quarta-feira, 30 de novembro de 2011

variações poéticas sobre o corpo matemático da mulher de Tales de Mileto


variações poéticas sobre o corpo matemático da mulher de Tales de Mileto


I

a mulher de Tales
tinha pernas matemáticas.

II

eram poéticas
as pernas
da mulher de Tales.

III

foi nas pernas
de sua mulher
um pouco mais acima
que Tales
viu o triângulo.

IV

estando deitada
sua mulher
contemplando-lhe
dos pés
           à cabeça
à beleza do corpo
Tales vislumbrou
o triângulo isósceles.

V

quando de bruços
viu
sua mulher deitada
Tales deduziu que o diâmetro
                             divide
um círculo em duas
                             partes.


elesbão
(26e27/11/2011)

Fotografia


sábado, 26 de novembro de 2011

A respeito dos zum-zuns


Cantiga de longe, de Edu Lobo, lançado no ano de 1970, traz uma composição composta por seu pai, Fernando Lobo, e Paulo Soledade. Zum Zum, feita a partir do acidente com o avião da Panair, um constellation. Embora composta para homenagear o amigo, comandante da avião Constellation, da Panair, a música ganhou ares carnavalescos em 1951, quando Dalva de Oliveira a gravou.

A gravação de Edu Lobo é feita, nos EUA, com vinte anos de diferença, adquire um andamento mais lento, lamentoso. Há nesta gravação duas leituras possíveis, a de que Edu Lobo tenha reinterpretado o andamento original da música, o que teria um valor memorialístico bem específico de recuperar a origem da composição, o que certamente é importante. Entretanto há outra possibilidade, que creio ser mais importante, pois, além de englobar a perspectiva anterior, cria uma possibilidade de leitura de sua época, em que a tortura, o exílio e a prisão se tronaram ações constantes e causa de depressão social, com a qual convivemos até hoje, pelos estragos que os governos militares fizeram na educação pública, nas instituições democráticas e na participação popular.

Das diversas composições e interpretações que se fizeram e se tornaram, com justiça, uma espécie de hino, a partir do qual podíamos extravasar a frustação da participação social, prefiro este protesto silencioso e pungente.

(Oswaldo Martins)

Fotografia - cigarros são sublimes



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Camonianas


dedicatória

ña senhora, tenho-vos mandado uma enxurrada de versos que não são de minha autoria , são versos que me veem dos tantos versos que li, mas o amor de que falam é meu – é o amor que tenho por si.

I

amo-te tanto
de um amor tão grande
para uma vida tão curta.
II

olhos
só os tenho
para ti.

III

estava assim tão cansado
de amores desenganados

quando Circe pôs sua mão
sobre minha mão.

IV

amo-te
de um amor tão grande
quem me dera
fosse amor pequenino.
V

estando de AMOR
desiludido e magoado
a sofrer danos por gestos
ousados

vi em Circe
bela e comedida
um mover de olhos, brando e piedoso,
um riso brando e honesto
um doce e humilde gesto.

VI

dizei-me senhora
por que me queres o corpo
se vos ofereço a alma?


VII

de todo o meu amor
não serás senhora
de todo o teu amor
não serei escravo.

VIII

não é a tua beleza
que me intimida
temo os deuses
que por desobediência minha
e inveja deles
me tolham as mãos

IX

que me dizes AMOR
agora que te venço

X

que me dizes agora AMOR
que tenho sobre teu peito
a ponta da minha espada.
XI

sei senhora
medir bem o amor
que vos dedico
sei por vossa recusa
e pelas penas e mágoas tristes
em que vivo.

XII

não devias senhora
recusar-me um sorriso bondoso
não devias senhora
recusar-me um olhar piedoso.

XIII

Nise
estar ao pé ti
é estar sentado
                     à sombra
                    dum álamo copado.


XIV

esta impaciência
       que me impacienta
é a impaciência
       do amor


elesbão
(14/05/2011-19/11/2011)

sábado, 19 de novembro de 2011

pilulinha


Dois novos livros de poesia chegaram esta semana a minhas mãos. O olho empírico, de Dora Ribeiro e o Junco, de Nuno Ramos. Aliás, dois grandes livros, em tudo dessemelhantes, mas próximos pela alta qualidade que possuem e faz deles um dos melhores lançamentos da poesia brasileira neste ano.

Olho empírico – como é saboroso isto – não traz a mínima pista de quem é a autora. Seco, não contém mais informações que as necessárias para o leitor – apenas os poemas em sua nudez, nenhuma informação adicional. Basta ao leitor que leia os poemas e com eles se conforte e frua a excessiva beleza que contêm.

Junco, ao contrário, é prodigo em informações sobre o autor. Data de nascimento, prêmios recebidos, livros publicados, uma bela orelha de Flora Sussekind e a informação adicional de que o autor, cujas obras são belas, é também artista plástico. 

desimitação de augusto dos anjos

meia-noite
sóbrio

enquanto
um bicho de antolhos

me resguarda
não a consciência

ou o olho
do não vivido

expresso no funéreo
ferrolho

de um teto

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Três poemas

desimitação de olavo bilac

para tom zé

bem no centro do olho
do crânio

lugar típico onde
se tomam decisões

há um buraco negro
que sem ora direis

reapaga as estrelas
da via-láctea


1
os articulados com por cento
fazem ginástica em apartamentos
fechados

leem em o globo
as novidades da hora

e
no econômico jornal
da moda

as sandices repetidas
ad nauseam



2

este
o pulso do poema

a sinistra capsula
a queda

a indução