segunda-feira, 21 de setembro de 2026

o cadáver insepulto

suposta madrugada sem lustre

o gato ante o fenômeno livre

tem olhos postos no balaústre

ele o gato escuso de um alpivre

 

a imagem dúbia sobre tal crivo

a estática aldeia a um grito

do homem a fatídica mira

tocata sob o tanger da lira

 

o alpivre – agora gato torto

brilha – antes o que fora e seca

a pata inerte a folha cresta

 

mimetismo cru sem as arestas

nem ataúde-nós, a nua charneca,

onde antígone sepultou o morto

 


terça-feira, 25 de agosto de 2026

metafórica da gaveta

 

o absconso da negativa

surte no carambolar dos atros

preso em si deriva pó

em surto de urgência

 

uma gaveta, por exemplo,

acavala sobre a mão

pequenos grãos

 

o pequeno caos

arranja em nódoa

as certezas múltiplas

naquilo que nunca

 

em tango argentino

faz dançar a desluz

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

a ilha


no entanto a cidade

se sustenta

suas praias sua arquitetura

de morar

 

cava com os pés

a dignidade da negação

oculto o mundo

a clara luxuria

 

da ilha banhada de sol

sexta-feira, 10 de julho de 2026

muros

 

demudam o que aquém

o que além

 

entre o nem lá

nem cá

 

a sombra assoma

sobre os dois lados

 

deixa o quieto existir

em sobrevoo atento

 

de pássaro oco



domingo, 14 de junho de 2026

trágico 1


na cena do nada

o menos ainda

canta

 

o além desta mínima

subtração subjaz

cena calada

 

talvez o pulo de um gato

nas palavras do abismo

sábado, 13 de junho de 2026

13 de junho


No dia em que meu pai morreu,

soltaram fogos

na manhã fria,

nas montanhas, 

no Rio.

 

De tarde, o Brasil disputaria

a primeira partida

da Copa do Mundo de 2006

contra a Croácia.

 

Meu pai, que detestava a politicagem

da religião e do futebol.

 

Nas igrejas do centro, os padres

abençoavam aqueles

que imploravam pela ajuda de Santo Antônio,

o casamenteiro, aqueles

que precisavam encontrar um parceiro.

 

Meu pai, que levava o nome do santo,

mas tinha uma alma assombrada por falhas

e por curiosidade, um disfarçado desespero.

 

As ruas brilhavam com a lama

que vinha de dentro,

um rio havia transbordado à noite

naquele inverno.

 

O asfalto cansado ancorou meu choque

à sombra da minha floresta.

 

Meu pai tinha morrido.

 

Os homens que vieram vesti-lo no hospital

esconderam um rádio portátil que transmitia

a partida, a cabeça dele logo abaixo do apetrecho,

a tática deles funcionando,

suave e abrupta — como o silêncio dentro

do corpo.

 

Eles o preparavam para uma viagem

que, para nós, começava apenas. Eu esperava

silêncio.

 

Surpresa, ouvi o som do rádio deles,

achei o rádio ali dentro. Surpresa,

acompanhei as mãos deles, a habilidade

com que moviam as cores, contra

a nudez do branco.

 

Surpresa, fui eu

quem pediu desculpas.

(Lúcia Leão)

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

amor

 

não o antes nem o depois

os traços ficam

quando o nós desatamos

 

os lassos olhos no anteparo

da tela leitosos e perdidos

nos domínios do vazio

 

ficam a rodar a cena mesma

sem retrocesso ou avanço

nós que fôramos os únicos


a notá-la a moça cega

e o mendigo que lhe entrega

as flores de seu saque

quarta-feira, 25 de março de 2026

A angústia do besouro

 A angústia do besouro

nos desmente

 

sua angústia

é terrível,

 

mas ele é inocente,

porém o aspecto

 

pré-histórico

de exoesqueleto

 

(sua carcaça)

induz a ser presa

 

a pensar em trapaça.

Triste, ele agoniza

 

a agonia angustiante

dos bovinos

 

suas asas

pesam pedras inúteis

 

seus élitros

o imobilizam tornam-se

 

o anti-voo

uma terrível angústia

 

nas pernas imploram:

um papel! Uma pedra

 

que me desvire!

Cruéis

 

negamos

e ele agoniza de angústia

 

...

 

pela manhã

o encontramos

 

morto

não foi inanição sede ou febre

 

foi exaustão existencial.

Foi angústia


(Lúcio Autran)