segunda-feira, 28 de março de 2022

refrega

 

às seis horas o kyrie eleison

conforme o pó subia

 

a princípio frágil; fragorosos

caminhavam na caatinga

 

– pés e rostos duros –

assomavam com pedras

 

a carpir rezas

com as mãos

 

(oswaldo martins)

quarta-feira, 9 de março de 2022

a cabeça de sandor marai

para marcello barcinski

 

a cabeça girava sobre o coturno

acusação de esfolha terra

ritmo e rictos em frenesi

 

dos zigomas manchas

gotejavam formas perpétuas

na consciência de seus algozes

 

os lábios que calados ainda voz

se ouvia pelo século vindouro

intimavam a moto-perpétuo

 

a vergonha a mesquinhez o logro

desta des republicana civilização –

estupidez estampada nos selos

 

com que cerram olhos zigomas lábios

dos corpos-corpo em praça pública

nos recônditos porões das tiranias

 

oswaldo martins

terça-feira, 1 de março de 2022

juan rulfo

 para martha e arturo rueda

 

em comala vieram os gigantes

de terra e morte

 

ide cobrar o nosso

 

vozes e silêncios súbitos

aludiam sob os pés das mulas

 

sobre a cova balas de cantaria

incrustaram-se no alto da torre

 

cujo fantasma descarnado a sânie

dos povos anunciara

 

na predicação da língua-espelho

do pó ao pó

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

mar

 

no crestado cravam unhas

escavam para o além-terra

o movimento das partilhas

 

creem e soltam a dor-voz

na taipa dos casebres-ur

a fundar perseguidas visões

 

águas até do mar-resposta

sobre o vago aqueduto-pó

pelo sertão do infinito fim

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Alessandra Martins lê um poema inedito do meu livro


 

ladainha do bom jesus

 

poema para muitos pés

 

pletora passos preclaros os pés

em clave de sol a pino

 

pisar pedras as escarpas

proteger o refluir do humor

 

crestado solar sobre o solo

rachado subir pelos rebordos

 

dos cravos espinhos cravar

calcanhares e artelhos parcos

 

pousar no plexo dos dedos

o perfurante das arestas

 

irregulares provas ao longo

corpo-serpente do morro

 

até as portas do paraíso

do nós que se revolta

 

(oswaldo martins)

 

Leitura coletiva de Manuel Bandeira


 

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

horyon lee

dançam no improvável

essas moças cujos pés

o movimento delineiam

 

enxergam ou fazem-se

enxergar as sombras

a sugerirem os néctares

 

da luz sem limites até

a devassa lente fixar

as saias no levadiço

 

das mãos a puxarem

os desejos da língua

tece o sexo impudente

terça-feira, 23 de novembro de 2021

uma lenda arrepiadora

 

olharam a sanhuda ave de césar

na árvore a baloiçar de lá pra cá

de cá pra lá até onde o vento

 

a roupa-traste de rasgada tiras

já não veste o moreirinha tirado

pelo medo de seus cabos

 

pela morte-fama do contestado

cabeças boiam no ainda boiar

desta farda incorpórea e rota

 

qual caxias à margem-história

joga ao revés de si os paraguaios

dos sertões que em kirie eleison

 

entoam glórias ao bom menino

no há-de vingá-los da morte

o manto-água da matéria-nada

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

totem

o rato ante o degrau da escada

a ultrapassar demandava-se

o repentino da quietude

 

os olhos miúdos interrogavam

os pés – belos agentes do caos

que no alto do eirado provocavam

 

os tabus ratilínicos a proverem

hipóteses para as virtuoses

destes vetustos roedores