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sábado, 11 de abril de 2020

CORONA



Da mão o outono me come sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar: 
o tempo retorna à casca.

No espelho é domingo, 
no sonho se dorme, 
a boca não mente. 

Meu olho desce ao sexo da amada: 
olhamo-nos, 
dizemo-nos o obscuro, 
amamo-nos como ópio e memória, 
dormimos como vinho nas conchas, 
como o mar no raio sangrento da lua.

Entrelaçados à janela, olham-nos da rua: 
já é tempo de saber! 
Tempo da pedra dispor-se a florescer, 
de um coração palpitar pelo inquieto,

É tempo do tempo ser.. É tempo.

(Paul Celan tradução: Flávio Klothe)

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Paul Celan poesia alemã

[MIT DEN SACKGASSEN SPRECHEN]

Mit den Sackgassen sprechen
vom Gegenüber,
von seiner
expatriierten
Bedeutung – :
dieses
Brot kauen, mit
Schreibzähnen


[FALAR COM OS BECOS SEM SAÍDA]

Falar com os becos sem saída
sobre o de defronte
sobre sua
expatriada
significação – :
com dentes de escrever,
mastigar
esse pão.

Tradução  FONSECA, Celso Fraga

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Paul Celan

DER GAST

Lange vor Abend
kehrt bei dir ein, der den Gruß getauscht mit dem Dunkel.
Lange vor Tag
wacht er auf
und facht, eh er geht, einen Schlaf an,
einen Schlaf, durchklungen von Schritten:
du hörst ihn die Fernen durchmessen
und wirfst deine Seele dorthin.  


O HOSPEDEIRO

Dista já a noite
entra em tua casa, o que trocou abraços com o sombrio.
Dista já o dia
ele desperta
e esperta, mesmo antes vai-se, em um sono,
um sono, desviar de passos:
tu o ouves fender distâncias
e lanças tua alma ali.                            


Tradução: Piero Eyben

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Paul Celan

CONFIANÇA

Será ainda um olho,
um olho desconhecido, junto ao
nosso: mudo
sob uma pálpebra de pedra.

Venham, furem as vossas galerias!

Será um cílio,
virado para dentro na rocha,
acerado pelo que não foi chorado,
o mais fino dos fusos.

Perante vós, ele faz a sua obra
como se houvesse, porque é pedra, ainda irmãos.

Tradução Luís Costa

ZUVERSICHT

Es wird noch ein Aug sein,
ein fremdes, neben
dem unsern: stumm
unter steinernem Lid.

Kommt, bohrt euren Stollen!

Es wird eine Wimper sein,
einwärts gekehrt im Gestein,
von Ungeweintem verstählt,
die feinste der Spindeln.

Vor euch tut sie das Werk,
als gäb es, weil Stein ist, noch Brüder.


Paul Celan

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Paul Celan

STEHEN, IM SCHATTEN
des Wundenmals in der Luft.

Für-niemand-und-nichts-Stehn.
Unerkannt,
für dicha
alien.

Mit allem, was darin Raum hat,
auch ohne
Sprache.

ESTAR, NA SOMBRA
do estigma do ar.

Para-ninguém-e-nada-estar.
Irreconhecido,
para ti
somente.

Com tudo o que lá dentro cabe,
Mesmo que sem
Fala.

(Paul Celan – tradução de Cláudia Cavalcanti)

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Dois Poemas de Paul Celan

1

Ilegibilidade deste
mundo. Tudo em dobro.

os fortes relógios
dão razão à hora cindida,
roucos.

tu, presa nas tuas profundezas,
somes de ti
para sempre.


2

CRISTAL

Não procura nos meus lábios tua boca,
não diante da porta o forasteiro,
não no olho a lágrima.

Sete noites acima caminha o vermelho ao vermelho,
sete corações abaixo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.



(trad. Cláudia Cavalcanti)