quarta-feira, 16 de junho de 2021

1º combate

 

sob a terra arrastam-se as sandálias

a disforme procissão a bandeira ergue

com paus e pedras ao comando-águia

do beatinho avançam os sacerdotes

 

da caatinga – todos cavam ladainhas

nas trincheiras canções de véspera

ecoam sob o chap chap absconso

com que anunciam loas ao bom-jesus

 

arrepanham as calças a cabeça-peso

desvaria atulhada do sono da pedra

sob o setentrião o assalto toma-os

oriente- se, rapaz junto às armas

 

para sempre imagens da nulidade

ante o arrastar-se que desvela a estes

e àqueles a pungente dança-dança

do coreógrafo neste baião de 2

 

por dançar

 

(oswaldo martins)

quinta-feira, 10 de junho de 2021

descanso

 

o mar traz facas de arbustos tortos

iridescências de rubros cortes

faz o sol brilho de perdidos portos

ao navegar o seca-chão nordeste

 

o alferes wanderley boné de lama

coberto escarra escaras a suja boca

da montaria desdobra com a fama

um espécime de museu entoca

 

nos fraguedos o arcabouço rijo

ventre plena imagem de cuja morte

retorta amplitude deste mar adrede

 

à vala comum soma do deus frígio

o verme da matéria em sua coorte

de bacantes crinas ao vento-letes

 

(oswaldo martins)

segunda-feira, 7 de junho de 2021

desimitações


 

poema do livro desimitações


 

o boi-pedra

 

um boi planta-se a meio

fixo como uma pedra

coça-se nas urtigas

 

seco na terra tora

meia-légua depois

cansaço de penas

 

ao céu na beira

mágoa as patas

em estira-rabo

 

rubicundo umbigo

pulsar de bicos

avoantes biltres

 

coça nas feridas

não fossem homens

que de longe viessem

 

tangê-los no aboio

subiam bambos

até o belo monte

 

(oswaldo martins)

quinta-feira, 22 de abril de 2021

cão - poema inédito

1

restolho de palavras simples

compõe a sintaxe do dia

 

2

ante o deslizante

a trava do silêncio

 

3

o trator

rumoreja

 

rua das cidades

campo de infertilidades

 

mais alguns ficam

sem teto  

 

4

o inédito

não dá crédito ao que

sequer ao como

 

não-dizer

 

5

o rumor desdeixa-se

prato servido por gueixas

 

o logro do logos

sim

 

sobretudo a perversidade

dos que preferem urtigas

 

6

o mundo, meu irmão,

hipócrita meu

 

fugiu das tretas

para a claridade trevosa

 

das telas

cuidadosamente

 

7

patíbulo e tédio

o tão bonitinho

 

da propaganda

prepara o salto

 

do 13º andar

do século

 

 

8

imagina, querida

apenas o corpo

 

esquece a alma

as figurações

 

de casanova

tangem na curva

 

do corpo

o que deveria ser

 

9

quem pede tem preferência

quem desloca recebe

 

filosofia de sintaxes

sempiternas

 

retrato da gioconda

 

10

na praia

tem a areia

 

areia entra

 

buraco e boca

de siri

 

(oswaldo martins)

quinta-feira, 15 de abril de 2021

cais

levanto para o caos

balões alcançam olhos

em zoom a plataforma

evasiva de uma quadra

 

os braços caem

ao longo do corpo

 

alguém dança-bundinha

salta sobre o outro –

suicídios na esquina

depois silêncios vastos

 

a superfície dispõe

sua última dimensão

(oswaldo martins)

quinta-feira, 25 de março de 2021

inserção 11 do desimitações

 

11

no país que trocou a rica cultura nordestina

pela universitária música do agronegócio

o compositor pelo cantor de churrascaria

o operário pelo patronato

a poesia só poderia ser o que é