terça-feira, 25 de agosto de 2026

metafórica da gaveta

 

o absconso da negativa

surte no carambolar dos atros

preso em si deriva pó

em surto de urgência

 

uma gaveta, por exemplo,

acavala sobre a mão

pequenos grãos

 

o pequeno caos

arranja em nódoa

as certezas múltiplas

naquilo que nunca

 

em tango argentino

faz dançar a desluz

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

a ilha


no entanto a cidade

se sustenta

suas praias sua arquitetura

de morar

 

cava com os pés

a dignidade da negação

oculto o mundo

a clara luxuria

 

da ilha banhada de sol

sexta-feira, 10 de julho de 2026

muros

 

demudam o que aquém

o que além

 

entre o nem lá

nem cá

 

a sombra assoma

sobre os dois lados

 

deixa o quieto existir

em sobrevoo atento

 

de pássaro oco



domingo, 14 de junho de 2026

trágico 1


na cena do nada

o menos ainda

canta

 

o além desta mínima

subtração subjaz

cena calada

 

talvez o pulo de um gato

nas palavras do abismo

sábado, 13 de junho de 2026

13 de junho


No dia em que meu pai morreu,

soltaram fogos

na manhã fria,

nas montanhas, 

no Rio.

 

De tarde, o Brasil disputaria

a primeira partida

da Copa do Mundo de 2006

contra a Croácia.

 

Meu pai, que detestava a politicagem

da religião e do futebol.

 

Nas igrejas do centro, os padres

abençoavam aqueles

que imploravam pela ajuda de Santo Antônio,

o casamenteiro, aqueles

que precisavam encontrar um parceiro.

 

Meu pai, que levava o nome do santo,

mas tinha uma alma assombrada por falhas

e por curiosidade, um disfarçado desespero.

 

As ruas brilhavam com a lama

que vinha de dentro,

um rio havia transbordado à noite

naquele inverno.

 

O asfalto cansado ancorou meu choque

à sombra da minha floresta.

 

Meu pai tinha morrido.

 

Os homens que vieram vesti-lo no hospital

esconderam um rádio portátil que transmitia

a partida, a cabeça dele logo abaixo do apetrecho,

a tática deles funcionando,

suave e abrupta — como o silêncio dentro

do corpo.

 

Eles o preparavam para uma viagem

que, para nós, começava apenas. Eu esperava

silêncio.

 

Surpresa, ouvi o som do rádio deles,

achei o rádio ali dentro. Surpresa,

acompanhei as mãos deles, a habilidade

com que moviam as cores, contra

a nudez do branco.

 

Surpresa, fui eu

quem pediu desculpas.

(Lúcia Leão)

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

amor

 

não o antes nem o depois

os traços ficam

quando o nós desatamos

 

os lassos olhos no anteparo

da tela leitosos e perdidos

nos domínios do vazio

 

ficam a rodar a cena mesma

sem retrocesso ou avanço

nós que fôramos os únicos


a notá-la a moça cega

e o mendigo que lhe entrega

as flores de seu saque

quarta-feira, 25 de março de 2026

A angústia do besouro

 A angústia do besouro

nos desmente

 

sua angústia

é terrível,

 

mas ele é inocente,

porém o aspecto

 

pré-histórico

de exoesqueleto

 

(sua carcaça)

induz a ser presa

 

a pensar em trapaça.

Triste, ele agoniza

 

a agonia angustiante

dos bovinos

 

suas asas

pesam pedras inúteis

 

seus élitros

o imobilizam tornam-se

 

o anti-voo

uma terrível angústia

 

nas pernas imploram:

um papel! Uma pedra

 

que me desvire!

Cruéis

 

negamos

e ele agoniza de angústia

 

...

 

pela manhã

o encontramos

 

morto

não foi inanição sede ou febre

 

foi exaustão existencial.

Foi angústia


(Lúcio Autran)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Pilulinha para Yasmina Reza

 

O livro Felizes os felizes de Yasmina Reza é um livro sobre a finitude. Os 21 contos/capítulos tratam de relações que na quietude do espírito se despedem do que foram e não apontam quaisquer outros destinos. São mônadas que giram em torno de si mesmas, sem que haja um raio de luz que as ordene ou a elas tragam significados renováveis. São o que são, numa clara tautologia do sentido da vida.

 

As personagens vão e voltam sem saírem do lugar. Na vasta gama de pessoas que desfilam seu tédio por este livro, há jovens que só se aceitam como outro, velhos à beira da morte e casais ora formados ora deformados pelo cotidiano, cinzas que são espalhadas aqui e ali, um jovem médico que vive de michês e que cuida da morte em situação paliativa, um libertino que não é frusta quem com ele se envolve. Todo esse elenco, entretanto, alquebrado por uma metafísica descarnada, vive nela e fora dela.

 

A metafísica pressupõe um lugar de inquirição abstrata do sentido da vida e, por isso, serve para que quem indaga, de certa forma, busque alguma possibilidade que sustente o estar vivo, não na medida de se estar com as funções vitais funcionando bem, mais ou menos ou nas últimas, mas no de sentir-se capaz de gozo, de transformação, de saber ainda interessado pelo que se passa ao redor de si na enorme quantidade de fatos diversos que circundam os que se sentem vivos.

 

No livro de Yasmina Reza os fatos diversos são vários, mas todos eles postos na perspectiva da finitude, o que leva o leitor a certa complacência com este estar. A percepção que o leitor experimenta ao ler o livro parece mostrar a ele que seu mundo também se cria nesta metafísica descarnada, em que a civilização contemporânea (ou sempre foi assim?) se vê envolvida.

 

Ao criar um mundo sem perspectivas, a autora desenvolve sua percepção crítica e mostra um dos caminhos possíveis para o fazer ficcional.

 

(Oswaldo Martins)