quinta-feira, 7 de julho de 2016

engenho e arte


a mão tateia páginas se cabelos fossem
no afundar dos afagos a perene força
da palavra exata que, por amor, repleta
de sentidos na noite escassa, nas aletas

farejando o ar, desnudada de desejo,
a moça lia, e os peitos a desoras rijos
apontavam e descaíam sobre a folha
a relembrar as sintaxes leves e soltas

que da página ao amoroso corpo tocam
e emaranham nos fios louros do cabelo
o que das mãos o tato sobre o pêndulo

em palavras retorna e afaga no corpo
das abertas páginas se feridas fossem
o triscar da moça, em mim, engenho e arte.


(oswaldo martins)

Um belo Camões


Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.


                    Luís de Camões

Con Cynthia Magluta, no lançamento de seu livro


sexta-feira, 1 de julho de 2016

antiode para os bocas bocudos

para monique nix e sua poesia afirmativa

às vezes as bocas sensuais bocas ávidas
gemem seu quinhão de prazer vociferam belezas
amainam as palavras os velhos dicionários das falsas vestais
e entre putas caralhos e apertadinhas xotas ralentam a voz
para o estupor das velhas marinhas

às vezes as bocas se chupam se lambuzam de escatológicos sumos
às vezes saliva às vezes esperma e muco
às vezes as bocas dizem ao que vieram
com sua língua vituperina
clamam aos céus da boca estrelas
clamam aos céus e boca no mundo
derramam veneno contra os bocas aturdidos
contra os bocas filhos da puta

os bocas são uma espécie de boca que se achega a falsas promessas
que se achega ao do momento usurpador
que se achega ao romântico da poesia recatado e do lar
os bocas são uma espécie de boquinhas de caçapa
de boquinhas encaçapadas
de boquinhas bem ajambradas terno e gravata

os bocas – dir-se-ia o boca mais fuleiro dos bocas – operam
por mesóclises
operam por delicadezas morfológicas como os bocas-bilac
como os bocas-gullar como os bocas bobocas que são tangidos
pelo abocanhar o que aos bocas então se dá

há ainda os bocas ocas
bizarras bocas dos coxinhas que reverberam tudo
que seus mestres mandarem
bocas lobônicas isotônicas cameleônicas temereônicas lobotômicas
bocas atômicas do caos e da miséria fernandotômicas

ou os bocas-togadas que togam togam que togam
o retrógado passo a tantos e tanto por cento de indecência
que no lombo da macacada cantam com suas vozes
de truões das mansardas enquistadas na boca de ouro dos bem avisados
o anúncio apostrofaico dos profetas de pacotilha

tais bocas os bocas bocós bocudos oram pela vinda da água santa
da vassoura santa da pica santa
e operam nos mercados financeiros dos alegres
dos compungidos alvissareiros do dinheiro no bolso
dos também crentes de meia tigela
os bocas operam sob as suíças de abraão lincoln
e como um perfeito boquinha preferem a contrição nervosa

à balbúrdia dos que se encharcam à noite nos bordéis
da língua solta nua das cachorras e cachorros
que as esquinas elegem como os representante reais
da festa

(oswaldo martins)




sexta-feira, 24 de junho de 2016

debuxos

1

certo
palavras e janelas
são o ai jesus dos suicidas

nada do que permite ou cala
serve

só o irascível carbono
vela

o movimento de jato
ou as borboletas azuis

2

certos palavras-zero
achos-quê

as latitudes roem
ratos desequilibrados

libam que libam
próximos ao nada

3i

ir ao caos
e calar

(oswaldo martins)

sábado, 11 de junho de 2016

coisitas

1
um ramo sempre mais
que o buquê de flores

2
um oceano mais
que a praia

3
um abismo
que a janela

4
corte
que a faca

5
poesia
ousia


(oswaldo martins)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

chica

o nada planta suas raízes
medram apenas árvores
paisagens

as casas velhas cheiram a novo
que é do preciso salgar
as carnes

uma e outra vez
que a que manda perceba
dos capitães do mato

o sal


(oswaldo martins)

sábado, 4 de junho de 2016

anotações para chica da silva

 para o ronald  augusto, que não conheço, ainda

1.       O Museu Chica da Silva é de rara beleza, mesmo que isso contrarie a ideia do que é um museu ou o museu da bela mulher. Que se fodam os que querem edulcorar a história! As salas vazias, o vazio como ícone do que sempre nos foi roubado, salgado, é uma linguagem eloquente das putarias com que se constrói uma pátria!

2.       Passear pelas salas cheias de espanto por não encontrar a Chica que manda é uma lição de história mais fodida que qualquer compêndio da dita, que qualquer romance borra-botas que pensa reconstituir o que foi e o que é.

3.       A presença da ausência dói mais que a ausência da presença. Nossa pomba-gira dionisíaca fala mais quando se posta na sala nua e nos olha desde seu desaparecimento.

4.       A Chica dançava rock nos jantares do comendador.

5.       Comia o cu dos das que se metiam a bestas.

6.       Beleza é o caralho de exu, eu quero é o vazio das gangues!

7.       Chica, Antônio e Arthur o único trio da formação do desaparecimento do Brasil, fodido pelos portugas.

8.       A história do Brasil é uma história de ausências.

9.       Oswald foi seu palimpsesto; Cecília, um pálido arremedo.

10.   Em Diamantina visitem o museu da Chica roubada. Vale mais que uma aula de história.

(oswaldo martins)

Pilulinha 46

O livro O Sexo Vegetal, de Sérgio Medeiros, publicado pela editora Iluminuras, em 2009, constrói-se com elementos inusitados. Uma arte de amar que se propõe uma simplicidade estonteante – livro paradoxal na busca da compreensão do humano, posto que a linguagem ao afastá-lo da natureza envolve e desorienta o leitor na negação cultural com que o homem inventa o mundo.

A construção empreendida pelo poeta de uma relação amorosa para os vegetais que copulam com as palavras permite que se rompam as forças comuns da linguagem, fabulando a possibilidade de uma língua natural, de uma lógica que escapou da construção da história. Como um botânico que colhesse não os espécimes, prestes a serem desvendados, Medeiros busca, como um minucioso estudioso, os espécimes linguísticos que dão ao poema sua justificativa e espanto.

Tal como alguém, frente ao sublime kantiano, se vê abismado na torrente da finalidade sem fim, a língua apresentada pelo poeta permite que se vislumbre de passagem, mas poderosamente, a possível percepção da aluvião a que pertencem o homem, a natureza, de que se afastou – e não poderia ser de outra maneira – e a linguagem a dizer só quando, se apresentado, se diz.

A sinestesia destes versos “Havia tantas estrelas no céu que ele pôde ouvir algo” brinca com a tradição da língua brasileira, abandona-a e determina uma outra deriva para os ouvidos já batidos dos ora, direis, posto que a cena que se desenrola é a do mato parado às costas do observador, iludido com o espetáculo dos universos gigantescos, paralisado com a encenação do que é: mato parado do que observa sem ver.

A poesia de O Sexo Vegetal é poesia de erotismo delicado e construído a ponta de faca, para desentocar do leitor costumeiro inusitadas relações em que se vê mergulhado.


(oswaldo martins)

terça-feira, 24 de maio de 2016