domingo, 18 de agosto de 2019

paisagem


Noite setembrina. Tristes, os gritos obscuros dos pastores
entoam através da aldeia que escurece.  O fogo faísca na forja.
Enorme, um cavalo negro empina-se; as tranças jacintinas da moça
perseguem o fervor das suas ventas purpúreas.
Silencioso, o grito da corça congela na orla do bosque
e as flores amarelas do outono
inclinam-se , mudas, sobre as faces azuis do lago.
Na chama vermelha arde uma árvore; os morcegos esvoaçam com rostos sombrios.

(Georg Trakl)

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

desimitação de tomás antónio gonzaga


nas vilas de ricas desgraças
à roda das fortunas
a traquitana molda

ora faz descer
ora ascender

para os mesmos
no frigir dos ovos

dando aos césares
o que é dos césares

e a elas a música funérea
das receitas portuguesas

(oswaldo martins)

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

desimitação de medeiros e albuquerque


(com direito à academia de letras e a um soneto em falso)

toca vamos adiante
foca força firme eia
salve bico ecô ulalá
ô ei valha-me deus

deus opa virgem ah
quê qual quê quiçá
santa incredulidade
bah arrá irra oxalá

oxalá pena pô porra
credo livra safa fora
socorro piedade ora

ora cruz credo carai
basta da mãe du ca
heim? ai de mim ui

(oswaldo martins)

quarta-feira, 10 de julho de 2019

relatos mais pequenos sobre coisas miúdas

para oswaldo martins

Surpreendeu parentes e amigos ao desfazer o noivado. Tão bem apanhado, tão bem situado, juiz de primeira instância; é uma tonta a nossa filha, dizia a mãe. Ó rapariga o que fizeste? Por que mandaste o rapaz embora. Escreve sonetos parnasianos, meu pai.
Fizeste bem.

Elesbão Ribeiro

segunda-feira, 8 de julho de 2019

desimitação anafórica


há quem escreva a partir do divã
e consinta dores a palavras vãs

há as que clamam por divãs
há as que clamam por odivan

outras se satisfazem com onã
outras se veem estrelas anãs

outras anáforas de aldebarã

(oswaldo martins)

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Leitura de agosto


Leitura Agosto

A Borra do café

Em A borra do café, Mario Benedetti mescla memória e invenção e resgata as lembranças de sua infância em Montevidéu para construir uma narrativa lírica, profunda, sobre as surpresas e as dificuldades do amadurecimento. Com seu peculiar lirismo e habilidade narrativa, o autor relata pequenos acontecimentos de uma vida distante, fazendo com que o leitor reconheça a si mesmo.

Na figura do jovem Claudio, o consagrado escritor uruguaio, autor de A trégua, reinventa muitas passagens marcantes de sua própria vida: as brincadeiras de rua com os amigos, as constantes mudanças de bairro com a família, a trágica morte da mãe e a descoberta do amor e do sexo.

Em seu texto de apresentação do livro, a escritora Martha Medeiros destaca que toda história de infância corre o risco de parecer piegas. Mas que, no caso Benedetti, a narrativa escapa desta sina, graças ao talento do escritor. Ressalta ainda que, com mais de 80 livros publicados, a poesia comum a seus livros jamais o deixou na mão, mesmo quando não era um poema o que escrevia. “Fosse um manifesto político ou uma história contemporânea, sua emoção permaneceu desinfetada de lugares-comuns”, descreve.

“E não foi diferente quando escreveu A borra do café, que conta a história de um garoto de Montevidéu que se apaixonou primeiro pela professora e depois por uma menina que ele não sabia se existia ou se era fruto da sua imaginação. Um dia, descobriu o cadáver de um mendigo, confrontando-se com a morte pela primeira vez, e logo perdeu a mãe, aos 12 anos, tendo com a morte uma intimidade ainda mais indesejável. De primeiras, segundas, terceiras vezes se faz essa ficção com jeito de biografia. Benedetti nos conduz com humor e lirismo às suas aventuras e desventuras, tenham sido elas vividas ou inventadas”, aponta a escritora em seu texto de orelha.

Segundo o Jornal público o romance de Banedetti:

A prosa sóbria de Benedetti, tão característica do seu estilo, narra uma história realista (mas pontuada em vários episódios decisivos pela menção a uma hora “mágica”: as três e dez da tarde; o elemento de conexão entre o tempo e as circunstâncias) que no último capítulo se transforma em onírica e com elementos que por momentos poderão evocar o “realismo mágico” ou o fantástico: Claudio viaja de Montevideu para Quito, no Equador, para participar numa reunião profissional, numa companhia aérea que ninguém conhece, a Aleph Airlines, e já durante o voo o comandante anuncia que se dirige para Mictlán. Ora, a referência ao Aleph remete de imediato para o livro homónimo de Borges – em que as histórias têm como tema o sentido e o significado do tempo, o enigma do Universo e a compreensão da eternidade, a transcendência da palavra – e Mitclán é o nome do reino dos mortos nas culturas pré-colombianas. Mario Benedetti sublinha assim as relações entre a vida e a morte na reconstituição da vida de Claudio.

A bela senhora Seidenman

No cotidiano abalado pela ocupação alemã da Polônia, Szczypiorski busca o retrato da humanidade no século XX. O gueto judeu de Varsóvia resiste, com seus personagens marcantes, como o rebelde Pawełek Krynski, alter-ego do autor, produto do país onde convivem poloneses, judeus, alemães e outros; e o velho ferroviário socialista Filipek, que se engaja numa aliança peculiar com o alemão Müller — e toda uma rede de vizinhança — para salvar dos porões da Gestapo a bela senhora Seidenman que enfrenta, determinada e desafiadora, seu verdugo nazista.

Sobre o romance escrevei Moacyr Scliar:

Paixão
Estamos diante de um romance de ideias, mas escrito com uma paixão avassaladora, que envolve por completo o leitor. O cenário é a Varsóvia ocupada pelos nazistas, no tenso período em que os judeus estavam sendo enviados para o extermínio.
A senhora Seidenman, uma judia que, ajudada por amigos poloneses, consegue convencer com sucesso o comandante nazista de que é polonesa, na verdade nem é a figura principal (diferente das edições em francês, inglês e português, em polonês a obra intitula-se "Poczatek", o começo).
Junto dela temos uma galeria de personagens, todos envolvidos, direta ou indiretamente, na perseguição aos judeus: a irmã Verônica, que salva crianças judias convertendo-as ao catolicismo; o jovem rebelde Pawel, um alter-ego do autor; o alemão Mueller, que ajuda a senhora Seidenman, enganando o comandante nazista Stukler; o assaltante Wiktor Suchowiak, que salva a menina judia Joasia. É verdade que há também tipos abomináveis, como Bronek Blutman, que sobrevive denunciando outros judeus.
Aliás, se algum reparo pode ser feito ao romance, é exatamente este: fica visível a ânsia do autor pela equanimidade, o que se manifesta na seleção de personagens - em cada grupo existem os "maus" e os "bons". Mas predominam estes últimos, a demonstrar que, mesmo nas piores circunstâncias, podemos encontrar gente decente e idealista.
É, convenhamos, uma mensagem que não ouvíamos desde os tempos da literatura engajada. Mas é uma mensagem resultante de coerência pessoal do autor: "Uma Missa para a Cidade de Arras" (1971), que abordava a perseguição a judeus e heréticos no século 15, já se constituía em resposta à campanha antissemita então em curso em seu país.
Andrzej Szczypiorski deu uma importante colaboração para melhorar as relações entre poloneses, alemães e judeus, o que lhe valeu o Prêmio de Literatura Europeia (Áustria) e o Prêmio Nelly Sachs, este com o nome da grande poeta judia.
Em homenagem póstuma, em 2002, o então ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Joschka Fischer, ressaltou a coragem do escritor frente aos desafios totalitários do século 20. Coragem da qual este livro dá admirável testemunho.


05/08 – A borra do café – Mário Benedetti

12/08 – A borra do café – Mário Benedetti

19/08 – A bela senhora Seidenman - Andrzej Szczypiorski

26/08 – A bela senhora Seidenman – Andrzej Szczypiorski


Local: Rua Pires de Almeida 76/201- Laranjeiras
Duração dos encontros 1:30 h.
Horário: das 20:00 às 21:30 h.
Custo: 400,00 reais os quatro encontros
Mediador de leitura: Oswaldo Martins

Inscrições pelo tel (21)981438622

Oswaldo Martins, nascido em Barbacena – MG, em 1960, reside no Rio de Janeiro desde 1979. Fez graduação em Letras (Português-Literatura), pela PUC-RJ o mestrado (Literatura Brasileira), pela UERJ. Autor dos livros desestudos (2000 -  7 Letras / 2015 TextoTerritório); minimalhas do alheio (2002 – 7 Letras / 2015 – TextoTerritório);  lucidez do oco (2004 – 7 Letras / 2015 – TextoTerritório) cosmologia do impreciso (2008 – 7 Letras); língua nua (com ilustrações de Elvira Vigna 2011 – 7 Letras); lapa (2014 – TextoTerritório); manto (2015 – TextoTerritório); paixão (sobre imagens de Roberto Vieira da Cruz, 2018 – TextoTerritório)

Fez os roteiros dos filmes Urânia, poema de Alexandre Faria (com Felipe David Rodigues – 2009); Venta-não, (com Felipe David Rodrigues e Alexandre Faria – 2013). É editor da TextoTerritório.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

poema do amor possível


esqueci-me do que disseram
sempre nos esquecemos
em alguma plazoleta

na cidade de antúrias
não sei se malmequer
ou flor da noite

esquecemos quando na pele
as marcas do passado
são destas outras

forjadas na contramão
das histórias e fungam
entrincheiradas no peito

um dizer sutil
que se entrega rude
no desarranjo

dos sentidos

(oswaldo martins)

quinta-feira, 27 de junho de 2019

luz negra


para nei lopes

luzes na ribalta
tangem destinos cruéis
as mãos sem frenesi

nô violão e voz
e o fundo do bar
cozem a fosca lâmina

a bala de um tempo
e o prodígio socavado
suspendem o que prima

constrói a irrealidade
esta junção de paletas
do silêncio a preencher

(oswaldo martins)

terça-feira, 18 de junho de 2019

Ingeborg Bachmann, Áustria

Nueva
Sale del atrio celestial templado de cadáveres el sol.
No están allí los inmortales,
sino los caídos en batalla, oímos.
Y el esplendor no repara en la putrefacción. Nuestra deidad,
la Historia, nos ha dispuesto una sepultura
de la que no hay resurrección.
Traducción de Arturo Parada

domingo, 16 de junho de 2019

Exercício

O homem tímido facilita
a dança, um guia subterrâneo
me orienta, se dá
conta de mim, me decora, 
vem.

O homem tímido não
rebate a nudez com um vocábulo
qualquer, e na estrada consta
a lua meio inteira e se acariciam –

palavra opaca, homem e eu,
sem
revisar nada.

(Lúcia Leão)

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Leituras de romances


O objetivo dos encontros está em colocar em circulação ideias e discussões sobre romances seminais da Literatura Universal. Serão quatro encontros mensais. Com duas aulas dedicadas ao estudo do autor, da época, da série literária em que se inserem os dois romances escolhidos

Programação.

Nestes quatro encontros será discutido o conceito de modernidade e tradição, ligado às narrativas escolhidas.

Dias

Dia 17/06 Eça de Queirós – A cidade e as serras
Dia 24/06 Eça de Queirós – A cidade e as serras
Dia 02/07 Gisele Mirabai – Machamba
Dia 09/07 Gisele Mirabai – Machamba

O Romance de Eça de Queirós, ao responder à ânsia civilizatória, ligada ao desenvolvimento europeu do século XIX, trama uma deliciosa volta ao mundo português, com suas quintas e seus avoengos, para recuperar a débil vida que Jacinto, o personagem principal do romance, perdeu no processo filosófico ao abarcar a civilização como propósito e diretriz de vida.
O Romance delicioso de Gisele Mirabai parte da perspectiva de um sertão perdido e leva a personagem a percorrer os desvãos do mundo, para, então se perder. Ao contrário do lusitano,  a brasileira compõe diferente trajetória, sem, no entanto, deixar de refletir sobre os significados que aqui se expressam.
Dados sobre as leituras

Local: Rua Pires de Almeida 76/201- Laranjeiras
Duração dos encontros 1:30 h.
Horário: das 20:00 às 21:30 h.
Custo: 400,00 reais os quatro encontros
Mediador de leitura: Oswaldo Martins

Inscrições pelo tel 981438622

Oswaldo Martins, nascido em Barbacena – MG, em 1960, reside no Rio de Janeiro desde 1979. Fez graduação em Letras (Português-Literatura), pela PUC-RJ o mestrado (Literatura Brasileira), pela UERJ. Autor dos livros desestudos (2000 -  7 Letras / 2015 TextoTerritório); minimalhas do alheio (2002 – 7 Letras / 2015 – TextoTerritório);  lucidez do oco (2004 – 7 Letras / 2015 – TextoTerritório) cosmologia do impreciso (2008 – 7 Letras); língua nua (com ilustrações de Elvira Vigna 2011 – 7 Letras); lapa (2014 – TextoTerritório); manto (2015 – TextoTerritório). Tem no prelo o livro paixão (sobre imagens de Roberto Vieira da Cruz), a sair no ano de 2018.

Fez os roteiros dos filmes Urânia, poema de Alexandre Faria (com Felipe David Rodigues – 2009); Venta-não, (com Felipe David Rodrigues e Alexandre Faria – 2013). É editor da TextoTerritório.

terça-feira, 11 de junho de 2019

desimitação de gregório de matos


o juiz de igaraçu revisitado

entre trampos e maranhas
há de pôr-se sob o pespego
a curitibana maritaca
ao julgar com perfídia
alhos por bugalhos

que entre conjes se formou
e contra o juiz de igaraçu
chamou a nós por vós
e a si por tu

(oswaldo martins)

domingo, 9 de junho de 2019

Salve, César Cardoso


TODOS AO LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO DO CÉSAR CARDOSO

Poesia iraniana



7
Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia.

8
 Há muito tempo, esta ânfora foi um amante,
como eu: sofria com a indiferença de uma mulher;
a asa curva no gargalo é o braço que enlaçava
os ombros lisos da bem amada.

(Omar Khayan – trad. Alfredo Braga)

quarta-feira, 5 de junho de 2019

desimitação de bernardo guimarães


os cavaleiros de alencar e gonçalves
comiam algumas mocinhas
para fundar a reaça brasileira

com o elixir de bernardo
comemos além das mocinhas
os cavaleiros

na taba brasilis fundiu-se
ou fodeu-se, como se queira,
o santo hilário

do augusto brasileiro

(oswaldo martins)

terça-feira, 4 de junho de 2019

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Poesia da República Dominicana


Desterrada de minha tribo
besta acorrentada
ao violento temor
dos vencedores
decidi desatar minha velas
e construir-me um mar
sob medida.

(trad. Antonio Miranda)

*
Desplazada de mi tribu
encadenada bestia
al violento temor
de los vencedores
decidí desatar mis velas
y construirme un mar
a la medida.


(Chiqui Vicioso)

quarta-feira, 22 de maio de 2019

erótica


ao tecer-te girassóis pelo corpo
uma brisa atordoa o espaço

o seio salta e se esconde
saliente sob a blusa

as pétalas vicejam
quando se rega

desde a raiz o rego
espetam a blusa

a auréola exata
o exato bico

do gineceu

(oswaldo martins)

terça-feira, 14 de maio de 2019

A Vegetariana - trecho mínimo


Foi então que ele entendeu o que o havia impressionado tanto ao vê-la de bruços no lençol. Um corpo totalmente livre de desejo e, ao mesmo tempo, belo e jovem. Dessa contradição exalava uma fonte de mistério efugacidade. Não era uma simples fugacidade: tinha força.

(A Vegetariana – Han Kang)

sábado, 11 de maio de 2019

mangas


Sonhei que me trazia mangas
mas não soube o que dizer
sonhei que me trazia mangas
e me deixava sem alento.

Sonhei que me trazia mangas
recém caídas das árvores
sonhei que me trazia mangas
que as havia recolhido para mim.

Sonhei que me trazia mangas
todas vermelhas, verdes e douradas
sonhei que me trazia mangas
o sensível e insinuante presente.

Sonhei que me trazia mangas
doces e saborosas
Sonhei que me trazia mangas
E caía rendido aos meus pés.

(Teresia Teaína – Hawaí – Trad. Oswaldo Martins)

quinta-feira, 9 de maio de 2019

O beijo do iceberg


A acidentada superfície do iceberg
está acariciando meus joelhos

O frio abrasa-me em seu calor
enrodilha-me em seu doce poder
envolve meus músculos como drogas
e meu brando ventre se torna lento e duro.

O calor acaricia-me de perto
como se fosse a mão de um homem
o calor quente, quente
sobe-me pela espádua e dos ombros
arrasta-me firme pelo pescoço
beijando-me até a morte

A água naufraga.
Meu desejo toma-me inteira
levando-me
até o mais baixo
até o mais baixo
para cair sem fim

o iceberg
a evidência mais bela
da lei da gravidade
e mesmo da vida
se estilhaça em mil pedaços
depois do amor

O frio então se apodera de mim
até a última intensidade.


(Jessie Kleeman – Groenlândia)

terça-feira, 30 de abril de 2019

Os sinos da agonia de Autran Dourado, mestre


De dentro da névoa que a claridade do sol matinal vinha desfazendo, começou a se movimentar a procissão de Corpus Christi. Agora de repente a noite virou dia luminoso e o sol brilhava intenso. Estranho, a procissão se parecia demais com o aparatoso cortejo que o Capitão-General mandou preparar para a sua execução. As mesmas gente e irmandades, só que no cortejo do enforcamento não havia santos e andores, carros triunfais e figuras de Ventos e Planetas, a não ser os padres e o cruciferário. Quando Mulungu apareceu rebrilhando negro como untado de alcatrão, numa estátua de bronze, soberbo.

[...] Agora seguia de longe a procissão, os olhos maravilhados. O cruciferário erguendo alto o Cristo de prata, todos se ajoelhavam se benzendo à sua passagem. Mulungu, o peito nu, brilhoso. O que estava fazendo ali o preto Mulungu? Não, não era sonho, ele sabia apesar da nitidez diáfana, do brilho das coisas. Procurava atribuir a presença de Mulungu à cabeça cansada, à sua confusão de espírito. Também não era coisa que Isidoro tivesse contado, nada ainda tinha acontecido: a sua prisão no Sabará, a sua fuga da cadeia, a
conversa com o carcereiro, a despedida do pai. A sua morte em efígie ainda ia acontecer na praça, veria pelo branco acastanhado dos olhos de Isidoro, raiados de sangue.

E tudo ele via nítido e preciso, como se as coisas existissem sozinhas e isoladas e não misturadas e embaralhadas, cinzentas. Com um olho lúcido, agudo e imóvel de relojoeiro montando e desmontando complicado engenho. Ele via de novo, revia

(Autran Dourado – Os sinos da agonia)

segunda-feira, 29 de abril de 2019

conselheiros


conselheiro 1

o estorno das palavras afunda
a voz nas cercanias

nega-se até a exata
designação das coisas

quando o dizer cala
a face enruga

e o corpo nu
marca as aras

e as sustenta
de enxugamentos

no oco
da lucidez


conselheiro 2 

destampa o vau
dos bons conselhos

faz com que os rios
de areia seca

transmudem-se
labirintos

em que a escuna
dos fiéis

braceja pelos mares
da alucinação

constrói casas
que se subissem

os montes santos
a escada de jacob

(oswaldo martins)

segunda-feira, 22 de abril de 2019

ATÉ AS RUÍNAS PODEMOS AMAR NESTE LUGAR



Lembro-me muito bem do tal cantor basco
que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar
Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho
As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente possa ser possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.


Matilde Campilho



Confira no blog da Editora TextoTerritório
www.textoterrotio.blogspot.com

sábado, 20 de abril de 2019

desimitação para castro alves


o auriverde tribuno
(que deus beija e balança)
morreu e se safou
das portas da academia

saído das pernas de eugênia
o gênio das palavras aladas
se auto louvava

cruz e credo!
tal qual um senador
do império

(oswaldo martins)

sexta-feira, 19 de abril de 2019

desimitação para cora e mário


o aparelhinho de ver longe
pouco enxerga no banco
de dados consabidos

sem acaso o poeta
repete os ulalás
do repertório

e tome, distraído,
a velha senhora goiana
com de permeio

um docinho de coco
e uma palavrinha
que ninguém é de ferro

cujo passarinho passarinha
e rebola da rio-são paulo
até o passadiço da beócia

(oswaldo martins)

terça-feira, 16 de abril de 2019

a indeterminação objetal


a medida do impossível se destaca
nos objetos fartos de precisão

uma cadeira – o objeto bruto
compõe-se de espaços e tempos

ou

o braço amigo que te enlaça
tudo faz parte do equívoco

a que soterrados se percebem
os homens contra a nulidade

do espavento

(oswaldo martins)


Janela


quarta-feira, 10 de abril de 2019

a criatura iníqua


górgona faz dançar
as extensas serpentes da opressão

medusa pede rostos
com que emparedar os coxos

esteno, náusea e dor
incentiva no corpo do leproso

a euriale que se põe ao largo
para saborear o sobejo dos despojos

(oswaldo martins)

terça-feira, 9 de abril de 2019

OS CINCO SENTIDOS


 Todos os dias o ouvido ouve aquilo que ainda não ouviu.

Provérbio Bambara, Mali


Não há dia nenhum
em que os teus ouvidos
não oiçam

aquilo que nunca antes
lhes foi dado escutar.

Não há dia nenhum
em que os teus olhos
não vejam

aquilo que nunca antes
lhes foi dado observar.

Não há dia nenhum
em que o teu nariz
não inale

um odor que nunca antes
lhe foi dado a conhecer.

Não há dia nenhum
em que as tuas mãos
não tocam

em algo que nunca antes
lhes foi dado acariciar.

Não há dia nenhum
em que a tua boca
não prove

um sabor que nunca antes
lhe foi dado a degustar.

Não há dia nenhum
em que a vida,
o mundo,

os cinco sentidos
não te surpreendam.

− Não há dia nenhum!
Não há dia nenhum!
Não há dia nenhum!


ZETHO CUNHA GONÇALVES
In: O Sábio de Bandiagara: Esconjuros, ebriedades e ofícios. Lisboa: Maldoror Livros, 2018.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

o falso mendigo


pinguilim vivia deitado nos bancos
todos aqueles que rompiam anchos
satisfeitos de si a porta mágica
a virar a cara e a correr à socapa

daquele emblemático descidadão
calçado por tênis achados
calças largas e meias rotas
que lhe mostravam o dedão

voltariam sempre e sempre ali
o velho emblema os esperava
com a máscara de que fugiam

os édipos de olhos vagos
a julgarem as escusas do totem
que os acusava com desdém

(oswaldo martrins)

segunda-feira, 1 de abril de 2019

o cozinheiro absoluto

para walnice

os utensílios enigmáticos
em seu preparo de licores

macios se desdobram
os deuses em suas iras

ferem a carne
fazem vagar o corpo

no tempero dos sabores
à primeira hora

seja cebola, alho ou kummel
revelam -se no toque afiado

em que a língua goza
a aguda forma de poema

(oswaldo martins)

sexta-feira, 29 de março de 2019

geografia impessoal


não desço mais a pires
embora a rua permaneça
com o lixo nas calçadas
os buracos os abismos

na certa haverá um busto
à praça e ao abandono
até que ao descerem a rua
derrubem a cabeça oca

onde mijarão os cães
e – do caos à lucidez
de uma forja desatada

a vir – a rua escura
há de cobrir o espanto
com um vaso de gerânio

oswaldo martins