terça-feira, 10 de janeiro de 2023

14 de Julho


 

Dois poemas inéditos

 

shoji

 

traspassa à sombra do silêncio

passos de soslaio furtam aedos

percorrem dedos

 

um dorso de gato faz do quarto

o inominável nada se desvelar

em lento segredo

 

os saquês cingem a inquietude

as sombras velam o incêndio

abre-se a passagem

 

o gato fita a pele seca viva

no ainda vazio transparente

do aposento


bola de gude

 

o ato vidra o atro

som da noite

 

os planos cantam

tonturas

 

se há abismos

veste os vazios

 

o estupor cego

dos que percebem

 

a denegação dos dias

 

(oswaldo martins)


terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Constitución

 me conmovió profundamente

un tema de eminem que reconocí

arañando el aire

desde un auto en movimiento


la memoria no es que sea complicada

nada más es altamente suscetible

a la estupidez

(Malén Denis - Isla de Metal)

rio

 

o sujeito e o objeto

ao móvel do olhar

 

cardumes

sempre mais além

 

para o antes

das incertas lentes

 

o ponto imóvel

do vazio

 

em sua surpresa

de licor

 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

incelença

estrugem as silenciosas crianças

as mãos cobrem-lhes as pernas

 

a remela nos olhos este muro

a opacidade dos piolhos escorre

 

marca a mandíbula a faca

o cruel rito perpassa os rostos

 

fede a urina misturada ao esgoto

pés a um passo do último refúgio

 

do inferno

sexta-feira, 17 de junho de 2022

até o último homem

para o cândido rolim


a caatinga afoga

abrevia o olhar

faz andas de tortura

em agonia os quem

da lenta metamorfose

tenaz e inflexível

confrontam

a terra

a secura dos ares

e o estrondar das armas