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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Henry Miller

Em uma de nossas penitenciárias federais, o sacerdote irlandês que me mostrou a capela apontou a janela de vitral feita por um dos presos – como se fosse uma grande piada. O que ele admirava eram as ilustrações de caixas de charuto para a Bíblia, executadas por presos que “sabiam pintar”, conforme dizia. Quando lhe disse abertamente que não concordava com sua posição, quando comecei a falar com reverência e entusiasmo sobre os esforços humildes, mas sinceros do homem que havia feito os vitrais, ele confessou que não sabia nada de arte. Só entendia que um homem sabia desenhar e o outro não. “É isso que faz de um homem um artista, saber desenhar braços e pernas, saber fazer um rosto humano, colocar um chapéu direitinho na cabeça de um indivíduo – é isso?”, perguntei. Ele coçou a cabeça perplexo. Evidentemente essa questão nunca lhe passara pela cabeça antes. “O que o sujeito está fazendo agora?”, indaguei a respeito do homem que fizera os vitrais. “Ele? Ah, nós estamos ensinando-o a copiar imagens de revistas.” “Como ele está se saindo?” “Ele não se interessa nem um pouco.”, disse o padre. “Parece não ter vontade de aprender.”

“Idiota!”, pensei comigo. Até na prisão tentam arruinar o artista. Em toda a penitenciária, a única coisa que me interessou foram aquelas janelas de vitral. Era a única manifestação do espírito humano livre da crueldade, ignorância e perversão. E eles haviam pegado esse espírito livre, um homem devoto, humilde, que amava seu trabalho, e tentavam transformá-lo em um burro educado. Progresso e iluminação! Transformar um bom presidiário em um potencial ganhador do prêmio Guggenheim. Pfu!

(Henry Miller – Pesadelo Refrigerado)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Pesadelo refrigerado

Quando surgiu o telégrafo sem fio, todo mundo pensava: "Que maravilha! Agora vamos estar em comunicação com o mundo todo!" E a televisão: "Que maravilha! Agora Agora vamos poder ver o que acontece na China, na África, nas partes mais remotas do mundo!" Eu costumava pensar que talvez um dia surgisse um aparelho que me permitiria veros chineses andando nas ruas de Pequim e Xangai e selvagens no coração da àfrica celebrando seus ritos de iniciação. O que vemos e ouvimos de fato hoje? O que os censores nos permitem ver e ouvir, nada mais. A Índia continua tão remota como sempre foi - na verdade, acho que mais remota agora do que cinquenta anos atrás.

(Henry Miller)