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domingo, 12 de julho de 2020

sintaxe de pasolini


o riso dos parvos
o riso da mulher do parvo
o riso do ricardão da mulher do parvo

o mundo das grutas
o mundo das grutas da peste
o mundo das grutas da peste do decamerão

o milagre de deus
o milagre das freiras de deus
o milagre do mudinho das freiras de deus

a leitura
a leitura para uma mão só
a leitura para uma mão só e os atavios de onã

(oswaldo martins)

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

as calcinhas de dimitri tsykalov


as calcinhas iludem imagens da paixão
passo a passo servem de guardanapo
ao deus baco o de cacete ereto
às vênus das desabrigadas xotas

nas calcinhas de madeira tipo assim
cinto invertido no xibiu da excitação
que desguarda o sempre em guarda
dos humores

as calcinhas de dimitri tsykalov
são mesa posta para os olhos
livres em sua radicalidade
de imagem

sobre os centros cerebrais atua
o metafísico foder que evoca
em evoés o esto brutal
dos versos obscenos

(oswaldo martins)

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

higrômetros irregulares


(poema para todas a vozes)

os cientistas loucos  
as lógicas pressupostas
os eisteins dos meus botões

o chupa-chupa dos jornais
a unha bancária
o sol dos trópicos

os joões
as maricotas
as maritacas

os nor-nordestes
os sul-sudestes
os centro-oestes

a rosa dos ventos
a flor do centro
as flores do mal

os duques zurros
os pios da coruja
os pais da pátria

e os que a puta mãe pariu

(oswaldo martins)


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Leitura de romance 01 (2019)


Fevereiro

Os encontros objetivam colocar em circulação ideias e discussões sobre romances seminais da Literatura Universal. Serão quatro encontros semanais, com duas aulas dedicadas ao estudo de um dos livros selecionados, da sua época, do significado literário e filosófico em que se inserem os autores. Os livros selecionados para o início das leituras críticas são SUBMISSÃO, do escritor francês contemporâneo, Michel Houllebecq e O Livro Mr, Gwyn, do escritor italiano, Alessandro Barico.

O livro de Houellebecq, polêmico, nos situa no ocaso do mundo ocidental e trata de assuntos bastante caros ao momento em que vivemos no Brasil. O livro de Barico, uma das mais belas construções sobre o ocaso da arte no mundo da reprodutibilidade técnica, é também polêmico e pressupõe um entrelace bastante curioso entre as artes plásticas e a arte da escrita. Os dos livros, ao pressuporem limites para a consideração dos estágios civilizatórios, entre si dialogam e nos permitem pensar o mundo contemporâneo.

Programação

Dias

05/02
Submissão – Houellebecq. As questões históricas presentes no livro, a deriva civilizacional. Apresentação do romance e estudo das linhas gerais da construção romanesca.
12/02
Submissão – Houellebecq. Leitura dos elementos constitutivos do romance, presentes nas linhas gerias anunciadas no primeiro capítulo. Discussão sobre o que o romance propõe.
19/02
Mr. Gwyn – Barico. As relações entre literatura e pintura ao longo das manifestações literárias. O limite do possível para os processos narrativos-descritivos. O beco sem saída da escrita.
26/02
Mr Gwyn – Barico. Leitura dos elementos constitutivos do romance. O significado da escrita, quando as possibilidades se esgotam. Como reinventar a possibilidade narrativa> discussão sobre o que o romance propõe.

Local: Rua Pires de Almeida 76/201- Laranjeiras
Duração dos encontros 1:30 h.
Horário: das 20:00 às 21:30 h.
Custo: 400,00 reais os quatro encontros
Mediador de leitura: Oswaldo Martins
Contato pelo tel (021) 981439622

Oswaldo Martins, nascido em Barbacena – MG, em 1960, reside no Rio de Janeiro desde 1979. Fez graduação em Letras (Português-Literatura), pela PUC-RJ o mestrado (Literatura Brasileira), pela UERJ. Autor dos livros desestudos (2000 -  7 Letras / 2015 TextoTerritório); minimalhas do alheio (2002 – 7 Letras / 2015 – TextoTerritório);  lucidez do oco (2004 – 7 Letras / 2015 – TextoTerritório) cosmologia do impreciso (2008 – 7 Letras); língua nua (com ilustrações de Elvira Vigna (2011 – 7 Letras); lapa (2014 – TextoTerritório); manto (2015 – TextoTerritório); paixão, sobre imagens de Roberto Vieira da Cruz,  (2018  TextoTerritório).


Fez os roteiros dos filmes Urânia, poema de Alexandre Faria (com Felipe David Rodigues – 2009); Venta-não, (com Felipe David Rodrigues e Alexandre Faria – 2013). É editor da TextoTerritório.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

os fragmentários


1
pratos servem para que se
cuspa em solidões enormes

2
o ano ruim deve ser espargido
com arruda e sal grosso

3
se houve mulheres
num barco no meio do mar
quem as houve em tempestade
tocou o abismo das fossas sublimes

de kant

4
sendo o tempo uno
o tempo que para mim é
constrói um tempo que nega
do próprio tempo o tempo não-é

5
viver o impacto da consciência
é não sucumbir ante a cicuta e a cruz
negar-se ao exílio e à mentira

é antes saber-se cego e
justo como o rei antigo
não abandonar tebas


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

cinco estudos para a nudez de brian catelle

1

o corpo se retorce nas ameias
do abandono

os castelos derreiam imagens
na incrustação da pedra bruta

que a lente antes de lapidar
distorce em ereta curvilínea

nudez

2

a oficina de andrajos
cujos objetos

formam fotografias e cadáveres
não fosse por entre eles

a mulher em viagem
nas tripas do abismo

resinificado


3

em uma teoria da resina
o ardil de metais e lixo

o corpo móvel
e este velo

vinho das civilizações

a curtir o momento
de se exarar o licor


4

num canto do quarto
ante a centralidade da cama

a luz esconde o estouro
da paisagem

as urbanas criaturas

5

o desejo do abismo refreia-se
algo ali há além das estacas

uma curva que nos leva
à queda do telhado

da casa em sua dúbia sustentação
de linhas retas


(oswaldo martins)

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

peripatético

desde a visão perdida o manco paladar
impõem-se substratos para a viagem do nada
podem os aviões jungidos soltos no ar
a justeza inadequada, a ceifa que carda

aqueles, menipos vácuos, cujos atalhos
vedados irradiam nenhum sol alguma lâmina
que à messe se contraponha em refolhos falhos
 – o ecoo da perdida contraluz abomina

os do horizonte caçados se lobo o espécime
o ser estrangido na cabeça das nuvens
se bobo o ser sereno se a calma –  das forjas

advém da visão o abismo o mar votivo sublime
decair das alturas em terra firme e nua
cujo manto o último sentido escorja


(oswaldo martins)

moção

para meus pais

toda palavra é possível em nós,
toda marinha do desassossego
as tormentas todas do mar e após
a ânsia, o perigo, o céu espesso;

toda palavra é possível no cais
do desembarque, onde nossas rugas
se rasgam pelas ruas sem que jamais
os passos indiquem calor e fuga

por isso busco o que buscam os homens –
porto nenhum de chegada – partida
circular em torno de um mesmo cais,

de um mesmo assombro; sobre os armazéns
sombra sombras nossas sombras fatídicas
do que queríamos e não somos mais.

(do lucidez do oco - oswaldo martins)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

amor

te penduro um paletó de esterco, amor,
para que em ti possam brotar as pegas

a acidez das venturas que sabem a trago
e cigarros baratos o azedo do vômito

nas sarjetas a gritarem os orgasmos
das orgíacas mulheres mancas

para me arrastares perdido na rua
aos abismos indecifráveis da lama

longe dos colchões, dos pratos dos covardes,
um puto dos retalhos, de amor vestido


(oswaldo martins)

terça-feira, 20 de junho de 2017

memórias sentimentais de um leitor randômico 2

1

Sempre gostei de ler autores que nunca li e alguns a que volto continuamente. Dentre estes últimos está o Sergio Sant’Anna, autor de grande capacidade crítica e percepção da vida, talvez seja hoje nosso principal autor vivo, o que não é pouco. Seu último livro, O Conto Zero, determina uma ordem de leitura que permite o leitor passear por pelo menos cinquenta anos de literatura.

2

A dura escrita de Cesar Cardoso disfarça-se de humor, mas é rascante e ferina, como o rasante de uma ave rapinante. Seus Urubus – procure, leitor desatento, saber deles – abrem voos sobre a fabricação da vida, abrem voos sobre as feridas expostas do nosso cotidiano. Assim como Sérgio, Cesar nos faz passear pelos milênios da boa literatura, sem conceder uma mínima brecha que seja ao sossego burguês de todos nós. Mas o que mais me delicia nos livros dele, e nesse, em particular, é a presença da prosa poética que atinge os limites da perfeição.

3

Não gosto da literatura umbigo. Não gosto da literatura como verdade – lembra-me o coitado do Alvarez de Azevedo que queria nos dizer a verdade, toda a verdade. Não gosto da poesia sentimental. Não gosto da literatura que põe a emoção antes da palavra, a palavra antes da sintaxe, da sintaxe como torneio para o nada dizer. Por isso não gosto de Bilac, nem de Quintana. E não tolero o tolo Casimiro e duvido muito, mas muito mesmo, de quase todo o século XIX brasileiro. Quem nos salva o século é Machado, é Souzandrade e talvez a putaria explícita do único Guimarães possível, o Bernardo.

4

Cruz e Souza tinha pretensão demais, acabou poeta católico.

5

Cuidado, Adélia!


(oswaldo martins)

sábado, 7 de janeiro de 2017

duas desimitações desembestadas

desimitação de bukowsk

a conversar com as baratas e a ler um livro
para que ele o arrase, caro leitor
ou trançar metáforas fedorendas
loucas de bêbedas
caídas no porre

entre a cozinha atulhada de lixo
e com copos emborcados
corpos pelo sofá da sala
que não dá conta de si
como o algodão nas narinas do morto

pode dar conta de vencer a noite
seu tédio o que não fazer da vida

poesia é que não é
nem aqui nem na ali califórnia

(oswaldo martins)

desimitação de vinícius

uma copa de uísque
uma copa de árvore
uma copa de mulher

e o vomitório bêbado
das paixões platônicas
realizadas ou não

e o latinório fugaz
de quem com a língua
faz o que quer

supõe ao réu a dúvida
de ser no sovaco da menina
de Ipanema

o que designa a língua
quando se desata a fúria
deste meu cão engarrafado


(oswaldo martins)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

tourear com goya

para alexandre faria

a cena
sob o aluvião da dentadura
do cão no beiral dos estátuas

que se erigem por onde pastaram
os pastores do sr. tomás!
impede a deseducação dos conceitos

a teoria dos prazeres
que aponta abismos
e não certezas


(oswaldo martins)

goya

para geisa silva

francisco josé de goya y lucientes,
desde os rostos carcomidos
dos que na rua dançam
sob os sinistros sons

dom francisco,
luzente dor dos meninos e meninas
assassinados nos paredões das escolas

goya,
a lucidez do asco
em um país ocupado

dom josé,
a torta rua dos bueiros
em que dormem as crianças do abandono

dom francisco josé de goya y lucientes,
soltai vossos exus


(oswaldo martins)

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

experiência de viagem

1
o corpo verte olhos
quem se derrama
paisagem única

cumpre abismos
istmos debruados

quando sozinho o oceano
trafega nuvens

2
o retalho
de um tríptico

a medição do olhar
que navega livre

pelo desvão da casa
à rua

3
bate na cara
o ar

o desafeto do cabelo
é um risco mínimo

assombro
de um minuto


(oswaldo martins)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

da poesia

1
lirismo sacana

se explodir significa dizer
la petite mort

vá à merda e
afinal

vê se não fode

(oswaldo martins)

2
delicadeza lírica

ir à foda como se vai ao mar
para ser devorado por tubarõas


(oswaldo martins)

retrato

para joão simões fortini

1

por triste o sorriso
quem a seca
estende ao léu
o rosto

2

mas havia negativos
e inversas possibilidades
para o rosto
que reverbera em dry martini

3

ainda no reverso
advinda em lagos,
nigéria
ou na meca do capitalismo

4

podia a vida
mais que a vida pode
se as moças dançassem nuas
num cabaret de paris

5

ou no 69 barbacenense
a que se ia, de bicicleta
pelas bolhas da cerveja
e o lirismo que explodia


(oswaldo martins)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

notação

1

o avesso

talvez a janela despeje
pássaros de olhos assassinados
                                                                         
2

o relógio

você rodava sentadito
em uma gangorra da infância

3

o exato

quiçá fosse a manhã
a brancura das roupas sem sol maior

4

a casa

o assoalho rondava os ratos
que ávidos se faziam de mortos

5

a equação

o alarido do dia
explode fora dos silêncios

6

x

em uma igualdade de sentidos
apreendia-se o abismo


(oswaldo martins)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

tarde

1

a janela olha-me

diz-se olhar deste de delfos
o anúncio da tragédia

esperamos eu e ela
parado no ar

o grito


2

nada se vê
nem o ela eu

nem o arcabouço
do tempo

tirésias da nulidade

3

a distância com que
olhamos

não é
sequer um após

o apostema
que guardamos

não se revela


4

o que
olhamos

seca as mãos no guardanapo
a aspereza

do que não se diz
do que embora se saiba

5

o resto
soluções brutas

para que a vida siga
sem a janela

que olha



(oswaldo martins)

quarta-feira, 20 de julho de 2016

desimitação de leopardi

no cós a navegar delírios saltam
flores como se em roda rendada
a saia dançasse por si o transpor
os dados os dedos que não mais

se acham infinitos os olhos sobre
as sebes indagam do branco lago
onde pousada face que se busca
no umbigo ou qualquer outra luz

dolce far niente dos cabelos que
em fogo atestam as labaredas do
nó de peito que se desata e mói

o estancar das bridas que o cós
a saia pelo infinito do naufrágio
da tristeza que neste mar dança

por dançar


(oswaldo martins)

sexta-feira, 15 de julho de 2016