segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Mulher Faladeira - Zeca Pagodinho e Chico Buarque

Duas indicações em forma de pilulinha cinematográfica

1

Ilha no Milharal, o belo filme de George Ovashvili, é uma das maiores obras que assisti nos últimos anos. A narrativa concisa, o silêncio, que só é quebrado quando se torna absolutamente necessário, o aproximam do conceito do poético; as interpretações seguras constroem o lirismo impecável do filme; a pouca ação, a noção ética do trabalho, que traduz um mundo que vai a morrer, colocam-no num ponto extremo da arte cinematográfica.

2

Táxi Teerã, do cineasta iraquiano Jafar Panahi, de quem assisti estupefato o belíssimo “isto não é um filme”, é uma divertida e sábia viagem a Teerã, esta terra que fica entre a mística desconhecida do mundo mais moderno entre os mundos árabes e a mítica ocidental de um lugar de ferocidades inexplicáveis. Ao rodar pela cidade dentro do táxi de Jafar, percebem-se os cheiros, as dicções das conversas e a dificuldade de se viver em uma sociedade fechada, sujeita aos diversos tipos humanos. A capacidade do diretor de fazer rir e meditar profundamente sobre o motivo – nem sempre edificante – do riso é uma das qualidades fortes do filme. Quem for assistir ao filme observe o vendedor de filmes proibidos, tipo impagável de todos os lugares do mundo.


(oswaldo martins)

pilulinha 45

Submissão, o livro de Michel Houllebecq, é um romance de um cinismo triste. Ao construir um narrador em primeira pessoa, professor universitário, se permite analisar os rumos a que chegaria a sociedade ocidental, europeia e francesa, em particular, caso houvesse uma islamização deste mundo. A questão central não se coloca, entretanto, numa simples rejeição de um padrão religioso, mas, sobretudo na capacidade de adaptação do homem aos meios sociais a que são “obrigados” a aderir.  

A adesão se torna tão ignóbil quanto cínica. Às minissaias e ao amor livre, pretenso e ainda nos seus restolhos, substituem-se os véus, as saias compridas e a poligamia masculina. Substituem as roupas que permitem ver as coxas, delinear as bundas, altear os seios, por um mercado de roupas íntimas fadado a vestir as esposas do neoconvertidos ao islã.

A reflexão de Houllebecq expõe ainda a incapacidade de produção dos meios universitários, voltados para questões que desligam o chamado intelectual, do mundo real, social ou político. Tanto se pode verificar este afastamento quanto maior é o nível de adesão e de submissão aos valores que, a partir de uma frente ampla encabeçada pelo partido da Fraternidade Mulçumana e acompanhada pelos partidos tradicionais do mundo político francês, par derrotar a iminente vitória de Lê Pen, se tornam moeda de troca.

Destruidor, o romance é obrigatório para os que se sentem perdidos ante a vertiginosa mudança que o mundo contemporâneo tem sofrido.

(oswaldo martins)


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Bordado de bandeiras e sacis dissonantes

Nos fim de tarde livres de trabalho, gosto mesmo é de escurecer a sala de casa, colocar uma boa música, uma dose generosa de uísque e me entregar ao espaço mágico que a quietude permite. Uma mesma música pode ser ouvida, nestas condições, milhares de vezes. Ouve-se o canto, a orquestração, a música, enfim. Num segundo momento, ouve-se apenas, por exemplo, o violão; noutros, os instrumentos de percussão. Se se ouvir uma dezena de vezes a mesma música as divisões ficam inumeráveis. Uma delícia.

Hoje foi o dia de ouvir, especificamente, duas músicas: uma música Moacyr Luz e Aldir Blanc. Cachaça, árvore e bandeira. Homenagem ao grande e esquecido Carlos Cachaça. Outra o saci de Guinga e Paulo César Pinheiro, na gravação primorosa de Guinga e Francis Hime. Piano, violão e vozes estupendas.

A primeira me leva para os tempos distantes de nós mesmos, cariocas ou adotados por essa cidade – como é o meu caso – tempo em que era possível vestir o rosa da aurora bordadeira! Se os sons trazem a sugestão de uma leve melancolia e a letra a confirma, há, entretanto, um país imaginário que ainda está para se construir, nas bases do que foi, mas que paradoxalmente houve apenas como anúncio do que virá a ser.

A segunda me leva também a tempos distantes, mais rurais, e traz uma estranheza muito peculiar. Uma temática rural que rompe com sua própria base harmônica, quando cria uma dissonância bastante acentuada e coloca este saci num entretempo que é ao mesmo tempo pertinente ao passado e ao presente. As vozes de Guinga e Francis Hime se casam, como se casam o violão de um e o piano de outro.


(oswaldo martins)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

flor

florir espécimes raros
se encanta aos olhos
o talhe do belo

melhor seria abrir-se
abismo de meia água
na casa a debruçar-se

sob o abismo da flor
inumada


(oswaldo martins)

Poesia espanhola 2

OVILLO

Como una cucaracha boca arriba, roza la voz las cosas,
tocándolas en vano.
Como madeja sucia de hilo negro, la voluntad baldía.
Soñar y deshacerse.

Y lejos el fantasma que condena. El látigo apagado.
Los naufragios.

(Ana Gorría)

BEMOL

Con los ojos clavados en el techo,
ignorar
              por qué pesan los párpados,
cuánto tiempo perdido
y cómo despertar de la parálisis.


(Ana Gorría)

Poesia espanhola

Expulsados del paraíso

Era necesario explorar los límites para sobrevivir.
Nadie dijo que la noche cotidiana

no permitiera emboscados en su orilla.
En sus labios nunca se deshizo la escarcha
porque tenía la espesura de los arroyos extranjeros.

El tiempo respira en mis frases cortas,
todo pasa por mí sin armadura.
La lengua hundida en los batiscafos,
hundida sin argumento,
codiciosa de luciérnagas
                              y de cartografías interiores.

La lengua no saciada de otros ojos extraños
se desposa con el miedo para ascender,
se disfraza para salir de la ficción en otra parte.

Remotas islas nos reciben todavía,
guardan nuestros deseos residuales.
El día feliz se desvanece en todas direcciones.
Volvemos a comer las manzanas más amargas del paraíso.

Nuestro pecado es una predisposición genética.


(Amalia Iglesias)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

fragmento

1

as espirais de fogo
como dardos vituperam

2

quem celebra poemas
planifica tempestades
no corpo

3

a língua do poema se reduz
ao arco mínimo das palavras

4

um corpo estranho baila entre
os entres que se dizem, e calca

5

corpo: o quem
dilema a frase

6

mais o espanto
do corpo de palavras
escrito à beira chão

7

todo abismo provém de ti
de resto, o imperativo do corpo

8

em teu umbigo a vírgula
é um comentário de acasos

9

no abdômen o traço mais escuro
abre em tinta branca quando sobe
até o sovaco

10

te enredo no pescoço
o poema afaga
entre terno e violento
o assalto do desejo


(oswaldo martins)

sábado, 2 de janeiro de 2016

Duas dicas de início de ano 2:

1ª - O clube – o belo e violento filme sobre a pedofilia na igreja católica, é mais um filme sobre o humano destruído e sem finalidade.


2º Chico – um artista brasileiro – as belas canções e a história particular do músico e escritor, que é também a história de cada um e de todos nós.

Duas dicas de início de ano

1ª Contos de Kolimá (volume 1) Varlam Chalámov – o livro traz uma descrição crua e pesada dos campo de trabalho forçados da Rússia stalinista.


2º K: relato de uma busca, de Bernardo Kucinski – o livro relata a busca de uma das desaparecidas do regime militar brasileiro, descrevendo os horrores e a crueldade vivenciados pela sociedade brasileira.