sábado, 15 de julho de 2017

astúcia do dizer

entre a porta e as escaras
poste de pequenos tálamos
se desequilibra

a arte enquanto soam acordes
se cumpre no afogamento
dos naufrágios

o intervalo de um barco
um lastro de copo
lacra o poema

no intento de querer
e jamais poder convir
como o barco

a astúcia do dizer


(oswaldo martins)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

poema pânico

1
risca sobre as vagas a linha
mal medida do que lavra
o desacerto

2
pulsa dança ainda corrói
a morte quando eros cria
travesso

3
estala o tubo da cervical
se escorre líquido bebê-lo
até o talo

4
ah, thanatos, velha puta,
entuba nênia do caralho
o riso farto

5
furta o raio franco da vida
e manda a que a pariu
à morte


(oswaldo martins)

domingo, 2 de julho de 2017

2

júlio pomar

descem em torno essas solidões
o quadro dos cegos em madrid
o almoço dos trolhas

debicam almofadas nas calçadas
os pobres que dormem a hora
o vulto dos polícias

dedica-se ao maltrato do assombro
os encapuzados de todo instante
cumprem ordens os sacanas

derivam da toga sutis dos magistrados
as ordens que despacham
nos bordéis em que atuam


(oswaldo martins)

terça-feira, 27 de junho de 2017

1

o aniquilamento

nas ações sobre o acaso dos dementes
resta a estultice dos nefastos
julgamentos

quando dispõem das vozes os astutos
se deuses fossem os que julgam
rompem-se naufrágios

a pimenta do reino curte nos amavios
que se faz água e insossa voz
dos arautos penosos

como patos bem vindos servem com ares
de grão-senhores o vestuário
sem freios da vendeta                             

(oswaldo martins)

terça-feira, 20 de junho de 2017

memórias sentimentais de um leitor randômico 2

1

Sempre gostei de ler autores que nunca li e alguns a que volto continuamente. Dentre estes últimos está o Sergio Sant’Anna, autor de grande capacidade crítica e percepção da vida, talvez seja hoje nosso principal autor vivo, o que não é pouco. Seu último livro, O Conto Zero, determina uma ordem de leitura que permite o leitor passear por pelo menos cinquenta anos de literatura.

2

A dura escrita de Cesar Cardoso disfarça-se de humor, mas é rascante e ferina, como o rasante de uma ave rapinante. Seus Urubus – procure, leitor desatento, saber deles – abrem voos sobre a fabricação da vida, abrem voos sobre as feridas expostas do nosso cotidiano. Assim como Sérgio, Cesar nos faz passear pelos milênios da boa literatura, sem conceder uma mínima brecha que seja ao sossego burguês de todos nós. Mas o que mais me delicia nos livros dele, e nesse, em particular, é a presença da prosa poética que atinge os limites da perfeição.

3

Não gosto da literatura umbigo. Não gosto da literatura como verdade – lembra-me o coitado do Alvarez de Azevedo que queria nos dizer a verdade, toda a verdade. Não gosto da poesia sentimental. Não gosto da literatura que põe a emoção antes da palavra, a palavra antes da sintaxe, da sintaxe como torneio para o nada dizer. Por isso não gosto de Bilac, nem de Quintana. E não tolero o tolo Casimiro e duvido muito, mas muito mesmo, de quase todo o século XIX brasileiro. Quem nos salva o século é Machado, é Souzandrade e talvez a putaria explícita do único Guimarães possível, o Bernardo.

4

Cruz e Souza tinha pretensão demais, acabou poeta católico.

5

Cuidado, Adélia!


(oswaldo martins)

CLASSIFICADOS 1 – CONTENTAMENTO

Para Gabriela Amaral

É um bom emprego. Trabalhar com água é muito agradável, melhor do que com gente.
Primeiro tampo a pia, depois abro a torneira e deixo encher. Quando a pia está cheia, pego o conta-gotas e faço a sucção. Daí é só sair da casa, atravessar a ruazinha de terra e já estou na praia. Vou até o mar e esvazio o conta-gotas. Depois volto e repito a operação até esvaziar a pia. Então é só encher de novo e recomeçar.
Tem alguma coisa a ver com as marés, mas eu ainda não entendi muito bem. O importante é que eles estão contentes com o meu trabalho.


(Cesar Cardoso – Urubus em círculos cada vez mais próximos – editora oito e meio)

domingo, 18 de junho de 2017

rescaldo

cigarros no cinzeiro fazem-se quimeras vãs
quietos falam de coisas sob nossas cabeças
murchos e amassados pendem e fingem-se
desapercebidos da vida que queima os rins

o fósforo brilhará nas lixeiras ou nas covas
a que é destinado o corpo dos desprezíveis
acessos de tosse daqueles que por ventura
estarão ali ao lado - prontos para o consolo

a mão na bunda das boas senhoras vetustas
que à sopa dos arranjos sociais se percebem
vivas e caminham solícitas à amizade proba
dos velhos que de esguelha olham de banda

para sentirem na medida a exatidão a oferta
do ombro amigo e o cálculo da lágrima caída
no prato sujo de cinzas que se deixou findar
à espera da mão dos dias para os porem fora


(oswaldo martins)