quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Poesia 2013 dois


STEFAN GEORGE

EIN GLEICHES

Da mich noch rührt der spruch der abschieds-trünke
Ihr all! und eure hand noch wärmt: wie dünke
Ich heut mich leicht wie nie · vor freund gefeit
Und feind · zu jeder neuen fahrt bereit.

(Stefan George)


DESPEDIDA

Comove-me o abraço e o brinde do adeus
A todas! Mãos calorosas: qual deus
Hoje leve me sinto imune a amigos
E inimigos rumo a novos perigos

(tradução Eduardo de Campos Valadares)

Iluminuras – Crepúsculo – 2012

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

6 salsichas ou treinamento para a invenção do infeno


1ª O Boff é o Quintana do pensamento brasileiro ou não seria o Quintana o Boff  da poesia brasileira.

2ª o Paulo Coelho é o pequeno príncipe das misses de hoje.

3ª A melhor poesia de cora coralina é a roupa de arabescos do retrato do pai morto.

4ª Com raras exceções, a atual poesia brasileira é uma espécie de bilac de calças curtas.

5ª A atual poesia de Drummond não é dele, mas de seus netos.

6ª O folclore é uma expressão tenebrosa, quando feito pela inteligência acadêmica.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Pilulinha 26


Kioto, de Yasumari Kawabata, lançado pela Estação Liberdade, em 2006, com tradução direta do japonês, de Meiko Shimon, é um livro extremamente agudo. Com mãos de tecelão, o autor aborda diversos aspectos da vidada ex-capital do Japão, após os terríveis anos da guerra e da reconstrução que modificaria a percepção de seu povo.  

Descreve, com malícia, a paisagem de Kioto e, ao mesmo tempo, as formas dos obis e quimonos.  A tessitura do enredo – também de grande sensibilidade – a história das duas irmãs gêmeas, Chieko e Naeko, que se viram separadas, quando nasceram – deixa-se ficar num segundo plano bem urdido e quase desaparece ao longo da narrativa.

Sem apelar para uma discrição técnica, Kawabata faz com o leitor se integre ao grandioso universo de uma cultura que se modifica, quase como um antepassado que nos contasse suas experiências – que são como as de todos – em surdina e olhos que antevissem a lenta decomposição de nossa civilização. O capítulo em que narra a presença de um relógio despertador em uma tradicional loja de tecidos é antológica e se encaixa na medida exata das narrativas que procuram tecer-se com intenções que vão além delas mesmas.

(oswaldo martins)

acanhamento


para Cesário Verde (Lisboa 1855- Lumiar 1886)

achou-me pálido
a rapariga que me traz hortaliças
à porta de casa
ia a dizer-lhe

mas só lhe perguntei o nome.

elesbão
06e07/01/13

domingo, 6 de janeiro de 2013

Uma grande surpresa


(Publicado em Eu&Fimde semana, supl. do jornal Valor econômico, São Paulo, 4-6 de janeiro, 2013)

                                                                                  Luiz Costa Lima

Odo Marquard é um filósofo contemporâneo que os trópicos desconhecem. Em um texto datado de 1989, “A Arte como antificção”, ele teve uma ousadia só comparável às que, em vida, tornaram Nietzsche um marginal: propor que vivemos em um mundo que chegou a tal grau de artifício e fantasia que se impõe a tese por ele assim enunciada: “Onde a própria realidade se transforma em um conjunto de fictícios, a arte, de sua parte, converte-se em antificção”.
  A formulação era uma provocação. Ela chega a tal grau que, embora eu a tenha traduzido, só a fiz circular entre uns poucos amigos. Dela, contudo, agora me lembro pela surpresa que causa o livro de estreia de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira (Editora Iluminuras, 2012).
   Mas que razão justifica a lembrança? Ela está em que seu modo de composição mostra uma ficção que parece evitar ser reconhecida como ficção. É certo que o leitor mais atilado se dirá: ora, vejam só, com nossa tradição “documentalista”, incentivada pela moda internacional dos “testemunhos” de situações incomuns, aquela e esses rapidamente convertidos em mini-séries televisivas, de que surpresa se estará falando?
  Permitam-me responder: o não fictício de As Visitas não tem nada a ver com nossa tradição naturalista de romances documentais e de testemunhos. Tem sim a ver com a ausência de dois ingredientes comuns na obra romanesca: o enredo e a unidade de dicção. O enredo é tradicionalmente o meio pelo qual o escritor coordena as ações, impede que elas se descaminhem ou se tornem semelhantes a um curso d’água que, na ausência de um leito, extravasam pelas margens. Ora, neste sentido, As Visitas não têm enredo. Se o livro então não cai nos defeitos apontados é porque seus personagens são os anônimos de toda uma comunidade. Qual comunidade? Aquela que é coberta pela quebra da unidade de diçcão. Ou seja, a ausência de um ingrediente usual se acompanha da ausência do outro. Com efeito, a unidade de dicção, com frequência entendida como “estilo”, é substituída por uma dualidade de dicções: a dominante é a de cunho rural-interiorano, a dominada é a dicção culta, que remete à fala do próprio autor.
  Comecemos pela primeira. A dicção rural-interiorana, fiel mas nem por isso especular à fala da gente do interior, por isso absolutamente inédita na literatura brasileira, é a razão porque a contracapa do livro fala que o autor possui um “ouvido absoluto”. A expressão, usada na música, para executantes de qualidade excepcional, é por certo adequada, com a diferença de que, no caso da expressão verbal, precisa de uma unidade, a palavra, a que não basta o som. E aqui está o mais surpreendente em As Visitas. Na grande maioria dos casos, a dicção no livro de estreia de Antonio Geraldo é extraída desta espécie de “língua geral” que cobre as zonas rurais do Rio, São Paulo, Minas, a estender-se pelo Mato Grosso, pelo nordeste baiano-cearense, até onde não sei. Não se pense, entretanto, em uma variante da lição de Guimarães Rosa. Neste, a linguagem interiorana seguia uma direção anti-Euclides, porque, em lugar da palavra rara e erudita, posta sobre o sertanejo, recolhia o vocabulário do homem do povo, para dele puxar, por um lado, sua força neológica, de outro, sua dobradura filosofante (cf. “A Terceira margem do rio” ou “A Menina de lá”). Ora, nenhuma das duas direções aparece em Antonio Geraldo. Tal ausência, contudo, não significa, como foi e é frequente, que ele se fixe em um estrato naturalista, com o qual o texto funcionaria como documento, testemunho ou espelho do falar e da mentação do homem de proveniência rural. A presença dessa extração é mostrada de outro modo. Desde logo, pela figura copiosa de provérbios e construções aforismáticas – “não sou escada, sou queda”, “Deus às vezes faz as coisas chuviscarem, mas noutras vezes despeja a tromba d’água”, “aprende no chicote, acha a salmoura doce”, “a agonia é a recompensa dos que teimam em não desistir”, etc. A seguir, a alusão não menos frequente a Deus e ao diabo – “se Deus anda meio surdo, o negócio é sapecar um dízimo mais gordo”; “deus não é pras curvas (…) fica, mas sim, nas retas descidas da vida, com o talão de multas na mão”; “e esse povo todo que dá certo na vida não existe de verdade, está aqui por obra do demônio, só pra cutucar melhor as nossas feridas” – que manifesta uma religiosidade difusa, supersticiosa e fatalista, bem diversa da que difundem, nas cidades de agora, as igrejas evangélicas.
  Ser a linguagem coloquial-interiorana altamente predominante não impede que surja aqui e ali a dicção elevada. Escolho pequena passagem, em que o sermo nobilis é marcado pelo macabro irônico. Seu título é importante: “o freguês em primeiro lugar”:
“Como ia adivinhar? Era um jeito de puxar conversa, é preciso cativar o cliente, falar do tempo?, do calor?, não dá, não deviam deixar o caminhão de carniça entrar na cidade, disse, fiz careta, olha que fedor dos infernos, não é? ela quieta, acho que até concordou, depois que saiu é que me contaram que era ela, câncer adiantado”.
  Outros poucos exemplos aparecem em “gravitação”, “oitenta anos” ou na excelente apreensão contrastante da “alta roda”, em “com espírito”. Na impossibilidade de me estender sobre a última, observo apenas ser nela que prima a ironia refinada do autor. Um chefe de empresa escolhe, para o “ritual de fim de ano”, alguns empregados, para que, participando de seus festejos familiares, se admirem de seu “modo de vida” e o contem aos outros: “é, isso mesmo, quem não ostente é como se não tivesse”. A frase do autor é mais eficaz, mesmo porque retoma o ritmo da frase oral e apenas virgula, ou seja faz pausas no exibicionismo do chefe e na “gagueira dos gestos” dos subalternos. “Trabalho social”? Pergunta-se o anfitrião, para que logo responda: isso “não passa de travesseiro ortopédico”; “o nome disso é antigo, o nome disso é poder”.  
  Entre uma e outra dicção, arma-se uma peça teatral que, não contando as declaradas “páginas arrancadas” e passagem em que se fala em retirar as frases demasiado literárias, tem Naum e Cora como protagonistas. A peça aparece em três partes separadas, sempre anunciadas por “os olhos de jussara”, nome da boneca da criança retardada.  Por que entre si desgarradas e com marcação de teatro? Suponho que para neutralizar o clima potencial de dramalhão, acentuando-se, ao contrário, a desgraça costumeira entre miseráveis, desempregados, doentes ou dos que vivem de favores ou bicos eventuais. A narrativa é, em si, de uma vida cotidiana, pouco noticiada e terrível. Cora, a mulher do homem, deixara a casa ao descobrir que o marido engravidara a filha, que tivera gêmeas, uma das quais retardada. Cora volta para casa e insiste com Naum para que a receba. Não é outra sua razão: é uma doente terminal e não tem onde ficar. Viera para rever as netas e espera que o câncer termine sua devastação. A filha termina por convencer o pai-marido para que a aceite; encarrega-se de cuidar da enferma e levá-la ao hospital público, onde o leitor previamente sabe o tratamento que receberá.
  Espalhada pela narrativa, a peça teatral como que oferece um suporte ante a falta de intriga. Mais ainda, se atentamos para seu desenrolar, vemos que ele parte de personagem que, antes de suicidar-se, a envia pelo correio ao personagem-narrador. (O suicida ainda aparece em capítulo autônomo  como autor de aforismos) Os capítulos, ora mais longos, ora muito curtos, se não reduzidos a uma frase, lidam por excelência com uma enciclopédia de espoliados pela vida. São velhos de juntas capengas, “sem girar certo a dobradiça dos ofícios”, enfermos, ladrões, mendigos, toda espécie imaginável de Lúmpen  magotes de moleques, candidatos a trombadinhas, um raro descendente que consome o resto de herança, em suma, o “povinho alastrado pelo brasil”, aqueles que sabem, sem disfarces, nem coloridos televisivos, que aprender a viver é acostumar-se com as perdas. Pois “o fim da gente começa lá no começo”.   

Pilulinha cinematográfica 1


No, de Pablo Larraín, é um filme correto do ponto de vista histórico. Estão presentes nele as imagens terríveis dos anos da ditadura recente no Chile, o tremendo culto das personalidades, que o fascismo ensinou ao mundo. Assim como está presente uma nova linguagem para que se possa falar da coisa pública. A presença do marketing na percepção da política é antiga, entretanto, a esmagadora presença da propaganda como idéia é recente.

A troca do discurso “sério” pelo discurso eficaz foi aos poucos tomando corações e mentes dos idealizadores do século XXI. Não entro aqui no mérito do discurso – apenas anoto. Aristóteles já havia demonstrado como o discurso trágico e catártico servia para educar a população grega para os tempos novos que se vivia então. Com sua capacidade de convencimento transversal e plástico, o discurso da propaganda faz com determinado público vire massa de manobra dos desejos justos ou nem tanto dos que palmilham o plano do poder. Se a intenção é despistada pela “alegria” do discurso, a consciência pode ou não ser despertada pela invenção presente no discurso midiático.

O que tal discurso cria me parece ser um apaziguamento que não se deixa ver e se imiscui nos planos pacíficos que resguardam os torturadores e ideólogos dos regimes funestos que dominaram a América Latina durante anos. A passagem dos governos militares para as mãos dos civis feita – via de regra – de modo pacífico é um chute nos culhões dos desaparecidos, dos assassinados, dos exilados. Ver, por exemplo, Pinochet passar a faixa para seu sucessor cria uma imagem de normalidade que induz ao erro de avaliação deste período tenebroso.

Se foi a única maneira possível, foi também a mais equivocada e apenas adia o que de fato deve ser tomado como diretriz da história – o julgamento dos culpados. A presença apaziguadora da linguagem midiática, quando, a partir da necessidade dos mercados, ela se dobra na venda infausta dos produtos que maquiam a felicidade na compra – por exemplo, de um novo produto que o mercado quer vender, frutifica na inconsciência a que os povos da América Latina foram submetidos pelos que tomaram o poder e pelos que fizeram a escolha de substituí-los pela linguagem do convencimento fácil.

(oswaldo martins)

sábado, 5 de janeiro de 2013

abandono 2




andava triste a nossa senhora
outras mães ostentavam grandes mamas de leite

um dia, disse o filho de quem cuidara
vou embora

modificado em 04/01/13

(Elesbão)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Pilulinha 25


O céu dos suicidas, de Ricardo Lísias, editado pela Alfaguara, é livro que se lê de um fôlego só. A afirmativa, assim peremptória, pode fazer com que se pense ser o romance algo espetacular. Não é. É um bom romance, não resta dúvida, mas há nele algo de já visto. Lembra-me, pela temática, o conto de Tchekhov, Enfermaria nº 6 e o belo Uma história das borboletas de Caio Fernando Abreu. Embora as histórias sejam diferentes, a construção do texto de Lísias parece-se demasiado com alguns cacoetes formais que estão presentes tanto no autor russo quanto no gaúcho.

A linguagem criada por um autor que pressupõe a presença de vários autores é comum e mesmo natural em escritores que se iniciam na arte da narrativa, entretanto, se esta linguagem mimetiza de tal modo o fazer alheio, inviabiliza-se. Não sei se é bem o caso de O céu dos suicidas, mas a percepção imediata da leitura e das filigranas do romance deixou-me este gosto incomparável do já sabido.

Acerta o autor em diversos pontos. Há parágrafos enxutos e ao mesmo tempo densos. Entretanto, a busca que norteia a narrativa perde o rumo nas longas repetições que dão conta da “doença” em que o narrador mergulha. Romance ligado ao ego de sua época, a criação do alter ego não convence por ser óbvia.

Deveriam os escritores – mesmo que isto lhes custe leitores – não entregar a intenção ou despistá-la – como fazia Machado – com substratos de leitura que se mostrariam – como nos bons calidoscópios de outrora – com o passar do tempo, tão úteis que tornariam a obra imorredoura.

(oswaldo martins)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Poesia 2013 um

UNGARETTI



ETERNO

Entre uma flor colhida e outra ofertada
o inexprimível nada


ETERNO

Tra un fiore colto e l'altro donato
l'inesprimibile nulla


A NOITE BELA
Devetachi, 24 de agosto de 1916


Que canto levantou-se esta noite
que entretece
com o cristalino eco do coração
as estrelas

Que festa vernal
de coração em núpcias

Fui
um charco de trevas

Hoje mordo
como uma criança a teta
o espaço

Hoje estou bêbado
de universo


LA NOTTE BELLA
Devetachi il 24 agosto 1916

Quale canto s'è levato stanotte
che intesse
di cristallina eco del cuore
le stelle

Quale festa sorgiva
di cuore a nozze

Sono stato
uno stagno di buio

Ora mordo
Come un bambino la mammella
lo spazio

Ora sono ubriaco
d'universo

Trad. Geraldo Holanda Cavalcanti

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

os acontecimentos me entediam ou imitação para elesbão


cinco horas

os ônibus fugazes
raspam a beirada do dia

seis horas

a aurora reponta
as negras unhas

seis horas

ébrio hino
das sequazes de hécate

seis horas

primeiro os bares abrem
depois as farmácias

sete horas

andei a noite atrás de cigarros
comprei-os cedo.

sete horas

trouxe-os até a prateleira
da estante onde guardo cigarros

sete horas

não os fumei
de imediato


rio, 2013
oswaldo martins