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sábado, 8 de abril de 2023

a biblioteca

 

Durante muito tempo, acreditou-se que esses livros impenetráveis correspondiam a línguas pretéritas ou remotas.

(a biblioteca de babel)


as traças vêm sós toda sexta-feira

lentas perambulam pelas palavras

muitas vezes com o tato certeiro

depositam nos vazios suas lavras

 

encontram no folgar pelo absconso

sentido alguns outros indigeríveis

embalam-nos com as patas no intonso

ventre vasculham até onde o incrível

 

se revela às entojadas e eruditas

vozes guardiãs dos segredos nus

rainhas de paredes e frestas fazem

 

silêncio enquanto balofas digerem

o espanto da patuleia dos múnus

nas vênias cúmplices do tu acreditas

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Bairro reconquistado

Ninguém viu a beleza de suas ruas
até que pavoroso em clamor
o céu esverdeado desabou
em abatimento de água e de sombra.
A tempestade foi unânime
e enfadonho aos olhares foi o mundo,
mas quando um arco abençoou
com as cores do perdão a tarde,
e um cheiro de terra molhada
animou os jardins,
saímos caminhando pelas ruas
como por uma herdade recobrada,
e houve  nos vidros generosidades de sol;
e nas folhas luzidias
enunciou sua trêmula imortalidade o estio.

(Jorge Luis Borges)

Fiz uma leitura deste poema hoje.
Confira no canal da Editora TextoTerritório
a partir do link abaixo:

domingo, 17 de junho de 2012

Esse ofício do verso


De vez em quando eu ensaiava uma metáfora um tanto ousada, mas via que ninguém a aceitaria se viesse de mim (sou um reles contemporâneo), e assim atribuía a algum remoto persa ou nórdico. Aí meus amigos diziam que ela era um primor; e eu nunca lhes contava, claro, que eu a inventara, pois gostava da metáfora. Afinal de contas, os persas ou nórdicos podem ter inventado essa metáfora, ou outras tanto melhores.
(Jorge Luis Borges – música da palavra e tradução)