sábado, 13 de junho de 2026

13 de junho


No dia em que meu pai morreu,

soltaram fogos

na manhã fria,

nas montanhas, 

no Rio.

 

De tarde, o Brasil disputaria

a primeira partida

da Copa do Mundo de 2006

contra a Croácia.

 

Meu pai, que detestava a politicagem

da religião e do futebol.

 

Nas igrejas do centro, os padres

abençoavam aqueles

que imploravam pela ajuda de Santo Antônio,

o casamenteiro, aqueles

que precisavam encontrar um parceiro.

 

Meu pai, que levava o nome do santo,

mas tinha uma alma assombrada por falhas

e por curiosidade, um disfarçado desespero.

 

As ruas brilhavam com a lama

que vinha de dentro,

um rio havia transbordado à noite

naquele inverno.

 

O asfalto cansado ancorou meu choque

à sombra da minha floresta.

 

Meu pai tinha morrido.

 

Os homens que vieram vesti-lo no hospital

esconderam um rádio portátil que transmitia

a partida, a cabeça dele logo abaixo do apetrecho,

a tática deles funcionando,

suave e abrupta — como o silêncio dentro

do corpo.

 

Eles o preparavam para uma viagem

que, para nós, começava apenas. Eu esperava

silêncio.

 

Surpresa, ouvi o som do rádio deles,

achei o rádio ali dentro. Surpresa,

acompanhei as mãos deles, a habilidade

com que moviam as cores, contra

a nudez do branco.

 

Surpresa, fui eu

quem pediu desculpas.

(Lúcia Leão)

 

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