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sábado, 2 de abril de 2016

Em odor de santidade

A Baronesa, como era conhecida, acabara de morrer, acompanhada por uma de suas antigas protegidas. Fora acompanhada em seu calvário por toda a cidade condoída. A baronesa, pundoronosa nos últimos tempos, peidava, na curta agonia de sua despedida e, entre dentes, baixinho, como soía ser de bom tom para aqueles que deixam a vida, murmurava um sai diabo, como se o cheiro do metano, que expelia pelo cu – tantas vezes usado – a livrasse das lembranças que teimavam em lhe dar as graças de que fora senhora nos tempos em que mantinha sua Casa.

A Baronesa, enquanto suava e peidava, lembrava-se dos antigos clientes, das antigas princesas. Muitos dos quais estavam presentes à sua agonia. O padre presidia a tudo pesaroso. Acabariam as verbas doadas, com desprendimento e altivez, por aquela velha senhora. O que seria do teto da paróquia, das roupas engomadas, das ceias de natal, fartas de perus, rabanadas e baba de moça. O padre se interrogava, enquanto a Baronesa morria, suando e peidando.

O quarto, com as amplas janelas fechadas, protegendo a moribunda do frio que fazia, exalava o famoso cheiro, que no passado fizera a algazarra das mocinhas, quando por acaso um dos clientes de pregas soltas pontuava a trepada com os estrondos característicos dos coléricos trovões do intestino. A Baronesa, com a lembrança dos tempos passados, ao mesmo tempo em que abriu seu último sorriso, deu seu último suspiro e deitou pelo quarto, como última lembrança, o característico eflúvio de quem morre em odor de santidade.


(Oswaldo Martins)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Flagelo da putas


Ah, as histórias do Doutor sempre me deliciaram, você sabe. Por isso o visitava muitas vezes em seu consultório. Pretextava uma dor qualquer, para visitá-lo. Sempre fui recebida com alegria. Neste dia, passava pela porta, há muito tempo não subia as escadas, para dar um olá, saber das novidades e contar outras.

Ao entrar na antessala, vi que não havia ninguém. A secretária já havia se ido, as clientes não mais estavam. Bati com as pontas dos dedos, pronta me retirar, quando ouvi a voz bonachona e despreocupada, dizendo para esperar. Ouvi a cadeira sendo arrastada. Levantou-se, com a elegância que tinha e abriu-me a porta de par em par, perguntando logo pelas novidades, Mariinha?

Olhei de esguelha, o Doutor lia um livro muito grosso. Sabia que, naquela cidade enfadonha, para ele valiam os livros e as pequenas histórias com que atiçava sua necessidade de saber das coisas do mundo. Eu podia até me considerar parte daquele vício, com minhas histórias. Eram histórias de putas, mas sabia que o deixavam contente.

Falei. Sabe a Dorvalina? Pois é, fui lá no castelo dela. Disseram que estava acamada. Soube? Sim. Visita de uma para outra, que no nosso mundo é assim, disputamos as moças e os homens, mas resta entre nós desapego. E ela me contou que um certo senhor, distinto, mandou em embaixada um moço. Queria experimentar essa vida. Ela se riu. Veja você, comadre, disse.

Esse senhor queria ou queriam para ele, não sei. Uma das moças, para tudo. Mandei uma delas tomar banho, se vestir, perfumar. No dia seguinte soube. O senhor andou pelas casas querendo fechar, impor decência. Isto antes. Falou com aquele jeito entrecortado dela lá contar suas histórias. O isto veio puxado, em “s”. achava chique dizia ser bom para o ofício, davam mais sustância ao cabaré.

Mas soube no dia seguinte, preambulava. O Torquemada das putas enfim sucumbiu. Ria-se. Parece que não foi ele, mas amigos dele. Armaram em um sítio não muito distante daqui. A moça foi de carro. Disse ela, sabe, né, dona Dorvalina. O homem estava nervoso, sem funcionar direito. Aí, não tive dúvida, abocanhei. O homem gostou. Quer novamente.

Mariinha riu-se gostoso e satisfeita, imitando a fala de sua comadre. Ele gostou, agora só vai querer saber disto.


(Oswaldo Martins)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Mariinha, o cônego e o doutor


Mariinha disse quando foi ao confessionário da Igreja. O cônego era ser amigo já de alguma data. Com os proverbiais segredos de alcova e sacristia, se entendiam às maravilhas. Se o padre dava a extrema-unção e acalmava a consciência pesada das moças; Mariinha, a grande senhora, oferecia de seus préstimos e de suas pupilas, é claro, para as pequenas obras da igreja e era quem fazia a ceia do natal de jesus cristinho da casa paroquial.

Eram perus que não acabavam mais, farofa de miúdos, rabanadas e, preferência do cônego, baba de moça, bem molhada. O religioso se refastelava. Mariinha, que ali se introduzia com cuidado, passando por uma porta lateral e vestida à moda de então, capa de boiadeiro e chapéu, se via na condução da cozinha enquanto era pronunciada a missa da meia-noite. Quando o padre – solitário – voltava tudo estava pronto e Mariinha já voltara para sua casa onde presidiria o natal dos desertados da cidade. Deixava apenas uma das suas moças para servir a janta do clérigo.

Tantos foram os natais em que a cena se repetira que foram aos poucos se descuidando e como era inevitável cruzaram-se o cônego e Mariinha, nas antessalas da casa. Meio atrapalhados, os dois se cumprimentaram e travaram um pequeno diálogo sobre seus negócios. Como estavam bem se despediram e foram cada um a cumprir o papel que lhes cabia.

Quando já morto o cônego e Mariinha envelhecida, em uma consulta, me contou que, na famigerada noite, a frase que o padre soltara quase ao acaso e que lhe ficara na cabeça durante anos foi como uma absolvição de seus pecados. Circunspecto dissera “você sabe, Mariinha, que, neste mundo de Deus, a única coisa que dá mais que minha paróquia é sua casa e suas meninas”.

Levantou-se, despediu-se e me disse com a cara mais santa que podia “hoje, Doutor, eu pago a consulta, o que, sem dúvida, não aceitei”.


(Oswaldo Martins)

sexta-feira, 20 de junho de 2008

José Maria

Mariinha recebia em seus domínios a vasta rede de relações humanas da cidade. Velhos coronéis, médicos, professores, amanuenses, alguns padres e os bêbados contumazes que ali iam ter um pouco de proteção e carinho. Suas meninas serviam, sentavam-se para um dedo de prosa desinteressado, que sempre terminava num dos quartinhos, reservados para a boa companhia. Os moradores tinham em sua casa aconchego e paz.

O Padre José Maria, que do púlpito de sua igreja, vociferava contra os desregramentos – comparando a cidade à Sodoma, à Gomorra – ameaçava com o sal, com a chaga, com a lepra. Apontava o caminho do Carmo, o leprosário que era mantido pela irmandade órfã das carmelitas. Tantas fez o padre que acabou sendo chamado a descanso e oração por seus superiores. Do que não se sabia era a razão da volta triunfal de José Maria à cidade.
Fanfarras, prefeito municipal e até o capitão, que comandava o destacamento local, acorreram na demonstração de apreço e laços de amizade. José Maria sorria, feliz.

No quinto dia, após o beija-mão das beatas, convocou Mariinha para uma conversa na casa paroquial. Aí havia de – ah, se não havia – remoía nossa grande dama. Quando o coroinha, menino de uns doze anos, levou-lhe o recado, esquecera-se de dizer o dia em que o padre a esperava. Pensou em chamá-lo, mas esperou e em seu lugar gritou por Gracinha, mulata nova e sorridente.

Gracinha, que tinha do nome a leveza e os atributos que levaram o Doutor a apelidá-la assim, acorreu.

__ Dona?

A papisa estendeu a mão e convidou-a a sentar. Gracinha, com os peitos meio a descoberto, brejeira, sorrindo, sussurrante, fala aos ouvidos de Marrinha:

__ Doutor?

Sorri, passa a mão sobre a cabeça de Gracinha e espera. Olha a seu redor, a casa estava bonita, pintada de nova, com cadeiras e poltronas confortáveis – a mesa era farta, as meninas, escolhidas a dedo. Diligenciara a decoração da casa – a cor penumbrosa, convidativa, lembrava os meios tons de uma sacristia. Fizera de propósito, sua experiência mostrava que os homens gostavam de gozar e depois se arrepender. As mulheres de seu tempo, em sua casa, sempre conheceram o recato da sala e soltura da cama – entre a santa que sabia ouvir e a puta que pedia mais e deixava-se bater. Agora José Maria, voltado em triunfal volta e poder.

__ Gracinha, vá e diga ao padre que de uns dois dias estarei lá, que boa devota sou e não posso recusar o chamado de meu pastor. Mas, óia, faz com que ele te bata. Se voltar sem ter apanhado uma surra, esquece minha casa.

Recompôs os peitos para dentro da roupa, foram para dentro de casa e voltaram, com Gracinha pronta para cumprir seu dever. Em sua bolsa levava algumas outras pequenas coisas, além de uma espórtula para as obras da igreja. Saiu sorridente – sua carreira de puta começava bem. Primeiro o Doutor, agora o padre.

__ Vim a mando de dona Mariinha, seu padre.

Com o cenho fechado, o padre hesitou. Aparentava uns quarenta e poucos anos e tinha a tez dos morenos de além mar. De boa compleição, mesmo bonito podia dizer-se que o padre era. Ao ameaçar fechar a porta, encontrou meio corpo da mulata já em sua casa, que, rápida, pulou pra dentro. José Maria tremia, o rosto cada vez mais fechado.

__ Dona Mariinha, manda que eu vince vê o pastô. E descuidadamente faz um gesto de retirar algo dos seios. Com molícia falava e esperava, aturdia o padre.

__ Dona Mariinha...

José Maria não pensava, apenas via, em seus domingos gloriosos de púlpito, beatas vestidas, vestidas. Entrara cedo para o seminário e o mundo para ele havia sido desde então aquelas mulheres de roupas enegrecidas. Odiava-as. Mas essa parecia diferente, lembrou-se do capeta.

__ Dona Mariinha pediu... e esperava. Pediu que entregasse pra ocê, sinhô.

E enfiava a mão nos seios, cada vez mais os descobrindo. Num gesto meio estabanado, de quem sente vergonha, Gracinha toca as mãos do padre, que recua. Lembra-se das duras noites de frio do seminário. Sorri para o padre. Retira um papel e o movimento se faz de tal jeito que, ao mesmo tempo em que ela desaba sobre o padre, seus seios pulam para fora do vestido. O padre a empurra, ela se abandona sobre ele, que se enfurece e a empurra com mais vigor. As mãos da mulata apertam seus braços contra o chão. Os joelhos dela se dobram ao longo da cintura do padre, que não se mexe. A voz de Gracinha soa fresca, feliz:

__ Dona Mariinha, mandou que eu vince, eu vim para dizê pru sinhô que dispois de manhã pela tardinha estaria aqui pro mode de falar com o pastor.

Sente o corpo do padre enrijecer, depois relaxar e, lentamente, solta as mãos de José Maria que se mantém crucificado no chão. Com certo receio, passa a mão sobre o rosto, os dedos tocam os lábios e inesperadamente começa a bater no rosto do padre devagar, devagar. Seus seios balançam. José Maria fecha os olhos e os abre, quando sente a mão de Gracinha descair de encontro a sua face com uma força cada vez maior. Grita. Em vão. Gracinha continua a espancá-lo. José Maria sente-se como que espetado pelo tridente do demônio. Derruba-a de cima de si. Ela luta. Seu vestido se desfaz cada vez mais. Suas pernas enroscam-se às pernas de Maria. O padre busca puxar-lhe os cabelos. Gracinha ri. Rolam pela antecâmara do quarto.

Após a noite do padre, Gracinha procura recompor-se – assim como o Doutor e Mariinha lhe ensinaram algumas das artes de sua profissão, fizera ao José Maria sua iniciação como instrutora e amante. Sabia que Mariinha ficaria satisfeita – galgara um degrau na hierarquia das putas.

Recolheu suas coisas, beijou o padre na testa, em gesto maternal e falou:

__ José, dona Mariinha pediu pra avisar que vem, mas me mandou antes para falar com o sinhô.

O padre respirou lentamente. Pensava.

__ Diga à dona Mariinha que a espero na igreja, no próximo domingo.

Alguns anos depois, quando viajamos de férias para o litoral, encontramos Mariinha numa praia quase deserta, esquentando ao sol. Acompanhava-a a divina Graça, com seu sorriso. Sentamos ao lado das duas.

__ Doutor, vou ficando velha. A arte de domar meus cabritinhos, de conduzir a sociedade, com segurança e tranqüilidade, passo a outras mãos, querendo dispor. E riu apontando Gracinha. Para mim, entre convidativa e festeira:

__ E o menino, quando aparece?

Ao nos afastarmos, o Doutor certo de que seu tempo havia chegado junto ao de Marrinha; eu, louco para que acabassem as férias, percebemos ao longe a figura de um velho padre que nos acenava, reintegrado à vida.


(oswaldo martins)

quinta-feira, 27 de março de 2008

Bicicleta

Mariinha não era Maria, era Julieta. Bicicleta, o sobrenome não era Bicicleta, mas Maria. Do pouco que se sabia da vida pregressa de Mariinha, essa era, com certeza, a única. O nome Bicicleta, que lhe acompanhava o pré-nome e que fora mantido pela tradição da cidade, era grande mistério sobre o qual muito se discutia. Mariinha era baixinha; loura, conforme relatos mais antigos, que dela guardavam lembrança. Usava cabelo curto, parecia uma atriz desconchavada de cinema e representava um papel crucial em na vida de todos. Era um ícone das noites em que se percorria a cidade em busca do que ela – em época áurea – oferecia.

O nome Bicicleta era um mistério. Várias era as coisas imaginadas – das mais estapafúrdias até as mais concretas e possíveis. Alguém peremptoriamente afirmava – história que todos aceitavam e preferiam – que vinha o bicicleta do nome de uma cena acontecida na cidadezinha onde morava, às margens do Rio das Mortes. Mariinha era moça e teria sido ali que escolhera nome e profissão.

Sucedeu que, pedalando pelas margens do rio, crendo estar só, resolveu, como uma Godiva das Gerais, pedalar nua. Teria sido vista assim em sua bicicleta e fora seduzida por um que passou. Gostou e resolveu começar seu noviciado a partir de então. Depois fora para a zona, de uma cidade próxima – onde exerceu seu magistério, depois seu pontificado.

Nas Gerais, a fama antecede o conhecimento. Mariinha era, mesmo antes de estabelecer-se como a preferida, um fenômeno que todos desejavam, pois correra de boca em boca a frase que teria dito pela ocasião do famoso passeio de bicicleta.

__ Gentes, num é que há coisa mió que zanzá daqui prá li. A temp’ra de uma vara tem mais valia que as bicicreta.
(oswaldo martins)

quarta-feira, 5 de março de 2008

Gritos e sussurros

Mariinha contava casos. Um dos mais célebres de sua longa experiência se deu ali pela década de 50, quando ela ainda se preparava para ser a grande dama que é. A graça e riso contido sempre faziam parte de suas histórias.

Havia na cidade um relojoeiro manco e solteiro, que freqüentava a Casa toda quinta-feira, ali pelas oito horas da noite, quando as últimas pessoas se recolhiam a seus lares ou buscavam o aconchego que lhes faltava. Tal senhor cumpria seu périplo, disfarçava, lentamente olhando para aqui e ali, parando nas janelas da rua principal para um dedo de prosa. Não percebia que este era o aviso. Quanto mais disfarçava, mais atiçava o riso quieto das senhoras e a assuada da garotada, que ia se ajuntando, formando um distanciado, mas atento grupo. Dirigia-se, após essas delongas, manquitolando à augusta casa de Mariinha.

Chegava, olhava mais uma vez em torno de si, e entrava. Aflito que estava, não percebia a meninada que esperava na esquina. Após alguns minutos, tomava uma senhora já meio entrada em anos, mas ainda em suas funções, e se dirigia ao quarto três, que ficava na lateral da construção. Uma janela fechada, com cortinas simples, uma cama e a bacia com água para os testes de saúde e lavagem posterior. O quarto era franciscano. Havia outros melhor decorados, mas o dele devia imitar os quartos conventuais, com o toque inusitado das bacias de bentas águas.

Tinha, dizia a Mariinha, uma peculiaridade. Gostava de gritar na hora do gozo. Gritava, mas não como se costuma gritar os sem-sentidos do prazer, quando se é tomado pela animalidade dos sons. Gritava, correto. Evocava Deus, Jesus, a santíssima trindade toda! Os “ai meu Deus”, “ai Jesus” e os “meu espírito santinho”. Era o sinal para a algazarra da meninada. Vaiavam, gritavam reproduziam o pobre senhor. Macaqueavam, anunciando a famosa trepada pela cidade afora.

Saía após se arrumar. Ganhava a rua em direção a sua moradia que ficava perto. O rapsodo de sua façanha corria a cidade, enquanto ele, recolhido, dormia o sono dos justos.

As versões eram tantas e cada vez mais escabrosas que os – digamos – responsáveis pelos usos e costumes da cidade buscaram intervir. Foram o Padre, o Doutor para persuadir e o Chefe de Polícia para ordenar. Mariinha os recebeu no seu salão. Conhecia de cada um deles os desejos, as manias. Ameaças de uns e de outros, acordaram. O infeliz do homem não seria mais recebido. Aquilo era um assunto privado e não um espetáculo público.

“Acordos são acordos devem ser cumpridos ou burlados”, dizia a sábia senhora. Na quinta seguinte, o relojoeiro apareceu e, ao invés de se deparar com Zínia, sua amante, deparou-se com Mariinha, que o chamou para uma conversa. Acordaram. Não mais a gritaria seria ouvida, sob pena de as portas se fecharem. Mariinha instruiu. Nada de dedo de prosa, sorrisos. Isso apenas criava expectativas e a cidade nada tinha a ver com isso.

Fora a garotada esperava ansiosa. Já se passara mais tempo que o costume e nada, nada, nada. A decepção aumentou quando o viram sair da Casa e dar-lhes uma sonora banana. Depois manquitolar até a porta de casa. Os episódios serenaram. A garotada o seguiu mais umas duas quintas e foram rareando, rareando até sumirem-se. Estava limpa a cidade. Mariinha, percebendo que sua Casa e reputação não mais corriam perigo chamou o relojoeiro:

__ Vossemecê, já pode gritar. Agaranto a paz. Mas, veja, nada de sorrisos, conversas. De hoje em diante só os gritos. E chamou:
__ Zínia! Zínia! O senhor Napoleão. Deixe-o gritar.

E Napoleão gritou feliz seus ais que ecoaram sobre a cidade. Ai, meu Deus, como é bom. Ai Jesus, que eu morro. Zínia, Zínia ai que vou gritar.


(oswaldo martins)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Chiquinho

Sucedeu que, ao passar pela pequena cidade, Chiquinho, quando voltava de uma longa caçada, encontrou-se em precisão de mulher-dama e alívio para a alma cansada. A cidade era apenas passagem, para que chegasse a casa, depois dos dois meses de ausência. Lá o esperariam ansiosos os amigos, as mulheres e os filhos, todos prontos para a série de histórias que sempre Chiquinho contava, em meio ao cheiro dos assados que ora aqui ora ali oferecia para celebrar sua volta e grandeza.
A caçada, embora longa, não lhe dera grande satisfação, fora uma adição enfadonha de fatos corriqueiros. Nenhum veado, apenas pequenos animais, como as perdizes e os coelhos foram abatidos. Trazia cestas cheias, mas vazia era sensação de vitória; poucas eram as histórias, temia decepcionar a assistência cativa, que lhe justificava a ausência. Com este estado de espírito, buscava descaminhos, atalhos e cidades em busca de inspiração e novidades. Daí que parou em Tugúrio, a cidadezinha perdida.
Dirigiu-se à praça em que todas as ruas davam, para indagar da zona. Indicaram-lhe o caminho. Um pouco afastada, a casa que procurava ostentava em uma de suas janelas uma mulher, que mexia com os cabelos, tinha o semblante triste, mas cantava para si uma cantiga ligeira.
__ Tardes...
__ inh?
__ Anh, zona?
Ajeitando os cabelos, a dona confirmou. Chiquinho, que não via mais ninguém senão ela, estica o pescoço, procura olhar o interior da casa. Ao ver algumas portas entreabertas, um ambiente morno e convidativo, baixa o tom de voz, que se torna melosa, e pergunta se sabia quais eram as mulheres que davam ali? A moça faz um rodeio enorme no cabelo, olha Chiquinho e diz:
__ Mulheres que damos aqui somos eu, aquela lá, na penteadeira, mas que tá com os ovário podre e aquela outra – e mostrou uma mocinha que suspirava, sentada numa espécie de sofá – que se amigou com o doutor prefeito. E conclui com um meneio gracioso das mãos convidativas:
__ De modos que... mulheres que damos aqui somos eu...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Mariinha

Mariinha, a de saudosa memória, a sábia puta. Lembro-me dela, já velhinha, saracoteando daqui para ali. Um dedo de prosa, um olá simpático, um “como vai o Doutor” marcavam nossa conversa pelas ruas da cidade. Às vezes a acompanhava, às vezes não. A todos reconhecia e cumprimentava, fora de muitos pais alcoviteira; dos avôs, amante. Das esposas era a confidente eterna. Tratava carinhosamente os netos e filhos de seus clientes, via se já estavam taludos e prontos para o ofício da vadiagem, mantinha-se informada sobre a sua descendência.
Conhecia as putas de então, as visitava, aconselhando, assim como aconselhava as senhoras mais antigas sobre a vantagem de manterem os lares intactos e seus esposos cativos. Não chegava a ensinar truques, mas indicava e percebia, num lampejo de felicidade, a alma humana em suas semelhanças.
Uma de suas máximas se aplicava de forma distinta para o mesmo problema. A paixão era sua serva e ensinava a todas serem senhoras de seus amores, que se vedavam às putas e se incentivavam nas mulheres casadas e moças casadoiras. A sábia Mariinha, a mais íntegra e completa senhora que povoou os Gerais.
Num dia em que a acompanhava até sua casa, carregando suas compras, convidou-me para tomar um café. Serviu-me a beberagem rala, como era costume; para si, um bom gole de pinga. Falou para que me sentasse e perguntou à queima roupa:
__ Antão?
Respondi-lhe com minhas dúvidas. Estava apaixonado por uma moça de sua antiga Casa, e minha família queria me encaminhar em direção a certa mocinha da cidade.
__ Adelina e Adélia? Perguntou confirmando o que já sabia. Seu pai tem orgulho de ocê ser com’ele. O mundo não tem pressa, filho. Adélia já sabe, avisei. Puta num tem paixão, num pode ter. Se tem, num chega longe e ocê – encarou-me com rigor e brutalidade – num há de querer, num né?
__ Isso significa que Adélia...
__ Gosta, sim, de seus chamegos. O meu foi o Doutor – sinto seu cheiro até agorinha – ele sabia, gostava de saber. Mas puta que se amasia tem jeito não, abre é espaço para as outras. O Doutor se regalava com os prazeres que eu lhe dava. Eu e as outras. E emendou:
__Os tempos são outros, sei. Já estou velha. O amor mudou e quase já não se ama como antigamente. Cada um quer o seu pra si, uma burrice, pruque assim o amor se vai, some, acaba. Uma burrice, num acha?
Levantou-se, me deu a mão, as faces e abriu-me as portas do mundo.

sábado, 17 de novembro de 2007

Bicicleta

Mariinha bicicleta foi uma prostituta famosa na década de 30. Nos anos 50, era a mais famosa cafetina da cidade. Sábia, brindava os freqüentadores de sua Casa, com ensinamentos, retirados da experiência adquirida nos muitos anos em que – como dizia – servia às famílias e à manutenção das boas relações maritais, além das excelentes histórias que contava, com a graça e a leveza dos narradores ligeiros. A conheci como um dos próceres da cidade, sua fama, importância e honradez disputavam com os políticos, com os padres, com os doutores a primazia da orientação moral da população. Quando a idade não lhe permitiu nem mais a posição de cafetina, abandonou o ofício, que engrandecera, e tornou-se habituê dos cafés da tarde das senhoras da cidade. Certa vez, tomada pela idade e receando alguma doença grave, foi ao consultório de meu pai para tratar-se. Ele reservou para ela algumas horas da tarde.

Entre uma e outra orientação dada, algumas histórias foram sendo contadas. Da reprodução que delas fazia o pai, à mesa do jantar, algumas se destacavam e eram contadas e recontadas. Não sei se intencionalmente ou não, as histórias tinham sabor, cheiro e tato. Podíamos sentir seu cheiro, tocá-las, comê-las. Despertavam nossos apetites, o meu e o de irmãos e irmãs.
Tendo recebido uma noviça em sua casa, por volta dos anos 50, no início de seu pontificado, Mariinha, que tinha seus clientes prediletos, guardara a menina para um deles, que sempre lhe pedia primazia em relação às putas novas que ali viessem aprender o ofício. Pois bem, chamou seu moleque de recados e o enviou à casa do Doutor.

__ Vai e diga o Doutor que eu espero, sem falta, no horário de sempre em minha casa.
Enquanto o moleque ia à casa do Doutor, Mariinha chamou sua nova protegida e com ela iniciou um curto monólogo:

__ Ocê, venha cá. Hoje recebo a visita do Doutor, deixa ele satisfeito. Nunca negue o que for. Você veio até aqui para isto. Tá qui as roupas que vai usar. Toma um banho, põe cheiro e espera no quarto.

O Doutor chega à hora marcada e Mariinha o acompanha até a porta do quarto. Depois se recolhe à sala na espera do veredicto, satisfeita - a menina era bonita. Servia-o há alguns anos, ninguém como ele para tirar as ilusões das putas. Aprendera que o pecado maior, mortal, para a mulher da vida eram dois: filho e paixão – um decorrência do outro. Por isso, quando uma putinha nova, sem saber ainda da vida, vinha até sua Casa, mandava chamar o Doutor. Descansada, esperava. Pouparia seu tempo e não ouviria as lamúrias de sempre. Dormitava, feliz.

Foi despertada de seu sono por gritaria vinda da direção do quarto. Esperou. Arrematando as roupas, com um seio à mostra, as coxas aparecendo sob a roupa rasgada, a noviça veio em sua direção. Gritava, histérica. Doutor apreciava a cena na porta do quarto, sorria.

__ Menina!

__ Ele queria coisas comigo que não faço - conseguiu falar entre choro e gritos que cada vez ficavam mais alto.

Mariinha encheu a mão e a plantou no rosto da puta que estancou choro e grito.

__ Ói, volta pru quarto, mas antes escuta um conseio: você é mulhé de zona, num é? Antão, mulhé de zona que não chupa e não dá o cu, não veve. E não veve, pru quê? Pruque quem sustenta mulhé de zona é home casado e home casado, de buceta, tá cheio até aqui.