Oswaldo Martins. Poeta e professor de literatura. Autor dos livros desestudos, minimalhas do alheio, lucidez do oco, cosmologia do impreciso, língua nua com Elvira Vigna, lapa, manto, paixão e Antiodes, com Alexandre Faria. Editor da TextoTerritório
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
angeline
angeline
ela é tão bonita
tão bonita e tão boa
nem precisava ser princesa
deu-nos pão
deu-nos água
não nos deixou a vossa beleza.
elesbão
(15/02/12)
A primeira vez que vi Angelina
Jolie foi no filme Corações Apaixonados. Rosto e interpretação me fizeram crer
que estaríamos, em breve, diante de um novo mito cinematográfico. Mas
enganei-me. Jolie tornou-se uma samurai. Tenho uma inveja danada do Drummond
pela Greta Garbo dele.
Certa vez, vi o ator Luiz
Delfino, marido da Marlene e da Emilinha (sic), tecer comentários babões sobre
Brigite Bardot, na tevê, mas eu era menino. Só há alguns anos, descobri a moça,
num filme de Godard que deitou-a nuazinha de perfil numa cama. A câmera de
Godard é um arraso!
Angelina, salvo engano, anda pelo
mundo defendendo os direitos humanos e distribuindo caridade. Acho isso bonito,
gostaria de fazer isso: devolver riquezas.
Mas me pergunto se essas pessoas
aceitariam que o mundo mudasse de jeito a não precisarem delas e se aceitariam
as perdas e danos (Louis Malle) que isso implicaria.
elesbão
(16/02/12)
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Pilulinha 20
O Livro
de Praga, de Sérgio Sant’Anna, escrito para a Cia das Letras, é constituído
por uma economia verbal rigorosa. Nos contos em que se passeia por Praga – intencionalmente,
o autor visita, além dos ícones da cidade, uma tradição literária que sempre se
quis moderna, inquieta e renovadora.
Praga – narrativas de amor e arte
– é tudo isso – um visitante da boa tradição dos contos e da inovação absoluta
da arte experimental. Já na primeira história – A Pianista
– anuncia-se todo o refinamento e tema que Sant’Anna desenvolverá num
crescente e pungente erotismo – que o digam A Tenente e
O Texto Tatuado, para não falar do erotismo
profundo e dilacerante de A Boneca.
O erotismo nos contos de Praga
transcende a carne e se joga no corte preciso da arte indo além da perspectiva
do erotismo tout court. A criação das
perspectivas de se ler o que a arte e a arte de narrar podem ainda atingir leva
o leitor ao cerne mesmo da indagação da leitura. Uma peculiar mímesis se opera
nos contos do autor, sem que o depurado intrarrealismo[i]
de Kafka se afaste do pensar ingente das impossibilidades, os contos de O Livro
de Praga o visitam e sugerem a angústia do inominado.
Ao mergulhar nessa angústia não é
que o erotismo se afaste para dar lugar ao metafísico, mas que num e noutro
polo o erotismo se realiza fazendo do espírito também ele parte sensível dos desejos,
como se pudessem ser tocados nesta agônica escrita toda a totalidade do homem
despedaçado e silencioso que, entretanto, confronta a esquivança do mundo e
dela toma posse.
Para o Cláudio Leitão, pela indagação
A preta do acarajé
Dorival Caymmi
Dez horas da noite
Na rua deserta
A preta mercando
Parece um lamento
Ê o abará
Na sua gamela
Tem molho e cheiroso
Pimenta da costa
Tem acarajé
Ô acarajé é cor
Ô la lá io
Vem benzer
Tá quentinho
Todo mundo gosta de acarajé
O trabalho que dá pra fazer que é
Todo mundo gosta de acarajé
Todo mundo gosta de abará
Ninguém quer saber o trabalho que dá
Todo mundo gosta de acarajé
O trabalho que dá pra fazer que é
Todo mundo gosta de acarajé
Todo mundo gosta de abará
Ninguém quer saber o trabalho que dá
Todo mundo gosta de abará
Todo mundo gosta de acarajé
Dez horas da noite
Na rua deserta
Quanto mais distante
Mais triste o lamento
Ê o abará
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Acasos persistentes
3
Aberta ao fato
de haver palavras,
a poça d'água
reflete, imóvel,
a tarde exata.
E, se acaso,
a vinca um inseto,
a bebe um pássaro
ou a desata um passo,
logo se fecha,
imaculada,
em seu presente inato
(Cláudio Neves - Os acasos persistentes)
Aberta ao fato
de haver palavras,
a poça d'água
reflete, imóvel,
a tarde exata.
E, se acaso,
a vinca um inseto,
a bebe um pássaro
ou a desata um passo,
logo se fecha,
imaculada,
em seu presente inato
(Cláudio Neves - Os acasos persistentes)
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Poema do dia
a topografia das
lagoas
se regula pelo
voo de certos animais
há muito de
habitável e respeitável
no cerne das águas
a boa feição
da tradução aquosa
não impede que
a história temporã
seja composta em
em língua madura
(dora ribeiro - olho empírico)
lagoas
se regula pelo
voo de certos animais
há muito de
habitável e respeitável
no cerne das águas
a boa feição
da tradução aquosa
não impede que
a história temporã
seja composta em
em língua madura
(dora ribeiro - olho empírico)
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
domingo, 5 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Adelino Magalhães e Guimarães Rosa
__ Não, medo propriamente, eu não
tive! Comecei a tremer muito, é fato, e vendo todo o mundo espantado, também
fiquei um tanto zonzo, como se já não estivesse... em mim mesmo! Uma coisa
curiosa! Depois, eu não sou religiosos...
__ Entonce os outro?
__ ... mas fiquei assim numa
dúvida: e se fosse mesmo alguma coisa sobre natural, por quem chamar? Por Deus?
Mas eu não sou...
__ Entonce os outro?
__ Ah! Todos com um pavor
inconcebível! Calcula que até o Isaías e o Jorge Turco, homens daquela coreagem,
quase morreram de sust!
__ Mas enfim... era mesmo
assombração, sô Quincas?
(Adelino Magalhães – Casos e
impressões)
— Nonada. Tiros que o senhor
ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no
quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde
mal em minha mocidade
(Guimarães Rosa – Grande Sertão:
Veredas)
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