sábado, 28 de abril de 2012

quatro poemas sem motivo ou da provocação barata


fescenina,

vivo entre o quê e agora
meio abaixada

até o pescoço
dos pés

ora
o gasto rubro
do cu

ora
a gasta desflor

que da buceta
demanda

das demandas
do picador

*

a boca no nariz
se delgado for

o que dá a pica à flor

mais ainda se begônia
cultivada

nos jardins – tão
versalhes –

dos conventos
em que paira

o beija-flor


*

no parquinho burgûes de göethe
uma meninazinha aprende tanto
solfejo em flauta de dó
que o mestre instrutor

tão delicado e supina assopra
os pirilampos que tocam

trombones e varas

*

deveria ter sido assim
a história da música

e dos palácios

ao som de caça e cravo
espetavam anedotas

enquanto as moças subiam
as saias

(oswaldo martins)

sexta-feira, 27 de abril de 2012

pudesse fazer com as palavras


para Daladier Carlos.


pudesse fazer com as palavras
o que faziam antigas lavadeiras
nos riachos antigos
de antigas aldeias

molhar as palavras
ensaboar as palavras
bater as palavras contra a pedra

e recolhendo-as
das águas límpidas do rio
deitá-las na relva.


elesbão
(25/04/12)

terça-feira, 24 de abril de 2012


Urubu

I
um bicho
avançado na corda
come o necessário íntimo
o bicho
se encosta ao acessório
suspenso eu
um bicho
assumo o risco
de ver o arrepio-
bicho
que nenhuma perna
enganada vai dizer
cínico
o gelado do ritmo
de bicho

II
avançado na corda
atento ao frio feito
um bicho
que escorrega feito
um verme
rói a parede ciã
da carne virada
da fruta intestina
e rói mais
e rói
e larga os ossos
os cabelos
o peso do morto
não menos e não
menos bicho
torna ao fio de corda
farto sem precisar
medir o equilíbrio

III
eu
não mais
me sei sequer
um bicho
me sei talvez
o bicho
que na corda
é hábil e leve
pássaro rapace
bicho quê
ave na ventania
não carece de ninho

domingo, 22 de abril de 2012

dias de Jorge


dias de Jorge


estava a caminhar
quando me deparo com a igreja
a minha igreja do Divino Salvador.

entrei
pus-me a pedir benção aos meus poetas
benção Baudelaire
benção Maiakovski
benção Qswald de Andrade

aproximou-se de mim
uma senhora muito anciã
e com mão confortável:

meu filho estes dias são dias de Jorge.

elesbãp
(21/04/12)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Vai e diz a ela

Para sublinhar a recorrência do Pound/Augusto de Campos e a letra de Vinícius para a música de Tom Jobim.

Chega de Saudade

Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade
A realidade é que sem ela não há paz
Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim

Não há paz
Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim

(Tom/Vinícius)

Erza Pound


ENVOI (1919)

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

(tradução de Augusto de Campos)

muros


Sem piedade e sem pudor, sem dó e sem cuidado
à minha volta espessos muros tão altos quem teceu?

E eis­me agora aqui na sorte a que fui dado,
em mais não penso: não me sai da ideia o que aconteceu.

Lá fora há tanto que fazer - tudo ruído!
E, se estes muros construíram, porque não dei por tal?

Não ouvi de pedreiro nem voz nem ruído
E sem saber fiquei fechado, sem vista e sem portal.

Kavafis

segunda-feira, 16 de abril de 2012



Todos lá no lançamento da livro da Ana teresa, que é lindo!

baudelaire




Hoje segundas literárias com Alexandre Faria e Oswaldo Martins, abordando a obra de Baudelaire

Horário: 19h às 21h.

Informações e inscrições: moviolaonline@gmail.com



sábado, 14 de abril de 2012

Entrevista


As autoridades civis e militares vêm tentando há muito tempo conservar a impunidade dos ditadores que tanto dano causaram a seus países. É como se houvesse nos países da América latina, uma continuação civil do pensamento militar. Nas minhas buscas, tropecei na resistência a muitos políticos, como se houvesse um pacto de silêncio com os militares. Os familiares das vítimas só ficam sabendo de parte da verdade. Navegamos numa escuridão angustiante.

(Entrevista de Juan Gelman a O Globo em 14/04/2012)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Pilulinha 21


Uma leve beleza

Sabe-se pela informação do narrador – feita em primeira pessoa – que o protagonista da novela A DANÇARINA DE IZU é um jovem estudante que viaja. A viagem empreendida pelo jovem aparentemente é desmotivada. Viaja-se sem razão. Entretanto, no início da narrativa o jovem cruza com uma trupo de artistas que se apresenta aqui e ali e segue para Shimoda, onde celebraria a morte do natimorto filho. Fazem parte da trupe cinco personagens. O pai do recém-nascido, Eikichi; sua esposa, Chiyoko; a irmã, Kaoro; Yuriko, uma moça de 16 anos e a dançarina de Izu.

O jovem estudante, que empreende a viagem inútil, vê o revê (como a narrativa deixará claro, ao longo de seu desenvolvimento) fascinado o grupo de artistas que também viaja, razão pela qual, quatro dia passados, se pôs a caminho de Izu. Aos poucos, a motivação da viagem vai se construindo. A proximidade do jovem estudante e da trupe faz surgir um manancial de beleza despertado no leitor pelo contato – mínimo, diga-se de passagem – entre o jovem estudante e a pequena dançarina.

O que aos olhos de um leitor ocidental e brasileiro se ressalta na breve história do A DANÇARINA DE IZU é o traço, o leve traço, com que as situações se fazem surgir e a beleza quase anacrônica com que Yasunari Kawabata trata a linguagem que tudo nos diz ao não nos desvendar nenhuma motivação objetiva.

*

A  cena em que o jovem estudante vê a pequena dançarina nua do outro lado da sala de banhos mal iluminada é de grande impacto e erotismo.

(Oswaldo Martins)

Aracy de Almeida - Ensaio ( MPB Especial ) 1972

Aracy de Almeida - Especial Raro ' Contra - luz ' ( 1987 ) Parte 2

na rua


morava na rua

nada pedia

nada recusava

tinha uma vaga lembrança

uma vaga recusa

uma vaga saudade



elesbão

(02 e 10/04/12)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

2


para lúcia leão


os olhos bonitos
possuem os arredores

lembram-me um filme
que já não sei

o sol insuspeito
do café sobre a mesa

e a intermitência, clara,
de tua ausência

*

as pernas se cruzam
pelos becos

a cama tem lençóis
desfeitos

mas a festa dura ainda,
clara,

nos intervalos
do pego

ilumina

**

se escuto os peixes
da primavera

alucino

clara, a noite
fica um perfume

cuja pele
dança

à deriva

(oswaldo martins)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

andanças


são as amizades que contam
nesta vida, por isso
converso com o peixe
antes de começar o almoço

antes de mim
ele vasculhou o mesmo mar
a pele cansada
eu suavizo com alho e limão
tesouros dessa culinária

gosto de prepará-lo
para que se torne meu

o que fará a diferença
será a qualidade
do azeite, eu digo
ele não responde
mas escuta

os melhores são os portugueses

viajantes como nós
as escamas sussurram
voando pelo ar
sob o fiel fio desta faca. 

"Visita triste", por Nelson Cavaquinho

Nelson Cavaquinho ( É tão triste Cair )

MARILIA MEDALHA - "Luto" (Nelson Cavaquinho & Sebastião Nunes & Guilherm...

terça-feira, 10 de abril de 2012

1


os instantes infecundos

à roda do tempo



quando tudo para

a mão o crime a estultice

os desenhos mais finos



do impressentido eco



o silêncio enorme

e teso



sob o manto obscuro

nos aterra



(oswaldo martins)

soneto de arthur


com o sonho atirado das bigornas
do tempo deuses semelham homens
as faíscas que dão vida retornam
ao gênero fantástico dos quem

quê de além da pura consciência
inscientes buscam mundos monturos
despejados nas alamedas-dia
que um deus renovado, entre muros

faz ressurgir conspurcadas nas medas
dos objetos quê manes do destempo
as albinas baratas encordoadas

a subirem pelas nódoas do brim
pelos cordames da barba, e manto
as palavras que em baratas encantam


(oswaldo martins)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Poema sòpara Jayme Ovalle




Poema só para Jayme Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

(Manuel Bandeira)

upps


brigado, doutô
minhas criança já pode brinca na rua.

mas veio ontem
uns homi dizendo que vão
cumpra minha casa.

minha casa é pobre
mas tem olhos bonito

venho lá de baixo
venho triste, seu dotô
mas chego alegre
paisagem bonita
minha janela

minha casa é pobre
mas tem vista bonita, dotô

mas veio ontem
uns homi dizendo que tenho
de vende minha casa.

agora que as criança
já podia brinca na rua
agora que a porta ficava aberta
pra milhó entra
agora que a janela ficava aberta
pra milhó olhá

dotô
o sinhô que espanta bandido
não pode protege os pobre?

onde vamo mora?

elesbão
(02/04/2012)

terça-feira, 3 de abril de 2012

cidade


na cidade

há os homens que andam

e os homens que deitam.



quando os homens que andam

deitam

os homens deitados

se levantam



são catadores de papéis

a catar papéis

e a catar os espirros dos homens que andam.





elesbão

(02/04/12)

domingo, 1 de abril de 2012

Fotografia de mãe e menino com orquestra voadora


perfumes
cores
aparecem
mais tarde
Penetram
lentamente
Imitando
o frescor
que habitava
desde sempre
este corpo
nele a respiração
é dança à espera da dança
para além dela mesma
um menino agora
segue o ritmo
desses passos
e se encanta com o paraíso
quando
em vôo de livre
frêmito
o corpo sorri  e
roda com ele

(Luiz Fernando Medeiros de Carvalho)