terça-feira, 30 de agosto de 2011

Quarta, dia 31

Quarta, dia 31

Quando eu saía da cabana de campo prá cidade, o Senador conseguia a chave e invadia de noite pra censurar fotos e charges que ridicularizam os traços e os gestos de meio século de sua lambança. Hoje ele entrava com cara amarela por não esperar que estivéssemos ali, como estávamos a gravar com Glauber, os fios do asqueroso moustache na botija. Percebíamos ao despertar que a aparição hedionda era um mau agosto que acabava.


Cláudio Correia Leitão

sábado, 27 de agosto de 2011

Qualquer


Amigos, vamos todos lá!


emblema

o que senão de vírgulas
só de língua quê palavra
exausta
o cerne do umbigo do mundo
eu que compus camas
ponto onde
lentas as baratas
sobre o corpo
esquizo esquerdo
passeiam
(oswaldo martins)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O poema erótico

Gostaria de começar com um poema do Oswald de Andrade que me permitirá desenvolver a formulação do erótico na poesia, como eu o concebo. O poema é curto.
Amor
Humor
A leitura do poema permite verificar algumas proposições. Lendo o primeiro vocábulo – amor –, encontram-se quatro letras e quatro fonemas. No segundo – Humor – leem-se cinco letras e quatro fonemas. É formidável o jogo que o poeta impõe. Há entre Amor e Humor, assim dispostos, um jogo de espelhamento e distorção; a presença dos quatro fonemas os tornaria semelhantes e não iguais a si mesmos – para tanto, verifique-se a mudança operada no primeiro fonema das duas palavras e a disposição das letras em número diferente. A medial a e a posterior u e a presença do h complementam esse jogo de semelhanças e diferenças – poderíamos mesmo dizer essa mimesis fabricada no aspecto físico das palavras.
Como resultado percebe-se a percepção de que amor e humor se aproximam e se afastam no nível semântico, quebrando com o possível paradoxo que o ato de aproximá-los desta maneira poderia produzir, ao mesmo tempo em que o mantém. O amor de Oswald permitiria imiscuir-se entre seus cânones românticos e mesmo clássicos uma nota destoante que apontaria o caminho das ruas e não o do compromisso. O amor a sério que certa poesia vem praticando desde há muito recebe com este poema sua dicção irônica e destruidora.
As implicações são muitas. O riso, dentro do cânone ocidental, sempre foi concebido como próprio às potências infernais, ao pecado, à representação do demoníaco. O amor, dentro deste mesmo cânone, seria o seu contrário. Ao aproximar amor e humor as considerações sobre o amor recairiam nas instâncias do riso, das partes baixas do corpo, dos humores fabricados por ele. Ao aproximar humor e amor as considerações sobre o humor recairiam sobre as instâncias do sério, da nobreza dos sentimentos e da razão, pertencentes a Deus. Tal oxímoro demonstra a potência do poético. O amor teria como atributos o gozo e o desrespeito por si mesmo como instância do compromisso, que se revelava nas relações religiosas e médicas que impunham à civilização o casamento e a constituição da família como única saída para o aplainamento dos humores (principalmente os femininos). Em razão direta, o humor se enobreceria porque leva o amor ao gozo, na fórmula oswaldiana.
A escolha de iniciar o texto pela breve análise do poema se deve à convicção de que toda a literatura erótica tem sido muito mal lida, já que seu objeto não é o erótico como principio em si, mas a necessidade de interferir nas considerações do mundo, do vitalismo não só poético, mas comezinho do cotidiano. A poesia erótica, na contemporaneidade, é necessariamente um falar sobre o mundo que escolhe a energia como correlato da interpretação do mundo, a participação política – no seu sentido mais amplo – como ponto de intersecção do poético com a vida.
Nem sempre, entretanto, o erótico como matéria poética representou essa instância. A poesia erótica esteve presente desde que se fez poesia, desde os gregos até os dias de hoje. O que muda na relação do escrito erótico são suas necessidades. Se os poemas da priapeia grego-latina demarcavam uma possibilidade renovadora e devota, por isso o deus itifálico, que representa essa renovação e devoção, ficava nos jardins das moradias gregas e romanas, com os escritores que retomam a formulação do erótico no cinqueccento, o erótico vai assumir dois caminhos possíveis. O da moralidade e o da pornografia poética, cujo maior representante foi Pietro Aretino.
Façamos primeiro uma breve análise das vertentes da moralidade. Para tal, devem ser considerados os topoi que se arrastaram como formuladores do controle da subjetividade há pelo menos três séculos. Os topoi conjugados à poética da imitatio são verdadeiramente uma camisa de força colocada sobre a poética. Escrever fora da conjugação entre forma e sentido que os poetólogos de então sugeriam significava não escrever. Ao contrário do que sucederá com os regimes ditatoriais do século XX, escrever sob as ordens de uma ordem não causava espécie nos poetas que escreviam então. Era mesmo o que se buscava – como na fórmula camoniana – o engenho e a arte. A poética da imitatio tinha a força de uma ideologia. Como querer que os poetas que tomaram a matéria erótica como discurso fugissem deste principio?
Tome-se o exemplar Bocage.
[SONETO DE TODAS AS PUTAS]
 
Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:
 
Dido foi puta, e puta d'um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c'roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:
 
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
 
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.
A expressão fundamental do poema é o ser puta. Ao comparar as putas históricas com Nise, a pastora, a quem o poeta tenta convencer de seus desejos, a leitura se entrega. Embora o ser puta faça parte da constituição humana, introduz-se no poema a sua leitura “correta” – a virgindade e a honra são os valores que o poeta deve respeitar. No poema, ao apontar a mentira que forma a sociedade, o poeta acusa o caminho do poético: ser um libelo que aponta as pontas da moralidade ao indicar à sociedade os seus desvios.
A curiosidade máxima que a composição erótica permite ao leitor contemporâneo é certo deleite com os termos inusitados, que soam para nós como afirmação de revolta e inadaptação, mas nem tanto, se se tomar a vasta produção erótica que vai ser produzida desde a Idade Média até o setteccento e que o Romantismo, a modernidade e a ascensão burguesa trataram de abafar, como acontece nos contos de fada em que, por exemplo, Tália é estuprada por um rei e, ardilosa, toma o lugar da rainha e se transforma ela mesma na rainha a ser louvada. O mundo burguês ao reler Tália a transforma na Bela Adormecida – de quem não é necessário falar absolutamente nada, tão entranhado está seu exemplo nas mentes de nossas moçoilas e moçoilos casadoiros. A modernidade transforma a poesia erótica num ato excludente passível de risinhos nervosos, atitudes escandalizadas e puxões de orelha dos papais que gostariam de preservar a família e o seu bom nome, escondendo vergonhosamente as petas que o poeta português revelava.
Tome-se ainda outro exemplo. Villon. O poeta francês também tomado pela contemporaneidade como um dos que ilustram o comportamento desviante (e, portanto, moderno) em relação ao fazer poético. Se o lermos com atenção devida, buscando aproximá-lo de seu horizonte de recepção, constataremos a presença marcante dos preceitos poéticos ditados pela força da imitatio. Leia-se a Balada da Vendedora de Elmos.
A bela que elmos negociava,
Acho que a ouvi se lamentar;
Moça outra vez se desejava
E assim se punha a discretear:
“Velhice cruel, sempre a atraiçoar,
Tão cedo vieste me abater!
Quem me impede de golpear
E até do golpe vir morrer?
A partir daí, o poema vai desfiar uma série de encontros amorosos que a ela teriam dado valor e riqueza e que a velhice lhe roubara.
Em outra estrofe o poema diz:
“Porém ele não me espancava
Que eu não o amasse, até pisada;
Se por terra ele me arrastava
E eu a beijá-lo fosse instada,
Do mal mostrava-me olvidada.
O patife, de mal manchado,
Me abraçava... Já estou passada!
O que me resta? – Opróbrio e pecado.
A reflexão da vendedora de elmos leva à condenação de sua atitude no passado, restando-lhe o opróbrio e o pecado. A noção do pecado é fundamental para o aconselhamento que a vendedora dá ao ouvinte que lhe ouve a confissão de culpa.
O poema termina no mesmo tom condenatório e na perdida visão do paraíso, recuperado pelo jardinzinho em que a beleza se dava.
É tempo de ir à segunda vertente. O da pornografia poética. A via que Aretino toma é dessemelhante da que poética erótica moralista aprestou-se a seguir. A escolha da pornografia é inusitada por retirar a intermediação dos topoi – já que tem uma função imediata que é a de provocar o leitor à excitação. Um dos leitores de Aretino, Samuel Pepys, vai afirmar: “era um livro poderosamente lascivo, mas maltratou minha piroca, deixando-a erguida uma porção de tempo; precisei descarregá-la mais de uma vez”. A leitura permite que se verifique a diferença entre as duas formas de erotismo.
Se não se pode dizer que os topoi ficassem adormecidos, a construção do sentido tinha uma outra possibilidade – a de relê-los a partir da necessidade de influir sobre os sentido do leitor e não sobre sua razão, para que pudesse existir o fazer pornográfico. Entretanto, como as possibilidades não são únicas nem estratificadas em semas isolados, várias vezes recairá sobre o erótico-pronográfico a força dos topoi. Talvez o traço de disjunção seja exatamente o da interferência em um imaginário deslocado, isto é, de um imaginário que permitisse a virtualidade do ato sexual, que vai mexer na constituição do estar no mundo, com vantagem ao desrespeito às normas de conduta.
O soneto I do i modi – uma série de dezesseis sonetos criados por Aretino para as gravuras de Marcantonio Raimmond e Giuliano Romano – pode esclarecer esse traço disjuntivo.
(H) __ Fodamos, vida minha, fodamos já,
pois todos nascemos para foder,
e se o pau tu adoras, eu amo a cona,
e o mundo sem isso um caralho seria.
E se foder após a morte fosse honesto,
Diria eu: então fodamos até morrer,
Para depois disso foder Eva e Adão
Que inventaram morte tão desonesta.
(M) __ E é verdade que, se aqueles patifes
não tivessem comido o fruto traidor,
sei que os amantes se saciariam.
Mas esqueçamos as histórias, e até o coração
Enfia-me o pau, e aí faz consumir-se
A alma que nele ora nasce ora morre.
(H) __ E, se possível,
não mantenhas fora da cona meus testículos,
de todo prazer desfrutado testemunhas.
O soneto – à semelhança do de Bocage – cria uma percepção temática do ato sexual. Se a função em um e outro é a emergência da trepada, o de Bocage se prende a uma atitude de coerção das atitudes sociais e o de Aretino busca integrar a metafísica e a ação social no processo da escrita, o que a livraria do processo condenatório das ações humanas. Ao trazer o traço metafísico para dentro da poesia erótica o desrespeito às instancias reguladoras dos topoi é duplo. Se a foda ultrapassa o limite do humano, só se pode entender esse ultrapasse como desafio e tensão dentro mesmo das possibilidades poéticas que então eram constituídas. A tentativa de foder Adão e Eva é de uma insurreição ímpar na literatura, posto que seria foder o próprio ato que nos torna pecadores. O poema é brilhante. Chamados patifes, Adão e Eva mantêm a dimensão humana que se coloca contra Deus, reaviva as potências do humano e, de quebra, permite à alma que se reinvente a partir do desejo sexual e da consumação deste desejo. O riso se imiscui no leitor e o liberta para a prática do amor como foda.
O eco do riso que está presente no poema de Oswald aqui tem sua decifração. O amor é humor ou humores quando os líquidos seminais do homem e da mulher se envolvem e se misturam. A leitura atenta da vasta produção erótico pornográfica permite verificar a presença de alguns traços que a contemporaneidade, mais que a modernidade, utiliza na composição de seus escritos. Tal prática se deve a um deslocamento que chamarei intencionado, isto é, a um deslocamento em que o sentido do erótico se transforma não na expressão do erótico apenas, mas abarca um falar sobre o mundo desrespeitoso com as instituições, com os saberes enquistados ou com as modas correntes.
Em suma é um falar do inconformismo, da certeza de que os estares sociais nada mais são do que estares sociais, ou seja, lugares vazios que são preenchidos sempre pelo mesmo de uma linguagem que de certa forma pode-se desconsiderar poética.
Cuidado, entretanto, o falar poético só será poético quando essa intencionalidade deslocada se fizer presente seja na poesia erótica ou não erótica. Escrever ainda é, como queria Cabral um escrever a contrapelo da própria linguagem.
Para finalizar, vou ler três poemas meus que se ligam à temática do erótico.
1
Avec toi fui au cinema
Cult-noir
O comedor de cuja.
2
quando quadros e livros
bucetas são
não são bucetas que se levam
aos livros e quadros
senão que quadros e livros
buscam

o que de bucetas
são
3
no meio do caminho
um cupido torto
puxava tanto a carriola,
bia
nosso cabelos voavam
tanto
que
nos consumia
o braseiro
(Oswaldo Martins)
O texto acima foi lido na Semana de Letras do anos passado 2010, na Universidade Federal de Juiz de Fora

poética

andei sob o sol
à procura da poesia
a poesia não inundou a minha vida
mirei estrelas
à procura da poesia
a poesia não inundou a minha vida
despi-me ao luar da lua
à procura da poesia
a poesia não inundou a minha vida
sentei-me cansado a sombra de uma árvore copada
à procura da poesia
a poesia não inundou a minha vida
subitamente um vômito
um poema cai sobre os meus pés
e com minhas mãos esfrego o poema
em meu corpo
e meu corpo é todo poesia
elesbão
03/03/2011 e 14/08/11

di passagem

di passagem

"tá sumido"

"sumido nada
são seus olhos
que não me veem"


elesbão
(11/08/11)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

*

*
as ruas e seus paralelepípedos atraem o movimento de meus pés
ali uma moça nua aqui e acolá o que no seu devir toco de cigarro
a infame subtração dos transeuntes das vitrinas do peso corpóreo
flanar sob a brisa ou o odor cadavérico dos esgotos vir do escarro
para o nada absoluto quando a cidade de desfaz perfeita redondez
que guardo no bolso esquerdo da calça como se guarda uma praça
que se deixou perdida e pesa mais de lado e faz caírem braços ou
pender a cabeça no estrato fugidio da horas ou mesmo pender dos
inconsúteis abraços um pingente vago como o umbigo entrevisto
entre a blusa e a saia

Língua nua por Cesar Brandão

No Atrito das Pedras Cesar Brandão

Confiram o vídeo no youtube, clicando no título

Novarina em cena


Imateriais

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Pilulinha 19

José, de Rubem Fonseca, editado pela Nova Fronteira, chega agredir o leitor com tanta beleza. Os diversos fatos narrados da experiência do narrador culminam na afirmação peremptória da primazia da língua portuguesa e passam por uma construção de frases exatas, bem medidas. Nada sobra no texto enxuto do escritor mineiro, mesmo a já anunciada que está presente em O Romance Morreu do mesmo autor.

(Oswaldo Martins)