terça-feira, 22 de janeiro de 2013

noites


para Clarice Lispector

há noites em que deixo tudo arrumado
pratos copos talheres lavados.
há noites em que por perversão
a mim mesma
deixo tudo desarrumado
pratos copos talheres engordurados
o cinzeiro cheio de sarro.

elesbão ribeiro
20/01/13

capital

Night after night to the farmer’s children you beckon

W. H. Auden


a cidade pode sua berceuse quando sai aos bares
as crianças ouvem-nas desatentas e entoam
uma ladainha lúgubre

se falam do mar das areias finas
se falam de si mesmas em monótona cantoria
estendem a mão para a punheta debaixo das marquises

as damas ai jesus que passam andam apressadas
para a garantia dos encômios da comida
na mesa vão aos cinemas ao romper da noite

e se encoxam solitárias quando a luz se apaga
sonham as pequenas criaturas descalças que acorrem
prestimosas quando uma nota de enxovalhos

escorre na direção estúrdia do banho em casa alheia
do pequeno café do bolo de mandioca
e da pequena morte

(oswaldo martins)

Poesia 2013 quatro


The Composer


 All the others translate: the painter sketches
 A visible world to love or reject;
 Rummaging into his living, the poet fetches
 The images out that hurt and connect.

 From Life to Art by painstaking adaption
 Relying on us to cover the rift;
 Only your notes are pure contraption,
 Only your song is an absolute gift.

 Pour out your presence, O delight, cascading
 The falls of the knee and the weirs of the spine,
 Our climate of silence and doubt invading;

 You, alone, alone, O imaginary song,
 Are unable to say an existence is wrong,
 And pour out your forgiveness like a wine.

W. H. Auden

*

O Compositor

Todos os outros traduzem: esboça o pintor
Um mundo visível que se ama ou detesta;
Vasculhando a existência, captura o poeta
As imagens que unem e que causam dor.

Da Vida à Arte em morosa adaptação
Que a nós exige suprir a omissão;
Só as tuas notas são engenho impoluto
Só o teu canto é um talento absoluto.

Verte, ó Prazer, tua presença, cascateando
Nas cachoeiras do joelho, sobre o dorso;
O nosso silêncio e suspeita conquistando.

Só tu, só tu, Ó imaginária canção,
Não dizes nunca que uma vida é um destroço,
E como um vinho vertes o teu perdão

“Outro Tempo”
Tradução de Margarida Vale do Gato

domingo, 20 de janeiro de 2013

Poesia 2013 três


circum-lóquio 
(pur troppo non allegro)
 sobre o neoliberalismo 
terceiro-mundista

laisser faire laisser passer

  1.
o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha

   2.

o neoliberal
neolibera
o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?

   3.
no céu neon
do neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super
(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas
(flutuantes)
do câmbio:

enquanto o não
- neoliberado
come pão
com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidrobanheira cor
de âmbar
de sua neo-
mansão em miami

     4.

o centro e a direita
(des)conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís-
tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números

   5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
dede que circule
autoregulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.

   6.
(a
contramundo
o mundo-não
-mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus mamonas)

   7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre - festa estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)


Haroldo de Campos

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Pilulinha 27


Não conhecia a poesia de Plínio Junqueira Smith, autor do curiosíssimo Corpo Estranho, editado pela Alameda Casa Editorial. Os poemas revelam a presença de uma ironia fina, sintonizada aos problemas cada vez mais urgentes da vida contemporânea. Na sintomatologia dos poemas, a sociedade adoecida apresenta como correlatos do corpo invadido os versos da aguda ironia com que se desmistificam os pruridos da doença. Desde a prosaica dor de dente às agruras dos pólipos a serem combatidos pelo humor poético.

A presença constante da morte – que só se realiza, sem se realizar, no último poema do livro é o mote através do qual o indivíduo se vê perdido numa sociedade agônica e limítrofe e a ela responde, com os motejos do riso. Se a representação poética se aproxima das representações ficcionais, o que se revela no livro do poeta não é propriamente um discurso sobre a morte, mas a sua contraparte, discurso eivado das dores vivenciais que o impulsionam ao combate subjacente a toda experiência do ser frente aos limites que se lhe impõem. A ironia funciona como um regulador que se desloca do pessimismo agudo à vontade contida no desejo de rir do mundo e de seus limites. Entre estes dois polos o instrumento de combate, como o afirma o poeta logo no primeiro poema do livro, estaria numa inusitada receita – o próprio poema.


Placebo?

Acometido de muitas e graves doenças
— Sem esperança, um dos males de Pandora —
Submeti-me, voluntariamente,
A metódica pesquisa médica.

Uma doutora alta, cabelos negros e curtos
Com olhos penetrantes e lábios finos
— Em suma, uma perfeita musa —
Viu em mim todas as enfermidades

E receitou-me antigo e incerto remédio: a poesia
Esperando minha evolução para melhor avaliar o tratamento:
Eficácia, efeitos colaterais, interações medicamentosas.
Tomei-a diariamente, como recomendado.

Quero confessar, hoje, com sinceridade:
Não sei se me puseram no grupo controle
E se ingeri somente inócuo placebo
Em vez de poderosa substância química.

O fato é que, de algumas doenças,
Melhorei e julgo-me curado.
Ainda padeço daquela doença fundamental:
A existência e os afazeres do dia-a-dia.

A musa-médica, à qual o eu-lírico se entrega e a descreve com malícia, é na medida mesma do desejo o que se contrapõe ao esquadrinhamento médico que vê nele “todas as enfermidades”. A receita – prosaica – faz com que o eu poético, ao se julgar curado, padeça da doença fundamental que se resume no belo verso “A existência e os afazeres do dia-a-dia”. Ora, o paradoxo que se coloca está claro e vai orientar o leitor na travessia dos poemas “adoentados” do resto do livro. A pulsão que o orienta – ao falar da morte – é necessariamente a pulsão da vida que se imiscui no cotidiano e nos faz olhar a doença com desconfiança, contaminando toda a existência deste olhar irônico sobre a infalibilidade da morte.

(oswaldo martins)

PEDRAS NA VESÍCULA


Eu não poderia me imaginar tendo dores terríveis e,
enquanto durassem, me transformar numa pedra?
                                                         Wittgenstein


No princípio era a imagem:
Uma ressonância magnética
Com seu ruído ensurdecedor
De engrenagens sem graxa.

Outra imagem mais precisa:
Um ultrassom silencioso
Confirma em tom cinza
Prévia e infame suspeita.

A inflamação da vesícula
Resulta da pura realidade:
A pedra, seu real símbolo
É aqui somente pedra

Não a pedra-metáfora
Não a litografia da ciência
Mas o pedregulho vulgar
Com sua cláusula pétrea.

E a dor da pedra-pedra
É a própria pedra em flor
Desabrochando suas pétalas
Deitando raiz no meu âmago.

Plínio Junqueira Smith - Corpo Estranho


Dois novos poemas do Elesbão


Nelsinho

para Dalton Trevisan

naquele lugar da boca
em que nela faltava um dente
que ele mais afiava a língua.

elesbão ribeiro
16/01/13

teia

para Nelson Rodrigues

foi embora de casa
libertou-se do marido
abrigou-se na casa da irmã

o cunhado quando soube
foi só satisfação.

elesbão ribeiro
16/01/13

domingo, 13 de janeiro de 2013

Desestudos



rios constituem abandono
ruídos fictícios - um eu,
que se perde a história

e além do desjejum sobre
uma completude de nadas
a própria vida alcança

a vacuidade
de um tem perdido

(in doze estudos para leituras trágicas - desestudos)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Discurso de Pepe Mujica en Río:

Mujica habló ante una audiencia de mandatarios que con desgano escucharon las verdades brutales que les decía, recien a días del discurso, la prensa internacional y el mundo comienzan a tener en cuenta que no fue un simple discurso el que dijo el presidente uruguayo.

Autoridades presentes de todas la latitudes y organismos, muchas gracias. Muchas gracias al pueblo de Brasil y a su Sra. presidenta, Dilma Rousseff. Muchas gracias también, a la buena fe que han manifestado todos los oradores que me precedieron.

Expresamos la íntima voluntad como gobernantes de apoyar todos los acuerdos que, esta, nuestra pobre humanidad pueda suscribir.

Sin embargo, permítasenos hacer algunas preguntas en voz alta.

Toda la tarde se ha hablado del desarrollo sustentable. De sacar las inmensas masas de la pobreza.

¿Qué es lo que aletea en nuestras cabezas? ¿El modelo de desarrollo y de consumo que queremos es el actual de las sociedades ricas?

Me hago esta pregunta: ¿qué le pasaría a este planeta si los hindúes tuvieran la misma proporción de autos por familia que tienen los alemanes? Cuánto oxígeno nos quedaría para poder respirar?

Más claro: ¿tiene el mundo los elementos materiales como para hacer posible que 7 mil u 8 mil millones de personas puedan tener el mismo grado de consumo y de despilfarro que tienen las más opulentas sociedades occidentales? ¿Será eso posible?

¿O tendremos que darnos otro tipo de discusión?

Hemos creado esta civilización en la que hoy estamos: hija del mercado, hija de la competencia y que ha deparado un progreso material portentoso y explosivo.

Pero la economía de mercado ha creado sociedades de mercado. Y nos ha deparado esta globalización, cuya mirada alcanza a todo el planeta.

¿Estamos gobernando esta globalización o ella nos gobierna a nosotros?

¿Es posible hablar de solidaridad y de que “estamos todos juntos” en una economía que basada en la competencia despiadada? ¿Hasta dónde llega nuestra fraternidad?

No digo nada de esto para negar la importancia de este evento. Por el contrario: el desafío que tenemos por delante es de una magnitud de carácter colosal y la gran crisis que tenemos no es ecológica, es política.

El hombre no gobierna hoy a las fuerzas que ha desatado, sino que las fuerzas que ha desatado gobiernan al hombre. Y a la vida.
No venimos al planeta para desarrollarnos solamente, así, en general. Venimos al planeta para ser felices. Porque la vida es corta y se nos va. Y ningún bien vale como la vida. Esto es lo elemental.

Pero la vida se me va a escapar, trabajando y trabajando para consumir un “plus” y la sociedad de consumo es el motor de esto. Porque, en definitiva, si se paraliza el consumo, se detiene la economía, y si se detiene la economía, aparece el fantasma del estancamiento para cada uno de nosotros.

Pero ese hiper consumo es el que está "agrediendo" al planeta.

Y tienen que generar ese hiper consumo, cosa de que las cosas duren poco, porque hay que vender mucho. Y una lamparita eléctrica, entonces, no puede durar más de 1000 horas encendida.
¡Pero hay lamparitas que pueden durar 100 mil horas encendidas!
Pero esas no, no se pueden hacer; porque el problema es el mercado, porque tenemos que trabajar y tenemos que sostener una civilización del “úselo y tírelo”, y así estamos en un círculo vicioso.

Estos son problemas de carácter político.
Nos están indicando que es hora de empezar a luchar por otra cultura.

No se trata de plantearnos el volver a la época del hombre de las cavernas, ni de tener un “monumento al atraso”.
Pero no podemos seguir, indefinidamente, gobernados por el mercado,
"sino que tenemos que gobernar al mercado".

Por ello digo, en mi humilde manera de pensar, que el problema que tenemos es de carácter político.
Los viejos pensadores –Epicúreo, Séneca y también los Aymaras- definían: “pobre no es el que tiene poco sino el que necesita infinitamente mucho”.
Y desea más y más.

"Esta es una clave de carácter cultural"

Entonces, voy a saludar el esfuerzo y los acuerdos que se hagan.
Y lo voy acompañar, como gobernante.
Sé que algunas cosas de las que estoy diciendo "rechinan".
Pero tenemos que darnos cuenta de que la crisis del agua y de la agresión al medio ambiente no es la causa.
La causa es el modelo de civilización que hemos montado.
Y lo que tenemos que revisar es nuestra forma de vivir.

Pertenezco a un pequeño país muy bien dotado de recursos naturales para vivir. En mi país hay poco más de 3 millones de habitantes.
Pero hay unos 13 millones de vacas, de las mejores del mundo.
Y unos 8 o 10 millones de estupendas ovejas.
Mi país es exportador de comida, de lácteos, de carne.
Es una penillanura y casi el 90% de su territorio es aprovechable.

Mis compañeros trabajadores, lucharon mucho por las 8 horas de trabajo. Y ahora están consiguiendo las 6 horas.
Pero el que tiene 6 horas, se consigue dos trabajos; por lo tanto, trabaja más que antes.
¿Por qué?
Porque tiene que pagar una cantidad de cosas: la moto, el auto, cuotas y cuotas y cuando se quiere acordar, es un viejo al que se le fue la vida.

Y uno se hace esta pregunta: ¿ese es el destino de la vida humana?
¿Solamente consumir?

Estas cosas que digo son muy elementales: el desarrollo no puede ser en contra de la felicidad.
Tiene que ser a favor de la felicidad humana; del amor a la tierra,
del cuidado a los hijos, junto a los amigos. "Y tener, sí, lo elemental"

Precisamente, porque es el tesoro más importante que tenemos.
Cuando luchamos por el medio ambiente, tenemos que recordar que el primer elemento del medio ambiente se llama "felicidad humana"

anti-sonetos para o amor


anti-sonetos para o amor

quem de amor andou virado
na noite dos sapatos rotos
percorre o corso dos gestos

se espanta moscas à baba
dos beijos mistura-se uma
imagem qualquer e devaneia

a mão pousa sobre o dorso
de uma pedra onde há pouco
uma funesta barata atentara
no rosto dos que beijam

o chão como se de uma diva
o colo babassem atônitos
os anjos azuis da coxa
que observa intumescida

*

quem amor dispôs nas coxas
da coxa talvez o paraíso
deslumbrou depois se idos

os tempos de amor e dúvida
a arte das putas espanholas
valiam menos que a futura

vigília das noites sem fim
as casas e as alcoviteiras
onde se guardam os gestos
irreais da conveniência

do amor dos salões e festas
da burguesia em triunfo
que nas jogatinas apostam
as andas dos amores pútridos

(oswaldo martins)