sábado, 24 de maio de 2008

Orelha do Cosmologia

Viver não é preciso. A poesia de Oswaldo Martins porta esse lema dos antigos argonautas por princípio. A partir daí o poeta provoca a percepção dessa imprecisa (e humana) condição, através de mapas afetivos e mordazes, poemas-instrumentos para a navegação do leitor em meio aos valores culturais e morais da herança ocidental, versos com a precisão digna dos cosmonautas de hoje, pois navegar é preciso.

Mas há que se compreender a natureza da precisão nesse intenso e sofisticado trabalho. O poeta recusa, também por princípio, certa tendência mais formalizante, que costuma associar a precisão e a contenção do verso ao ascetismo da poesia. Na mão de incautos, poesia acaba sendo “verso, noves fora zero”. E a vida, mote-mor do humano, e por extensão da poesia, fica menor. Contra isso, mas sem cair no panfleto nem no prosaísmo, prezando o melhor da condensação poética e o mais vital da existência, como um admirador confesso de Bandeira, Oswaldo Martins é provocador com seus poemas.

Desde seu primeiro livro, desestudos, e reafirmado no segundo, minimalhas do alheio, o intenso jogo dialógico é motor para a poesia de Oswaldo Martins. É um desafio para o leitor desfiar os intertextos que cada poema instaura, não só com a literatura, mas também com a pintura, o cinema, a música, e toda forma de arte. E isso sem hierarquizar o erudito ou o popular, o nacional ou o estrangeiro. O que coloca o poeta num lugar ideologicamente privilegiado e intelectualmente livre.

Liberdade fundamental, pois, para além desse vasto diálogo com a cultura, o poeta vem também insuflando a inquietação dos metafísicos. Desde lucidez do oco, seu terceiro livro, a aporia que cinde o humano em corpo e espírito (seja o santo ou o das luzes), é combatida em nome liberdade e da afirmação irrefutável da vida. Agora, cosmologia do impreciso consagra e define a cosmovisão da poesia de Oswaldo Martins. A vida e a liberdade (como condição inevitável do homem, para lembrarmos Sartre), são reafirmadas através do erótico, em sua fortuidade mais (ex-/im-)pulsiva: a buceta, sintomaticamente grafada com u, ratificando o gesto transgressor, a sedição da poesia. “Dobradura-porta/aberta ao absurdo”, como diz o a “antimetafísica das apreciações”, é a buceta, mas também são os quadros e livros que “buscam/o que de buceta/são”. A imagem funda um jogo complexo em que as idéias de nascer e gozar, entrar e sair, circulam, do livro para a vida, da vida para o livro. Entre por ali, então, o leitor: pela constatação de que é entre os corpos que a vida se consuma, e que a utopia da poesia, da arte, enfim, é menos alimentar o espírito que tocar esse impreciso viver.

(Alexandre Faria)

Um comentário:

  1. uma bela crítica,mano blogueiro. Parabéns. ainda que não conheça os livros de completo, vou conhecendo e apreciando, de pouco em pouco a sua poesia.
    Paz e bom humor, sempre.
    Walmir
    http://walmir.carvalho.zip.net

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