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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A explicação do poema

EX/PLICAÇÃO

não há um
sentido único
num
poema

quando alguém
começa a ex-
plicá-lo e
chega ao fim
en-
tão só fica o
ex
do ponto de
partida

beco

(tente outra
vez)

sem saída


Haroldo de Campos

domingo, 20 de janeiro de 2013

Poesia 2013 três


circum-lóquio 
(pur troppo non allegro)
 sobre o neoliberalismo 
terceiro-mundista

laisser faire laisser passer

  1.
o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha

   2.

o neoliberal
neolibera
o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?

   3.
no céu neon
do neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super
(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas
(flutuantes)
do câmbio:

enquanto o não
- neoliberado
come pão
com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidrobanheira cor
de âmbar
de sua neo-
mansão em miami

     4.

o centro e a direita
(des)conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís-
tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números

   5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
dede que circule
autoregulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.

   6.
(a
contramundo
o mundo-não
-mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus mamonas)

   7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre - festa estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)


Haroldo de Campos

sábado, 22 de maio de 2010

BERE’SHITH II

A SEGUNDA HISTÓRIA DA CRIAÇÃO


5.
E nenhum § arbusto do campo §
ainda não era sobre a terra §§
e nenhuma erva do campo §
ainda não brotara §§§
Pois não fizera chover §
O–NOME–DEUS § sobre a terra §§
E homem nenhum §
Para cultivar § a terra–húmus

6.
E uma névoa §
ia subindo da terra §§§
E umedecia §
toda a face da terra – húmus


7.
E afigurou O–NOME–DEUS § o homem §
§ da terra–húmus §§
e inspirou em suas narinas §
o respiro dos vivos §§§
e ficou sendo o homem § alma–de–vida

8.
E plantou § O–NOME–DEUS §
um jardim no Éden § a leste §§§
E pôs ali §§
O homem § o qual afigurara

9.
E fez brotar § O–NOME–DEUS §
da terra–húmus §§
toda árvore § aprazível de ver §
e boa de comer §§§
E a árvore–da–vida § no meio do jardim §§
E a árvore §§ do saber § do bem e do mal

10.
E um rio § saía do Éden §§
para umedecer § o jardim §§§
E dali § se dividia §§
em quatro cabeceiras–rio

11.
O nome de um § Pishon O–que–salta §§§
Ele circunda § toda a terra de Havilá §§
na qual § há ouro

12.
E o ouro § daquela terra lá §
é bom §§§
e há bdélio e pedra–ônix

13. E o nome do segundo rio §
é Guihon o–que–jorra §§§
Ele circunda §§ toda terra de Kush

14.
E o nome do terceiro rio §
é Hidéquel o Tigre §§
ele vai § a leste de Assur §§§
E o quarto rio § o Eufrates

15.
E tomou § O–NOME–DEUS § o homem §§§
E o fez repousar no jardim do Édem §§
Para cultivá-lo § e guardá-lo

16.
E ordenou § O–NOME–DEUS §§
ao homem § dizendo §§§
De toda árvore do jardim § comerás poderás comer

17.
E da árvore § do saber § do bem e do mal §§
dela § não comerás §§§
Pois § no dia § em que dela comeres §
à morte morrerás

18.
E disse § O–NOME–DEUS §§
não é bom § estar o homem § à parte §§§
Farei para ele uma parceira §
a par dele

19.
E afigurou O–NOME–DEUS §§
da terra–húmus § todo animal do campo §
e § toda ave do céu §§
e os fez vir § até o homem §§
para ver § como ele os chamaria §§§
E todas § como as chamasse o homem §
almas–de–vida § assim seu nome.

( Transcriações de Haroldo de Campos – ÉDEN – um tríptico bíblico)

sábado, 20 de dezembro de 2008

Poema do dia

Tenzone

um ouro de provença
(ora direis) uma doença
de sol um sol queimado
desse vento mistral (que doura e adensa)
provedor de palavras sol-provença
ponta de diamante rima em ença
como quem olha a contra-sol
e a contravento pensa.

(Haroldo de Campos - a educação dos cinco sentidos)