segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Pilulinha para Yasmina Reza

 

O livro Felizes os felizes de Yasmina Reza é um livro sobre a finitude. Os 21 contos/capítulos tratam de relações que na quietude do espírito se despedem do que foram e não apontam quaisquer outros destinos. São mônadas que giram em torno de si mesmas, sem que haja um raio de luz que as ordene ou a elas tragam significados renováveis. São o que são, numa clara tautologia do sentido da vida.

 

As personagens vão e voltam sem saírem do lugar. Na vasta gama de pessoas que desfilam seu tédio por este livro, há jovens que só se aceitam como outro, velhos à beira da morte e casais ora formados ora deformados pelo cotidiano, cinzas que são espalhadas aqui e ali, um jovem médico que vive de michês e que cuida da morte em situação paliativa, um libertino que não é frusta quem com ele se envolve. Todo esse elenco, entretanto, alquebrado por uma metafísica descarnada, vive nela e fora dela.

 

A metafísica pressupõe um lugar de inquirição abstrata do sentido da vida e, por isso, serve para que quem indaga, de certa forma, busque alguma possibilidade que sustente o estar vivo, não na medida de se estar com as funções vitais funcionando bem, mais ou menos ou nas últimas, mas no de sentir-se capaz de gozo, de transformação, de saber ainda interessado pelo que se passa ao redor de si na enorme quantidade de fatos diversos que circundam os que se sentem vivos.

 

No livro de Yasmina Reza os fatos diversos são vários, mas todos eles postos na perspectiva da finitude, o que leva o leitor a certa complacência com este estar. A percepção que o leitor experimenta ao ler o livro parece mostrar a ele que seu mundo também se cria nesta metafísica descarnada, em que a civilização contemporânea (ou sempre foi assim?) se vê envolvida.

 

Ao criar um mundo sem perspectivas, a autora desenvolve sua percepção crítica e mostra um dos caminhos possíveis para o fazer ficcional.

 

(Oswaldo Martins)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Pilulinha para Autran Dourado

 

Quando me transformei em leitor, fui sendo tomado por alguns autores em cujas obras mergulhei, às vezes por meses a fio, de tal forma ficava encantado com o mundo que se descortinava para mim e com a qualidade daquilo que lia, em detrimento de obras francamente frágeis. Tempos depois voltei a esses autores para usufruir em idade madura o que a impressão da primeira leitura causou em mim e em minha escrita. Descobri lentamente o que significa escrever, a busca infernal de um estilo próprio e das questões que tocam de perto meu modo de operação com as palavras.

 

Foi assim com Dostoievski, com Graciliano Ramos, com Machado de Assis, com João Cabral de Melo Neto, com Thomas Mann, com Guimarães Rosa, com Manuel Bandeira, entre outros; o contato com a obra de Autran Dourado foi um contato devastador, pois me revelou e me revela a capacidade de a língua se elaborar próxima e distante, já que o universo das Minas Geraes, comum à percepção próxima, vai ganhando contornos distantes e cada vez mais surpreendentes, que me levaram ao sentimento do trágico e à leitura dos autores gregos e à sutileza, por isso mais eficaz, do dizer sem dizer, do tergiversar para tocar o cerne do sentido, como se no entremez se revelasse o burlesco do mundo no plano geral da obra. A força da ironia, do humor sem risos estava ali, estampada na obra do Mestre Imaginário, de vasta aplicação.

 

Autran Dourado escreveu numa época em que as percepções se estendiam para além do imediato, época em que o passageiro passava ao largo e a invenção do ficcional se punha a verificar não o serviço de uma moda, de uma temática demarcada de antemão. Por exemplo, em Os Sinos da Agonia, o retrato de uma sociedade em vias de se tornar outra toma, por dentro do pensamento das personagens, uma atualidade fortemente marcada pela presença silenciosa das muitas injustiças que se construíram ao longo da história e que no silêncio da ficção cobra o assombro de sermos quem somos desde antes até o agora.

 

A obra monumental de Autran Dourado não só é fundamental para ser lida nos dias de hoje, como é tão mais importante para que aquele que se quer escritor. Se Machado de Assis funda um modo de escrita até hoje insuperável no Brasil, Autran Dourado é o escritor brasileiro mais próximo do que pode ser a literatura que o Bruxo nos legou.

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

estonteante

pernas de seda ajoelham mostrando geolhos

(cda– igrejas)

 

diz-se de um joelho de estátua

que anda pelas ruas

 

de um amor do que em paixão

fervente e louca cai

 

dos jornais depostos onde se lê

o nada temporal de tudo

 

do que ocluso no alongá-las

nasais ladeadas pelas densas

 

medidas informais 

luxúria

 

os corpos se entendem, mas as almas não

(arte de amar – manuel bandeira)

 

na ponta da língua a alma explode

depois sopra e vibra e torna a soprar

contida pela fricção dos corpos

 

ulula muito antes do delírio

para explodir com a boca aberta

a lúcida algaravia