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segunda-feira, 15 de novembro de 2021

descante

a cor da unha

o balanço-sola

a liturgia dos pés

 

caem vagares sob a cidade

as pessoas os cães os cavalos

passam há cigarras ainda

 

e o estupor civilizado

no chão o outro do eu

cavo ao fecharem-se olhos

 

ultimo o silêncio

as sintaxes secam

a despedida-quando

 

o cicio do age-fim

resta no nada

 

(oswaldo martins)

segunda-feira, 7 de junho de 2021

o boi-pedra

 

um boi planta-se a meio

fixo como uma pedra

coça-se nas urtigas

 

seco na terra tora

meia-légua depois

cansaço de penas

 

ao céu na beira

mágoa as patas

em estira-rabo

 

rubicundo umbigo

pulsar de bicos

avoantes biltres

 

coça nas feridas

não fossem homens

que de longe viessem

 

tangê-los no aboio

subiam bambos

até o belo monte

 

(oswaldo martins)

sábado, 4 de janeiro de 2020

poética


o poema gira nas entrelinhas
silenciam por mim os limites
de ti detém pouco ou nada

o poema cala a leitura mínima
perscruta os possíveis sintáticos
aparecem os conselhos negam

palavras a lucidez se faz sem
a brida dos versos o poema
indaga olhos não o podem

ver tocam os bordados, vê
e traça a impraticável
fímbria da delicadeza

(oswaldo martins)

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

arama

pelos vãos
das areias o desejo

compõe plêiades
e as arrumações

mais mesquinhas
fazem pisar

dos pés

as forjas inexatas

(oswaldo martins

terça-feira, 15 de outubro de 2019

meio-dia


para ronald iskin,
sobre trabalho de rafael iskin

após a música do poema
a dança do poema
o poema

recobri-lo de transparências
em alaranjado-quente
refaz a excelência

da beleza

(oswaldo martins)

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Rotina


Tenho a garantia da perda
toda manhã.

A ligeireza do tempo
e a vassoura escondida
atrás da porta
para espantar visitantes
eternos.

Fotos de mortos nas paredes
me arrepiam pela falta.
Tudo é nu de medo.

Garanto que nada fique.
Limpando o enredo,
sem personagens
ou poeira,
o tempo não se agarra a nada
e em desespero
me solta.

As palavras escorrem
e se distinguem de mim.

A identidade radical,
o pão, a manteiga,
um dia inteiro pela frente.

(Lúcia Leão)

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

higrômetros irregulares


(poema para todas a vozes)

os cientistas loucos  
as lógicas pressupostas
os eisteins dos meus botões

o chupa-chupa dos jornais
a unha bancária
o sol dos trópicos

os joões
as maricotas
as maritacas

os nor-nordestes
os sul-sudestes
os centro-oestes

a rosa dos ventos
a flor do centro
as flores do mal

os duques zurros
os pios da coruja
os pais da pátria

e os que a puta mãe pariu

(oswaldo martins)


quinta-feira, 27 de junho de 2019

luz negra


para nei lopes

luzes na ribalta
tangem destinos cruéis
as mãos sem frenesi

nô violão e voz
e o fundo do bar
cozem a fosca lâmina

a bala de um tempo
e o prodígio socavado
suspendem o que prima

constrói a irrealidade
esta junção de paletas
do silêncio a preencher

(oswaldo martins)

quarta-feira, 22 de maio de 2019

erótica


ao tecer-te girassóis pelo corpo
uma brisa atordoa o espaço

o seio salta e se esconde
saliente sob a blusa

as pétalas vicejam
quando se rega

desde a raiz o rego
espetam a blusa

a auréola exata
o exato bico

do gineceu

(oswaldo martins)

segunda-feira, 29 de abril de 2019

conselheiros


conselheiro 1

o estorno das palavras afunda
a voz nas cercanias

nega-se até a exata
designação das coisas

quando o dizer cala
a face enruga

e o corpo nu
marca as aras

e as sustenta
de enxugamentos

no oco
da lucidez


conselheiro 2 

destampa o vau
dos bons conselhos

faz com que os rios
de areia seca

transmudem-se
labirintos

em que a escuna
dos fiéis

braceja pelos mares
da alucinação

constrói casas
que se subissem

os montes santos
a escada de jacob

(oswaldo martins)

terça-feira, 16 de abril de 2019

a indeterminação objetal


a medida do impossível se destaca
nos objetos fartos de precisão

uma cadeira – o objeto bruto
compõe-se de espaços e tempos

ou

o braço amigo que te enlaça
tudo faz parte do equívoco

a que soterrados se percebem
os homens contra a nulidade

do espavento

(oswaldo martins)


quarta-feira, 3 de abril de 2019

o falso mendigo


pinguilim vivia deitado nos bancos
todos aqueles que rompiam anchos
satisfeitos de si a porta mágica
a virar a cara e a correr à socapa

daquele emblemático descidadão
calçado por tênis achados
calças largas e meias rotas
que lhe mostravam o dedão

voltariam sempre e sempre ali
o velho emblema os esperava
com a máscara de que fugiam

os édipos de olhos vagos
a julgarem as escusas do totem
que os acusava com desdém

(oswaldo martrins)

segunda-feira, 1 de abril de 2019

o cozinheiro absoluto

para walnice

os utensílios enigmáticos
em seu preparo de licores

macios se desdobram
os deuses em suas iras

ferem a carne
fazem vagar o corpo

no tempero dos sabores
à primeira hora

seja cebola, alho ou kummel
revelam -se no toque afiado

em que a língua goza
a aguda forma de poema

(oswaldo martins)

sexta-feira, 29 de março de 2019

geografia impessoal


não desço mais a pires
embora a rua permaneça
com o lixo nas calçadas
os buracos os abismos

na certa haverá um busto
à praça e ao abandono
até que ao descerem a rua
derrubem a cabeça oca

onde mijarão os cães
e – do caos à lucidez
de uma forja desatada

a vir – a rua escura
há de cobrir o espanto
com um vaso de gerânio

oswaldo martins

sexta-feira, 8 de março de 2019

Na poesia

Na poesia
a palavra só ressoa depois
primeiro fala para dentro
numa fidelidade própria das coisas sem começo
nem fim

aqui
como nas Ruas
há caos e transparência
poucas saídas e urna só entrada.

(Dora Sampaio)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

carpir


os corpos vagam suas superfícies
em simbiose imperfeita
mútuos se diluem
no ardor

o que a eles toca de pétala
pende haste apenas
bastam-se no licor
das ervas

confrontam no inexistir
o contradito estupor
daqueles a quem resta
somente o amanhã

(oswaldo martins)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

para o que servem as classes sociais


há quem estenda os braços
e esqueça o resto do corpo
e o braço fique ali exposto
para as chagas dos trapos

há este trapo em delícias
que toca o ar abre os poros
e desmancha bordados
nas facas que se desafiam

há esta faca ao sol nordeste
cerzindo a barriga dos peixes
costurada madrugada a reinar
o absoluto do que ainda resta

há o resto da barriga do feixe
que ao braço devora em avidez
sobre o braço que vaza
o corte de uma só sordidez

há esta ficção estrupício
este braço de sarjetas unhas
que unhas abjetas ranham
os fatos falsos dos palácios

oswaldo martins

domingo, 6 de janeiro de 2019

estudo para espelhos de Toulousse Lautrec


1

resta a ausência
de quatro

alguns panos
tramam o fundo-cama

o corpo quase
a se entregar

2

os reflexos acompanham
esta imagem que nua se vê

de costas a opulência da bunda
se mostra

no espelho ao lado
a cortina compõe ausência

3

vestiram a bailarina
de programa

a tara
no perfil do prazer

olha o senhor
vestido de bengala

(oswaldo martins)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019