:30 h.
Horário: das 20:00 às 21:30 h.
Custo: 400,00 reais os quatro encontros
Mediador de leitura: Oswaldo Martins
Contato pelo tel (021) 981439622

Oswaldo Martins, nascido em Barbacena – MG, em 1960, reside no Rio de Janeiro desde 1979. Fez graduação em Letras (Português-Literatura), pela PUC-RJ o mestrado (Literatura Brasileira), pela UERJ. Autor dos livros desestudos (2000 -  7 Letras / 2015 TextoTerritório); minimalhas do alheio (2002 – 7 Letras / 2015 – TextoTerritório);  lucidez do oco (2004 – 7 Letras / 2015 – TextoTerritório) cosmologia do impreciso (2008 – 7 Letras); língua nua (com ilustrações de Elvira Vigna (2011 – 7 Letras); lapa (2014 – TextoTerritório); manto (2015 – TextoTerritório); paixão, sobre imagens de Roberto Vieira da Cruz,  (2018  TextoTerritório).


Fez os roteiros dos filmes Urânia, poema de Alexandre Faria (com Felipe David Rodigues – 2009); Venta-não, (com Felipe David Rodrigues e Alexandre Faria – 2013). É editor da TextoTerritório.

sábado, 16 de março de 2019

sistema bancário


maricota quando trepa cobra com juros
ministra sua lição com cuidados e atroz
derrama sobre os corpos na maciota
um vírus ou mesmo um cancro duro

com agulhas ministra o seu ai jesus
trata-nos com os chupões dos pentelhos
e a falsas sementes de alcaçuz
cospe de lado e nos mete o relho

maricota usa disfarces tem roupas
para o mercado roupas para viagens
em umas finge-se virgem em outras

desvela altaneira suas vantagens
diz que seu peixe nunca foi sem luta
depois ministra-nos doses de cicuta

(oswaldo martins)


domingo, 10 de março de 2019

Dois poetas gregos


Anacreonte

Anda rapaz, traz-me uma taça
para eu beber um gole,
deitando dez medidas de água
e cinco de vinho.
Quero festejar Baco
de novo, sem insolência.

**

Safo Fr. 31

φαίνεταί μοι κῆνος ἴσος θέοισιν
ἔμμεν’ ὤνηρ, ὄττις ἐνάντιός τοι
ἰσδάνει καὶ πλάσιον ἆδυ φονεί-
σας ὐπακούει

καὶ γελαίσας ἰμέροεν, τό μ’ ἦ μὰν
καρδίαν ἐν στήθεσιν ἐπτόαισεν•
ὠς γὰρ ἔς σ’ ἴδω βρόχε’, ὤς με φώναί-
σ’ οὐδ’ ἒν ἔτ’ εἴκει,

ἀλλά κὰμ μὲν γλῶσσα μ’ἔαγε, λέπτον
δ’ αὔτικα χρῷ πῦρ ὐπαδεδρόμηκεν,
ὀππάτεσσι δ’ οὐδ’ ἒν ὄρημμ’, ἐπιρρόμ-
βεισι δ’ ἄκουαι,

κὰδ’ δέ μ’ ἴδρως κακχέεται, τρόμος δὲ
παῖσαν ἄγρει, χλωροτέρα δὲ ποίας
ἔμμι, τεθνάκην δ’ ὀλίγω ‘πιδεύης
φαίνομ’ ἔμ’ αὔτᾳ.

Ele me parece ser par dos deuses,
O homem que se senta perante ti
E se inclina perto pra ouvir tua doce
Voz e teu riso

Pleno de desejo. Ah, isso, sim,
Faz meu coração ‘stremecer no peito.
Pois tão logo vejo teu rosto, a voz eu
Perco de todo.

Parte-se-me a língua. Um fogo leve
Me percorre inteira por sob a pele.
Com os olhos nada mais vejo. Zumbem
Alto os ouvidos.

Verto-me em suor. Um tremor me toma
Por completo. Mais do que a relva estou
Verde e para a morte não falta muito —
É o que parece.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Na poesia

Na poesia
a palavra só ressoa depois
primeiro fala para dentro
numa fidelidade própria das coisas sem começo
nem fim

aqui
como nas Ruas
há caos e transparência
poucas saídas e urna só entrada.

(Dora Sampaio)

quinta-feira, 7 de março de 2019

estudo para a nudez ante o sol de edward hopper


todo nu se quadricula inexatos parâmetros
a luz sobre o corpo a cama os dois sapatos
jogados como se nada

a efusão que ultrapassa as duas janelas
os dois quadros as sombras das pernas
e embora não se vejam as duas cadeiras

surgem nesta disposição mútua de quem
agora só em sua esquizofrenia despida
espera que venha pela luz o visitante

das sombras que desde então nada
ou quase sempre surge na evidência
escondida de uma cor, e surpreende

(oswaldo martins)

sábado, 2 de março de 2019

O cotovelo de deus

para lula

1

O cotovelo deitado sobre a escada em Montmartre se construía sob o impacto de quem nunca pousara seus olhos na paisagem das velhas putas. O gínglimo – este artefato inumano – com seus graxos, possuía a percepção de um pequeno traço, pontudo. Quase uma seta ardente no momento fugaz da unidade. Apontava nortes exatos, na bailarina exausta desta dobra particular do tempo, como se apontasse para dentro de si mesma. E em uma imagem invertida a rua que se desdobrava abaixo era um reflexo dos peitos murchos de uma vadia ou eram os peitos deitados sobre as ruas a medida milimétrica da tradição aproveitada pelas cores que aqui e ali pareciam um corte no supercílio, um pedaço de músculo, o olho cego exposto por todos corpos torturados nos porões da gendarmaria, da KGB, da CIA, da polícia brasileira Os corpos dos cubanos, dos negros, dos argelinos, das meninas de programa, reunidos neste cotovelo anverso.

2

JM nunca esteve em Montmartre. Olhava a cidade de cima. O presente. O tapa na cara. A boceta nua e o cotovelo de deus. Fora apenas pequenos excertos de um coubert, o realismo pouco lhe interessava, preferia as noites estreladas, o joelho de Tarsila, as máscaras do Benin. A gramática exposta nas entranhas dos corpos esquartejados nos mais diversos substratos. Madeira, tela, pedaço de pano, refugos. Não subira as escadas, não visitara a Sacre-coeur, preferira apontar para os ícones, construir proximidades nada espontâneas, forçadas, pois acreditava que a forja da resistência era construída das derrisões, da destruição das casas apalacetadas que a arte compunha comprometida com o esgar burguês da fotografia e da representação das democracias ocidentais. JM preferia os cotovelos de uma democracia anárquica.

3

O flash o estampido a inexistência da vírgula do ponto dois travessão uma linguagem vertida vômito frêmito, embora a razão sobrevoasse todo demão de tinta, colada aos poros em uma obsessiva busca de anatomias escondidas em que o beco e não a glória sobressaísse, denominasse pelo nome mais exato este cotovelo repousado sobre a escadaria de Montmartre.

4

Todo equívoco nasceu quando imbuído das tenebrosas interdições a que nossos pintores, nossos escritores se prenderam. Dai este pedaço escuso, essa absurda alegoria de outro deus.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

À FLOR DO FOGO


Bate o desejo suas lentas águas fundas,
e desata sobre nós: seus laços vivos – sôfregas: suas teias,
trançadas de relâmpagos. Digo:
aqui tens o colo que te dou.
E tu alongas o teu corpo em oferenda pelo chão:
o olhar pundonoroso que súbito trespassa,
implode – aferindo o rumor tocado
pelo ar − ao alto e em redor.
E eu revolvo os teus cabelos sentados no meu colo,
como quem perscruta um rio desde a infância,
e agora plantasse horizontes no teu rosto.

− Fecha os teus olhos, meu amor,
fecha os teus olhos, e abre − perfeita –
a lentíssima nudez – em flor
e fruto,
dançada.

As mãos devoram as mãos – devoram
suas marcas, seus ofícios: alimentam-se
do refazer esculpido e trabalhado dos corpos,
do estremecimento abrupto dos sentidos.
As línguas iluminam o sal dulcíssimo da pele:
como relâmpagos navegando
alucinados – procuram:
a secreta e nocturna flor do fogo.
E o ar perfuma-se de nós
como um bosque das suas árvores atentas.

E passam beijos que se demoram – sexo a sexo:
a respiração crepita num tremor jubiloso.
E todo o chão é lençol e mar − e dentro de ti,
eu te me dou inteiro
− oh meu amor
acabado de nascer!


                                                                            3.1-20.8.2013

(Zetho Cunha Gonçalves)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

o pedinte


nas escadarias os cabelos de um velho
sujam-se na água empossada no vinho
vertido o azedo vinagre coalhado asco
as viúvas passam molham-no o frasco

dos perfumes carregados das sarjetas
os fios tombam sobre a branca pedra
fazem explodir fagulhas fogos fátuos
deste corpo que há pouco nos flatos

ainda retidos, mas presume-se irem
formando-se quando antes o fluxo
do sangue fizera-se ouvir no silêncio

o balbucio da esmola, o olho fluente
ainda a fazer planos a desejar em cio
moedas para o amavio das viúvas

(oswaldo martins)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Leitura de romance 02 (2019)


Março

Os encontros objetivam colocar em circulação ideias e discussões sobre romances clássicos e contemporâneos da Literatura Universal. Serão quatro encontros semanais, com duas aulas dedicadas ao estudo de um dos livros selecionados, da sua época, do significado literário e filosófico em que se inserem os autores. Os livros selecionados para o novo ciclo de leituras críticas são LIMONOV, do escritor francês contemporâneo, Emmanuel Carrère e o livro, O Mestre e a Margarida, do escritor russo, Mikhail Bulgákov.

O livro de Carrère traz a biografa romantizada de Eduard Limonov, personagem eclético da Rússia e opositor exemplar de Putin. O personagem nasce ainda no período stalinista e vive todo século XX. Carrère é um escritor contemporâneo, que passou parte de sua vida de adolescente na então União Soviética.  O livro de Bulgákov é uma sátira ao período stalinista e à burocracia russa. O autor faz com que o Diabo desça na cidade e nela desmonte o processo da burocracia e os poderes constituídos. O autor desaparece jovem aos 48 anos. Seu romance só foi editado postumamente, em 1966.

Programação

Dias

12/03
Limonov - Carrère.
Apresentação do romance e estudo das linhas gerais da construção romanesca, a questão da narrativa biográfica e a formulação da autobiografia.

19/03
Limonov - Carrère
Leitura dos elementos constitutivos do romance, presentes nas linhas gerias anunciadas no primeiro capítulo. Discussão sobre o que o romance propõe.

26/03
O Mestre e a Margarida – Bulgáhov
A literatura Russa antes, durante e após a Revolução.  Texto de Jakobson. Século  XIX e Século XX. A importância do livro de Bulgákov.

02/04
O Mestre e a Margarida – Bulgákov.  Leitura dos elementos constitutivos do romance. As várias derivas de leitura

Local: Rua Pires de Almeida 76/201- Laranjeiras
Duração dos encontros 1:30 h.
Horário: das 20:00 às 21:30 h.
Custo: 400,00 reais os quatro encontros
Mediador de leitura: Oswaldo Martins
Contato pelo tel (021) 981439622

Oswaldo Martins, nascido em Barbacena – MG, em 1960, reside no Rio de Janeiro desde 1979. Fez graduação em Letras (Português-Literatura), pela PUC-RJ o mestrado (Literatura Brasileira), pela UERJ. Autor dos livros desestudos (2000 -  7 Letras / 2015 TextoTerritório); minimalhas do alheio (2002 – 7 Letras / 2015 – TextoTerritório);  lucidez do oco (2004 – 7 Letras / 2015 – TextoTerritório) cosmologia do impreciso (2008 – 7 Letras); língua nua (com ilustrações de Elvira Vigna (2011 – 7 Letras); lapa (2014 – TextoTerritório); manto (2015 – TextoTerritório); paixão, sobre imagens de Roberto Vieira da Cruz,  (2018  TextoTerritório).


Fez os roteiros dos filmes Urânia, poema de Alexandre Faria (com Felipe David Rodigues – 2009); Venta-não, (com Felipe David Rodrigues e Alexandre Faria – 2013). É editor da TextoTerritório.