Oswaldo Martins. Poeta e professor de literatura. Autor dos livros desestudos, minimalhas do alheio, lucidez do oco, cosmologia do impreciso, língua nua com Elvira Vigna, lapa, manto, paixão e Antiodes, com Alexandre Faria. Editor da TextoTerritório
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Duas indicações em forma de pilulinha cinematográfica
1
Ilha no Milharal, o belo filme de George Ovashvili, é uma das maiores obras que assisti nos últimos anos. A narrativa concisa, o silêncio, que só é quebrado quando se torna absolutamente necessário, o aproximam do conceito do poético; as interpretações seguras constroem o lirismo impecável do filme; a pouca ação, a noção ética do trabalho, que traduz um mundo que vai a morrer, colocam-no num ponto extremo da arte cinematográfica.
2
Táxi Teerã, do cineasta iraquiano
Jafar Panahi, de quem assisti estupefato o belíssimo “isto não é um filme”, é
uma divertida e sábia viagem a Teerã, esta terra que fica entre a mística
desconhecida do mundo mais moderno entre os mundos árabes e a mítica ocidental
de um lugar de ferocidades inexplicáveis. Ao rodar pela cidade dentro do táxi
de Jafar, percebem-se os cheiros, as dicções das conversas e a dificuldade de
se viver em uma sociedade fechada, sujeita aos diversos tipos humanos. A
capacidade do diretor de fazer rir e meditar profundamente sobre o motivo – nem
sempre edificante – do riso é uma das qualidades fortes do filme. Quem for
assistir ao filme observe o vendedor de filmes proibidos, tipo impagável de
todos os lugares do mundo.
(oswaldo martins)
pilulinha 45
Submissão, o
livro de Michel Houllebecq, é um romance de um cinismo triste. Ao construir um
narrador em primeira pessoa, professor universitário, se permite analisar os
rumos a que chegaria a sociedade ocidental, europeia e francesa, em particular,
caso houvesse uma islamização deste mundo. A questão central não se coloca,
entretanto, numa simples rejeição de um padrão religioso, mas, sobretudo na
capacidade de adaptação do homem aos meios sociais a que são “obrigados” a
aderir.
A adesão se
torna tão ignóbil quanto cínica. Às minissaias e ao amor livre, pretenso e
ainda nos seus restolhos, substituem-se os véus, as saias compridas e a
poligamia masculina. Substituem as roupas que permitem ver as coxas, delinear
as bundas, altear os seios, por um mercado de roupas íntimas fadado a vestir as
esposas do neoconvertidos ao islã.
A reflexão de
Houllebecq expõe ainda a incapacidade de produção dos meios universitários,
voltados para questões que desligam o chamado intelectual, do mundo real, social
ou político. Tanto se pode verificar este afastamento quanto maior é o nível de
adesão e de submissão aos valores que, a partir de uma frente ampla encabeçada
pelo partido da Fraternidade Mulçumana e acompanhada pelos partidos
tradicionais do mundo político francês, par derrotar a iminente vitória de Lê
Pen, se tornam moeda de troca.
Destruidor, o
romance é obrigatório para os que se sentem perdidos ante a vertiginosa mudança
que o mundo contemporâneo tem sofrido.
(oswaldo
martins)
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Bordado de bandeiras e sacis dissonantes
Nos fim de tarde
livres de trabalho, gosto mesmo é de escurecer a sala de casa, colocar uma boa
música, uma dose generosa de uísque e me entregar ao espaço mágico que a
quietude permite. Uma mesma música pode ser ouvida, nestas condições, milhares
de vezes. Ouve-se o canto, a orquestração, a música, enfim. Num segundo
momento, ouve-se apenas, por exemplo, o violão; noutros, os instrumentos de
percussão. Se se ouvir uma dezena de vezes a mesma música as divisões ficam
inumeráveis. Uma delícia.
Hoje foi o dia
de ouvir, especificamente, duas músicas: uma música Moacyr Luz e Aldir Blanc.
Cachaça, árvore e bandeira. Homenagem ao grande e esquecido Carlos Cachaça.
Outra o saci de Guinga e Paulo César Pinheiro, na gravação primorosa de Guinga
e Francis Hime. Piano, violão e vozes estupendas.
A primeira me
leva para os tempos distantes de nós mesmos, cariocas ou adotados por essa
cidade – como é o meu caso – tempo em que era possível vestir o rosa da aurora
bordadeira! Se os sons trazem a sugestão de uma leve melancolia e a letra a
confirma, há, entretanto, um país imaginário que ainda está para se construir,
nas bases do que foi, mas que paradoxalmente houve apenas como anúncio do que
virá a ser.
A segunda me
leva também a tempos distantes, mais rurais, e traz uma estranheza muito
peculiar. Uma temática rural que rompe com sua própria base harmônica, quando
cria uma dissonância bastante acentuada e coloca este saci num entretempo que é
ao mesmo tempo pertinente ao passado e ao presente. As vozes de Guinga e
Francis Hime se casam, como se casam o violão de um e o piano de outro.
(oswaldo
martins)
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
flor
florir espécimes raros
se encanta aos olhos
o talhe do belo
melhor seria abrir-se
abismo de meia água
na casa a debruçar-se
sob o abismo da flor
inumada
(oswaldo martins)
Poesia espanhola 2
OVILLO
Como una cucaracha boca arriba, roza la voz las cosas,
tocándolas en vano.
Como madeja sucia de hilo negro, la voluntad baldía.
Soñar y deshacerse.
Y lejos el fantasma que condena. El látigo apagado.
Los naufragios.
(Ana Gorría)
BEMOL
Con los ojos clavados en el techo,
ignorar
por qué
pesan los párpados,
cuánto tiempo perdido
y cómo despertar de la parálisis.
(Ana Gorría)
Poesia espanhola
Expulsados del
paraíso
Era necesario explorar los límites para sobrevivir.
Nadie dijo que la noche cotidiana
no permitiera emboscados en su orilla.
En sus labios nunca se deshizo la escarcha
porque tenía la espesura de los arroyos extranjeros.
El tiempo respira en mis frases cortas,
todo pasa por mí sin armadura.
La lengua hundida en los batiscafos,
hundida sin argumento,
codiciosa de luciérnagas
y de cartografías interiores.
La lengua no saciada de otros ojos extraños
se desposa con el miedo para ascender,
se disfraza para salir de la ficción en otra parte.
Remotas islas nos reciben todavía,
guardan nuestros deseos residuales.
El día feliz se desvanece en todas direcciones.
Volvemos a comer las manzanas más amargas del paraíso.
Nuestro pecado es una predisposición genética.
(Amalia Iglesias)
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
fragmento
1
as espirais de fogo
como dardos vituperam
2
quem celebra poemas
planifica tempestades
no corpo
3
a língua do poema se reduz
ao arco mínimo das palavras
4
um corpo estranho baila entre
os entres que se dizem, e calca
5
corpo: o quem
dilema a frase
6
mais o espanto
do corpo de palavras
escrito à beira chão
7
todo abismo provém de ti
de resto, o imperativo do corpo
8
em teu umbigo a vírgula
é um comentário de acasos
9
no abdômen o traço mais escuro
abre em tinta branca quando sobe
até o sovaco
10
te enredo no pescoço
o poema afaga
entre terno e violento
o assalto do desejo
(oswaldo martins)
sábado, 2 de janeiro de 2016
Duas dicas de início de ano 2:
1ª - O clube – o belo e violento
filme sobre a pedofilia na igreja católica, é mais um filme sobre o humano
destruído e sem finalidade.
2º Chico – um artista brasileiro –
as belas canções e a história particular do músico e escritor, que é também a
história de cada um e de todos nós.
Duas dicas de início de ano
1ª Contos de Kolimá (volume 1) Varlam
Chalámov – o livro traz uma descrição crua e pesada dos campo de trabalho
forçados da Rússia stalinista.
2º K: relato de uma busca, de Bernardo
Kucinski – o livro relata a busca de uma das desaparecidas do regime militar
brasileiro, descrevendo os horrores e a crueldade vivenciados pela sociedade
brasileira.
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