quarta-feira, 14 de maio de 2008

ANTES DA NOITE

Era uma cidadinha próxima da capital federal, o Rio de Janeiro dos anos 50. Uma tecelagem pequena movi-a a cascata vertida de montanhas que emprestavam seu verde a dois campos de futebol.
O menino tinha uns quatro anos. Dois casais eram sua família - pais e irmãos muito mais velhos.
Uma tarde, desligado o altofalante depois da avemaria, ele viu e chamou ao quintal a família que também viu. No céu do crepúsculo, uma luz estelar semovente riscava o azul quase escuro, rápido como se fosse movimento de reflexo de sol num espelhino.
Periódicos de lugarejos que viram teriam noticiado um pouco no dia seguinte, disseram os mais velhos. O menino ainda não lia.
Os pais deixaram de confirmar a visão antes que o menino completasse os dez anos. Os irmãos fingiram esquecer aquilo, mal cresceram e freqüentaram a metrópole.
O menino também cresceu na capital, tornou-se adulto e viajou pelo mundo. Mas com freqüência vê a luz que se move entre arranha-céus ou serranias, por entre boeings ou no horizonte que separa o mar do céu antes da noite.

Cláudio Correia Leitão

2 comentários:

  1. Belo texto.
    Em algum lugar da memória o retiro do mundo dentro do mundo.

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  2. Ana Lúcia de Camposdomingo, maio 18, 2008

    Muito bom este texto, flui com lirismo e beleza. Fica a vontade de continuar lendo, lendo essa memória de luzes estelares semoventes. Privilégio meu, ser interlocutora de histórias contadas ao vivo ou escritas por Cláudio Leitão.

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