O livro Felizes
os felizes de Yasmina Reza é um livro sobre a finitude. Os 21
contos/capítulos tratam de relações que na quietude do espírito se despedem do
que foram e não apontam quaisquer outros destinos. São mônadas que giram em
torno de si mesmas, sem que haja um raio de luz que as ordene ou a elas tragam
significados renováveis. São o que são, numa clara tautologia do sentido da
vida.
As personagens
vão e voltam sem saírem do lugar. Na vasta gama de pessoas que desfilam seu tédio
por este livro, há jovens que só se aceitam como outro, velhos à beira da morte
e casais ora formados ora deformados pelo cotidiano, cinzas que são espalhadas
aqui e ali, um jovem médico que vive de michês e que cuida da morte em situação
paliativa, um libertino que não é frusta quem com ele se envolve. Todo esse
elenco, entretanto, alquebrado por uma metafísica descarnada, vive nela e fora
dela.
A metafísica
pressupõe um lugar de inquirição abstrata do sentido da vida e, por isso, serve
para que quem indaga, de certa forma, busque alguma possibilidade que sustente
o estar vivo, não na medida de se estar com as funções vitais funcionando bem,
mais ou menos ou nas últimas, mas no de sentir-se capaz de gozo, de
transformação, de saber ainda interessado pelo que se passa ao redor de si na
enorme quantidade de fatos diversos que circundam os que se sentem vivos.
No livro de Yasmina
Reza os fatos diversos são vários, mas todos eles postos na perspectiva da
finitude, o que leva o leitor a certa complacência com este estar. A percepção
que o leitor experimenta ao ler o livro parece mostrar a ele que seu mundo
também se cria nesta metafísica descarnada, em que a civilização contemporânea
(ou sempre foi assim?) se vê envolvida.
Ao criar um
mundo sem perspectivas, a autora desenvolve sua percepção crítica e mostra um
dos caminhos possíveis para o fazer ficcional.
(Oswaldo
Martins)
Nenhum comentário:
Postar um comentário