quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

os romancistas


nas margens das páginas preenchidas
evocam às vezes num desenho um deus
e dedicam-se com denodo a seu ofício
de censor mas deixam algumas pistas

do que fora o átimo da palavra original
e a retorcem no ritmo de um sutil
murmúrio no qual as vestes tomam
um circular movimento de música

jogam bananas com os dados
tão comezinhos que dir-se-ia
sequer terem em si um deus
cínico como machado de assis

(oswaldo martins)

orvalho



meus dedos vasculham
umidades  em teu corpo.

elesbão ribeiro
03/02/13

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Pilulinha 29


Beleza e tristeza, de Yasunari Kawabata, editado pela Estação Liberdade, em 2008, é um romance de construção ao mesmo tempo delicada e furiosa. A partir da criação dos diversos envolvimentos amorosos, o autor desenvolve uma trama em que os pequenos detalhes sobrevivem ao todo da narrativa. A sedução dos personagens ao se mesclar à sedução da narrativa cria um ambiente em que as pequenas perversões se desenvolve quase sem que se as perceba.

As pequenas descrições que tangem a mordida dada no dedo mínimo ou nos ombros de algum personagem vão se desenvolvendo ao largo das discussões “sérias” sobre a arte pictórica e a escrita do romance e com elas fazem um elo sutil, um desenho intenso disfarçado sobre a leveza do traço. A perversão nos romances de Kawabata está sempre presente – uma das mais belas formas de perversão aparece no não menos belo A casa das belas adormecidas – e a serviço da descoberta dos traços mínimos que se deslocam aos poucos até tomarem a forma difusa com que transtorna a própria narrativa, que se pensava se r sobre algo que não é.

Há, portanto, diversos níveis narrativos no romance do autor. Como uma escrita em palimpsesto, Kawabata mais esconde que mostra os traços vigorosos das personalidades humanas, os traços mais tênues e desumanos da solidão e do abandono. A maestria do autor permite que se leia Beleza e tristeza na duplicidade de uma suavidade colérica de que não escapam sequer os menos atentos leitores, presas desta narrativa que incomoda e faz vibrar de pavor e alegria a capacidade de compreensão de si mesmos e da realidade que os circunda.

(oswaldo martins)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Os LPS







Prosa 2


Do alto da serra do ouro preto, depois da Chácara do Manso, à sinistra do Hospício de Terra Santa, ele via Vila Rica adormecida, esparramada pelas encostas dos morros e vales lá embaixo.

Não volte nunca mais, meu filho. Nunca mais vai poder me ver, disse o pai, e naqueles olhos duros e obstinados na teimosia ou na aceitação da sina, na cara crestada pelo sol das lavras, nos ribeiros e faisqueiras, Januário acreditou ver (quis, forcejava mesmo o coração) muito longe um brilho de lágrima, uma marca de dor.

A voz pesada e grossa do pai, cavernosa, arrancada das entranhas. Aquilo que ele disse sem nenhuma reserva, pudor ou vergonha, chamando-o de meu filho, ainda doía bulindo dentro dele, como ondas, ecos redondos de volta das serras e quebradas, redobrando, de um sino-mestre tocado a uma distância infinita. Dentro dele na memória, agora ainda , sempre.

(DOURADO, Autran. Os sinos da Agonia. Rio de Janeiro. Expressão e Cultura. 1975)

Poesia 2013 cinco Ossip Mandelstam


Não é a lua


Não é a lua, não, é um mostrador.
Que culpa tenho se as estrelas baças
Me parecem leitosas, sem fulgor?

Batiúshkov não merece piedade.
"Que horas são?", perguntaram-lhe uma vez,
E ele só respondeu: "Eternidade."



MANDELSTAM, Ossip. "Não é a lua". Trad. de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.

*

O corpo me é dado-e com que fim,
Meu corpo único,tão de mim?

Pela alegria chã de respirar,
Silenciosa,a quem devo louvar?

Sou jardineiro e sou flor- cativo
Na prisão do mundo sozinho não vivo.

E já nos vidros da eternidade
Cai meu calor,meu sopro respirado.

Nela se grava um desenho pra sempre,
Irreconhecível de tão recente.

Escorra do momento a água turva-
O desenho amado não esbate à chuva.


MANDELSTAM, Ossip. Trad. Nina Guerra e Felipe Guerra. Lisboa Assirio & Alvim

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Desenho cubano


Pilulinha 28


O Comedor de Salamanca, de Jorge Fernandes da Silveira, editado pela Oficina Raquel, no final de 2012, é um livro saboroso, que lembra as diatribes do poeta Oswald de Andrade, principalmente nos recortes de seu Pau Brasil. Embora os cortes de Jorge sejam outros, outra a extração e o interesse que busca, percebe-se, na intenção de jogar com algumas das tradições que compõem o vasto repertório cultural ibérico, a mão irônica com que o autor traça os poemas e textos do livro.
Na ironia algo sardônica com que lê o mundo, num movimento pendular que ora evoca a formação sentimental, ora se desloca para a visão do mundo contemporâneo em crise, a obra do autor se escreve como a marca d’água com que pontua a sensação dos papéis que guardam os segredos e suas autenticidades.
Desde logo está ali a mão que orienta – e seduz – o leitor a descobrir um universo cuja melhor expressão se encontra nas inversões percebidas e atualizadas daquilo que se vê, se viu, ao longo do jogo lançado entre o narrar e poetizar a vida.
Leiam os belíssimos excertos abaixo e provem desta criação feita de sutilizas e sensibilidade.

CARMEM
Na versão espanhola que vejo da Carmem de Bizet do Ballet Flamenco de Madrid

Um Don José tão soberbo
Absorvido de tamanho erotismo
Que à Carmem só lhe resta
O vermelho da mantilha e do vestido

*

BUÑUELLAS

Recortados, de um só campo de informação, ao longo do mês de maio ainda em curso, estes textos, além de desfrutarem de variantes de sentido entre recorte e corte em castelhano e português, mantêm em fogo alto a imagem geradora e coincidente de O Comedor de Salamanca

*

Releituras
As poéticas fora de lugar
Clássicos (no literariamente, sino literalmente) Revisitados

__ Ondas do Mar de Vigo, cadê meu Amigo?
__ Ué, sei lá!

(O Comedor de Salamanca)

Este, então, é de uma beleza poucas vezes alcançadas pela moderna poesia brasileira.

(oswaldo martins)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

9


o defunto dorme em caixas de fogo
fede e possui nas mãos carcomidas
pelos vermes tudo o que desafoga
desaparece da linha da hibris

e se deita com o cão rancoroso
das profundezas desumanas que
o deixam ali dormente nos ossos
nos olhos na boca e não mais que

corpo sem os adjetivos de um anjo
reluz sem brilho a pele secundada
do cortejo das baratas albinas

ele se vai sem os códigos-manto
a cama vazia o expresso do nada
que o anjo desbordado consolida

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Prosa 1


Se os conhecedores dessas línguas individuais encontrassem o que dizer uns aos outros, que lhes fizesse sentido, então também haveria esperança para nós, as criaturas humana comuns, a quem falta a dignidade da loucura.

(Elias Canetti – Uma luz em meus ouvidos)