na cena do nada
o menos ainda
canta
o além desta mínima
subtração subjaz
cena calada
talvez o pulo de um gato
nas palavras do abismo
Oswaldo Martins. Poeta e professor de literatura. Autor dos livros desestudos, minimalhas do alheio, lucidez do oco, cosmologia do impreciso, língua nua com Elvira Vigna, lapa, manto, paixão e Antiodes, com Alexandre Faria. Editor da TextoTerritório
na cena do nada
o menos ainda
canta
o além desta mínima
subtração subjaz
cena calada
talvez o pulo de um gato
nas palavras do abismo
No dia em que meu pai morreu,
soltaram fogos
na manhã fria,
nas montanhas,
no Rio.
De tarde, o Brasil disputaria
a primeira partida
da Copa do Mundo de 2006
contra a Croácia.
Meu pai, que detestava a politicagem
da religião e do futebol.
Nas igrejas do centro, os padres
abençoavam aqueles
que imploravam pela ajuda de Santo Antônio,
o casamenteiro, aqueles
que precisavam encontrar um parceiro.
Meu pai, que levava o nome do santo,
mas tinha uma alma assombrada por falhas
e por curiosidade, um disfarçado desespero.
As ruas brilhavam com a lama
que vinha de dentro,
um rio havia transbordado à noite
naquele inverno.
O asfalto cansado ancorou meu choque
à sombra da minha floresta.
Meu pai tinha morrido.
Os homens que vieram vesti-lo no hospital
esconderam um rádio portátil que transmitia
a partida, a cabeça dele logo abaixo do apetrecho,
a tática deles funcionando,
suave e abrupta — como o silêncio dentro
do corpo.
Eles o preparavam para uma viagem
que, para nós, começava apenas. Eu esperava
silêncio.
Surpresa, ouvi o som do rádio deles,
achei o rádio ali dentro. Surpresa,
acompanhei as mãos deles, a habilidade
com que moviam as cores, contra
a nudez do branco.
Surpresa, fui eu
quem pediu desculpas.
(Lúcia Leão)
não o antes nem o depois
os traços ficam
quando o nós desatamos
os lassos olhos no anteparo
da tela leitosos e perdidos
nos domínios do vazio
ficam a rodar a cena mesma
sem retrocesso ou avanço
nós que fôramos os únicos
a notá-la a moça cega
e o mendigo que lhe entrega
as flores de seu saque
A angústia do besouro
nos desmente
sua angústia
é terrível,
mas ele é inocente,
porém o aspecto
pré-histórico
de exoesqueleto
(sua carcaça)
induz a ser presa
a pensar em trapaça.
Triste, ele agoniza
a agonia angustiante
dos bovinos
suas asas
pesam pedras inúteis
seus élitros
o imobilizam tornam-se
o anti-voo
uma terrível angústia
nas pernas imploram:
um papel! Uma pedra
que me desvire!
Cruéis
negamos
e ele agoniza de angústia
...
pela manhã
o encontramos
morto
não foi inanição sede ou febre
foi exaustão existencial.
Foi angústia
(Lúcio Autran)
O livro Felizes
os felizes de Yasmina Reza é um livro sobre a finitude. Os 21
contos/capítulos tratam de relações que na quietude do espírito se despedem do
que foram e não apontam quaisquer outros destinos. São mônadas que giram em
torno de si mesmas, sem que haja um raio de luz que as ordene ou a elas tragam
significados renováveis. São o que são, numa clara tautologia do sentido da
vida.
As personagens
vão e voltam sem saírem do lugar. Na vasta gama de pessoas que desfilam seu tédio
por este livro, há jovens que só se aceitam como outro, velhos à beira da morte
e casais ora formados ora deformados pelo cotidiano, cinzas que são espalhadas
aqui e ali, um jovem médico que vive de michês e que cuida da morte em situação
paliativa, um libertino que não é frusta quem com ele se envolve. Todo esse
elenco, entretanto, alquebrado por uma metafísica descarnada, vive nela e fora
dela.
A metafísica
pressupõe um lugar de inquirição abstrata do sentido da vida e, por isso, serve
para que quem indaga, de certa forma, busque alguma possibilidade que sustente
o estar vivo, não na medida de se estar com as funções vitais funcionando bem,
mais ou menos ou nas últimas, mas no de sentir-se capaz de gozo, de
transformação, de saber ainda interessado pelo que se passa ao redor de si na
enorme quantidade de fatos diversos que circundam os que se sentem vivos.
No livro de Yasmina
Reza os fatos diversos são vários, mas todos eles postos na perspectiva da
finitude, o que leva o leitor a certa complacência com este estar. A percepção
que o leitor experimenta ao ler o livro parece mostrar a ele que seu mundo
também se cria nesta metafísica descarnada, em que a civilização contemporânea
(ou sempre foi assim?) se vê envolvida.
Ao criar um
mundo sem perspectivas, a autora desenvolve sua percepção crítica e mostra um
dos caminhos possíveis para o fazer ficcional.
(Oswaldo
Martins)
Quando me
transformei em leitor, fui sendo tomado por alguns autores em cujas obras
mergulhei, às vezes por meses a fio, de tal forma ficava encantado com o mundo
que se descortinava para mim e com a qualidade daquilo que lia, em detrimento
de obras francamente frágeis. Tempos depois voltei a esses autores para
usufruir em idade madura o que a impressão da primeira leitura causou em mim e
em minha escrita. Descobri lentamente o que significa escrever, a busca infernal
de um estilo próprio e das questões que tocam de perto meu modo de operação com
as palavras.
Foi assim com Dostoievski,
com Graciliano Ramos, com Machado de Assis, com João Cabral de Melo Neto, com
Thomas Mann, com Guimarães Rosa, com Manuel Bandeira, entre outros; o contato
com a obra de Autran Dourado foi um contato devastador, pois me revelou e me
revela a capacidade de a língua se elaborar próxima e distante, já que o
universo das Minas Geraes, comum à percepção próxima, vai ganhando contornos distantes
e cada vez mais surpreendentes, que me levaram ao sentimento do trágico e à
leitura dos autores gregos e à sutileza, por isso mais eficaz, do dizer sem
dizer, do tergiversar para tocar o cerne do sentido, como se no entremez se
revelasse o burlesco do mundo no plano geral da obra. A força da ironia, do
humor sem risos estava ali, estampada na obra do Mestre Imaginário, de vasta
aplicação.
Autran Dourado
escreveu numa época em que as percepções se estendiam para além do imediato, época
em que o passageiro passava ao largo e a invenção do ficcional se punha a
verificar não o serviço de uma moda, de uma temática demarcada de antemão. Por
exemplo, em Os Sinos da Agonia, o retrato de uma sociedade em vias de se tornar
outra toma, por dentro do pensamento das personagens, uma atualidade fortemente
marcada pela presença silenciosa das muitas injustiças que se construíram ao
longo da história e que no silêncio da ficção cobra o assombro de sermos quem
somos desde antes até o agora.
A obra
monumental de Autran Dourado não só é fundamental para ser lida nos dias de
hoje, como é tão mais importante para que aquele que se quer escritor. Se
Machado de Assis funda um modo de escrita até hoje insuperável no Brasil,
Autran Dourado é o escritor brasileiro mais próximo do que pode ser a
literatura que o Bruxo nos legou.
pernas de seda ajoelham mostrando geolhos
(cda– igrejas)
diz-se de um joelho de estátua
que anda pelas ruas
de um amor do que em paixão
fervente e louca cai
dos jornais depostos onde se lê
o nada temporal de tudo
do que ocluso no alongá-las
nasais ladeadas pelas densas
medidas informais
os corpos se entendem, mas as almas não
(arte de amar – manuel bandeira)
na ponta da língua a alma explode
depois sopra e vibra e torna a
soprar
contida pela fricção dos corpos
ulula muito antes do delírio
para explodir com a boca aberta
a lúcida algaravia
cobre este rosto de algures
os sintomas germinam cacos
talvez o outro e seu negativo
a foto não tirada ainda assim
abala, por exemplo, a sombra
do que se percebe e risca fio
contra fio do jamais existido
mas que plausível toca esta
a folha em que se exprime
quase ao risco da palavra
a tempestade inexpressa
e viva
o imperceptível tece legendas
as peles lentas se deformam
rios em seus sulcos
agudos seres sendo
cascas sob o intacto
do juízo cavam
depois expelem
as quelíceras fatais
das aranhas, por exemplo,
nem se notam quando preparam
a paralisia dos sentidos
forçam-nos ao esconso
sentido da vida