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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O erótico como formulação da mimesis


Se o erótico emula as relações da natureza; na sua porção escrita, literária, o erotismo se transveste de palavras e não de atos, daí que tomar o texto erótico como formulação da excitação, permissiva do ato em si, solitário ou não, só pode acontecer quando o texto se torna a emulação dos desejos postos à flor da pele, ou seja, quando o texto solapa sua qualidade literária e se propõe não intermediado pela reflexão, mas pelos sentidos.

O texto intermediado pelos sentidos acontece nas flores já sabidas que João Cabral, em o Ferrageiro de Carmona, desconsidera como poesia, isto é, são textos que se escrevem com o mais tênue dos sentidos cotidianos. O texto erótico que se fixa na qualidade da trepada e a incentiva, que se cola nos hábitos das civilizações humanas se desautoriza como texto, como reflexão sobre o estar no mundo. É apenas reflexo animal do existir. Por exemplo, ler Aretino ou Sade querendo usufruir ou mesmo do que eles despertam nos sentidos o incentivo ao tesão, é não ler Aretino ou Sade.

O chamado inventor da poesia pornográfica está preso aos cânones da poesia de sua época e com estes cânones dialoga, propondo uma tensão que o coloca como um poeta metafísico, de estranha metafísica, ao mesmo tempo obediente aos preceitos religiosos e deles desrespeitoso, o ângulo de leitura que se torna adequado está em entender esta tensão que se coloca na fronteira entre um mundo já sido e um mundo que se inaugurava então. Esclareça-se. O mundo religioso da época precedente, que teve em Dante seu maior intérprete, se esfacela e as lutas religiosas entre os luteranos, calvinistas e católicos abrem-se ao palco da representação do mundo. Se essas forças conservadoras da religiosidade são em si conservadoras e apelam para que se entenda o divino na medida de uma imitação baseada em preceitos morais, Aretino toma uma terceira via – a poética.

A poética de Aretino, no sentido de uma ampla reflexão sobre o fazer, levemente desloca as questões postas por sua época e inaugura um pensar sobre a vida cuja simbologia se encontra na vitalidade, no desrespeito e na moralidade invertida com que analisa a vida social através do poema. No poema 1 do I Modi se lê:

Gente aqui há que fode e que é fodida
De conas e caralhos há caudal
E pelo cu muita alma já perdida.

Fode-se aqui com graça sem igual
Alhures nunca assaz reproduzida
Por toda jerarquia putanal.

Ressalto nos versos do poema o último verso do primeiro terceto, que exprime de maneira cordata os preceitos religiosos contra a sodomia, que reverbera em “alma perdida”, e o verso que fecha o último terceto. A palavra jerarquia indica “ordem que existe de forma a priorizar um membro, poderes, categorias, patentes e/ou dignidades de suas organizações: a hierarquia eclesiástica” ao juntá-la a putanal cria-se um amálgama que indica ainda a condenação das práticas conventuais. O tom irônico que se percebe nestes versos terá um desfecho no mínimo inusitado, quando o poeta escreve:

Enfim loucura total
Que até da nojo essa iguaria toda
E Deus perdoe a quem no cu não fode.

Ao pedir perdão para aqueles que se mantêm na regra ditada pela moral, a moralidade invertida se cumpre e a condenação se cala. Não dá tesão, mas faz o leitor refletir. A mimesis ao contrário do estatuto da imitação é produtora de sentido e leva o leitor à reflexão e não ao cumprimento da moral; a mimesis trabalha sobre o tecido ético, como no texto trágico.

A poética de Sade não é menos reflexiva que a de Aretino. Ao aproximar o homem da natureza, como propõe Octávio Paz no seu livro Um mais além erótico: Sade, o erótico vai se afirmar como expressão da animalidade, apagando os ademanes do erótico, que caracterizam as ações da espécie humana e nele, erótico, incentivando os atos desviantes que compõem o sentido último da existência.

Não há em Sade nenhuma complacência em relação ao humano, nenhum preceito que não deva ser desmitificado. A questão que se põe, quando se lê o Marquês, está na dificuldade de situá-lo no longo cabedal de cultura que se criou a partir de um cânone preciso. Entretanto, Sade pertence a sua época, isto é, “Instalar a natureza no lugar central que ocupava o Deus cristão não é uma ideia de Sade, mas de seu século. Porém sua concepção não é a vigente em sua época. Seu libertino não é o bom selvagem e sim uma fera pensante.” (Paz, 1999).

Esse deslocamento provocado por seus textos assustaram e ainda assustam a cultura normativa e moralista. Toda vez que um processo autoritário se instaura, ataca-se aquilo que da cultura como norma se desvia. O governo do inominável pertence a esta moralidade cultural, diga-se de passagem.

A cultura que leva o leitor à reflexão cria seus desvios, deixando o que se punha como certeza sob forte abalo. Percebe-se o que é, mas não se concebe que o que é seja possível, abre-se uma brecha a partir da qual nem o que se afirmava nem o que se afirma encontram um estatuto de vericabilidade. A verossimilhança está como se em posição fugidia e o que semelha difere, produzindo sentidos que não estão ao alcance da mão, mas que só é possível através de um desvelamento dos sentidos, que se velam para de novo se desvelarem, numa dialética do indeterminável, numa dialética cujo resultado nunca se sabe.

A reflexão que se faz acerca da poesia de Aretino e da obra de Sade, teve como substrato teórico os livros de Luiz Costa Lima, principalmente, A Trilogia do Controle (2007), Mímesis e Modernidade (1980), Mímesis: desafio ao pensamento (2000) e Vida e mímesis (1995). Além do livro de Octávio Paz, Um mais além erótico: Sade (1999). A tradução dos versos de Aretino é de José Paulo Paes no livro Sonetos Luxuriosos (1981).

(oswaldo martins)

sábado, 22 de junho de 2013

Aby Warburg, uma curta notícia

Um arguto estrangeiro já disse que partilhamos de uma terra onde o impossível é possível. Embora soubesse que o impossível de que falava raramente fosse de qualidade, o extraordinário estava em que também pudesse sê-lo. É o que agora se verifica com a tradução do livro excepcional de Aby Warburg (1866-1929), originalmente editado em 1932, "Die Erneuerung der heidnischen Antike" ("A Renovação da Antiguidade Pagã"). Até o fim do século XX, autor e livro estiveram circundados por um halo de mistério. O choque entre o que Warburg vislumbrava e a obra dos que seriam seus continuadores é tamanha que Didi-Huberman o chama de "pai fantasmal da iconologia".

Embora apoiado por colaboradores constantes (Fritz Saxl e Raymond Klibansky), embora lembrado com emoção no discurso de exéquias de Ernst Cassirer, a recordar o decisivo que fora para a composição de "A Filosofia das Formas Simbólicas" (três volumes, 1923-29) frequentar a biblioteca de Warburg, ainda em Hamburgo, embora o também historiador da arte, participante da organização da biblioteca transplantada para Londres Ernst Gombrich tenha escrito, já em 1970, sua biografia, embora, seu nome permanecia no limbo da memória remota.

Não sei explicar como se dá seu redescobrimento. Sei apenas que, a partir da reedição alemã de 1998, não só sua "Erneuerung" como ensaios menores, apontamentos tumultuados, a correspondência com seu psiquiatra, Ludwig Binswanger, a descrição do "ritual da serpente" entre os remanescentes dos índios pueblos, por ele próprio testemunhado no Novo México, entre 1895 e 1896, cujas fotos lhe serviram, em abril de 1923, para mostrar a seu médico que estava "curado", se tornaram quase simultaneamente acessíveis em traduções americana, espanhola, italiana. Se parece que os editores franceses optaram por verter apenas a parte mais acabada da "Erneuerung", reunida nos "Essais Florentins" (1990), em troca é do crítico de arte francês Didi-Huberman o ensaio mais empolgante a respeito do autor.

Na enumeração das línguas em que obras suas estão traduzidas, teria esquecido o português?! Não, não houve esquecimento. Só há poucos meses a falha foi sanada. Vale perguntar: por que houve a falta e como veio a ser vencida? Apresentam-se as razões lado a lado. A "Renovação" esteve entre nós desconhecida porque, a partir de nossa sabida pequena margem de leitores, se vem estabelecendo uma política editorial consistente em deixar os livros "sérios" para as editoras universitárias, ao passo que as editoras privadas se afincam em obras e gêneros de que podem esperar grande circulação. Não se alegaria que essa é uma inevitável decorrência da globalização neoliberal?

O conhecimento empírico do mercado editorial do Ocidente não confirma a hipótese, pois mostra em operação dois sistemas opostos. Há por certo o americano, secundado pelo inglês. Nesse, ainda que haja editoras privadas de prestígio e que editem obras de qualidade, são as universitárias que ganham de longe a palma. Nenhuma editora americana tem uma série como a Cambridge Companion; em troca, a extensão do leque editorial americano não encontra paralelo. Mas esse não é o único sistema. O inverso sucede na Alemanha, na França, na Itália e na Espanha, sem que se escute dizer que a Suhrkamp, a Gallimard, a Mondadori, a Seix Barral - escolho os nomes ao acaso - apresentam sinais de crise ou de mudança de critério na escolha de seus títulos.

É certo que, como mostram os sociólogos Dardot e Laval, em "La Nouvelle Raison du Monde" (2009), enganam-se os que pensam o neoliberalismo hoje em vigor como continuação da plataforma liberal, anterior à Primeira Guerra ou ao keynesianismo. O sistema a que estamos sujeitos se distingue por tomar os governos como respaldo das empresas, muito além dos mitos do alijamento do Estado ou do mercado livre, bem como pela busca de criar outro tipo de cidadão, chamado pelos autores de "indivíduo-empresa"; em vez da cooperação, nele domina o espírito de competição.

É a respeito pertinente observação feita há pouco, em tese de livre-docência, na USP, pelo professor Hélio Guimarães. Levantava ele, de passagem, a seguinte pergunta: estando acostumados a nos pensar como pertencentes a um país de segunda classe, que reação (choque ou espanto) intelectual nos aguarda se for verdade que nos incorporamos ao bloco economicamente forte do Ocidente? Ao que parece, nossa recente política editorial ignora a questão, como se o domínio do "economês" bastasse para uma nação se manter em destaque no mundo.

Venhamos ao segundo aspecto: como se explica que agora Warburg esteja traduzido e, ademais, surja em conjunto com dois de seus mais conceituados intérpretes franceses, Georges Didi-Huberman, com "A Imagem Sobrevivente", e Philippe-Alain Michaud, com "Aby Warburg e a Imagem em Movimento" (ambos de 2002)? Saber que as três obras foram lançadas por uma editora de porte mediano criaria uma enigma, se não fôssemos informados que a Contraponto foi subsidiada pela Fundação Roberto Marinho e pela Vale do Rio Doce. Ante a informação, poderá o leitor reagir de dois modos: ou ela lhe dará algum alívio - afinal, obras não destinadas ao grande público não precisam passar por editoras com dificuldade de difusão - ou aumentará seu desânimo: não será frequente que fundações e empresas abram suas bolsas em favor de produções pouco lucrativas.

Conto com a compreensão do leitor em haver escrito essa notícia, sem praticamente abordar a razão da importância intelectual conferida a Warburg. Vi-me obrigado a fazê-lo para abreviar o desconhecimento do autor. Contra esse desconhecimento, ainda acrescento uma pequena nota biográfica.

Aby Warburg era o primogênito de uma família de banqueiros de Hamburgo que, ao completar 13 anos, estabeleceu um acordo com seu irmão mais novo: cedia seus direitos quanto aos negócios da empresa familiar, em troca de receber por toda a vida cobertura para a compra dos livros que lhe interessassem. O contrato pareceria desarrazoado se não soubéssemos que a ambição de Aby era constituir uma biblioteca, composta por obras e disposta de tal maneira que lhe permitisse o acesso ao material que, desde a adolescência, ambicionava conhecer.

Em que consistiria esse acervo? Podemos supor, por sua obra principal, que dizia sobretudo respeito ao renascimento. Mas o testemunho já lembrado de Cassirer nos faz ainda saber que não seria tão só uma biblioteca para renascentistas. Pelo cumprimento do acordo, a biblioteca cresce de maneira espantosa. Dois fatos, contudo, interrompem a linha reta com que a biografia de Warburg vinha sendo traçada. Primeiro, no fim da Primeira Guerra, ele sofre um colapso nervoso que o leva a permanecer internado durante quatro anos na clínica psiquiátrica dirigida por Binswanger. Em carta a Freud, Binswanger mostrava a tristeza de saber irremediavelmente perdido o talento de seu paciente. Por sorte dos pósteros, Binswanger se enganava e a conferência que Warburg realiza com o material que colhera em sua viagem ao Novo México mostraria sua "cura".

Morrendo relativamente jovem, Aby Warburg foi poupado de sofrer a ascensão de Hitler. É graças ao empenho de Klibansky e Saxl que a biblioteca é transposta em tempo para Londres, onde, em 1940, será incorporada ao acervo da London University.

Para dar essas informações tive de me limitar ao que ressalta em "A Renovação" em mínimas frases. Restrinjo-me a atentar para o conceito com que Warburg destaca o que é próprio à imagem: o conceito de "Pathosformeln" - "fórmulas de pathos", como bem escreve o tradutor Markus Hediger. Tais fórmulas acumulam estados-instantes não só momentâneos, mas conflitivos; sua instabilidade combina-se à dinamicidade concretizada em figurações pictóricas e verbais. Na formulação precisa de Alain-Michaud, a imagem é um "fóssil em movimento", isto é, contém uma compactação de tempos que a tornam incompatível com a sucessividade do tempo histórico. Daí o descompasso entre os campos em que domina a imagem e a mera indagação histórica. Só a partir daí quanta coisa já terá de ser repensada?


(Luiz Costa Lima)

sábado, 20 de abril de 2013

Os dons da poesia


Borges recebe em casa os até então desconhecidos Campos e a mulher, Lygia: visita nunca teria se realizado não fossem os dois siderados por algo tão trabalhoso como inocente, a poesia

Luiz Costa Lima

O leitor talvez não se tenha dado conta que, até a morte de Jorge Luis Borges, em 1986, foi contemporâneo do maior escritor que a América Latina já produziu. Nada há de estranho: afinal o pão nosso de cada dia antes se tornam as ações da bolsa que a poesia. Chega a ser mais provável que, em função da inconsequência midiática e de pequenas invejas letradas de que não nos livramos, o mesmo leitor permaneça sem saber que é contemporâneo do maior poeta brasileiro vivo, Augusto de Campos.
Até por isso, é mais singular e extraordinária a oportunidade que se lhe oferece de ultrapassar os dois desconhecimentos: a publicação do "Quase Borges" (Terracota Editora, 100 págs., R$ 39,00). Como declara seu subtítulo, o pequeno livro consta de 20 transpoemas e uma entrevista. (Acrescentem-se as fotos do encontro.)
Em fevereiro de 1984, em Buenos Aires, Campos, na companhia de sua mulher e de um de seus filhos, era recebido no modesto apartamento do grande argentino. Durante sua conversa, os dois poetas se comportavam como meninos curiosos que "competissem" amigavelmente, recordando passagens memoráveis do jogo que mais admirassem, no caso, o "jogo da linguagem" por excelência, a poesia. Passagens do "Finnegans Wake", do Arnaut Daniel, citado em provençal por Dante, de Keats, de Cummings, de Pound, de Pessoa, surgem ao lado da recorrência à etimologia de palavras e da recordação de cenas da vida de Borges e de outros autores; tudo com a naturalidade de quem falasse sobre os acontecimentos agradáveis do dia. Pareceriam dois amigos que se reencontravam? Mas não, nunca haviam se visto e a visita fora possível apenas pela ousadia de um e a disponibilidade do visitado. Nunca teria se realizado não fossem siderados por algo tão trabalhoso como inocente: a poesia.
Isso não impedira que, desde então até o momento em que o livro aparece, tivessem dirigido sua paixão para rumos diversos: desde que perdera a vista por completo, Borges se dedicara a versos de formato regular, cujo isossilabismo e métrica rigorosa ajudava sua memorização, ao passo que Campos, sem prejuízo de continuar a traduzir seu paideuma expansivo - desde Arnaut Daniel até Marina Tzvietáieva -, tem-se empenhado na poesia realizada por novas mídias. Por acaso, uma "concordia discors" - concórdia discordante? Absolutamente, não. A figura não seria adequada porque o perfil clássico assumido por Borges e a eventual opção eletrônica de Campos são decisões que manifestam o mesmo empenho pelo que os cativa.
Se há discordância é aquela que os comunga contra o performativismo profissional contemporâneo. Que poderia haver de mais oposto que a decisão de um estrangeiro telefonar de seu hotel para o residente local e de esse aceitar sem entraves ser visitado? (Teste-se repeti-lo com alguma "estrela" e logo se reconhecerá a diferença.)
A seleção de textos do último Borges abre com a mais excelente das escolhas: o "Poema dos Dons". O leitor brasileiro - por extensão, de língua portuguesa - tem a vantagem única de reencontrar a mesma qualidade nas duas línguas e o mesmo rigor em sua construção. Por certo, as duas línguas são parecidas, nem por isso seria menor a dificuldade de manter a qualidade reconhecida desde a publicação do "primeiro" original em "El Hacedor" (1960). E a figura atrás rejeitada aqui insiste em ser retomada: O "Poema dos Dons" se elabora por uma "concordia discors". Ela é formada pelo entrecruzamento de um modo expressivo e a tonalidade irônica. Modo expressivo: uma disposição não demasiado reverente. Tonalidade irônica: não demasiado cortante. Suas propriedades são precisamente essas porque se dirigem nada menos que ao Criador: "Ninguém rebaixe a lágrima ou censura/ Esta declaração da maestria/ De Deus, que com magnífica ironia/ Me deu mil livros e uma noite escura".
Introduzindo o qualificativo "escura", quando o verso castelhano apenas apresentava "y la noche", Campos reforça tanto a alusão à cegueira como aumenta seu potencial irônico, por fazer de imediato recordar "la noche oscura" do poeta místico San Juan de la Cruz. Na impossibilidade de seguir cada solução de cada verso, passo ao terceiro quarteto: "De fome e sede (narra a história grega)/ Morre um rei entre fontes e jardins./ Eu erro sem cessar pelos confins/ Dessa alta e funda biblioteca cega".
Ao destacá-lo, não pretendo diminuir a estrofe anterior, senão aproveitar que a terceira, pelo "enjambement" de seu começo, continua o final da estrofe 2: "De insensatos parágrafos que cedem"… Algo de semelhante faço com a quinta, que contém outro formato: semelhante a uma coda em música, ela recapitula os dois dons, tratando dos tesouros entregues ao humano e conclui com a sombria ironia do ultimo verso: "Enciclopédias, atlas, o Oriente/ E o Ocidente, eras, dinastias,/ Símbolos, cosmos e cosmogonias/ Brindam os muros, mas inutilmente".
O poema contudo está apenas na metade. As cinco estrofes seguintes assumem outro rumo. Ressalta-se um vulto entre as sombras. A nota sombria da quinta estrofe envolve o próprio autor, que se faz presa da ironia que reservara ao Criador. Mas nos enganamos se pensamos em a ironia passar de um a outro criador. A referência agora remete a um "outro", contudo mortal, que "já recebeu noutros cinzentos/ Ocasos os mil livros e esta treva".
O outro é seu antecessor na direção da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, Paul Groussac. Pois o duplo dom de todo o poema tem por objeto a biblioteca. Poema de um cego que não desaba em desespero, cuja perda não o traz a um autocentramento compensatório, o tesouro referido não é o das cores e formas do mundo, senão daquela parte que mais lhe importa, o interior da biblioteca, que, ao ser percorrida, permite que o morto Groussac e o que ainda escreve sintam o "vago horror sagrado" que um e outro, Groussac e Borges, eu e você, somos variantes do mesmo "uno e indivisível dilema". Dilema? Sim, de "este querido/ Mundo que se deforma e que se apaga/ Em uma pálida poeira vaga/ Que se parece ao sonho e ao olvido".
Ainda venhamos ao poema seguinte, "Xadrez". Se os protagonistas do anterior eram dois - o morto e o cego, os que de igual erraram entre as "lentas galerias" -, em "Xadrez" os rivais deixam de ser nomeados para que se identifiquem com o espaço: o Oriente de onde partira o jogo e o anfiteatro da terra a que se espalhara. Na parte II do poema, o anfiteatro, por sua vez, converte-se em cosmogonia. São as peças -"Tênue rei, bispo em viés, encarniçada/ Rainha, torre à frente e peão alerta" - que de fato jogam ou quem será o jogador? Quem o prisioneiro ou o carcereiro? Nem as peças nem este ou aquele continente. Por acaso algum deus? Sim, desde que identificado com aquele cujo ardil consta em ser feito "de pó e tempo e sonho e agonias" - o deus aceito mesmo pelos ateus.
Se disse que "Quase Borges" consta de 20 poemas, como uma pretensa resenha pôde se contentar em breve referência a apenas 2? Sei que adotei um recurso contestável. Mas qual seria a alternativa se não posso me estender por páginas sem conta? Concentrando-me em dois dos "transpoemas" pretendi dar uma ideia da forma de linguagem agora marginalizada pelo blablablá dos que não suportam um instante de convívio consigo. Fora desse recurso, a solução satisfatória exigiria a existência de um terceiro dom: o que reunisse o infinito do conceitual com o infinito do sensível. Ou seja, que tornasse possível condensar a suprema poesia em uma equação matemática.

Luiz Costa Lima é crítico literário e escritor, autor de "Lira e Antilira", "Mímesis e Modernidade", "A Ficção e o Poema", entre outros

domingo, 6 de janeiro de 2013

Uma grande surpresa


(Publicado em Eu&Fimde semana, supl. do jornal Valor econômico, São Paulo, 4-6 de janeiro, 2013)

                                                                                  Luiz Costa Lima

Odo Marquard é um filósofo contemporâneo que os trópicos desconhecem. Em um texto datado de 1989, “A Arte como antificção”, ele teve uma ousadia só comparável às que, em vida, tornaram Nietzsche um marginal: propor que vivemos em um mundo que chegou a tal grau de artifício e fantasia que se impõe a tese por ele assim enunciada: “Onde a própria realidade se transforma em um conjunto de fictícios, a arte, de sua parte, converte-se em antificção”.
  A formulação era uma provocação. Ela chega a tal grau que, embora eu a tenha traduzido, só a fiz circular entre uns poucos amigos. Dela, contudo, agora me lembro pela surpresa que causa o livro de estreia de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira (Editora Iluminuras, 2012).
   Mas que razão justifica a lembrança? Ela está em que seu modo de composição mostra uma ficção que parece evitar ser reconhecida como ficção. É certo que o leitor mais atilado se dirá: ora, vejam só, com nossa tradição “documentalista”, incentivada pela moda internacional dos “testemunhos” de situações incomuns, aquela e esses rapidamente convertidos em mini-séries televisivas, de que surpresa se estará falando?
  Permitam-me responder: o não fictício de As Visitas não tem nada a ver com nossa tradição naturalista de romances documentais e de testemunhos. Tem sim a ver com a ausência de dois ingredientes comuns na obra romanesca: o enredo e a unidade de dicção. O enredo é tradicionalmente o meio pelo qual o escritor coordena as ações, impede que elas se descaminhem ou se tornem semelhantes a um curso d’água que, na ausência de um leito, extravasam pelas margens. Ora, neste sentido, As Visitas não têm enredo. Se o livro então não cai nos defeitos apontados é porque seus personagens são os anônimos de toda uma comunidade. Qual comunidade? Aquela que é coberta pela quebra da unidade de diçcão. Ou seja, a ausência de um ingrediente usual se acompanha da ausência do outro. Com efeito, a unidade de dicção, com frequência entendida como “estilo”, é substituída por uma dualidade de dicções: a dominante é a de cunho rural-interiorano, a dominada é a dicção culta, que remete à fala do próprio autor.
  Comecemos pela primeira. A dicção rural-interiorana, fiel mas nem por isso especular à fala da gente do interior, por isso absolutamente inédita na literatura brasileira, é a razão porque a contracapa do livro fala que o autor possui um “ouvido absoluto”. A expressão, usada na música, para executantes de qualidade excepcional, é por certo adequada, com a diferença de que, no caso da expressão verbal, precisa de uma unidade, a palavra, a que não basta o som. E aqui está o mais surpreendente em As Visitas. Na grande maioria dos casos, a dicção no livro de estreia de Antonio Geraldo é extraída desta espécie de “língua geral” que cobre as zonas rurais do Rio, São Paulo, Minas, a estender-se pelo Mato Grosso, pelo nordeste baiano-cearense, até onde não sei. Não se pense, entretanto, em uma variante da lição de Guimarães Rosa. Neste, a linguagem interiorana seguia uma direção anti-Euclides, porque, em lugar da palavra rara e erudita, posta sobre o sertanejo, recolhia o vocabulário do homem do povo, para dele puxar, por um lado, sua força neológica, de outro, sua dobradura filosofante (cf. “A Terceira margem do rio” ou “A Menina de lá”). Ora, nenhuma das duas direções aparece em Antonio Geraldo. Tal ausência, contudo, não significa, como foi e é frequente, que ele se fixe em um estrato naturalista, com o qual o texto funcionaria como documento, testemunho ou espelho do falar e da mentação do homem de proveniência rural. A presença dessa extração é mostrada de outro modo. Desde logo, pela figura copiosa de provérbios e construções aforismáticas – “não sou escada, sou queda”, “Deus às vezes faz as coisas chuviscarem, mas noutras vezes despeja a tromba d’água”, “aprende no chicote, acha a salmoura doce”, “a agonia é a recompensa dos que teimam em não desistir”, etc. A seguir, a alusão não menos frequente a Deus e ao diabo – “se Deus anda meio surdo, o negócio é sapecar um dízimo mais gordo”; “deus não é pras curvas (…) fica, mas sim, nas retas descidas da vida, com o talão de multas na mão”; “e esse povo todo que dá certo na vida não existe de verdade, está aqui por obra do demônio, só pra cutucar melhor as nossas feridas” – que manifesta uma religiosidade difusa, supersticiosa e fatalista, bem diversa da que difundem, nas cidades de agora, as igrejas evangélicas.
  Ser a linguagem coloquial-interiorana altamente predominante não impede que surja aqui e ali a dicção elevada. Escolho pequena passagem, em que o sermo nobilis é marcado pelo macabro irônico. Seu título é importante: “o freguês em primeiro lugar”:
“Como ia adivinhar? Era um jeito de puxar conversa, é preciso cativar o cliente, falar do tempo?, do calor?, não dá, não deviam deixar o caminhão de carniça entrar na cidade, disse, fiz careta, olha que fedor dos infernos, não é? ela quieta, acho que até concordou, depois que saiu é que me contaram que era ela, câncer adiantado”.
  Outros poucos exemplos aparecem em “gravitação”, “oitenta anos” ou na excelente apreensão contrastante da “alta roda”, em “com espírito”. Na impossibilidade de me estender sobre a última, observo apenas ser nela que prima a ironia refinada do autor. Um chefe de empresa escolhe, para o “ritual de fim de ano”, alguns empregados, para que, participando de seus festejos familiares, se admirem de seu “modo de vida” e o contem aos outros: “é, isso mesmo, quem não ostente é como se não tivesse”. A frase do autor é mais eficaz, mesmo porque retoma o ritmo da frase oral e apenas virgula, ou seja faz pausas no exibicionismo do chefe e na “gagueira dos gestos” dos subalternos. “Trabalho social”? Pergunta-se o anfitrião, para que logo responda: isso “não passa de travesseiro ortopédico”; “o nome disso é antigo, o nome disso é poder”.  
  Entre uma e outra dicção, arma-se uma peça teatral que, não contando as declaradas “páginas arrancadas” e passagem em que se fala em retirar as frases demasiado literárias, tem Naum e Cora como protagonistas. A peça aparece em três partes separadas, sempre anunciadas por “os olhos de jussara”, nome da boneca da criança retardada.  Por que entre si desgarradas e com marcação de teatro? Suponho que para neutralizar o clima potencial de dramalhão, acentuando-se, ao contrário, a desgraça costumeira entre miseráveis, desempregados, doentes ou dos que vivem de favores ou bicos eventuais. A narrativa é, em si, de uma vida cotidiana, pouco noticiada e terrível. Cora, a mulher do homem, deixara a casa ao descobrir que o marido engravidara a filha, que tivera gêmeas, uma das quais retardada. Cora volta para casa e insiste com Naum para que a receba. Não é outra sua razão: é uma doente terminal e não tem onde ficar. Viera para rever as netas e espera que o câncer termine sua devastação. A filha termina por convencer o pai-marido para que a aceite; encarrega-se de cuidar da enferma e levá-la ao hospital público, onde o leitor previamente sabe o tratamento que receberá.
  Espalhada pela narrativa, a peça teatral como que oferece um suporte ante a falta de intriga. Mais ainda, se atentamos para seu desenrolar, vemos que ele parte de personagem que, antes de suicidar-se, a envia pelo correio ao personagem-narrador. (O suicida ainda aparece em capítulo autônomo  como autor de aforismos) Os capítulos, ora mais longos, ora muito curtos, se não reduzidos a uma frase, lidam por excelência com uma enciclopédia de espoliados pela vida. São velhos de juntas capengas, “sem girar certo a dobradiça dos ofícios”, enfermos, ladrões, mendigos, toda espécie imaginável de Lúmpen  magotes de moleques, candidatos a trombadinhas, um raro descendente que consome o resto de herança, em suma, o “povinho alastrado pelo brasil”, aqueles que sabem, sem disfarces, nem coloridos televisivos, que aprender a viver é acostumar-se com as perdas. Pois “o fim da gente começa lá no começo”.   

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

No Recife


Palestra no Recife
Em 23 de novembro, 2012

Luiz Costa Lima

Entendo que o convite para participar desta comemoração seria dirigido antes a Paulo Freire do que a mim. Assim o digo porquanto a revista Estudos universitários, junto com a Rádio da Universidade, foram fundadas em conexão com o Serviço de extensão cultural, dirigido por aquele saudoso amigo. Ou, reconhecendo a generosidade dos responsáveis pelo convite, que ele seria extensivo a José Laurênio de Mello, aos muitos que colaboravam com a revista, com a Rádio Universitária e com o SEC. A “indesejada das gentes”, contudo, se antecipou, levou aqueles amigos e apenas a mim poupou.

No momento em que recebi o convite, não apenas, agradecido, o aceitei, como acrescentava que não faria uma evocação dos anos em que Paulo, Laurênio, Orlando da Costa Ferreira, Gastão de Holanda, Sebastião Uchoa Leite, os outros muitos colaboradores e eu trabalhamos em um projeto que hoje eu reconheço como era utópico; que não faria tal evocação se não estivesse seguro que aqueles amigos concordariam ser preferível dedicar o pouco tempo de que disponho a uma reflexão sobre os dias de agora. Mas, se uma reflexão pretende ser eficaz, deve deixar claro sobre que incide. Por isso acrescento: procurarei pensar sobre os rumos do pensamento sócio-filosófico contemporâneo.

Começo por diferençá-lo do tempo que aqui se evoca. Nos anos imediatamente anteriores ao golpe de 1964, o mundo vivia na alternativa de dois sistemas sociais: o capitalismo e o socialismo marxista. Alguém poderá com razão contestar que a alternativa há algumas décadas já não existia, pois o stalinismo convertera o projeto socialista em uma das modalidades do totalitarismo que se espalhava pela Europa. Mas esta não era a perspectiva que então tínhamos. Em troca, hoje ninguém duvidará que o mundo vive sob um capitalismo globalizado. É dentro deste que então se dispõem as duas concepções epistemológicas que irei brevemente assinalar e ainda mais brevemente analisar. Elas ancoram, respectivamente, nos princípios do sujeito autocentrado, e da linguagem, i.e., do que nela textualmente se produz.

A primeira coincide com a abertura dos tempos modernos e encontrou seu lema na frase emblemática de Descartes: cogito ergo sum. Sobre ela, legitimou-se o primado da ciência, sendo justificada pela alegação de que assim o humanismo se realizava.

Embora o primado do sujeito autocentrado ainda encontre um grande propugnador na figura contemporânea de Edmund Husserl (1859-1938), a partir das últimas décadas do século XIX, essa concepção passou a se identificar com o pensamento conservador; como tal, temeroso das inovações. Prova sumária do que dizemos: na década de 1970, entre nós, quando uma mente conservadora se manifestava contra as tendências mais recentes, sem, por isso, querer se mostrar partidária da ditadura sob que vivíamos, recorria à defesa do humanismo, que estaria sendo traído pelo que se chamava de “razão analítica”.

A partir do fim da 2ª Grande Guerra, o mal-estar criado por tal tradicionalismo favoreceu a rápida propagação da linha contrária. Enfrentando o realce do cogito, levantava-se o primado da linguagem. Por economia de tempo, limito-me a chamar a atenção para um enunciado de Michel Foucault: “O ser da linguagem não aparece por si mesmo senão que no desaparecimento do sujeito”. A frase se encontra em um ensaio publicado em 1966, intitulado “La Pensée de dehors”, em que o “de fora” acentuava o que se dava e cumpria fora da interioridade do sujeito.

Ora, assim como a primazia do cogito servia de respaldo para um pensamento conservador, o primado da linguagem era o lema de um pensamento que se queria transformador. Por isso, deve-se associar à concepção do “pensamento de fora” aquele que, no mundo anglo-saxão, se tornou conhecido como o linguistic turn, difundido a partir do Metahistory (1973), de Hayden White. Embora as duas concepções fossem radicalemnte distintas, ambas foram fortalecidas pela propagação da hermenêutica de fundo heideggeriano, que, formulada desde 1927, se expandiu pelo Ocidente, sobretudo depois do fim da Grande Guerra.

É verdade que, desde as últimas décadas do século XX, passou a ser cada vez mais compreendido que a pretensão transformadora que se fundava no primado da linguagem era contraditada por sua neutralização do sujeito, entendido como mero mensageiro de projetos e propostas determinados pelas estruturas sociais. Por isso o chamado desconstrucionismo, que englobava tanto os seguidores de Heidegger, como os então chamados pós-estruturalistas, passou a se desgastar, precisamente no ambiente em que mais havia prosperado: o das grandes universidades norte-americanas.

Na impossibilidade de acompanhar as mudanças então introduzidas, apenas aludamos muito brevemente ao modo como nos situamos. Não se trata, penso eu, de retornar ao velho cogito cartesiano, mas de reelaborá-lo de fio a pavio. Como assim? Desde logo, pela afirmação de que o ato de cogitar não se confunde com a fundação de um pensamento. E essa fundação, enquanto individual, muito menos é bastante para adquirir a força de expansão de um sistema irradiante, como foram os baseados nos princípios do sujeito autocentrado e da linguagem.

Uma imagem nos ajuda a transmitir mais rapidamente o que pretendemos dizer. A formulação de um pensamento enquanto individual constitui um sistema que pode conter uma enorme força interna de explicação. Mas, enquanto permaneça individual, essa força não é bastante para abalar um modo de pensar estabelecido. Enquanto permaneça individual, um pensamento, ainda que poderoso, é comparável a uma chispa que, ao disparar, atingisse um solo úmido ou encharcado. A chispa precisará encontrar um chão coberto de folhas secas que, alcançado, provoque uma explosão transformadora. Isso equivale a dizer o cogito tornou-se a explosão de que derivaram os tempos modernos menos pela força que o sistema cartesiano por si mesmo lhe concedia, senão porque encontrava um chão propício, não mais encharcado pela umidade teológica que até então o impedira. Do mesmo modo, podemos dizer a ele viria a se contrapor a afirmação da linguagem porque o sujeito do paradigma contrário era considerado como uno e integral. E porque o sujeito era considerado uno, tornava-se fácil identificá-lo com a ideia de Ser e contrapor esta ideia de Ser à ideia de existência (Dasein). É precisamente isso que fará Heidegger em sua obra de 1927, Ser e tempo, que, extremamente influente no pós 2ª Grande Guerra, servirá de respaldo a formulações como a lembrada há pouco de Foucault.

A proposta com que iniciaria a contraposição aos paradigmas antagônicos consiste em afirmar que a base do pensamento humano é um sujeito não uno, mas, ao contrário, internamente divergente, contraditório, fraturado, não no sentido negativo do termo, mas no positivo de internamente dissonante e desarmônico. A desarmonia do sujeito humano se manifesta pela discordância que se manifesta, em uma mesma faixa temporal, em suas atuações nas frentes ética, familiar, professional, política, estética, religiosa, etc.

Como não haveria tempo para explicar o que apenas levemente exponho, pergunto-me por fim: que condições de propagar-se tem a chispa do sujeito internamente desarmônico? A resposta simples seria: à medida que formulada aqui, em um país ainda intelectualmente colonizado, sua possibilidade de propagação é nenhuma. Ou, noutra formulação: pensar que mais do que uns poucos poderiam levá-la a sério seria mais utópico que o projeto que agora se comemora. Por que assim senão em virtude de que nosso próprio chão é encharcado, incapaz de expandir as pequenas chispas que o atinjam. Por que encharcado? Porque para nossas elites políticas a única coisa que parece interessar ao desenvolvimento do país são as condições tecno-econômicas. Em troca, o que aqui expomos seria por elas considerado um tema de “cultura”, termo que, para nossas elites políticas, é apropriado para algo insignificante como os discursos de batizado, de formatura ou de casamento. Prova rápida do que se afirma: enquanto, segundo os economistas, estamos hoje entre as grandes economias do mundo, nosso sistema escolar, aí incluindo a universidade, se degrada de modo assustador.

Por fim, pensando em termos do que, nos primeiros anos da década de 1960, preocupava Paulo Freire: enquanto para ele o combate contra o analfabetismo dominante no país merecia o sacrifício da prisão, do exílio, do ostracismo, hoje o problema assume outro ângulo: talvez nenhum sacrifício seja agora suficiente para ir de encontro à nova face do país. Que nova face? A de um lugar em que à diminuição do analfabetismo corresponde o aumento de algo de que é pouco polido falar-se: o aumento dos analfabetos alfabetizados. Para esses, nada mais importa senão o preço do dólar, a balança de pagamentos, o aumento das exportações, a valorização das ações na bolsa. Daí, por exemplo, o descaso com que tem sido tratada a questão da população indígena dos Guarani-Kaiowá, expulsa das terras em que ela, há séculos, tinha seu modo de vida estabelecido, por força do agrobusiness mato-grossenses ou a expropriação das terras ribeirinhas de outra população indígena, para que aí se instale uma hidroelétrica. Deste modo, como disse em entrevista recente o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, o Brasil tem perdido a oportunidade de mostrar ao mundo outro modo de lidar com a diversidade dos povos e suas culturas, de não confundir progresso com a destruição de povos não poderosos.

Em suma, para o que foi aqui dito não seja absolutamente inútil, gostaria de solicitar às autoridades presentes que, na medida de suas forças, alertem aos que nos dirigem que a miséria de nosso sistema educacional terminará por tornar ilusório o crescimento apenas tecno-econômico que tanto os preocupa. Mas essa solicitação não continua a manter a utopia com que me referi ao projeto que Paulo dirigira?

quarta-feira, 30 de março de 2011

Bernardo Guimarães e o cânone

A repetição pois do recurso que já notáramos no "Dilúvio de papel" nos elucida sobre a expectativa do receptor que o poeta trazia. Imagine-se então que os contemporâneos pensariam do O elixir do pajé, castamente proscritos da cuidadosa edição de suas poesias completas. Dentro da seriedade de nosso cânone poético, o ultrapasse da idealização da mulher só era admissível mediante uma justificação "científica" - a exemplo do que fará o romance naturalista de Aluizio de Azevedo. Mostrá-la ao invés parceira, conquanto sem voz, nos jogos eróticos de caralhos e bandalhos, onde borés e pajés rimamna irrisão do chocalho gonçalvino, era, convenhamos, intolerável. Por isso mesmo, não divulgável. Não era permitido ao erótico despojar-se do esconde-esconde das saias-balão ou ao corpo mostrar-se senão através do artifício de anquinhas, com que o contemplador previamente sabia teatralizar as formas naturais.

O leitor de agora poderia afinal alegrar-se: estamos afinal noutro tempo, onde se torna normal o antes severamente punido. Assim a republicação do Elixir, contendo "A Origem do Mênstruo", já não causa nenhuma celeuma. De nossa parte, cantudo, lamentamos discordar: por certo que já não há sentido em censurar-se o erótico, sobretudo um erótico brincalhão como o do Elixir. Mas convém não engolir gato por lebre. Nosso cânone poético continua gerenciado pelos modelos que Bernardo marginalmente ironizava.

(Luiz Costa Lima - Pensando nos trópicos - página 249)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Prêmio

Luiz Costa Lima recebe prêmio Mário de Andrade, categoria ensaio da ABL. A obra premiada O Controle do Imaginário & A Afirmação do Romance – Dom Quixote, As relações perigosas, Moll Flanders, Tristram Shandy, publicada pela Editora Companhia das Letras.


Ponto para os acadêmicos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Resenha do dia 1

Complexo de vira-lata – Luiz Costa Lima – 2009 http://sibila.com.br
Vale conferir a fina ironia do autor e a sua perspicácia

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Filosofia barata

Há meses já não se ouve o economês. A crise do mercado teve tão estranho efeito linguístico?

Não, nenhuma coletividade esquece tão depressa seu dialeto.Mas, afinal, isso não tem maior importância: antes de se considerar "ciência exata", a economia costumava chamar-se "economia política" e, mesmo sem o economês, continua a ser.

A reflexão deriva de dois textos cuja única ligação está em terem sido lidos quase ao mesmo tempo. O primeiro dá profundidade temporal ao tema. Antonio Machado abria um pequeno texto de 1922 com a pergunta que atribuía a Pío Baroja [ambos escritores espanhóis]: com que deve, de preferência, preocupar-se o Estado do futuro? Com a produção de alta cultura ou de cultura mediana?Menos que a resposta do próprio Machado -"não esqueçamos que a cultura é intensidade (...) antes, muito antes que extensão e propaganda"-, ressalte-se a própria pergunta: ela se investe de uma incômoda atualidade.

Mas, afinal, resmungará o cético, que relação pode haver entre uma indagação formulada há quase um século, em um país distante, e o que se passa agora entre nós?Contra a suspeita de arbitrariedade, vale que logo se acrescente a segunda fonte. Em "As humanidades hoje, em tempo de indigência" (no jornal suíço "Neue Zürcher Zeitung), Hans Gumbrecht reflete sobre os ecos da atual crise econômica, nos ambientes acadêmicos norte-americano e alemão.

Traduzo o parágrafo decisivo: "As humanidades (...) são uma manifestação de luxo das sociedades ricas. Em tempos de crise, é melhor afastar-se delas. Uma outra direção, em troca, difundida sobretudo nas universidades alemãs, se intimida ante o fim de uma opulência, antes desconhecida, do apoio à pesquisa, e a ela contrapõe o seguinte argumento: a qualidade da interpretação, da escrita e do debate filosófico, literário e histórico basicamente independe da existência do campo correspondente de pesquisas particulares ou de cursos de pós-graduação. É o contrário do que sucede nas ciências da natureza, cujo êxito depende da possibilidade de pesquisas coletivas e da disponibilidade de uma aparelhagem técnica sempre nova. Uma discussão filosófica produtiva não custa mais do que as horas de trabalho dos que dela participam".

Papel do Estado

Para declarar por que o assunto nos toca, desenvolvo minha telegrafia. Considere-se, em primeiro lugar, a reflexão que o poeta Machado extraía de Pío Baroja. Presente em artigo de 1922, ela precede o colapso de 1929, antecessor do que hoje nos toca. Ou seja, a preocupação em o Estado investir antes em uma educação "básica" do que em uma "especializada" surge, nos países menos avançados, antes da primeira grande crise do capitalismo. Estranha menos, portanto, que ela ecoe em um "país em desenvolvimento" quase um século depois -trata-se de uma "afinidade eletiva".
Venho então ao que extraio da passagem de Gumbrecht. É possível que, também entre nós, não falte quem creia que isso de humanidades é um luxo descartável. Por que o digo? Seja pela maior abundância de bolsas de pesquisa e da oportunidade de realização de pós-doutorados nas áreas que "burrocraticamente" se insiste em chamar de "exatas", seja pela aceitação de nossas autoridades acadêmicas, em todos os seus níveis, de que a penúria de nossas bibliotecas é algo tão incontornável como um traço da natureza.Não adianta perguntar por que incontornável: não teremos resposta. Ora, se o governo já assim age, o que impede que os editores privados cada vez mais restrinjam a edição de obras que não lhes assegurem um alto retorno?

Mais grave do que tudo que se disse acima é o encaixe das duas posições acima referidas com a política pedagógica que vem sendo implantada desde o governo anterior: a política da horizontalidade dos cursos.

Concretamente, ela significa: abrem-se mais turmas, as universidades aumentam suas cotas de alunos por áreas, favorecem-se os docentes que se interessam por temas mais "leves", por fim, estimula-se o ensino à distância.


Maquiagem
Só pedantes elitistas, de espécie ignorada em um país culturalmente pobre como somos, seriam contrários ao incremento, em larga escala, da formação docente. Mas o que se observa não é incremento algum. É bastante óbvio que um mísero professor no interior dos Estados mais atrasados da Federação -e, por certo, não só deles- há de ter meios de minorar sua ignorância e, assim, de diminuir sua difusão entre os que o cercam.Mas, sob o nome de incremento à formação, o que passamos a ter usualmente é maquiagem e embuste, os quais, por cima, são incentivados em detrimento do ensino especializado. Não creio que isso se dê em toda a extensão da universidade brasileira. Mas sei que se torna o pão de cada dia na área das humanidades.

Nesta, a pesquisa especializada é quase impossível pela má qualidade das bibliotecas; pelos prazos exíguos para que os alunos concluam seus trabalhos, suas dissertações e suas teses; pelo pouco intercâmbio com outros centros. Desse modo, as humanidades se tornam cada vez mais semelhantes a parques zoológicos, espaços habitados por animais de uma espécie em extinção.

(Luiz Costa Lima)


O texto acima saiu no caderno Mais da folha de São Paulo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Literatura e cânone

Sem que se pretenda explicar a totalidade dos valores que orientam a formação do cânone literário nacional, a “contradição” há pouco notada de Veríssimo nos insinua uma trilha: por mais diversos que parecessem ser os critérios dos adversários, Romero e Veríssimo, ambos concordavam no serviço que a literatura deveria prestar à moral; serviço obrigatório, como aquele que Bilac ajudaria a introduzir, porque a literatura deveria ser um instrumento para a correta modelagem do cidadão. O que vale dizer, tanto para o rumo interno como para a construção nacional. Por efeito desse segundo aspecto, o apreço da moral se conjugava ao louvor da natureza, cuja presença, observada e então descrita, asseguraria a nota tropical que nos diferenciaria. à moral e à natureza se confiavam a formação do que, numa terminologia ainda não disponível por aqueles críticos, seriam o superego e o id comuns ao brasileiro culto. Mas, antes de que aquelas normas pudessem ser internalizadas, era preciso tornar a poesia interessante ao leitor. Tanto pela escassez quantitativa e qualitativa deste receptor – fatos que Romero e Veríssimo bem perceberam – como pelos modelos de poesia retórico-sentimental que aqui circulavam – os modelos de Hugo e Byron – importava que o poeta fosse bem falante e lacrimoso, derramado em palavras e emoções. Tal seria a base esboçada sobre a qual se edificaria o cânone exaltador de Gonçalves Dias, Castro Alves, Álvares de Azevedo, Varela e Casimiro, assim então confundidos e internamente não diferenciados.

(Costa Lima, Luiz. Pensando nos trópicos. Bernardo Guimarães e o cânone. 242. 1991)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O CONTROLE DO IMAGINÁRIO & A AFIRMAÇÂO DO ROMANCE


Luiz Costa Lima vem desenvolvendo, ao longo dos anos, um projeto de estudo da literatura único. Desde o princípio de sua trajetótia, Costa Lima busca definir o poético e suas relações com o saber. Mergulhado nas questões que definem o poético, o longo trajeto teórico que empreendeu e empreende tem-nos ensinado ser possível não só a coerência das ideias, mas sobretudo, que o pensar sobre poético é uma tarefa de desvendamento da capacidade intelectiva do homem. Incansável, Luiz, para além de seus livros e aulas, permitiu que várias gerações tivessem contato com não menos diversos pensadores de também diversas partes do mundo. Se alguns escritores nos tiraram do isolamento autocontemplativo de nós mesmos, Luiz nos permitiu o contato com o que de novo e consistente se produzia no mundo acerca da teoria literária, sem abdicar do diálogo crítico que implica em discussão e discordância.
(oswaldo martins)