quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O Sutur de Cândido Rolim

Tempo

Esses senhores.
Ninguém os chama de filhos.
Nem de órfãos.

(Cândido Rolim)



As definições da poesia são várias, demandam uma série ininterrupta de percepções e inovações, que vão desde o corte rítmico ao corte visual em proveito do sentido – nem sempre tangível do poema. Em Sutur, o poeta Cândido Rolim apresenta, para além da acuidade com que enxerga a realidade, uma densidade cujo desdobramento se dá na forma com que trabalha seus poemas.
Se assíntota é linha que se aproxima indefinidamente de uma curva sem jamais cortá-la, a palavra do poeta retransfigura a definição e nos entrega, mais que um modo de operação de suas poesias, a definição que permite ao leitor buscar, nos cortes operados, um sentido oculto que se desvelará na percepção do leitor como construção das relações do espaço e do tempo. Senão veja-se:

Assíntota

linha que se
aproxima
indefinidamente de
uma curva sem
jamais
cortá-la

O isolamento dos verbos aproximar e cortar, entre o curvo e o reto, acerca-se e dá destaque ao modo de operação dos poemas do livro. Neste entre-lugar, o poema cria como que uma terceira possibilidade que não é nem o curvo nem o reto, nem mesmo o modo de operação do pôr o mundo a nu, mas o próprio do mundo repovoado. Essa técnica, no sentido mesmo de arte, possibilita que se desdobrem inúmeros modos de aproximação com o sentido e inaugure possibilidades inovadoras de participação e confecção das suturas expostas pelo poeta.
Veja se, por exemplo, este outro poema – sábado -, cuja ironia, cáustica, por sua mínima lírica, faz retroceder toda constatação da ação humana a uma “qualidade negativa” preenchida dos vazios em que a propulsão dos afetos não encontra respostas afetivas, como se o sujeito da ação afetiva se permitisse um não-lugar à satisfação dos desejos e o transmudasse em outro móbile que se conformasse, ao sabor dos ventos, ao que possa ser apreendido como objeto do desejo. Em outras palavras: o vazio a ser preenchido só se opera a partir da falta.

SÁBADO
Homens acariciam
carros
O modo de operação dos poemas vai se construindo aos poucos, complementando ao longo de todo o livro esse primário dizer que faz com que a poesia de Cândido Rolim se mostre necessária e pulsante frente a este mundo de construções falseadoras do real, por ele mundo se contentar com a repetição do mesmo. Se o mundo opera com o preenchimento dos vazios pela positividade dos sentidos, a falta desta positividade, em Rolim, pressupõe seu preenchimento a partir dos desdobramentos dos vazios em mais vazios; como os móbiles de Calder, a construção da poesia de Sutur se mostra na configuração do momento de leitura. O que, aliás, é mais do que necessário no panorama da literatura contemporânea.

Oswaldo Martins

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