sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Meus mortos viverão através da lucidez


Lucidez do oco


Em 2004 publiquei o meu terceiro livro – lucidez do oco – pela 7 Letras. O livro viria a ser reeditado pela Editora TextoTerritório dez anos depois em 2014. São dez anos entre as duas edições e dezesseis até hoje. Quer parecer-me que o livro resiste ao bombardeio do tempo. Conto a seguir duas curiosidades acerca do livro.

 O título do livro seria fotografia de cadáveres; a editora tendo ponderado que um título desses seria mais difícil de vender, fiz a troca do título primeiro pelo atual. Se o título, a partir do qual o livro ficou editado, é um belo achado, perde o impacto imediato das abordagens que o nortearam e que estava ligado às diversas partes do livro e pelas perdas pessoais e anônimas que envolvem a morte próxima e coletiva, além da morte cultural. Refiro-me á morte de minha mãe, à guerra do Iraque e uma parte do livro em que a imaginação recria para pensar as mortes o filme feito por Glauber Rocha, no enterro de Di Cavalcante, além da morte da Minas drummondiana, em desminas.

 Os dez anos que se seguiram à publicação do livro foram anos de alguma esperança, melhora sensível na economia e alguma estabilidade emocional. Havia um país a construir, embora as sombras do país derruído em que se vive hoje já estivessem passeando sobre os cadáveres assassinados do período anterior. Fosse no Iraque, com a guerra estúpida do Srs. Bushão e Bushinho, fosse nos acontecimentos domésticos dos índios assassinados, dos negros vilipendiados, das mulheres trabalhadoras identificadas à prostituição, fosse nas concessões ao mercado, ao fortalecimento dos bancos.

As sombras sempre nos enovelam – hoje mais que nunca. Figuras como as que detém o poder aqui e alhures são execráveis, incultas e de péssimo caráter. Os seus gurus ideológicos, bestas humanas. Os seus representantes imediatos, bufões de quinta categoria. Seus seguidores, legião de incapazes. A esse grupo inumano interessa a morte, a tortura, o desaparecimento do outro. Por isso riem como nem os idiotas conseguem rir. Como ria Hermann Goering, na reunião com os empresários alemães que financiaram a estupidez fascista e com ela se locupletaram para além da guerra.

Se a eles aprestava a fotografia dos cadáveres, a lucidez do oco sobre a qual devemos nos debruçar se torna a reflexão necessária deste esvaziamento a que a sociedade é submetida, deste vender a alma que Klaus Mann retratou com ferocidade em Mephisto. Manter a lucidez, mesmo que as ações recaiam sobre o vazio, permite não deixar que as forças opressoras do humano se edifiquem em nós, nem como forma de desespero, nem como forma de salvar a pele, pois de resto o que nos resta está no persistir, para que possamos anunciar tempos mais justos, mais igualitários e menos preconceituosos.

Meus mortos viverão através da lucidez  

(oswaldo martins)

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