quinta-feira, 23 de novembro de 2023

brecht

 

dançam leves partículas em sôfregas

manhãs greve buzina o só alvoroço

a cama guarda o frígido acorçoo

flâmula nos lençóis em amarroto

 

descobrem-se rotos – vagares íntimos –

os poemas em desalinho sem fogo

aguardam quietos caírem gotículas

do lá fora chuva em abstruso coro

 

nada veste o desacordo entre a tez

dos presos à rua e o cárcere plúmbeo

privado e límpido do chão burguês

 

sequer refreiam-se – ante o acúmulo –

ante a turba – em suas torres de indez

se negam corpos por temor do chumbo

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

fogo-fátuo

 na mínima partícula do acaso

as rosas os madeiros os cupins

o brioso desfazer inexorável

dos povos enfim o vozeio-silêncio

 

a exaltação reiterada do engasgo

cessam e nada resta do chapim

com que os heróis gregos no risível

ornavam nas mantas das pedras-rio

 

seus olhos de moedas para o amanhã

posto terem os deuses displasias

enganosas nas palavras ineptas

 

da trapaça – deuses esses canalhas

afeitos nas luzes da eterna inépcia

apresentam vermes à voz inapta

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

medidas

 folhas medem-se por espessuras

sem comprimento ou largura

planam mobiles de calder


nas madonnas de verdi ao vento

folhas planam dos olhos ao chamamento 

do ideograma de erza pound


se as viramos no fio espesso

de seus feitos ranhuras no avesso

se mostram quando borboletas em redes



segunda-feira, 2 de outubro de 2023

nariz

 

para o jopa moraes

 

ponta estranheza cava

elos na epiderme

azedumes de vômito

 

translúcido objeto à luz

cega o cume do nada

espécie-ápice do tempo

 

o por quem estar lapso

do delírio – a flor

dos borbas

 

devôro cônscia língua

riso-apostema

do verme

domingo, 10 de setembro de 2023

destempo

 

avantesmas veem o fim dos dias sorridentes

de muito o abandono noturno finge-se trem

 

secos em desaparecimentos abrem caretas

para o estranho friso escrito em cartas

 

cujas latitudes em barafunda nos desvãos

costeiros ultrapassam os limites das ondas

 

apitam o infinito sobre o que ao lado

busca existência efêmera – depois a morte

domingo, 27 de agosto de 2023

Cataratas poema de Ismail Kandaré


As cataratas desciam aos saltos

qual fossem brancos cavalos raivosos,

suas crinas de espuma e arco-íris.


Mas de repente, na beira do abismo,

caíam com as patas dianteiras

fraturadas, oh, suas patas brancas.


E então morriam ao lado das pedras…

Pois agora em seus olhos amansados,

frígido, o céu está se refletindo.


Kataraktet


Kataraktet kërcenin teposhtë,

si kuaj të bardhë, të vrullshëm

plot jele shkumë e ylberësh.


Por befas te buzë e greminës

ranë me këmbët e para,

i thyen, oh, këmbët e bardha.


Dhe vdiqën në rrëzën e shkëmbit…

tani në sytë e tyre të shuar,

i akullt, pasqyrohet qielli.

Ismail kadaré 

Tradução: Pedro Lucas Rego

sábado, 26 de agosto de 2023

Gazel 1 de Hafez

 Gazel 1


Vem e traz a taça, copeiro, derrama e circula esse vinho!

Porque o amor parecia fácil, mas logo veio o descaminho.


A brisa sopra em seu rosto, traz o almíscar dos seus cabelos:

Como sangram os corações, por esse momento tão ínfimo.


Tinge com vinho o teu tapete, se assim disser o velho mago.

Deve entender, o peregrino, as leis e estâncias do caminho.


Na estância do meu bem-amado, como posso encontrar alento?

Ora já bradam os cincerros: a caravana está partindo.


As trevas e as ondas ferozes, o vendaval e o turbilhão!

Que sabe desse nosso estado, quem vê da terra o mar bravio?


Desejos guiaram meus feitos, e meu bom nome foi desfeito!

Como manter esse segredo, se nos saraus já é sabido?


Se ainda queres sua presença, ó Hafiz, não te escondas dele!

Quando lograres encontrá-lo, faz do mundo um desconhecido.