eis a nota obscura:
nela o silêncio da cidade
os ladrilhos apagaram-se
sem que se desse por eles
os gritos batalhas surdas
o tartamudeio que ao longe
retalhos de vidros
os mortos insepultos
a sobra das mãos
a sombra sem êxito
do desterro
Oswaldo Martins. Poeta e professor de literatura. Autor dos livros desestudos, minimalhas do alheio, lucidez do oco, cosmologia do impreciso, língua nua com Elvira Vigna, lapa, manto, paixão e Antiodes, com Alexandre Faria. Editor da TextoTerritório
eis a nota obscura:
nela o silêncio da cidade
os ladrilhos apagaram-se
sem que se desse por eles
os gritos batalhas surdas
o tartamudeio que ao longe
retalhos de vidros
os mortos insepultos
a sobra das mãos
a sombra sem êxito
do desterro
suposta madrugada sem lustre
o gato ante o fenômeno livre
tem olhos postos no balaústre
ele o gato escuso de um alpivre
a imagem dúbia sobre tal crivo
a estática aldeia a um grito
do homem a fatídica mira
tocata sob o tanger da lira
o alpivre – agora gato torto
brilha – antes o que fora e seca
a pata inerte a folha cresta
mimetismo cru sem as arestas
nem ataúde-nós, a nua charneca,
onde antígone sepultou o morto
o absconso da negativa
surte no carambolar dos atros
preso em si deriva pó
em surto de urgência
uma gaveta, por exemplo,
acavala sobre a mão
pequenos grãos
o pequeno caos
arranja em nódoa
as certezas múltiplas
naquilo que nunca
em tango argentino
faz dançar a desluz
no entanto a cidade
se sustenta
suas praias sua arquitetura
de morar
cava com os pés
a dignidade da negação
oculto o mundo
a clara luxuria
da ilha banhada de sol
demudam o que aquém
o que além
entre o nem lá
nem cá
a sombra assoma
sobre os dois lados
deixa o quieto existir
em sobrevoo atento
de pássaro oco
na cena do nada
o menos ainda
canta
o além desta mínima
subtração subjaz
cena calada
talvez o pulo de um gato
nas palavras do abismo
No dia em que meu pai morreu,
soltaram fogos
na manhã fria,
nas montanhas,
no Rio.
De tarde, o Brasil disputaria
a primeira partida
da Copa do Mundo de 2006
contra a Croácia.
Meu pai, que detestava a politicagem
da religião e do futebol.
Nas igrejas do centro, os padres
abençoavam aqueles
que imploravam pela ajuda de Santo Antônio,
o casamenteiro, aqueles
que precisavam encontrar um parceiro.
Meu pai, que levava o nome do santo,
mas tinha uma alma assombrada por falhas
e por curiosidade, um disfarçado desespero.
As ruas brilhavam com a lama
que vinha de dentro,
um rio havia transbordado à noite
naquele inverno.
O asfalto cansado ancorou meu choque
à sombra da minha floresta.
Meu pai tinha morrido.
Os homens que vieram vesti-lo no hospital
esconderam um rádio portátil que transmitia
a partida, a cabeça dele logo abaixo do apetrecho,
a tática deles funcionando,
suave e abrupta — como o silêncio dentro
do corpo.
Eles o preparavam para uma viagem
que, para nós, começava apenas. Eu esperava
silêncio.
Surpresa, ouvi o som do rádio deles,
achei o rádio ali dentro. Surpresa,
acompanhei as mãos deles, a habilidade
com que moviam as cores, contra
a nudez do branco.
Surpresa, fui eu
quem pediu desculpas.
(Lúcia Leão)
não o antes nem o depois
os traços ficam
quando o nós desatamos
os lassos olhos no anteparo
da tela leitosos e perdidos
nos domínios do vazio
ficam a rodar a cena mesma
sem retrocesso ou avanço
nós que fôramos os únicos
a notá-la a moça cega
e o mendigo que lhe entrega
as flores de seu saque