sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Pilulinha para Autran Dourado

 

Quando me transformei em leitor, fui sendo tomado por alguns autores em cujas obras mergulhei, às vezes por meses a fio, de tal forma ficava encantado com o mundo que se descortinava para mim e com a qualidade daquilo que lia, em detrimento de obras francamente frágeis. Tempos depois voltei a esses autores para usufruir em idade madura o que a impressão da primeira leitura causou em mim e em minha escrita. Descobri lentamente o que significa escrever, a busca infernal de um estilo próprio e das questões que tocam de perto meu modo de operação com as palavras.

 

Foi assim com Dostoievski, com Graciliano Ramos, com Machado de Assis, com João Cabral de Melo Neto, com Thomas Mann, com Guimarães Rosa, com Manuel Bandeira, entre outros; o contato com a obra de Autran Dourado foi um contato devastador, pois me revelou e me revela a capacidade de a língua se elaborar próxima e distante, já que o universo das Minas Geraes, comum à percepção próxima, vai ganhando contornos distantes e cada vez mais surpreendentes, que me levaram ao sentimento do trágico e à leitura dos autores gregos e à sutileza, por isso mais eficaz, do dizer sem dizer, do tergiversar para tocar o cerne do sentido, como se no entremez se revelasse o burlesco do mundo no plano geral da obra. A força da ironia, do humor sem risos estava ali, estampada na obra do Mestre Imaginário, de vasta aplicação.

 

Autran Dourado escreveu numa época em que as percepções se estendiam para além do imediato, época em que o passageiro passava ao largo e a invenção do ficcional se punha a verificar não o serviço de uma moda, de uma temática demarcada de antemão. Por exemplo, em Os Sinos da Agonia, o retrato de uma sociedade em vias de se tornar outra toma, por dentro do pensamento das personagens, uma atualidade fortemente marcada pela presença silenciosa das muitas injustiças que se construíram ao longo da história e que no silêncio da ficção cobra o assombro de sermos quem somos desde antes até o agora.

 

A obra monumental de Autran Dourado não só é fundamental para ser lida nos dias de hoje, como é tão mais importante para que aquele que se quer escritor. Se Machado de Assis funda um modo de escrita até hoje insuperável no Brasil, Autran Dourado é o escritor brasileiro mais próximo do que pode ser a literatura que o Bruxo nos legou.

 

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