No dia em que meu pai morreu,
soltaram fogos
na manhã fria,
nas montanhas,
no Rio.
De tarde, o Brasil disputaria
a primeira partida
da Copa do Mundo de 2006
contra a Croácia.
Meu pai, que detestava a politicagem
da religião e do futebol.
Nas igrejas do centro, os padres
abençoavam aqueles
que imploravam pela ajuda de Santo Antônio,
o casamenteiro, aqueles
que precisavam encontrar um parceiro.
Meu pai, que levava o nome do santo,
mas tinha uma alma assombrada por falhas
e por curiosidade, um disfarçado desespero.
As ruas brilhavam com a lama
que vinha de dentro,
um rio havia transbordado à noite
naquele inverno.
O asfalto cansado ancorou meu choque
à sombra da minha floresta.
Meu pai tinha morrido.
Os homens que vieram vesti-lo no hospital
esconderam um rádio portátil que transmitia
a partida, a cabeça dele logo abaixo do apetrecho,
a tática deles funcionando,
suave e abrupta — como o silêncio dentro
do corpo.
Eles o preparavam para uma viagem
que, para nós, começava apenas. Eu esperava
silêncio.
Surpresa, ouvi o som do rádio deles,
achei o rádio ali dentro. Surpresa,
acompanhei as mãos deles, a habilidade
com que moviam as cores, contra
a nudez do branco.
Surpresa, fui eu
quem pediu desculpas.
(Lúcia Leão)
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