quarta-feira, 21 de março de 2018

xou da xuxa – o ovo da serpente



estavam abertas as portas
e ela chupava o pirulito bá-om bá-om
a linguinha esperta percorria o pra lá pra cá do deleite baboso

estavam abertas as portas e pelo queixo no sinal luminoso
escorria a cantoria cega do chup-chup que a menininha
na aziaga travessia sugava

estavam abertas a portas para a pequenina idiota
que se mirava na exemplaridade da moça
de salto alto e anúncios luminosos

estavam abertas as portas e as potências do horror

(oswaldo martins)

sábado, 10 de março de 2018

isshi nobuo

Resultado de imagem para isshi nobuo

o gata de isshi nobuo


no equilíbrio de pedra
as disposições ternárias
deste gata

múltiplas hastes
o sustentam nela
afiadas

orelhas captam
de isshi nobuo
o assombro-gata

a parir as belezas
de cio

(oswaldo martins)

terça-feira, 6 de março de 2018

largo do machado


3

largo do machado

vozes altercavam sustos comezinhos. a casa do noca, o papagaio acordado antes da hora, passos. um zumbido constante como que rompia o freio dos ônibus. e o velho, os velhos.

vozes disputavam bugigangas a um real. limpo de manhã e vento, o moço louro. mexericos subiam e desciam como um pregão a anunciar o início dos dias. truco de caras ríspidas.

vozes iludiam o silêncio monocórdias. qual lúcida trombeta, raspavam pratos, dedilhavam cordas. por um segundo, a praça estancada. o som daquela gaita que um velho explodia com sua barba de dez centavos.


(oswaldo martins)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

26 poemas hoje


2

os dentes novos se apertavam uns contra os outros.  trincava, senão a cara, a tensão das armas. o ruído da rua, como o de um pássaro na espera da primeira bomba em bagdá, importava pouco.

os dentes trincados, a cara enfezada. o denodo da ingerência e o riso perdido na mesma imagem com que a soldadesca alheia faz explodir damasco.

os dentes turvos, a cabeça baixa e o surto de cólera contido, a mão pendida entre o afastamento da mãe e o adeus interrompido, quando, no jacaré, fotografam do pai sua infância atalhada.

(oswaldo martins)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

26 poemas hoje


1

sentada sobre si mesma olhava as sandálias que cruzavam as calçadas; com displicência, fingia desconhecer os pés dos que passavam, dos que apagavam o cigarro, dos que se contorciam ao andar, dos que gesticulavam sozinhos.

sentada sobre si mesma – as pernas cruzadas – em um dos seios, uma criança fartava-se ; às vezes seu olhar deixava de perquirir a rua, fingia concentrar-se na criança que trazia ao colo.

a perna balançava e lentamente o olhar se perdia. não mais a rua, não mais o movimento da rua, nem mesmo a criança; em gesto íntimo, para dentro de si mesma, olhava aquela mãe atônita.

(oswaldo martins)

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

cinco estudos para a nudez de brian catelle

1

o corpo se retorce nas ameias
do abandono

os castelos derreiam imagens
na incrustação da pedra bruta

que a lente antes de lapidar
distorce em ereta curvilínea

nudez

2

a oficina de andrajos
cujos objetos

formam fotografias e cadáveres
não fosse por entre eles

a mulher em viagem
nas tripas do abismo

resinificado


3

em uma teoria da resina
o ardil de metais e lixo

o corpo móvel
e este velo

vinho das civilizações

a curtir o momento
de se exarar o licor


4

num canto do quarto
ante a centralidade da cama

a luz esconde o estouro
da paisagem

as urbanas criaturas

5

o desejo do abismo refreia-se
algo ali há além das estacas

uma curva que nos leva
à queda do telhado

da casa em sua dúbia sustentação
de linhas retas


(oswaldo martins)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Excerto do MUIMBU

#
o gusa gosta de comer
o sacrifício do bode

se o inhame está cozido
o gusa também aprecia

#
arrojado

toma a coroa e não usa
sobe os córneos dos carneiros

se te amam ai gusa
fazem do cortejo dos cães

o apelo que salva os pescoços

(MUIMBU – ANDRÉ CAPILÉ)


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

peripatético

desde a visão perdida o manco paladar
impõem-se substratos para a viagem do nada
podem os aviões jungidos soltos no ar
a justeza inadequada, a ceifa que carda

aqueles, menipos vácuos, cujos atalhos
vedados irradiam nenhum sol alguma lâmina
que à messe se contraponha em refolhos falhos
 – o ecoo da perdida contraluz abomina

os do horizonte caçados se lobo o espécime
o ser estrangido na cabeça das nuvens
se bobo o ser sereno se a calma –  das forjas

advém da visão o abismo o mar votivo sublime
decair das alturas em terra firme e nua
cujo manto o último sentido escorja


(oswaldo martins)

moção

para meus pais

toda palavra é possível em nós,
toda marinha do desassossego
as tormentas todas do mar e após
a ânsia, o perigo, o céu espesso;

toda palavra é possível no cais
do desembarque, onde nossas rugas
se rasgam pelas ruas sem que jamais
os passos indiquem calor e fuga

por isso busco o que buscam os homens –
porto nenhum de chegada – partida
circular em torno de um mesmo cais,

de um mesmo assombro; sobre os armazéns
sombra sombras nossas sombras fatídicas
do que queríamos e não somos mais.

(do lucidez do oco - oswaldo martins)