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poesia,
Oswaldo Martins. Poeta e professor de literatura. Autor dos livros desestudos, minimalhas do alheio, lucidez do oco, cosmologia do impreciso, língua nua com Elvira Vigna, lapa, manto, paixão e Antiodes, com Alexandre Faria. Editor da TextoTerritório
QUERIDO DIÁRIO
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o fruto
do trabalho
chega a noite
vou com ela pra cozinha
boto o avental
pego a faca mais afiada
e limpo os peixes
que não peguei durante o dia
2
liquidação
tudo a um real
só tenho sonhos na carteira
3
novo normal
a Terra ficou plana
e o Sol
nasce
quadrado
4
agenda
todo
dia
a
mesma rotina
acordar
lavar
o rosto
tomar
café
e
morrer
MORTE FÁCIL
morri
a cada berro e porrada
que iluminaram a infância de relâmpagos
toda vez que me descobriram
descobrindo corpos
meu dos outros
todas as vezes em que entraram
sem pedir licença
em cada traição
goela abaixo
até que eu aprendesse a trair
e morrer
nas refeições diárias de medo
nos vômitos guardados nas gavetas do estômago
na pressa dos passos paralisados
sem nem confessar
olha estou morrendo
mortezinha besta quieta calada
derrota nada heroica
hoje
especialista
morro de segunda a domingo
morro até dormindo
e escrevendo um poema
TRANSPORTE URBANO
vagalumes forram a noite de algodão
e o céu bota um ovo
nos figos do sonho
talvez ainda possam se amar
montanha e mar
viajo por Maracangalha
Pasárgada Núncaras
Terras do Sem Fim
Babel Lilipute Carabás
Oz Macondo Taprobana
viajo até o vinho virar uva
um quase tudo
que começa e se acaba em quase nada
ultrapassarei a faixa amarela?
CADERNO ESCOLAR
primeiro vieram os do norte
e nos mandaram destruir nossas plantações
e plantar novamente
e destruir e plantar e
depois chegaram os do sul
e mataram os do norte
e nossos cães e avós
e nos mandaram demolir nossas casas
e reconstruir e demolir e
então os do norte voltaram
e nos deram armas
e nos fizeram fuzilar os do sul
e nossos vizinhos
e pais
agora os do sul e os do norte
deram as mãos em nome da paz
nos disseram que finalmente estamos livres
e não conseguimos descobrir do que
a orquestra do titanic
anima o baile da ilha fiscal
números slogans rezas
ninguém mais fica calado
a traição que se aprende
devora os nossos passos
containers no cais do porto
com toneladas de piedade
mil caminhos na porta
e nenhuma fechadura
um palmo é nossa medida
de raso e medo profundo
o plástico embrulha estômagos
bairros oceanos
muros recitam flores
panfletos com patrocínio
numa chuva de napalm
navega a arca de Noé
os casais se desfazem
em seu próprio dilúvio
apagados os passados
nunca teremos sido
mas não se aflija - à noite
tem fim do mundo outra vez
e a extensa fila de abelhas
no mercado a comprar mel
ONDE
calma
ele já volta
foi só buscar a lâmpada
e os comprimidos
não é um adeus
ainda há desejos esfarelados
que não saltaram pela janela
olha ali no canto
não é a infância abanando o rabo?
o gol os tecidos a xícara emprestada de açúcar
os ossos
calma
os silêncios já vêm te ninar
desossar teus tímpanos
ele vai calafetar as frestas os medos as cáries
a voz do pássaro cego
olha
ali no canto
não
é o cão vomitando vogais?
calma
esquece o choro
engole o frio
não são seus passos subindo a escada?
vem anda
alinhava teu pesponto
teu sono forrado de pregos
estende a mão
fura bolos mata piolho pai de todos
cadê o homem que estava aqui?
A MUDANÇA
plantei
alegria e festa
nasceram
três pés de pânico
os
olhos paralisados
pelas
pegadas do trânsito
águas
que brotam paradas
movem
moinhos de tempo
passados
seguem passando
o
pavor sentindo medo
sou
náufrago no deserto
lanço
garrafas ao céu
todos
os dentros de fora
não
me iluminam o breu
atalhos
de latifúndio
a
morte a galope avança
coração
um quitinete
onde não cabe a mudança
CESAR
CARDOSO
janelas
a janela do meu quarto
continua pendurada na parede do quarto
está onde uma janela deve estar
dentro e fora da casa
raro é o dia em que não me posto
nela
pra olhar o jardim e as pessoas que passam
olhar a vida lá fora
nunca no entanto me debrucei
na janela da varanda
(ela também é da varanda)
para ver a vida lá dentro
cá dentro
dentro do meu quarto
elesbão ribeiro
05/06/20
versos roubados
andá com fé
eu vô
que a perna
costuma faiá
triste
19
trocou as cordas
e o assento de madeira
e o galho do abacateiro
do balanço
que há vinte anos
pendurara no quintal
fora feliz a balançar
a mulher em seu colo
as crianças a brincar de sustos
que elas tantas vezes pediam
sentou-se no balanço novo
sabia que não teria
em seu colo a brincar
(ainda assim sentou-se )
o neto
que a filha não tivera tempo de parir
elesbão ribeiro
08/07/20
um fado é fado é fado e é fado
ah se o tempo voltasse
diria não vás
mas o tempo não volta
se o tempo voltasse
ficarias a saber
o que nunca soube
dizer
deste amor por ti
que trago no peito
mas agora onde estás
deves saber
porque em mim
tudo se alumia
elesbão ribeiro
31/07/20
eufemismos
quando fores a retrete
diz que vais fazer número 2
ou fazer xixi
nunca digas cu
diz rabo ou bunda,
como não deves dizer cara
mas rosto
se pretenderes vender
biquínis moda verão
diz bumbum
isto são eufemismos
palavras que edulcoram os sinônimos
os eufemismos também edulcoram
os antônimos
não digas que o presidente mentiu
nem digas que ele faltou com a verdade
é melhor dizeres como se diz no jornalismo
prudente
o presidente disse inverdades
elesbão ribeiro
22/09/20
pequeno poema de amor
ficas tão mais bonita
quando te fodo
elesbão ribeiro
31/01/21
estrada
para oswaldo martins
Estrada
cansados
vamos assim
cansados
nos sentimos
melhor
ao reanimar
um camarada
elesbão ribeiro
30/01/20
AS DUAS RAMEIRAS
Todas as mulheres de que não me aproveitei
visitam os meus melhores sonhos,
os meus piores pesadelos.
Levanto-me de pau feito
todas as manhãs.
Tomo ginseng e vitaminas
A, B, C, D e E.
Depois fumo um cigarro
e sento-me ao computador
a teclar poemas como este
à espera das duas rameiras mais infames
da terra: a Fama e a Morte.
Só me resta a esperança
de que não venham, as puras, as duas
de mão dada.
(Roger Wolfe – tradução Luís Pedroso)
Éguas vieram, à tarde, perseguidas,
depositaram bostas sob as vides.
Logo após borboletas vespertinas,
gordas e veludosas como urtigas
sugar vieram os esterco fumegante
Se as vísseis, vós diríeis que o composto
das asas e dos restos eram flores.
Porque parecem sexos; neste instante,
os mais belos centauros do alto empíreo,
pelas pétalas desceram atraídos,
e agora debruçados formam círculos;
depois as beijam como beijam lírios.
(Jorge de Lima)