domingo, 14 de junho de 2026

trágico 1


na cena do nada

o menos ainda

canta

 

o além desta mínima

subtração subjaz

cena calada

 

talvez o pulo de um gato

nas palavras do abismo

sábado, 13 de junho de 2026

13 de junho


No dia em que meu pai morreu,

soltaram fogos

na manhã fria,

nas montanhas, 

no Rio.

 

De tarde, o Brasil disputaria

a primeira partida

da Copa do Mundo de 2006

contra a Croácia.

 

Meu pai, que detestava a politicagem

da religião e do futebol.

 

Nas igrejas do centro, os padres

abençoavam aqueles

que imploravam pela ajuda de Santo Antônio,

o casamenteiro, aqueles

que precisavam encontrar um parceiro.

 

Meu pai, que levava o nome do santo,

mas tinha uma alma assombrada por falhas

e por curiosidade, um disfarçado desespero.

 

As ruas brilhavam com a lama

que vinha de dentro,

um rio havia transbordado à noite

naquele inverno.

 

O asfalto cansado ancorou meu choque

à sombra da minha floresta.

 

Meu pai tinha morrido.

 

Os homens que vieram vesti-lo no hospital

esconderam um rádio portátil que transmitia

a partida, a cabeça dele logo abaixo do apetrecho,

a tática deles funcionando,

suave e abrupta — como o silêncio dentro

do corpo.

 

Eles o preparavam para uma viagem

que, para nós, começava apenas. Eu esperava

silêncio.

 

Surpresa, ouvi o som do rádio deles,

achei o rádio ali dentro. Surpresa,

acompanhei as mãos deles, a habilidade

com que moviam as cores, contra

a nudez do branco.

 

Surpresa, fui eu

quem pediu desculpas.

(Lúcia Leão)