quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Quinta baldia

Quinta baldia
(prosa em versos)

há no mercado Zona Sul
um vinho potuguês que chama
Quinta do Vale Perdido
não é bonito o nome?
compro um terreno baldio
ponho-lhe uma placa
QUINTA DO VALE PERDIDO
e deixo-o sempre baldio.

(Elesbão)

exercício para leveza

2

como quem põe todo movimento
no movimento

contrário ao fluxo

o amor tem nas desoras
silêncios e uma toada de mar

para navegar

(oswaldo martins)

exercício para leveza

1

para andar de bicicleta

há de se ter a leveza das garças
deixar com descuido a bolsa pender

a blusa deve descolar-se do corpo
e criar a magia de alegria e vento

com ar blasé, assobiar uma canção
de cartola ou nelson cavaquinho

e aqui e ali como quem não se importa
amarrar as cordas que decaem

das sandálias e dos cabelos

(oswaldo martins)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

VICÁRIO AMOR

Amor, sem resolução, assim
Verdade, bonito
Conversa muda
Olhos dizem.

Então, jorro de fala dela
E gesto, em muito
Cabelos ao vento, estrelas
Sua alva pele, menina
Ele, a noite.

Vestido comprido, em decote
Seios saltam como peixes
Há desejo e posse
Toma, é seu.

Confissão de amor
Expressões de prazer, gemidos
Sexo desesperado, a rua - cama.

Goza, agora!
Perdido o sussurro
Mulher obedece, sim...
Carpir-se devaneante
Grita, chora, morde
Bestafera, ama o amor do outro.

José Paulo Paes

L’ÀFFAIRE SARDINHA

O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente na eucaristia.

E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente.

(José Paulo Paes – Poesia completa. Cia. das Letras)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sobre Cartola

Ouvir Cartola é provar do manjar dos deuses. As evoluções do violão, o canto certeiro que ninguém mais conseguirá cantar. Contenção na composição, na criação das letras, na elocução da voz. Perfeição das coisas simples e complexas, no paradoxo da beleza. Amo Cartola na incapacidade física de minhas palavras dizerem o alumbramento e a emoção totais.

Abaixo uma das homenagens que a ele prestei no meu último livro. De quebra dedicado a uma amiga querida, Therezinha Val, e lido por outro amigo querido, Ronald Iskin, para o cd que se fez acompanhar do meu último livro, Cosmologia do Impreciso. Gosto do cruzamento das homenagens.

1
para therezinha val

o uso de cartolas é de antanho

a música
um porém de tempos imemoriais

entre um camões
e a lucidez dos pixinguinhas

violões solam
o que silenciamos

(oswaldo martins)

Um Cartola da melhor qualidade

Corra e olhe o céu

Linda,
te sinto mais bela
te fico na espera
me sinto tão só
mas o tempo que passa
em dor maior bem maior

Linda,
no que se apresenta
o triste se ausenta
fez-se a alegria
corra e olhe o céu
que o sol vem trazer
bom dia.

(Cartola – Dalmo Castelo)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A Lua de Li Po

a lua de Li Po
para Dora Ribeiro
um dia a abracei

estavam gravadas nos lagos dos jardins
a minha e a face dos bambus

a lua era ali
e os bambus

perdida em mim
entoava

em lo-yang, à noite, uma flauta
de jade

(oswaldo martins)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Se eu fosse você 2, o filme de Daniel Filho,

Se eu fosse você 2, o filme de Daniel Filho,
apresenta rendimento para a idéia de intercâmbio de corpos por almas, coisa que tem história em caracteres e tipos do drama ibérico e agilidade de recorte gil-vicentino. O que uma alma de homem carrega para o corpo da atriz Glória Pires faz dela o craque de futebol que falta ao corpo simétrico na hora da pelada, no caso o do ator Tony Ramos. Os diálogos a sós do casal invertido lembra as situações semânticas da conversa entre as personagens Todo Mundo e Ninguém, do quase pós-medieval Gil Vicente. Quase porque ele escapa para a Renascença, mas seus estereótipos de Mal e Bem migraram para estereótipos grotescos de Macho e Fêmea, renascidos em gestos performáticos dos papéis genéricos de mulheres e homens ou outros que os corpos de Pires e Ramos aventam em trejeitos e gestos. No andar, na voz, na posição de dormir etc. A agilidade das falas confunde os papéis corporais trocados e por isso diverte. Mas mãe e pai são desempenhos à parte, uma vez que a gravidez só se pode dar no corpo de fêmea. Essa verdade salva o casamento da filha hesitante na hora de subir ao altar do sacrifício do amor dos seus pais, o casamento. Mãe e filha reencontram-se na comunhão de seus corpos grávidos. A canção “Pra Você” de Sílvio César – “ah, se eu fosse você, / eu voltava pra mim” – reencontra aí sua imagem real depois de cinqüenta anos. O romantismo retornado da estória, suas canções e locações, devolvem ao Rio de Janeiro uma nesga de auto-estima perdida dos anos dos arranjos dissonantes de bossa nova, depois de se haver dito que amor é bossa nova e que sexo é carnaval, sem contudo buscarmos os efeitos do contrário de tais atribuições. A pretexto de tentativa de voltar aos corpos originais, os protagonistas em processo de divórcio resolvem fazer sexo, engravidam e seguem invertidos. Então o amor grávido faz cair pela segunda vez o raio do buquê da noiva no mesmo lugar, as mãos reatadas dos corpos verdadeiros dos pais da noiva também grávida. O que importa é o casamento (?) – volta-nos como interrogação a memória suscitada da fala afirmativa perversa de um drama rodrigueano conhecido.
CLÁUDIO CORREIA LEITÃO

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Carta aos puros

Amigos,
Que 2009 nos seja leve!
Desejo meu para vocês.




Carta aos puros


Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros
E em cujos olhos queima um lento fogo frio
Vós de nervos de nylon e de músculos duros
Capazes de não rir durante anos a fio.

Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos
Corre um sangue incolor, da cor alva dos lírios
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios
E desejais ser fuzilados sem o lenço.

Ó vós, homens ilumidados a néon
Seres extraordinariamente rarefeitos
Vós que vos bem amais e vos julgais perfeitos
E vos ciliciais à idéia do que é bom.

Ó vós, a quem os bons amam chamar de os Puros
E vos julgais os portadores da verdade
Quando nada mais sois, à luz da realidade,
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros.

Ó vós que só viveis nos vórtices da morte
E vos enclausurais no instinto que vos ceva
Vós que vedes na luz o antônimo da treva
E acreditais que o amor é o túmulo do forte.

Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito
E erigis a esperança em bandeira aguerrida
Sem saber que a esperança é um simples dom da vida
E tanto mais porque é um dom público e gratuito.

Ó vós que vos negais à escuridão dos bares
Onde o homem que ama oculta o seu segredo
Vós que viveis a mastigar os maxilares
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo.

Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos
Que tudo equacionais em termos de conflito
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito
E não sabeis vencer se não houver vencidos.

Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos
E maiusculizais os sentimentos nobres
E gostais de dizer que sois homens honestos.

Ó vós, falsos Catões, chichibéus de mulheres
Que só articulais para emitir conceitos
E pensais que o credor tem todos os direitos
E o pobre devedor tem todos os deveres.

Ó vós que desprezais a mulher e o poeta
Em nome de vossa vã sabedoria
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta
E achais que o homem alheio é a melhor iguaria.

Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra
Falsos chimangos, calabares, sinecuros
Tende cuidado porque a Esfinge vos decifra...
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.

(Vinícius de Moraes)