os nadas dos objetos dizem
mais sobre os objetos em si
eles, coitados, ficam por ali
recolhidos na expectação nula.
uma cadeira, por exemplo,
só apreende ser se jogada
sobre o monte de lixo
quando o resplende
retrato de si mesmo
Oswaldo Martins. Poeta e professor de literatura. Autor dos livros desestudos, minimalhas do alheio, lucidez do oco, cosmologia do impreciso, língua nua com Elvira Vigna, lapa, manto, paixão e Antiodes, com Alexandre Faria. Editor da TextoTerritório
os nadas dos objetos dizem
mais sobre os objetos em si
eles, coitados, ficam por ali
recolhidos na expectação nula.
uma cadeira, por exemplo,
só apreende ser se jogada
sobre o monte de lixo
quando o resplende
retrato de si mesmo
Direção e dramaturgia original: Luiz Felipe Reis
Atuação: Renato Livera
O primeiro livro que li do Roberto
Bolaño foi Noturno no Chile, livro denso e difícil que traz um monólogo
indivisível. Depois, á medida em que foram sendo publicados no Brasil, passei a
construir uma percepção mais intensa do autor. Nos últimos tempos tenho lido
sua poesia.
Quando, um amigo, Ronald Iskin, me
falou da peça que estava em cartaz no Teatro Poeira, resolvi assisti-la.
Imaginei pelo título e pela descrição da peça que reencontraria o escritor. A
peça me surpreendeu positivamente. A atuação, a montagem cênica simples e o
texto muito bem urdido do monólogo – a sobriedade que bem unia texto e atuação
me trouxeram diversas e grandes emoções.
Foi interessante notar que uma das reflexões
que a peça traz é construída por uma costura muito bem-feita da apreciação que
Bolaño faz da poesia (ou da antipoesia) de Nicanor Parra. Na véspera de eu ir assisti-la,
reli os poemas de Parra, poeta com o qual trabalharia no curso de leitura on-line
que ministro. Desta forma o texto de Parra estava ainda reverberando em meus
pensamentos.
Ao ser tocado pela emoção da peça (e
do texto de Bolaño) muitas vezes mergulhei no meu próprio universo literário.
Algumas das impressões já me eram conhecidas outras, não. A construção temática
se apresenta contida desde o início e vai nesta contenção atingindo graus de
emoção que se mostram tanto mais fortes quanto maior o silenciar do grito, que
explode neste paradoxo entre o contido e o explosivo.
O paradoxo mistura entre o contido e
o explosivo me parece ser uma das buscas de Bolaño, como afirmei acima. O que
me deixou de alguma forma perplexo foi exatamente esse paradoxo ser entremeado
pela presença de uma subjetividade expressa, coisa que prefiro evitar quando
escrevo. Ao falar de si, Bolaño fala do mundo com maior ou menor expressividade?
Fiquei me interrogando sobre essa rasura, que leva à mistura paradoxal do autor
e que a peça atualiza, com brilhantismo.
Oswaldo Martins
sobre a mesa
este papel
um livro
o cinzeiro das paneleiras
do espírito santo
nada mais
além da poesia em estado puro
depois as manchas das palavras
que sempre ficam por dizer-me
sob o etos hostil
das cidades
os dizeres
quando elas calam
vivem
de silêncio e pó
a tarde morna
me diz teu calor
olor e flor
memória sem fado
ato a nosso fato
essa face orna
(Cláudio Leitão)
1
vermes rentes às paredes
sabem-se a ser do homem
a medida única
2
nestes ossos expostos
um edifício ruinoso
habita-os
3
um pedaço de pano
em roxo sujo no interior
do horto
4
não se fazem jardins
apenas o que há
sem disfarce algum
5
as entranhas à mostra
esse vermelho parque
devoram
6
a lavra cava veias
na sórdida solidez
dos homens
para eugênia abrahão
as mãos
os braços mais tarde
os pés as desarticuladas unhas
o estrondo cava esta imagem dura
meus olhos
o espanto das ruínas
o ignóbil voejar das moscas
ser este menino estraçalhado
a nuvem de vergonha que o cobre
um retrato que desce aos escombros
de gaza
estrugir tem origem desconhecida
o homem quando a ele se aferra
atordoado pelo voo dos objetos
em descontrole
tange as possibilidades nulas
os poros se abrem
à dilação do tempo
o mínimo instaura
sua postura tátil no inútil
do quando ele usufrui
dos prazeres o átimo
de si mesmo
se deus criou o mundo
e cronos retirou-o do caos
o poema acenderá
todas as dúvidas
em sua similitude