sexta-feira, 30 de junho de 2023

Dois poemas de Cláudio Leitão

 PLANO


No princípio era um verso.

Ao redor só o estágio das coisas.


MARÉ 


Lunar estival noturno saturno

Vaivém regular, dança e muda

Restinga trampolim calmaria

Água reserva onda mínima vaga

a sentir silêncios moídos por tropéis

sábado, 15 de abril de 2023

a voz

compõe silêncios

apêndice tosco

dos murmúrios a gritos

 

desconexa se acha

ante a selva cristalina

do nada

 

furúnculo de castelos

cortesã castrada

dos paralíticos de babel

 

a infrutífera constrói-se

pimpona no último gesto

da visita triste

 

Lançamento do Fenda


 

sábado, 8 de abril de 2023

a biblioteca

 

Durante muito tempo, acreditou-se que esses livros impenetráveis correspondiam a línguas pretéritas ou remotas.

(a biblioteca de babel)


as traças vêm sós toda sexta-feira

lentas perambulam pelas palavras

muitas vezes com o tato certeiro

depositam nos vazios suas lavras

 

encontram no folgar pelo absconso

sentido alguns outros indigeríveis

embalam-nos com as patas no intonso

ventre vasculham até onde o incrível

 

se revela às entojadas e eruditas

vozes guardiãs dos segredos nus

rainhas de paredes e frestas fazem

 

silêncio enquanto balofas digerem

o espanto da patuleia dos múnus

nas vênias cúmplices do tu acreditas

sexta-feira, 24 de março de 2023

ecoo

 

dos latidos ancestrais o rapsodo

errante lucidez de oculta chama

cultua nos antigos versos o êxodo

das palavras a máscara-amálgama

 

do cão a vagar desde os asterismos

que fulgem ao longe dos caçadores

seu brilho apagado ao apagado ror

de cores no ermo dos eufemismos

 

guarda o dia que passa, outro nenhum

provém de tua espera e dança e canta

e aprende com o ritmo o mutismo

 

do oculto sentido múltiplo do um

dispõe no não do dizer decanta-o

faz gritar a língua prenhe de abismos