Oswaldo Martins. Poeta e professor de literatura. Autor dos livros desestudos, minimalhas do alheio, lucidez do oco, cosmologia do impreciso, língua nua com Elvira Vigna, lapa, manto, paixão e Antiodes, com Alexandre Faria. Editor da TextoTerritório
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Pilulinha 28
O Comedor de Salamanca, de Jorge
Fernandes da Silveira, editado pela Oficina Raquel, no final de 2012, é um
livro saboroso, que lembra as diatribes do poeta Oswald de Andrade,
principalmente nos recortes de seu Pau Brasil. Embora os cortes de Jorge sejam
outros, outra a extração e o interesse que busca, percebe-se, na intenção de
jogar com algumas das tradições que compõem o vasto repertório cultural
ibérico, a mão irônica com que o autor traça os poemas e textos do livro.
Na ironia algo sardônica com que
lê o mundo, num movimento pendular que ora evoca a formação sentimental, ora se
desloca para a visão do mundo contemporâneo em crise, a obra do autor se
escreve como a marca d’água com que pontua a sensação dos papéis que guardam os
segredos e suas autenticidades.
Desde logo está ali a mão que
orienta – e seduz – o leitor a descobrir um universo cuja melhor expressão se
encontra nas inversões percebidas e atualizadas daquilo que se vê, se viu, ao
longo do jogo lançado entre o narrar e poetizar a vida.
Leiam os belíssimos excertos
abaixo e provem desta criação feita de sutilizas e sensibilidade.
CARMEM
Na versão espanhola que vejo da
Carmem de Bizet do Ballet Flamenco de Madrid
Um Don José
tão soberbo
Absorvido de
tamanho erotismo
Que à Carmem
só lhe resta
O vermelho da
mantilha e do vestido
*
BUÑUELLAS
Recortados, de um só campo de
informação, ao longo do mês de maio ainda em curso, estes textos, além de
desfrutarem de variantes de sentido entre recorte e corte em castelhano e
português, mantêm em fogo alto a imagem geradora e coincidente de O Comedor de Salamanca
*
Releituras
As poéticas fora de lugar
Clássicos (no literariamente,
sino literalmente) Revisitados
__ Ondas do Mar de Vigo, cadê meu
Amigo?
__ Ué, sei lá!
(O Comedor de Salamanca)
Este, então, é de uma beleza poucas
vezes alcançadas pela moderna poesia brasileira.
(oswaldo martins)
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
9
o defunto dorme em caixas de fogo
fede e possui nas mãos carcomidas
pelos vermes tudo o que desafoga
desaparece da linha da hibris
e se deita com o cão rancoroso
das profundezas desumanas que
o deixam ali dormente nos ossos
nos olhos na boca e não mais que
corpo sem os adjetivos de um anjo
reluz sem brilho a pele secundada
do cortejo das baratas albinas
ele se vai sem os códigos-manto
a cama vazia o expresso do nada
que o anjo desbordado consolida
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Prosa 1
Se os conhecedores dessas línguas
individuais encontrassem o que dizer uns aos outros, que lhes fizesse sentido,
então também haveria esperança para nós, as criaturas humana comuns, a quem
falta a dignidade da loucura.
(Elias Canetti – Uma luz em meus
ouvidos)
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
noites
para Clarice Lispector
há noites em que deixo tudo arrumado
pratos copos talheres lavados.
há noites em que por perversão
a mim mesma
deixo tudo desarrumado
pratos copos talheres engordurados
o cinzeiro cheio de sarro.
elesbão ribeiro
20/01/13
capital
Night
after night to the farmer’s children you beckon
W.
H. Auden
a cidade pode sua berceuse quando
sai aos bares
as crianças ouvem-nas desatentas e
entoam
uma ladainha lúgubre
se falam do mar das areias finas
se falam de si mesmas em monótona
cantoria
estendem a mão para a punheta
debaixo das marquises
as damas ai jesus que passam andam
apressadas
para a garantia dos encômios da
comida
na mesa vão aos cinemas ao romper
da noite
e se encoxam solitárias quando a luz
se apaga
sonham as pequenas criaturas descalças
que acorrem
prestimosas quando uma nota de
enxovalhos
escorre na direção estúrdia do
banho em casa alheia
do pequeno café do bolo de mandioca
e da pequena morte
(oswaldo martins)
Poesia 2013 quatro
The Composer
All the others translate: the painter sketches
A visible world to love or reject;
Rummaging into his living, the poet fetches
The images out that hurt and connect.
From Life to Art by painstaking adaption
Relying on us to cover the rift;
Only your notes are pure contraption,
Only your song is an absolute gift.
Pour out your presence, O delight, cascading
The falls of the knee and the weirs of the
spine,
Our climate of silence and doubt invading;
You, alone, alone, O imaginary song,
Are unable to say an existence is wrong,
And pour out your forgiveness like a wine.
W. H. Auden
*
O Compositor
Todos os outros
traduzem: esboça o pintor
Um mundo visível que se
ama ou detesta;
Vasculhando a
existência, captura o poeta
As imagens que unem e
que causam dor.
Da Vida à Arte em
morosa adaptação
Que a nós exige suprir
a omissão;
Só as tuas notas são
engenho impoluto
Só o teu canto é um
talento absoluto.
Verte, ó Prazer, tua
presença, cascateando
Nas cachoeiras do
joelho, sobre o dorso;
O nosso silêncio e
suspeita conquistando.
Só tu, só tu, Ó
imaginária canção,
Não dizes nunca que uma
vida é um destroço,
E como um vinho vertes
o teu perdão
“Outro Tempo”
Tradução de Margarida
Vale do Gato
domingo, 20 de janeiro de 2013
Poesia 2013 três
circum-lóquio
(pur troppo non allegro)
sobre o neoliberalismo
terceiro-mundista
laisser faire laisser
passer
1.
o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha
2.
o neoliberal
neolibera
o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?
3.
no céu neon
do neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super
(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas
(flutuantes)
do câmbio:
enquanto o não
- neoliberado
come pão
com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidrobanheira cor
de âmbar
de sua neo-
mansão em miami
4.
o centro e a direita
(des)conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís-
tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números
5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
dede que circule
autoregulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.
6.
(a
contramundo
o mundo-não
-mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus mamonas)
7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre - festa estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)
Haroldo de Campos
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Pilulinha 27
Não
conhecia a poesia de Plínio Junqueira Smith, autor do curiosíssimo Corpo Estranho, editado pela Alameda Casa Editorial.
Os poemas revelam a presença de uma ironia fina, sintonizada aos problemas cada
vez mais urgentes da vida contemporânea. Na sintomatologia dos poemas, a
sociedade adoecida apresenta como correlatos do corpo invadido os versos da
aguda ironia com que se desmistificam os pruridos da doença. Desde a prosaica
dor de dente às agruras dos pólipos a serem combatidos pelo humor poético.
A
presença constante da morte – que só se realiza, sem se realizar, no último
poema do livro é o mote através do qual o indivíduo se vê perdido numa sociedade
agônica e limítrofe e a ela responde, com os motejos do riso. Se a
representação poética se aproxima das representações ficcionais, o que se
revela no livro do poeta não é propriamente um discurso sobre a morte, mas a
sua contraparte, discurso eivado das dores vivenciais que o impulsionam ao
combate subjacente a toda experiência do ser frente aos limites que se lhe impõem.
A ironia funciona como um regulador que se desloca do pessimismo agudo à
vontade contida no desejo de rir do mundo e de seus limites. Entre estes dois
polos o instrumento de combate, como o afirma o poeta logo no primeiro poema do
livro, estaria numa inusitada receita – o próprio poema.
Placebo?
Acometido
de muitas e graves doenças
—
Sem esperança, um dos males de Pandora —
Submeti-me,
voluntariamente,
A
metódica pesquisa médica.
Uma
doutora alta, cabelos negros e curtos
Com
olhos penetrantes e lábios finos
—
Em suma, uma perfeita musa —
Viu
em mim todas as enfermidades
E
receitou-me antigo e incerto remédio: a poesia
Esperando
minha evolução para melhor avaliar o tratamento:
Eficácia,
efeitos colaterais, interações medicamentosas.
Tomei-a
diariamente, como recomendado.
Quero
confessar, hoje, com sinceridade:
Não
sei se me puseram no grupo controle
E
se ingeri somente inócuo placebo
Em
vez de poderosa substância química.
O
fato é que, de algumas doenças,
Melhorei
e julgo-me curado.
Ainda
padeço daquela doença fundamental:
A
existência e os afazeres do dia-a-dia.
A
musa-médica, à qual o eu-lírico se entrega e a descreve com malícia, é na
medida mesma do desejo o que se contrapõe ao esquadrinhamento médico que vê
nele “todas as enfermidades”. A receita – prosaica – faz com que o eu poético,
ao se julgar curado, padeça da doença fundamental que se resume no belo verso “A
existência e os afazeres do dia-a-dia”. Ora, o paradoxo que se coloca está
claro e vai orientar o leitor na travessia dos poemas “adoentados” do resto do
livro. A pulsão que o orienta – ao falar da morte – é necessariamente a pulsão
da vida que se imiscui no cotidiano e nos faz olhar a doença com desconfiança,
contaminando toda a existência deste olhar irônico sobre a infalibilidade da
morte.
(oswaldo
martins)
PEDRAS NA VESÍCULA
Eu não poderia me
imaginar tendo dores terríveis e,
enquanto durassem, me transformar numa pedra?
Wittgenstein
No princípio era a imagem:
Uma ressonância magnética
Com seu ruído ensurdecedor
De engrenagens sem graxa.
Outra imagem mais precisa:
Um ultrassom silencioso
Confirma em tom cinza
Prévia e infame suspeita.
A inflamação da vesícula
Resulta da pura realidade:
A pedra, seu real símbolo
É aqui somente pedra
Não a pedra-metáfora
Não a litografia da ciência
Mas o pedregulho vulgar
Com sua cláusula pétrea.
E a dor da pedra-pedra
É a própria pedra em flor
Desabrochando suas pétalas
Deitando raiz no meu âmago.
Plínio Junqueira Smith - Corpo Estranho
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