segunda-feira, 14 de julho de 2008

SOBRE ANGÚSTIA DE GRACILIANO RAMOS

“Levantei-me a cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios”.

“Há nas minhas recordações estranhos hiatos. Fixaram-se coisas insignificantes. Depois um esquecimento quase completo. As minhas ações surgem baralhadas e esmorecidas, como se fossem de outra pessoa”.

As duas passagens acima, retiradas do livro Angústia, de Graciliano Ramos, servirão de mote para a questão que se apresenta. A primeira está no início do romance, é a porta de entrada a partir de onde o leitor situará todo o processo da narrativa. O que será descrito são acontecimentos que antecedem os trinta dias demarcados como o prazo do restabelecimento precário do narrador. A lembrança que revelará tais acontecimentos, por seu turno, será avivada a partir da dessemelhança entre o narrador redesperto e a personagem da memória imersa na inconsciência dos fatos. Assim, Graciliano entrega ao leitor o problema. Um mesmo – o narrador é e não se vê como é – e um outro – a personagem que é, ao mesmo tempo, o narrador e seu outro. O processo de escavação da memória surge, portanto, definida como estranhamento, diferença. Como hiato, brecha, resto.
O narrador memorialista, que se lê a partir do sucedido – o assassinato que busca compreender – trai uma dissociação entre sua vida e ele mesmo e corrompe com esta formulação o princípio básico da memória: a lembrança que distingue e faz do texto memorialista um apanágio da excentricidade. Dupla inserção, portanto. De um lado a perquirição da construção da memória; por outro, a formulação crítica do próprio discurso memorialista. Em outras palavras: de um lado a pesquisa sobre os fundamentos da constituição psicológica da memória; de outro, sua inserção nas formulações do próprio gênero memorialista. Em diversas passagens de Angústia, o leitor se verá a frente do discurso que se liga à formulação da escrita.
Luis da Silva vive de pequenos expedientes: escreve sonetos e artigos encomendados, para a satisfação dos pares sociais – cobra por isso e como resto destes escritos se vê escrevendo romance, artigo, conto de monta. Aqui e ali se justifica da necessidade, afirmando ser possível essa escrita mesquinha por tudo ser ilusão. No entanto, a própria tessitura da narrativa irá desmentir o ponto de vista do personagem, pois a formulação da memória se dá contra o auto-elogio ou a excentricidade do personagem que julga ser necessário pôr-se em papel. Ou seja, por que ficcional a narrativa da memória em Graciliano Ramos não se dá como memória, apenas a arremeda. Seu ponto de chegada é outro. Para que se possa aclarar tal ponto, deve-se vir à outra inserção, a constituição psicológica da memória.
Leia-se a passagem com que se iniciou a análise: “Há nas minhas recordações estranhos hiatos. Fixaram-se coisas insignificantes. Depois um esquecimento quase completo. As minhas ações surgem baralhadas e esmorecidas, como se fossem de outra pessoa”. A formulação das recordações se faz a partir de estranhos hiatos, de coisas insignificantes. Os hiatos apontariam para brechas abertas no discurso da consciência. Lembra-se não o essencial, por não querer afirmar sua força de fato, de acontecimento.
É claro que toda narrativa é construída para que se possa compreender a totalidade da ação, para que se possam compreender os motivos que levam a personagem ao assassinato. Mas, se o leitor cuidadoso perceber sua articulação descobrirá que o assassinato, embora acontecimento central da narrativa, não é o fato decisivo que a constitui. A constituição do significado narrativo está nas pequenas brechas abertas pelo discurso do narrador, isto é, mais importante que a ação é a concentração dos ouvidos do narrador colados, por exemplo, à parede do banheiro contíguo a casa, no qual Marina se banha, escova os dentes, mija. Banhar-se, escovar os dentes, mijar são índice do apagamento do indivíduo, Luis da Silva, que se apaga frente a uma vicariedade. Ou como as pernas frias de Berta, no escuro cinema, ou as condenações e admoestações contrárias a toda forma de sexualidade.
A articulação feita pelo discurso do narrador da sexualidade com o poder do antepassado, esfumado pela incapacidade do pai e da personagem, permite que se afirme ser Angústia menos uma lição sobre a individualidade e mais um discurso sobre as relações entre sexualidade e poder. As brechas do discurso, inscritas no corpo da individualidade de Luis da Silva, se articulam no discurso do narrador com a reflexão sobre a constituição do poder enquanto frustração que afeta a sexualidade.


Ao articular as duas inserções poder-se-ia aventar a hipótese que norteia essas páginas: à esterilidade da personagem corresponderia igual esterilidade na formulação da linguagem literária atacada por Graciliano Ramos.
Em virtude da escrita vista como afirmação do indivíduo, como afirmação da diferença social, a narrativa que se narra, ao articular a esterilidade da personagem, narra a própria esterilidade de uma escrita permeada de excentricidades e lugares comuns, entranhadas na tradição literária brasileira.


(Oswaldo Martins)

Um comentário:

  1. angustia é um livro dificil de ser lido, mas interessante, relata a vida cotidiana de um jovem trabalhador q por conta de um amor frustrado comete loucuras, inclusive matando seu ''amigo''


    Milena/
    Pamela
    Angela
    Escola Riachuelo

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